Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para dezembro, 2010

Não é brinquedo não

Daí chega o natal e, na única vez do ano em que o calendário cristão praticamente intima o cidadão comum a “ser caridoso”, passa sobre o brasileiro uma onda de pseudo-generosidade que, assim como chega do nada, também se vai na ressaca do ano novo. Dia 2 todo mundo trabalha, guarda a árvore e a fantasia fedorenta do Papai Noel e desenfurna a caixa empoeirada dos enfeites só no próximo ano.

Sem questionar a credulidade da tal figura natalina do velhinho de vermelho que incentiva o consumo extasiado de final de ano, justamente no país mais católico do mundo (outro assunto, outro post. Quem sabe…), chama a atenção a campanha dos Correios brasileiros no final do ano: o “Papai Noel dos Correios”, que incentiva cada participante a adotar uma carta ao Papai Noel, e realizar o sonho da criança que a escreveu. Diz o site“A disseminação, em todo país, de valores natalinos como amor ao próximo, solidariedade e felicidade é o principal benefício conquistado graças à vontade dos mais de 108 mil empregados e à solidariedade da sociedade brasileira”.

Independente da pretensão da campanha (que de forma alguma será denegrida neste ensaio, ao contrário, deve ter sua nobreza sempre ressaltada) imagine uma carta de uma criança tipicamente brasileira ao bom velhinho, sabidamente exagerada, sem no entanto deixar de ser deveras realista. Erros de português certamente existentes, no entanto devidamente descontados.

“Magé, 16 de dezembro de 2010

♥ Querido Papai Noel 

Tudo bem com o senhor? Aqui é o Thiago de Magé, acho que o senhor deve lembrar de mim do natal passado. Estou um pouquinho mais velho que no natal do outro ano, fiz 10 anos em maio, mas mesmo assim acho que o senhor se lembra de mim.

Minha mãe disse pra escrever pro senhor, pensando no que eu acho que mereço que o senhor me dê de presente de natal. O senhor ganha bem? Imagino que sim, dá o que fazer pra meu pai me dar um carrinho no final do ano, o senhor então, deve gastar muito, né?

Vou ser camarada com o senhor então, tá? Não precisa me dar presente nenhum não, deixa pra quem merece mais que eu. Papai Noel, eu não fui um bom menino nesse ano, daí eu não mereço brinquedo. Eu xinguei a professora de tudo que é nome quando ela me xingou por entrar mais uma vez na fila da merenda e perder o sinal de entrada. Eu desobedeci minha mãe quando ela disse pra eu trazer um trocado no final do dia, gastei tudo que é moeda que ganhei no sinal no fliperama da esquina. Enfim Papai Noel, fico agradecido se o senhor se lembrar de mim, mas nem fico chateado se não aparecer brinquedo nenhum na minha cama. Deixa quieto.

Na verdade, se o senhor também atender pedido pros outros, prefiro pedir pra minha família mesmo, que rala bem mais que eu pra trazer uns trocos pra casa. Pode? Lá vai.

Primeiro, queria pedir que o senhor ajudasse meu irmão antes de mim. Ele tá andando com uns meninos estranhos na rua, passa uns dias sem aparecer em casa. Acho que ele está fumando pedra. Ajuda ele a parar com essas coisas, mamãe disse que isso não presta.

Ajuda minha mãe a conseguir um emprego também, ela anda cansada de cuidar de mim todo dia, inventando coisa pra eu comer todo dia. E pede desculpa pra ela dos trocados que eu gastei e não entreguei pra ela, tá?

Ajuda meu pai a parar de beber também. Eu nem converso tanto com ele porque tenho medo, quase sempre ele me bate, mas eu sei que é porque ele está bêbado. Daí ele bate na minha mãe também, e eu sei lá pra onde vai depois da briga. Ele é um bom pai, apesar de tudo. Eu amo ele.

Pra mim, no final, se eu ainda mereço, nem precisa nada não, só me ajuda a ter um futuro diferente do que meu irmão está tendo, tá? É suficiente. Dai eu prometo que no ano que vém vou ser um menino mais obediente, pedir desculpas pra minha mãe e pra professora e estudar mais.

Obrigado Papai Noel, e bom trabalho de final de ano pro senhor! Um beijo! 

Thiago”.

Chupa essa manga Papai Noel!!

Feliz Natal Brasil!

PS: ainda dá tempo, vá amanhã mesmo à uma agência dos Correios e adote uma carta de uma criança ao Papai Noel, é um belo gesto de generosidade sazonal. Apesar de tudo, incentivo, obviamente.

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O tapete de Niemeyer

Oscar Niemeyer, 103 anos

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

(Oscar Niemeyer)

15 de dezembro marca, no ano de 2010, o centésimo terceiro aniversário de Oscar Niemeyer, um dos mais geniais arquitetos que o Brasil e o mundo já conheceram, criador dos mais variados cartões postais brasileiros, como o Memorial da América Latina, o Mirante de São Vicente, a Igreja da Pampulha, além, claro, de toda a cidade de Brasília, ou o que se tornou, atualmente, sua parte mais nobre em forma de avião. Mais que tudo, no entanto, este simpático senhor de criatividade ímpar e ideais socialistas ainda não abandonados marca, para o Brasil, algo que nem ele mesmo imaginava.

A obra de Oscar Niemeyer se mostra como das mais imponentes coleções de desbundes arquitetônicos, não somente no Brasil mas também no mundo. Suas linhas curvas e naturais, inspiradas na natureza e suas formas perfeitas e pouco ortodoxas, são referência de um período na história da arquitetura em que muitos sucessores tornaram-se, via de regra, copiadores de seu estilo. Mas o que, afinal, a obra de Niemeyer significa para o Brasil?

Memorial da América Latina, São Paulo/SP

Niemeyer, antes de tudo, é um símbolo do Brasil, a marca de um ideal de modernidade e perseverança, de suntuosidade de um país em que, durante suas mais marcantes obras, procurava uma identidade, um sobrenome, um espírito de grandeza que, de fato, estava deveras distante deste país naquele momento. O país de meados do século XX, mostrado incessantemente aos olhos do mundo pelas obras do arquiteto, era antes de tudo o país da corrupção, da desigualdade social, da ditadura militar, da opressão à liberdade de expressão.  O planeta via Niemeyer, o Brasil via sangue e miséria.

Museu Oscar Niemeyer, Curitiba/PR

E o que mudou hoje? Além do fato de o senhor Oscar estar já bastante velho e debilitado, especialmente depois de tantas lutas para manter-se vivo, não se pode dizer que muito mudou no Brasil do século XXI. Niemeyer é, e sempre será, referência, ícone de cartões postais mundialmente conhecidos, que aliam em si a beleza da natureza exuberante deste país com os traços suaves e a geniosidade da arquitetura nacional. A pobreza, a miséria, a desigualdade, desde sempre encoberta no Brasil com um discurso de grandeza e com imagens de exuberância ímpar, continuam camufladas aos olhos do mundo, atentos à obra deste ilustre senhor.

“Não me sinto importante. Arquitetura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral”.

(Oscar Niemeyer)

Teatro popular, Niterói/RJ

Niemeyer é, antes de tudo, símbolo máximo de uma das maiores mazelas sociais brasileiras: o fato de estas serem sempre camufladas por discursos, imagens, sorrisos, belezas, obras. E o fato de comemorarmos com tanto afinco mais um aniversário deste centenário senhor, mostra que, sim, nos acostumamos com isso, com um senso de normalidade que, definitivamente, não combinam com a beleza das maravilhosas obras do eterno mestre das formas.

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