Crônicas de um país sem sobrenome

There´s something wrong in Rio de Janeiro, the city of 2016 Olympic Games. Eis a notícia internacional mais comentada, atualmente, nos maiores jornais do mundo, desde o New York Times, até o Clarín de Madrid. Well, que algo está errado no Rio de Janeiro, sem dúvidas a mais bela das grandes cidades brasileiras, não é novidade pra nenhum brasileiro, ou pra nenhum cidadão mundial que tenha visto Tropa de Elite ou Cidade de Deus, mas o que está de fato errado no Rio de Janeiro, desta vez, é algo bem diferente.

Semana passada, o Rio entrou em guerra. Novamente. Jornais do Brasil todo, em papel, led ou pixel, mostraram incessantemente tiroteios na Vila Cruzeiro, traficantes contra os fardados do BOPE, seguidas de fuga em massa de pessoas (disseram: aproximadamente 150 traficantes) para o Complexo do Alemão, e seguidas, aí sim de forma até mesmo inconveniente, dos detalhes operacionais da “ação pacificadora”, com detalhes dos carros emprestados pela Marinha que fariam qualquer aficcionado por armas bélicas ter orgasmos múltiplos.

A bola da vez, logo em seguida, foi o Complexo do Alemão, onde, após tiroteios e muita tensão (notada nos rostos dos repórteres locais, escondidos até o pescoço em coletes blindados personalizados), hastearam uma bandeira nacional no topo do morro. Disseram: repatriamos a favela. We won, Rio is at peace. E o estrangeiro que vê de fora ficou maravilhado.

Mostraram a estrutura do tráfico, becos obscuros, de degraus desbeiçados e irregulares, bloqueando tolenadas e toneladas de maconha, cocaína, crack, em ambientes bem iluminados e devidamente refrigerados. Mostraram a casa do traficante, enfatizando incessantemente o luxo da banheira e da piscina, no meio da simplicidade da favela. Mostraram as tatuagens dos detidos, com alusões claras ao tráfico e ao consumo de drogas. E o estrangeiro que vê de fora ficou revoltado.

Seguiram-se entrevistas. No local dos tiroteios, em centrais do BOPE e da Marinha, no estúdio dos telejornais: “tomamos de volta uma área dominada pelo tráfico”, “os moradores podem ficar tranquilos”, “realizaremos agora a operação pente fino”, “cada casa e viela é uma possível ameaça aos policiais”, “os moradores devem se esgueirar nos cantos para não serem pegos de assalto”, “quem se opor à operação, não liberando a revista minuciosa de sua residência, será indiciado como contribuinte bla bla bla…” E o que se mostra, agora, é o que restou dos becos, ainda em chamas, da antiga Vila Cruzeiro, hoje cenário de guerra, que não faria Michael Moore algum botar defeito.

Começa, a partir daí, a ser mostrado o que, de fato, está errado no Rio de Janeiro. A favela, que indescutivelmente é o antro da ação do tráfico, é antes de mais nada algo bem diferente do que se mostra na TV: morada de uma massa trabalhadora, que convive agora, além da pobreza e do pouco espaço para criar seus filhos, com balas a esmo partidas, inicialmente, dos gatilhos de quem deveria proteger a segurança e a paz destes: a polícia. E se os jornais noticiam que os locais convivem com tiros desde antes da chegada da polícia, que “tomou de volta este pedaço do Brasil”, isso não dá direito algum para que os órgãos públicos, que se apresentam agora na farda após anos de ausência na estrutura básica social, cometam o mesmo atentado para com a paz da população local.

Não há possibilidade de tranquilidade com a ameaça constante de sua casa invadida pelo pente fino da polícia, justificada incessantemente na mídia e pintada como ação de heroísmo e civilidade. Não há justificativa que seja satisfatória para ações de truculência contra pessoas honestas, sim, a grande maioria dos moradores da favela. E a bandeira nacional, hasteada no alto do morro às custas do sossego cravejado de balas dos moradores locais, deveria mesmo ter sido hasteada muito antes, no telhado do posto de saúde (que nunca existiu), da escola (que nunca existiu), dos centros sociais (que nunca existiram).

Não, não se trata de defender o tráfico. Longe disso. Trata-se de garantir, de fato, a paz aos moradores locais, exatamente o que os coronéis e capitães da TV tanto dizem nos noticiários. E se a idéia era, de fato, acabar com o tráfico, fica a dica: procurem lá embaixo, nas orlas. Os verdadeiros financiadores das ações ilegais que acontecem nos morros estão lá, no meio da areia da praia, com as clases média e alta, e com os mesmos estrangeiros que acompanham e aplaudem este circo montado nos morros da Zona Norte. E deixem os moradores dos morros, away from 2016 Olympic Games, definitivamente em paz.

Atualização de 23/12: Agradecimentos ao queridíssimo Zig, ou Ziig (não sei quantos Is tem aí no meio), dono deste outro belo espaço, pelas dicas necessárias nos trechos “in english”. Thanks my dear, you´re always welcome here!! Lov ya!!

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