Crônicas de um país sem sobrenome

Inesquecível “exterior”

É verão. Brasileiro ama o verão. Nasceu no clima tropical, de sol escaldante e desfile de bundas, em fios dentais cada vez menores. A praia é seu reduto, paraíso, seu lar. E é férias! Do aumento do poder aquisitivo do brasileiro, lá vem a vontade: um “passeio”. Um momento: o dólar está só “um e sessenta e uns quebrado”, hmm… vamos “pro exterior”!!

Destino? Depende: o único quesito básico é ser chic. Se o que interessa é vida urbana e seus agitos noturnos, destino certo: NY ou alguma mega metrópole européia. Se é cultura, é o tour de museus europeus. Tem que ter o Louvre (“Lou-vre, Lo-u-vre, Lú-vre, Lú-vrrr…“), lá está a Monalisa. Belezas naturais? Bariloche é logo ali: tem neve, amigo. Neve! É só fazer as malas, comprar um belo “pacote CVC de doze suaves prestações com café da manhã incluso e hotel três estrelas”, testar a CyberShot (sem bombardeio de fotos pra todas – repito: TODAS – as visitas, qual a graça?), dar um tapa em algum intensivo de inglês do CCAA (“que é pra não passar aperto”), entrar no avião (“deve ter whisky, eu vi no cinema”) e ser, finalmente, feliz.

Uma semana depois, o retorno. De duas, uma: ou é a “experiência de toda a minha vida”, ou “ó, eu esperava mais, viu?” A Monalisa é pequenininha e só dá pra ver de longe, a guia turística não falava português (“devia ter feito o intensivo…”), a balada só tocava “música esquisita” (“cadê Rihanna, Lady Gaga, a Bi-ÔUN-ce, e todos os “putz-putz” de sempre?”), e tudo estava frio. MUITO frio. A melhor parte do dia, afinal, era voltar ao “hotel três estrelas” (“tinha ar condicionado que soprava frio e quente!!”).

Essa vai pro orkut

Mas… o que dizer às visitas? Segue o mesmo bombardeio de fotos, todas na frente de algum monumento ou quadro (e com uma camisa 9 da seleção a mostra na abertura do casaco), com o mesmo sorriso pastel estilo “que ninguém note minha boca roxa”. Depois disso, vai pro orkut, fazer mais um pouco de inveja, enquanto se mata pra pagar o pacote CVC em doze suaves prestações. E os relatos de bar, esses a gente recheia com nomes de avenidas e monumentos, sempre com o sotaque da pronúncia correta das coisas “que eu aprendi no exterior”. É chic, benhê!!

E pro ano que vém? Ah, daí a gente vai conhecer um pouco do Brasil mesmo, alguma praia do Nordeste: “é bom variar um pouquinho, que é pra agradar as criança, né?” Certo…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: