Crônicas de um país sem sobrenome

Brasil do que?

A criança nasceu. E já faz um certo tempo. Claro, ainda não deixou de ser uma criança (mas adulta, certamente não é). Como qualquer pai orgulhoso da nova cria, trataram logo de chamar o pároco local e batizá-la. Sabe como é, é preciso registrar, dar um sobrenome, garantir a prole. E assim o mundo todo se abismou ao conhecê-la: prazer, a pequena Vera Cruz.

Fato é que a pequena Vera cresceu num lar de afeto. Jamais poderia, em algum momento de sua vida, reclamar do amor de seus pais: se presença na vida da criança era sinal de amor, Vera Cruz fora uma criança bem amada. Mimada até. Quem sabe? Quem julga?

Belo dia, no entanto, a pequena cresce. Aparece. Esbarra na tênue barreira entre ser criança e querer (sempre) mais, rebela-se contra os amados pais, pelos motivos que, sabe Deus quais, uma criança acha que tem para rebelar-se. Foge de casa, e sozinha, a partir de agora, decreta pra si e para quem quer que a escute no mundo: “morte ao meu nome”. O sobrenome era o problema: “Cruz” nunca combinou com seu espírito. E Vera, no ápice de seu processo de auto-conhecimento, de formação de sua identidade, sexualidade, afetividade, criatividade, achou um novo nome que mais bem lhe condiz. Artista sempre faz isso, não é? Algo único, forte, com a sonoridade dos adjetivos exóticos, quente como brasa que fere o pé descalço… Decreta-se, assim, a morte da pequena Vera, Vera Cruz (que de Cruz, achava, nada tinha), e o nascimento da “adolescente-rebelde-mimada-que-julga-ser-dona-de-asas-pra-voar”: prazer, Brasil.

Pois aconteceu que, aos poucos, a pequena Brasil, iniciada em sua vida autônoma cheia de trancos e conflitos com seus pais e com o mundo, achou um lugarzinho ao sol, destacou-se, mostrou sua cara, a que veio, existiu, gritou aos quatro ventos, chamou a atenção, fez berreiro, enfim, o mundo a viu, deu seu canto, chamou-a “referência”. Bem Brasil… Auge de sua adolescência, a ex-pequena, agora dona de seu próprio nariz, esbarra na mais básica, simples e crua das perguntas de quem, por algum motivo igualmente simples e inexplicável, deseja em sua essência manter contato com a pessoa próxima: “mas… é Brasil do que?”

Rubor. Suor frio. Definitivamente, pensa a pequena, seu primeiro sobrenome não condiz com sua natureza, ainda mais quando quer fazer amigos. Fato é que, na sociedade em que a menina vive, como na verdade o é em qualquer lugar no mundo, é importante ter linhagem, história, passado, estirpe, e tudo isso é contado pelo sobrenome. E a recém-nascida Brasil não tem. Qual seria, portanto, um sobrenome adequado pra pequena rebelde de nossa história? Como responder, friamente, com a certeza de um amanhecer que precede nova noite, tal importante questionamento feito a esta criança que, acabara de perceber, ainda era uma criança em si?

Brasil pensou. Refletiu. Chamou especialistas, cientistas, padres. Políticos. Xamãs, cartomantes, benzedeiras, rabinos, numerólogos, bispos, mães de santo, pastores. Leu a previsão do seu signo. Bem Brasil… Nada.

Pensou na imagem que quer passar ao mundo. Naquilo que, como deseja toda menina recém descoberta como alguém de sexualidade pulsante, deseja que os outros lhe reparem. Cogitou chamar-se, “Brasil Marinho”. “Brasil Civita”, talvez. Não. São coisas que é melhor manter como estão, não é? Qual o motivo que leve a menina a revelar o segredo de seu charme e da sua imagem? Voltou atrás.

Lembrou-se das coisas que a divertem, que a distraem, que a fazem sorrir em desespero, e que, em muitos casos, deixam a menina de cabeça avoada esquecer até mesmo de quem é, só pra sentir-se bem, nem que seja por alguns instantes. “Brasil Arantes do Nascimento”, “Brasil Senna da Silva”. “Brasil Nazário” talvez, eureka! Bem Brasil… Pensou melhor. Achou que ninguém a levaria a sério. E talvez não a levassem mesmo. Sabiamente, mudou de idéia.

Difícil. Pensou, talvez, naquilo que tocava seu “eu-interior”. Sua paz, seu espírito. Decidiu. Soava feio, mas lhe era acalento: “Brasil Bento XVI”. Ok, menos: “Brasil Evaristo Arns”. Algo mais Brasil, ela mesma, e menos coisa de seus pais, talvez: “Brasil Cândido Xavier”, ou “Brasil de Ogum”… achou-se completamente contraditória, e como qualquer menina de sua idade, na flor de sua rebeldia sem causa aparente, gritou um belo “ninguém tem nada a ver com isso”, engoliu o assunto e mudou de idéia. Novamente. Bem Brasil…

Pensou em seus padrinhos. Tantos… Fitou os mais modernos. “Brasil da Silva” seria bacana, não? Talvez, pouco pomposo. Que tal a versão mais sofisticada e menos calango-frito, “Brasil Roussef”? Aí já é demais… Ora, se tinha vergonha de seus pais, teria também daqueles que, tão orgulhosamente, construiram a personalidade que Brasil tem hoje em dia? Papel e caneta na mão, anotou: “Brasil Magalhães”. “Brasil Sarney”. Pensou em abandonar a idéia. “Brasil Maluf”, torceu os lábios em repúdio. Ao menos ninguém diria não ser pomposo…

E se esta menina de tão pujante personalidade, agora tão cansada de pensar em algo que lhe responda, resolvesse logo parar de esconder seus segredinhos sujos e escancarasse o que de mais pútrido tem em sua mentalidade tão fértil? “Brasil da Penha”, “Brasil Zumbi”, por que não? “Brasil Beira-Mar” é um belo nome, convenhamos. Remete ao ouvinte a bucólica paisagem paradisíaca das ondas de um cartão postal. Bem Brasil… Bom senso, menina, bom senso.

A qual conclusão chegou a confusa cabecinha da pobre menina? Ninguém sabe. Buscar a sua identidade, menina órfã por opção que julga ser dona de si mesma, a fez entender que, na verdade, não há sobrenome que lhe encaixe em definitivo, que seja lindo, sonoro, e que ao mesmo tempo diga algo de si. Artista sempre faz isso, verdade, mas Brasil encara o fato de não ser, ainda, artista. Coitada… Ironicamente, ao que parece, enquanto procura um nome próprio que talvez nunca seja encontrado, a julgar por aqueles cujo nome da criança representa, sobra-lhe como cada vez mais cheio de significado seu nome de batismo. Principalmente, o sobrenome que ela mais odeia. Bem Brasil…

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Comentários em: "Brasil do que?" (1)

  1. Thiago Pimenta disse:

    Um brinde à Brasil com uma doce caipirinha. E que ela possa encontrar seu nome um dia e retirar das costas de seus filhos o sobrenome que rejeitou para que, quem sabe assim, um dia eles possam também parar de se perguntar: “Brasil por quê?”

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