Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para janeiro, 2011

O show tem que continuar

Um show de câmeras. Takes ao vivo e a cores, tudo high definition full screen closed caption, trazendo a você, caro telespectador, as mais variadas emoções. Vivencie as situações mais inusitadas e surreais jamais imaginadas por um ser humano. E tudo isso no conforto de sua casa!

Engana-se o leitor que ainda imagina estar este texto tratando do Big Brother Brasil. Na verdade, é outro reality show, bem mais reality: o Big Brother Barranco, mais Brasil que o outro, e tão certo como o programa global no começo do ano, e na mesma época, quem sabe, brigando pela atenção do dono do controle remoto.

Takes ao vivo. Tudo em tempo real. Se na “casa mais vigiada do Brasil” você tem o direito de ver os conflitos e o sofrimento de seu brother preferido, no outro BBB a coisa é mais ou menos idêntica. Alô piloto do helicóptero da Band, tem uma casa (claro, bem mais modesta), sendo levada pela enxurrada em Mauá! Corre e faz o take, precisamos de IBOPE! Voe agora pro Rio de Janeiro, Nova Friburgo tá BOM-BAN-DO!! E o acomodado telespectador recebe as imagens da desgraça alheia no zapear de sua TV. Igualzinho ao BBB. Assim como no programa global a idéia é emocionar, chocar, constranger o brasileiro, por que não dizer o mesmo dos hábeis camera-men voadores? E se a intenção é mostrar, da forma mais crua e realista possível, a maior exposição de corpos da televisão brasileira, difícil dizer qual das duas atrações tem mais sucesso na empreitada…

O que você prefere na sua telinha?

Digamos, então, que ao longo da edição anual do programa, a idéia é fazer o telespectador procurar vilões para os conflitos ocorridos pelos envolvidos na situação: o Big Brother Barranco tira a função de letra, mais eficiente que seu semelhante global. E aí, brasileiro, de quem é a culpa por tudo o que acontece diante das câmeras? Chamem os Pedros Bials (Biais?) disfarçados de Datenas e botem toda a culpa no governo, que se comportou como o maior dos cúmplices dos últimos ocorridos, assim como vários brotheres da tal “casa”. Se preferir, mande sua mensagem (por SMS, custo de uma ligação local) para o apresentador, vai que você dá a grande sorte de seu nome aparecer no rodapé do programa…

Melhor: eleja, como a “bad-girl”, da casa ela: a natureza. É o aquecimento global (música de terror)… São Pedro, talvez. Coitado, se os santos tem orelhas, essa daí está pegando fogo!! Pois assim como uma mão invisível que age no comportamento dos que se expõem diante das câmeras no BBB, eis aí o maior FDP da situação. Prejudica os outros brothers sem dó nem piedade. Quem aí se lembra do Psicólogo Marcelo, ou o(s) cowboy(s) que já entraram no Projac? Então…

Vote! Faça você também o roteiro do seu programa de todas as noites! Se quiser ajudar, procure um posto de doação, e claro, denuncie aquele que você considera o culpado pelos males do reality show mais importante do Brasil. Oh, verdade, você gosta da confusão. Deixou o carrasco (governo) tomar conta da situação, não eliminou o “bad brother” quando teve sua chance. Só não diga que, desta vez, você não o fez por gostar de “ver o circo pegar fogo”. Desta vez, não teve graça.

Remedie, então, a situação: você pode!! Faça a sua doação para os desabrigados e esfomeados no posto de arrecadação mais próximo. Ou, se preferir, faça a sua parte de qualquer jeito, procure bem nas esquinas de seu bairro, algum desabrigado e esfomeado, certamente você irá encontrar. Ó a palavra do momento: SO-LI-DA-RIE-DA-DE, a gente vê por aqui!! Vai Fantástico, chame os psicólogos do caos…

E pra finalizar, faça a sua parte para que este reality-reality show tenha um final decente, com o vencedor que, de fato, merece: a população. Pois, por enquanto, todos sabemos quem está sendo rapidamente eliminado…

Salvem, Salvem!

Façam suas apostas… comecem a torcer… comprem as brigas e tomem partido de uma causa alheia (alheia até aos protagonistas da cena)… divitam-se… espiem… salvem salvem o Brasil. O show começou, não há como voltar atrás.

Dezessete pessoas confinadas numa casa com milhões de câmeras captando suas melhores performances em HD formam, pela décima primeira vez, a fórmula mais eficaz e consistente de unir a família diante de um televisor pra ver a vida passar, distrubuir um prêmio milionário a um desconhecido e ainda trazer investimentos para a emissora. Não podemos negar, é uma façanha incrível!

A capacidade de selecionar estereótipos para participar da dita casa mais vigiada do Brasil é realmente impressionante, pessoas (não tão) anônimas mobilizando opiniões, gerando discussões acaloradas e análises psicológicas tão profundas quanto um pires.

Essas saudáveis práticas promovidas pelos fervorosos fiéis, digo, espectadores, são um anestésico para questões com uma relevância social e política de maior intensidade. Se não fosse isso talvez o Jornal Nacional com sua cobertura ampla e aprofundada sobre os novos desafios do governo Dilma, ou mesmo sobre as catástrofes causadas pelas chuvas dos últimos todos os dias do ano seria veículado após o reality show (reflexão: culpar a chuva e o descaso político é uma forma de absolver a população de seu próprio descaso?)

Ironicamente eu agradeço a medicação com dezessete princípios ativos que aliviam as tensões sociais, mesmo que causando alguns efeitos colaterais isolados, como mente perturbada e ataques de nervos ante a eliminação de um componente por semana. Mas eu tenho uma ressalva: só assisto o BBB em 2012 se for estilo jogo  WAR. Assim meu fim do mundo ficaria mais feliz.

Inesquecível “exterior”

É verão. Brasileiro ama o verão. Nasceu no clima tropical, de sol escaldante e desfile de bundas, em fios dentais cada vez menores. A praia é seu reduto, paraíso, seu lar. E é férias! Do aumento do poder aquisitivo do brasileiro, lá vem a vontade: um “passeio”. Um momento: o dólar está só “um e sessenta e uns quebrado”, hmm… vamos “pro exterior”!!

Destino? Depende: o único quesito básico é ser chic. Se o que interessa é vida urbana e seus agitos noturnos, destino certo: NY ou alguma mega metrópole européia. Se é cultura, é o tour de museus europeus. Tem que ter o Louvre (“Lou-vre, Lo-u-vre, Lú-vre, Lú-vrrr…“), lá está a Monalisa. Belezas naturais? Bariloche é logo ali: tem neve, amigo. Neve! É só fazer as malas, comprar um belo “pacote CVC de doze suaves prestações com café da manhã incluso e hotel três estrelas”, testar a CyberShot (sem bombardeio de fotos pra todas – repito: TODAS – as visitas, qual a graça?), dar um tapa em algum intensivo de inglês do CCAA (“que é pra não passar aperto”), entrar no avião (“deve ter whisky, eu vi no cinema”) e ser, finalmente, feliz.

Uma semana depois, o retorno. De duas, uma: ou é a “experiência de toda a minha vida”, ou “ó, eu esperava mais, viu?” A Monalisa é pequenininha e só dá pra ver de longe, a guia turística não falava português (“devia ter feito o intensivo…”), a balada só tocava “música esquisita” (“cadê Rihanna, Lady Gaga, a Bi-ÔUN-ce, e todos os “putz-putz” de sempre?”), e tudo estava frio. MUITO frio. A melhor parte do dia, afinal, era voltar ao “hotel três estrelas” (“tinha ar condicionado que soprava frio e quente!!”).

Essa vai pro orkut

Mas… o que dizer às visitas? Segue o mesmo bombardeio de fotos, todas na frente de algum monumento ou quadro (e com uma camisa 9 da seleção a mostra na abertura do casaco), com o mesmo sorriso pastel estilo “que ninguém note minha boca roxa”. Depois disso, vai pro orkut, fazer mais um pouco de inveja, enquanto se mata pra pagar o pacote CVC em doze suaves prestações. E os relatos de bar, esses a gente recheia com nomes de avenidas e monumentos, sempre com o sotaque da pronúncia correta das coisas “que eu aprendi no exterior”. É chic, benhê!!

E pro ano que vém? Ah, daí a gente vai conhecer um pouco do Brasil mesmo, alguma praia do Nordeste: “é bom variar um pouquinho, que é pra agradar as criança, né?” Certo…

Magoei

 

Você não vai com a minha cara?

OK, OK, você não votou na Dilma. Você queria que o Serra estivesse subindo a rampa do planalto naquela chuva de ontem em Brasília. Você não está contente. Pode até ter suas razões pessoais para isso, querido leitor. Quem não fica chateado quando não vê o que desejava acontecer?

Para ti, eleitor da oposição, cabe uma pequena pergunta. Quantos Brasis existem? Não, não no sentido figurado, metafórico, mas no literal mesmo. Quantos Brasis existem? Apenas um. E para UM país, existe UM governo. Que, neste momento e até 2014 (se o mundo não acabar no ano que vém), está sob tutela da Presidente (Presidenta? Chama o Pasquale!!) Dilma Roussef.

Esta não é uma reflexão que se fixará, novamente, novamente, novamente, nos constantes argumentos que, via de regra, todos já escutaram (e não engoliram) em algum lugar: “é a primeira vez que uma mulher presidirá a nação”, “é a delicadeza feminina que virá para tratar a todos como filhos”. Tampouco, é propaganda eleitoral de um tipo de governo que sucede a si mesmo, iniciado pelo hoje ressentido Luiz Inácio Lula da Silva e seus constantes e rancorosos disparates: “um governante do povo”, “operário”, “sem instrução”, “que sofreu constantemente com o preconceito daqueles que…” Sim, amigo, você já viu este filme. Não precisa que, aqui neste ainda modesto blog, te dêem um repeteco, mais do mesmo, enfim.

Esta, na verdade, é uma reflexão que vem pedir a todos, eleitores ou não de Dilma (ou, se preferir, membro “da massa” ou “da elite”, como incessantemente disparado meses atrás), que torçam para que esta mulher, a primeira mulher no governo de nossa nação, que vem dar continuidade ao projeto do PT de oito anos atrás, realize um bom mandato, e que de fato, o juramento realizado ontem no Senado Federal (alguém aí prestou atenção? Ou todos os olhos estavam mesmo na Marcela Temer?), que promete lutar para e pela evolução positiva de nossa sociedade, seja cumprido à risca nestes próximos quatro anos de governo.

OK, leitor, você não votou na Dilma. Já sabemos disso. Isso não impede, no entanto que ela te represente. Você ainda é Brasil, ainda faz parte da sociedade que, até 2014, estará sob tutela desta senhora. Portanto, caro amigo, por favor, deixe os ranços de um voto vencido para os que já estão lá dentro do Senado. Na verdade, é melhor torcer para que nem isso aconteça, pro Brasil deixar finalmente que as visões políticas não mais prevaleçam sobre o bem comum e poder avançar, pelas propostas julgadas por seu conteúdo, não pelo partido de quem as elaborou.

Feliz 2011 Brasil!! E, por que não, desde já um feliz 2012 e, se o mundo ainda existir, 2013 e 2014 também!!

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