Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para fevereiro, 2011

Os Intocáveis

Sei que a notícia não é recente, e também não foi uma grande novidade ou surpresa quando veiculada, mas causou grande polêmica entre as diversas camadas da sociedade brasileira, mesmo aos alheios ao funcionamento do Estado, do governo e da própria política. Ouso afirmar que esses alheios dedicaram seus votos ao protesto (ou à identificação com seus artistas) no início de outubro do ano passado.

Com os artistas representando o povo na Câmara dos Deputados (mesmo sem grandes poderes, mas gozando de todos os benefícios e privilégios de um parlamentar) e ter uma mulher na posse do cargo mais importante do poder executivo, fato que foi diversas vezes mais enfatizado do que o próprio posicionamento político e administrativo da governante, os corações da população ficaram inebriados pela ideia de alternância do legislativo, cravejado de escândalos e denúncias administrativas durante os últimos anos, e continuidade do executivo, um governo eloquente e carismático, marcado por um presidente falastrão e muitas vezes falacioso em seus discursos acalorados.

Entretanto a dupla ilusão durou pouco tempo. Dilma tem se mostrado um tanto diferente de seu antecessor, como foi dito em algumas crônicas políticas “trocamos o barulho de Lula pelo silêncio de Dilma.” Ainda é muito cedo para fazer especulações, mas acredito que as diferenças poderão ir além da dicotomia barulho-silêncio, penso que será uma gestão mais cautelosa acerca da economia e das relações internacionais, enfim, um assunto que poderá ser tratado melhor em outra hora. A segunda desilusão, obviamente, foi em relação ao poder legislativo. Nem mesmo os artistas foram capazes de alterar um poder corrompido e degradado (oh, jura?).

O alto-escalão da Câmara e do Senado continua nas mesmas mãos, os verdadeiros poderosos não foram alterados. Pelos próximos dois anos Marco Maia, empossado após a renúncia de Michel Temer para concorrer à vice presidência, continua presidindo a Câmara Federal. No Senado Federal a situação mexeu com os brios da população, que correu pra internet pra xingar muito no twitter, até virar trending topic (resolveu muito, não?). Sinal  de descaso com a opinião pública, José Sarney assumiu, pela quarta vez, sua presidência. Caros leitores, o poder permanece sob os bigodes e sob as trêmulas mãos de um quase-despótico absoluto.

Contudo, essa continuidade já era prevista, visto que a base governista é maioria no Congresso Nacional. Seja por maior mobilidade política ou em defesa dos interesses próprios, nós é que sofremos as consequências de nossas escolhas. Optamos por dar a segunda e a quarta chance aos nobres, mas suspeito que não haverá grandes melhorias, apenas suspeito.

Bem, melhor mesmo aproveitarmos o sol amarelo, a areia fervente, a água salgada e a cerveja gelada para entrarmos no clima carnavalesco, porque isso é o que importa, o resto a gente dá um jeitinho.

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Confabulação Brasileira dos (Des)Esportes

Muito se tem discutido sobre o futuro esportivo do Brasil. Depois de um duvidoso legado Lula, que deixou para sua sucessora dois abacaxis do tamanho do Maracanã, aqui ou ali escutam-se diálogos sobre o possível sucesso (ou vexame) do governo brasileiro ao realizar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, bem como, as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Argumentos, alguns até consistentes, não faltam. As discussões perpassam, sem muito nexo entre eles, por assuntos como a crise dos aeroportos e outros transportes terrestres, falta de verba pública, supervalorização das obras. Assuntos que o leitor, certamente, já está familiarizado, mesmo que seja só por ouvir conversas no ônibus, que começam e sempre terminam com um amarelo entusiasmo, ou com alguma observação do tipo “vai ser uma merda, mas eu vou ver algum jogo”. Aqui, leitor, ofereço uma opinião diferente, um argumento que, talvez, você nunca tenha ouvido: o Brasil não merece a Copa. Nem as Olimpíadas. Sim, leia novamente: foi exatamente isso que me atrevi a escrever. Independentemente dos fatores logísticos, econômicos e sociais, tem-se aqui uma questão que toca o merecimento, e nisto, o Brasil não leva méritos.

o café da manhã nutritivo de todo brazuca

Comecemos pela Copa do Mundo. O leitor fanático pro futebol dirá: somos o único país penta-campeão. Sim, é verdade, e bem que eu gostaria que isso significasse alguma coisa, e de fato, em dias atuais, isto é apenas um passado de duvidosas glórias nacionais. Engana-se o leitor desavisado que ainda bate no peito e diz: vivo no país do futebol. Isto é outra coisa… antes de mais nada, futebol é um esporte. E um esporte, por definição, implica sempre em um vencedor e um perdedor. E perder no futebol é algo inadmissível para o brasileiro: daí surgem, esporadicamente (pra não dizer que sou radicalista), brigas de jogadores, mala branca, mala preta, mala cinza, mala rosa, dinheiro ditando o futuro de um resultado. Muito esportivo… sem contar as constantes brigas de torcida, o desejo de aniquilar o adversário, coisa que, imaginemos, acabaria não somente com o futebol, mas com o esporte como um todo! Aqui ou ali, um estádio depredado, uma rua com casas destroçadas pelo infeliz encontro de gangues (torcidas organizadas, como queira), e não raro, mortes. Morrer pelo futebol, a metáfora se tornando literalidade.

Daí, surgem grades. Campos de futebol que lembram masmorras. Mais guardas no gramado que em muita penintenciária nacional. Tudo para separar torcedor de jogador, como se a realidade já não os separasse: o torcedor ama a camisa, o jogador, o salário. O fã inveterado, apaixonado pelo Timão, dá as tripas para comprar aquele ingresso privilegiado no estádio, para ver seu jogador predileto: larga mulher e filhos em casa, arroxa o orçamento, mas esteve lá, gritando 90 minutos por seu ídolo. O ídolo do Corinthians, por sua vez, beija apaixonadamente a camisa após aquele golaço de letra, um mês antes de o Palmeiras, arqui-rival, oferecer uma bufunfa mais gorda. Lá se vai o jogador, é o fim do amor eterno. E as grades, necessárias para conter a “fúria apaixonada” da torcida (seja lá qual o sentido que isso tenha), agora são mais que isso: são uma barreira imaginária entre duas realidades que, embora proclamem um discurso de complemento, são tão diferentes e distantes quanto um flamenguista e um vascaíno.

Concurso "Musa do Brasileirão"

Vez ou outra a moda muda. E no país do futebol, que tanto se orgulha dessa imagem tão torpe, a moda agora é “repatriar” o jogador. Vejamos: o menino começa lá embaixo, no interior de qualquer Minas Gerais, aos poucos ganha destaque, vai para um time grande brasileiro. Lá, vira ídolo nacional, e exatamente neste auge, neste momento único de paixão incontrolável entre o brasileiro e aquele brasileiro, algum gringo maluco aparece e o contrata. Eis que o brasileirinho, ídolo da nação, desaparece. Reaparece vários anos depois, já sofisticado, usando colares e brincos mais valiosos que o salário do brasileiro médio no ano todo, e já com o peso da idade e da falta de forma lhe roendo os ossos. Na Europa, o brasileirinho já não é nada. Virou migalha, a ser despejada no lixo europeu com os restos do café da manhã, mas eis que é comprado em acordo multimilionário por algum time grande brasileiro. E aqui, com um salário que terminaria um Rodoanel por mês (e ainda fora de forma), o milionário vira, novamente, ídolo! Coisas que só se vê, mesmo, no país sede da Copa do Mundo de 2014, financiada pelo dinheiro de anos de coleta de lixo, mais algumas COHABs aos desabrigados das enchentes, mais alguns meses da merenda escolar, mais dois anos de aumento para os professores da escola pública de ensino. Eis o “país do futebol”, em que todo mundo viu sua vida progredir, melhorar, ganhar qualidade, menos o torcedor, que continua, apaixonadamente, perdendo o almoço de dois dias para conseguir completar a entrada. Que isso se reflita em Copas do Mundo exemplares da seleção brasileira, ao menos, resultado justo esperado por todo brazuca. Ops…

E se você pensa que a coisa acabou, engana-se: dois anos depois, o foco vai para o “pacificado” (Deus, o BOPE e a Globo queiram) Rio de Janeiro, sede das Olimpíadas de 2016, o maior evento esportivo do mundo, reunião de atletas de praticamente todas as modalidades e todas as nações ao redor do planeta. E, claro, temos ali a imagem de um Brasil que, de fato, se importa com os demais esportes, não é? Vejamos… Globo Esporte, ao que me consta, não se chama “Globo Futebol”, e mais destaque é dado para reportagens que apontam o cardápio do jantar do Mano Menezes em Veneza ou os cortes de cabelo extravagantes dos jogadores do Santos com direito a dicas de cabeleireiro e conservação das madeixas; do que os resultados das ligas nacionais de vôlei, ou o NBB, ou campeonatos de judô ou de ginástica olímpica ao redor do mundo, e que, via de regra, mostram um Brasil muito mais vitorioso que o Brasil do Futebol (e após os resultados da Copa de 2010 na África, quero ver quem discorda…).

Isso sem nenhum daqueles painéis gigantes de patrocinadores atrás de qualquer futeboleiro entrevistado (só falta mesmo tatuar o patrocínio na testa do infeliz). Ao contrário, quem pratica qualquer outro esporte no Brasil sabe das dificuldades de patrocínio, locais de treinamento, apoio de amigos e mesmo de familiares, prefeituras. Meio assim: há uma situação, a manteremos da mesma forma. Pipocam traves ao longo das cidades, pela iniciativa pública ou privada: onde estão as tabelas, ou as redes, ou as barras assimétricas, os tatames? Ninguém sabe quem são Mosiah Rodrigues, Flávio Canto, Thiago Splitter, mas sabe de cor o nome do terceiro reserva de goleiro do América de Cabo Frio, algum “Zé Lasanha” que mostrou os dentes no Esporte Espetacular. Ainda se este fosse todo o problema: conhecer o Zé do Bode em questão e achar que o Marco Maciel é o cara do comercial do Bom Bril é ainda mais grave. E por fim, quem se importa com as Olimpíadas, afinal? Temos a Copa do Mundo, gastar ainda mais dinheiro com os jogos olímpicos parece bobagem. Aqui, o discurso vale.

escolha o melhor logo para...

Agora, caro leitor, se você conseguiu chegar até aqui sem ter se irritado com os comentários sobre seu amado futebol (obrigado pela paciência), some aí tudo o que você já escutou sobre verba pública, aeroportos, estrutura, essas coisas todas da conversa do busão, e tem-se o cenário perfeito para o desperdício de dinheiro. Deste “pão e circo”, o povo nem merece o circo. Mas eu, se puder, esquecerei tudo o que acabei de escrever e, caso minhas condições financeiras permitirem (prepare o bolso amigão), eu vou lá assistir algum joguinho…

Guache seco

Argentina, 2001. Crise econômica instaurada no país, saques em supermercados. Milhares de jovens foram às ruas de Buenos Aires, capital nacional, manifestar sua revolta, angariar mais adeptos de sua causa, lutar por seus direitos, gritar em frente à Casa Rosada, lutar por um país melhor. Todos com caras pintadas e balançando, orgulhosamente, a flâmula argentina, símbolo máximo de orgulho de um país que, com luta, acreditavam ser melhor.

França, 2007. Milhares de franco-africanos vão às ruas, em cenas absolutamente dramáticas, lutar por seus direitos, pela igualdade de tratamento do governo para com todos os cidadãos franceses. Lutando por um país mais acessível, empunhados de bandeiras francesas e gritando La Marseillaise a todos os pulmões em plena Place de L’Étoile.

Egito, 2011. Até o fechamento deste texto, travam uma campanha histórica por militância contra a opressão de um regime autoritário e que dá as costas às necessidades de seu povo. A “marcha dos milhões”, como dizem, será o grande marco da luta por um país mais justo e democrático. Um jovem balança, freneticamente, do alto de uma pilastra, a bandeira de sua nação, aquela a que ama e que sente orgulho, e que de forma alguma pensa em abandonar, ao contrário, anseia trabalhar para ver o Egito que seus pais tanto sonharam.

Lembro-me bem do ano de 1992, tinha eu apenas nove anos. Fosse pela TV, ou por quando meus pais acidentalmente encontravam um grupo manifestante em São Paulo ou Jundiaí, dos caras-pintadas que lutaram (e conseguiram) pela destituição de um presidente da república, homem público que, como se sabe, desrespeitou discaradamente o direito do povo de seu país a ter acesso a seus próprios bens. Acompanhei, junto de minha vizinha de mesma idade, a votação ao vivo do Senado Federal para destituir Fernando Collor de seu cargo, e mesmo com minha mente ainda de criança, sem muito entendimento sobre os fatos que hoje vejo muito mais relevantes, tinha em cada voto uma vitória, a ser comemorada com fogos de artifício e balançar da bandeira brasileira.

Infelizmente, foi a última manifestação popular, o último e o único grito de legítimo patriotismo que presenciei. Parecia que o Brasil, com o “Diretas Já” de 1984 e os “Caras Pintadas” de 1992, teria um futuro de militância, de luta do povo por seus legítimos direitos, e principalmente, de um povo verdadeiramente patriota, que amasse seu país e que, a exemplo do que ocorreu nos países mencionados anteriormente, tivesse vontade de amar a nação e, por isso mesmo, lutar para fazer dela um lugar melhor.

O que aconteceu afinal? Alguém viu o Brasil por aí? A chama se apagou, o povo se acostumou com a tal “liberdade de expressão”, e o jovem brasileiro de hoje, que não sentiu na pele o peso de um povo oprimido em sua própria voz, é aquele que manifesta seu amor ao Brasil no “patriotismo bissexto”, de quatro em quatro anos, quando do frenesi descontrolado de uma abençoada Copa do Mundo. Ao que parece, o único momento em que o povo se aglomera por um ideal comum. A Paulista, só enche em Parada Gay ou Reveillon. Nossos heróis? Participantes do BBB, políticos mortos ou milionários jogadores de futebol. Gente que venceu na vida individualmente, cada um por si, jamais lutaram pela sociedade, pela pátria, pela igualdade, democracia…

ele NÃO estava falando do Dunga...

A corrupção do governo federal é cada vez mais latente, o sistema de saúde injeta vaselina em veia de criança e decepa dedos ao tirar esparadrapos, as escolas mostram semi-analfabetos no terceiro ano do ensino médio, o ensino superior é sucateado, escolas particulares vendem diplomas a todo momento… que importa? Ronaldinho Gaúcho é do Mengão, a chata da Michely saiu da casa, e mais gente tem dinheiro pro apê da Praia Grande no feriadão.

Danilo Zimbres, vice presidente da UBES na época dos caras pintadas, disse: “Após o final da ditadura militar e a reconstrução das entidades estudantis, era necessário apaixonar novamente a juventude por uma utopia, como em 1968”. Utopia? Só se for a de trazer a taça em 2014, e taça, só se for a de futebol, pois a de patriotismo legítimo, luta por democracia, igualdade e transparência, perdemos aos arqui-rivais argentinos faz tempo, goleada histórica com direito a humilhação no final.

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