Crônicas de um país sem sobrenome

O tapete de Niemeyer

Oscar Niemeyer, 103 anos

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

(Oscar Niemeyer)

15 de dezembro marca, no ano de 2010, o centésimo terceiro aniversário de Oscar Niemeyer, um dos mais geniais arquitetos que o Brasil e o mundo já conheceram, criador dos mais variados cartões postais brasileiros, como o Memorial da América Latina, o Mirante de São Vicente, a Igreja da Pampulha, além, claro, de toda a cidade de Brasília, ou o que se tornou, atualmente, sua parte mais nobre em forma de avião. Mais que tudo, no entanto, este simpático senhor de criatividade ímpar e ideais socialistas ainda não abandonados marca, para o Brasil, algo que nem ele mesmo imaginava.

A obra de Oscar Niemeyer se mostra como das mais imponentes coleções de desbundes arquitetônicos, não somente no Brasil mas também no mundo. Suas linhas curvas e naturais, inspiradas na natureza e suas formas perfeitas e pouco ortodoxas, são referência de um período na história da arquitetura em que muitos sucessores tornaram-se, via de regra, copiadores de seu estilo. Mas o que, afinal, a obra de Niemeyer significa para o Brasil?

Memorial da América Latina, São Paulo/SP

Niemeyer, antes de tudo, é um símbolo do Brasil, a marca de um ideal de modernidade e perseverança, de suntuosidade de um país em que, durante suas mais marcantes obras, procurava uma identidade, um sobrenome, um espírito de grandeza que, de fato, estava deveras distante deste país naquele momento. O país de meados do século XX, mostrado incessantemente aos olhos do mundo pelas obras do arquiteto, era antes de tudo o país da corrupção, da desigualdade social, da ditadura militar, da opressão à liberdade de expressão.  O planeta via Niemeyer, o Brasil via sangue e miséria.

Museu Oscar Niemeyer, Curitiba/PR

E o que mudou hoje? Além do fato de o senhor Oscar estar já bastante velho e debilitado, especialmente depois de tantas lutas para manter-se vivo, não se pode dizer que muito mudou no Brasil do século XXI. Niemeyer é, e sempre será, referência, ícone de cartões postais mundialmente conhecidos, que aliam em si a beleza da natureza exuberante deste país com os traços suaves e a geniosidade da arquitetura nacional. A pobreza, a miséria, a desigualdade, desde sempre encoberta no Brasil com um discurso de grandeza e com imagens de exuberância ímpar, continuam camufladas aos olhos do mundo, atentos à obra deste ilustre senhor.

“Não me sinto importante. Arquitetura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral”.

(Oscar Niemeyer)

Teatro popular, Niterói/RJ

Niemeyer é, antes de tudo, símbolo máximo de uma das maiores mazelas sociais brasileiras: o fato de estas serem sempre camufladas por discursos, imagens, sorrisos, belezas, obras. E o fato de comemorarmos com tanto afinco mais um aniversário deste centenário senhor, mostra que, sim, nos acostumamos com isso, com um senso de normalidade que, definitivamente, não combinam com a beleza das maravilhosas obras do eterno mestre das formas.

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