Crônicas de um país sem sobrenome

Guache seco

Argentina, 2001. Crise econômica instaurada no país, saques em supermercados. Milhares de jovens foram às ruas de Buenos Aires, capital nacional, manifestar sua revolta, angariar mais adeptos de sua causa, lutar por seus direitos, gritar em frente à Casa Rosada, lutar por um país melhor. Todos com caras pintadas e balançando, orgulhosamente, a flâmula argentina, símbolo máximo de orgulho de um país que, com luta, acreditavam ser melhor.

França, 2007. Milhares de franco-africanos vão às ruas, em cenas absolutamente dramáticas, lutar por seus direitos, pela igualdade de tratamento do governo para com todos os cidadãos franceses. Lutando por um país mais acessível, empunhados de bandeiras francesas e gritando La Marseillaise a todos os pulmões em plena Place de L’Étoile.

Egito, 2011. Até o fechamento deste texto, travam uma campanha histórica por militância contra a opressão de um regime autoritário e que dá as costas às necessidades de seu povo. A “marcha dos milhões”, como dizem, será o grande marco da luta por um país mais justo e democrático. Um jovem balança, freneticamente, do alto de uma pilastra, a bandeira de sua nação, aquela a que ama e que sente orgulho, e que de forma alguma pensa em abandonar, ao contrário, anseia trabalhar para ver o Egito que seus pais tanto sonharam.

Lembro-me bem do ano de 1992, tinha eu apenas nove anos. Fosse pela TV, ou por quando meus pais acidentalmente encontravam um grupo manifestante em São Paulo ou Jundiaí, dos caras-pintadas que lutaram (e conseguiram) pela destituição de um presidente da república, homem público que, como se sabe, desrespeitou discaradamente o direito do povo de seu país a ter acesso a seus próprios bens. Acompanhei, junto de minha vizinha de mesma idade, a votação ao vivo do Senado Federal para destituir Fernando Collor de seu cargo, e mesmo com minha mente ainda de criança, sem muito entendimento sobre os fatos que hoje vejo muito mais relevantes, tinha em cada voto uma vitória, a ser comemorada com fogos de artifício e balançar da bandeira brasileira.

Infelizmente, foi a última manifestação popular, o último e o único grito de legítimo patriotismo que presenciei. Parecia que o Brasil, com o “Diretas Já” de 1984 e os “Caras Pintadas” de 1992, teria um futuro de militância, de luta do povo por seus legítimos direitos, e principalmente, de um povo verdadeiramente patriota, que amasse seu país e que, a exemplo do que ocorreu nos países mencionados anteriormente, tivesse vontade de amar a nação e, por isso mesmo, lutar para fazer dela um lugar melhor.

O que aconteceu afinal? Alguém viu o Brasil por aí? A chama se apagou, o povo se acostumou com a tal “liberdade de expressão”, e o jovem brasileiro de hoje, que não sentiu na pele o peso de um povo oprimido em sua própria voz, é aquele que manifesta seu amor ao Brasil no “patriotismo bissexto”, de quatro em quatro anos, quando do frenesi descontrolado de uma abençoada Copa do Mundo. Ao que parece, o único momento em que o povo se aglomera por um ideal comum. A Paulista, só enche em Parada Gay ou Reveillon. Nossos heróis? Participantes do BBB, políticos mortos ou milionários jogadores de futebol. Gente que venceu na vida individualmente, cada um por si, jamais lutaram pela sociedade, pela pátria, pela igualdade, democracia…

ele NÃO estava falando do Dunga...

A corrupção do governo federal é cada vez mais latente, o sistema de saúde injeta vaselina em veia de criança e decepa dedos ao tirar esparadrapos, as escolas mostram semi-analfabetos no terceiro ano do ensino médio, o ensino superior é sucateado, escolas particulares vendem diplomas a todo momento… que importa? Ronaldinho Gaúcho é do Mengão, a chata da Michely saiu da casa, e mais gente tem dinheiro pro apê da Praia Grande no feriadão.

Danilo Zimbres, vice presidente da UBES na época dos caras pintadas, disse: “Após o final da ditadura militar e a reconstrução das entidades estudantis, era necessário apaixonar novamente a juventude por uma utopia, como em 1968”. Utopia? Só se for a de trazer a taça em 2014, e taça, só se for a de futebol, pois a de patriotismo legítimo, luta por democracia, igualdade e transparência, perdemos aos arqui-rivais argentinos faz tempo, goleada histórica com direito a humilhação no final.

Anúncios

Comentários em: "Guache seco" (2)

  1. Gianny Dominicci disse:

    Poia é, acredito que o Brasil, o povo brasileiro está acomodado demais com o que deixa de acontecer por ai fora.
    Essa geração que está ai, pouco se importa com que acontece ao seu redor. Extremamente alienda, consumindo e vivendo dia após dia, sem pensar dos desdobramento. Geração essa a minha que tem achado tudo meio vazio e sem sentido, numa fase meio niilista.
    Ontem, escrevi um artigo sobre a Deficiencia do setor público. vale a pena conferir.

  2. Excelente texto Galeoti, mostra bem a mudança de bandeiras ideológicas de uma geração para outra. Mas hoje o que mais me afligiu foi ler no Folha on line que o ex-cara pintada Lindberg Farias , hoje senador pelo PT-RJ, apertou a mão de seu desafeto político, o Fernando Collor de Mello, no Plenário. Tudo bem, ele disse que foi um encontro ocasional, mas senti uma certa omissão e acomodação. Agora não sei o que é pior: não ter uma bandeira ou degradar sua bandeira!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: