Crônicas de um país sem sobrenome

Muito se tem discutido sobre o futuro esportivo do Brasil. Depois de um duvidoso legado Lula, que deixou para sua sucessora dois abacaxis do tamanho do Maracanã, aqui ou ali escutam-se diálogos sobre o possível sucesso (ou vexame) do governo brasileiro ao realizar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, bem como, as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Argumentos, alguns até consistentes, não faltam. As discussões perpassam, sem muito nexo entre eles, por assuntos como a crise dos aeroportos e outros transportes terrestres, falta de verba pública, supervalorização das obras. Assuntos que o leitor, certamente, já está familiarizado, mesmo que seja só por ouvir conversas no ônibus, que começam e sempre terminam com um amarelo entusiasmo, ou com alguma observação do tipo “vai ser uma merda, mas eu vou ver algum jogo”. Aqui, leitor, ofereço uma opinião diferente, um argumento que, talvez, você nunca tenha ouvido: o Brasil não merece a Copa. Nem as Olimpíadas. Sim, leia novamente: foi exatamente isso que me atrevi a escrever. Independentemente dos fatores logísticos, econômicos e sociais, tem-se aqui uma questão que toca o merecimento, e nisto, o Brasil não leva méritos.

o café da manhã nutritivo de todo brazuca

Comecemos pela Copa do Mundo. O leitor fanático pro futebol dirá: somos o único país penta-campeão. Sim, é verdade, e bem que eu gostaria que isso significasse alguma coisa, e de fato, em dias atuais, isto é apenas um passado de duvidosas glórias nacionais. Engana-se o leitor desavisado que ainda bate no peito e diz: vivo no país do futebol. Isto é outra coisa… antes de mais nada, futebol é um esporte. E um esporte, por definição, implica sempre em um vencedor e um perdedor. E perder no futebol é algo inadmissível para o brasileiro: daí surgem, esporadicamente (pra não dizer que sou radicalista), brigas de jogadores, mala branca, mala preta, mala cinza, mala rosa, dinheiro ditando o futuro de um resultado. Muito esportivo… sem contar as constantes brigas de torcida, o desejo de aniquilar o adversário, coisa que, imaginemos, acabaria não somente com o futebol, mas com o esporte como um todo! Aqui ou ali, um estádio depredado, uma rua com casas destroçadas pelo infeliz encontro de gangues (torcidas organizadas, como queira), e não raro, mortes. Morrer pelo futebol, a metáfora se tornando literalidade.

Daí, surgem grades. Campos de futebol que lembram masmorras. Mais guardas no gramado que em muita penintenciária nacional. Tudo para separar torcedor de jogador, como se a realidade já não os separasse: o torcedor ama a camisa, o jogador, o salário. O fã inveterado, apaixonado pelo Timão, dá as tripas para comprar aquele ingresso privilegiado no estádio, para ver seu jogador predileto: larga mulher e filhos em casa, arroxa o orçamento, mas esteve lá, gritando 90 minutos por seu ídolo. O ídolo do Corinthians, por sua vez, beija apaixonadamente a camisa após aquele golaço de letra, um mês antes de o Palmeiras, arqui-rival, oferecer uma bufunfa mais gorda. Lá se vai o jogador, é o fim do amor eterno. E as grades, necessárias para conter a “fúria apaixonada” da torcida (seja lá qual o sentido que isso tenha), agora são mais que isso: são uma barreira imaginária entre duas realidades que, embora proclamem um discurso de complemento, são tão diferentes e distantes quanto um flamenguista e um vascaíno.

Concurso "Musa do Brasileirão"

Vez ou outra a moda muda. E no país do futebol, que tanto se orgulha dessa imagem tão torpe, a moda agora é “repatriar” o jogador. Vejamos: o menino começa lá embaixo, no interior de qualquer Minas Gerais, aos poucos ganha destaque, vai para um time grande brasileiro. Lá, vira ídolo nacional, e exatamente neste auge, neste momento único de paixão incontrolável entre o brasileiro e aquele brasileiro, algum gringo maluco aparece e o contrata. Eis que o brasileirinho, ídolo da nação, desaparece. Reaparece vários anos depois, já sofisticado, usando colares e brincos mais valiosos que o salário do brasileiro médio no ano todo, e já com o peso da idade e da falta de forma lhe roendo os ossos. Na Europa, o brasileirinho já não é nada. Virou migalha, a ser despejada no lixo europeu com os restos do café da manhã, mas eis que é comprado em acordo multimilionário por algum time grande brasileiro. E aqui, com um salário que terminaria um Rodoanel por mês (e ainda fora de forma), o milionário vira, novamente, ídolo! Coisas que só se vê, mesmo, no país sede da Copa do Mundo de 2014, financiada pelo dinheiro de anos de coleta de lixo, mais algumas COHABs aos desabrigados das enchentes, mais alguns meses da merenda escolar, mais dois anos de aumento para os professores da escola pública de ensino. Eis o “país do futebol”, em que todo mundo viu sua vida progredir, melhorar, ganhar qualidade, menos o torcedor, que continua, apaixonadamente, perdendo o almoço de dois dias para conseguir completar a entrada. Que isso se reflita em Copas do Mundo exemplares da seleção brasileira, ao menos, resultado justo esperado por todo brazuca. Ops…

E se você pensa que a coisa acabou, engana-se: dois anos depois, o foco vai para o “pacificado” (Deus, o BOPE e a Globo queiram) Rio de Janeiro, sede das Olimpíadas de 2016, o maior evento esportivo do mundo, reunião de atletas de praticamente todas as modalidades e todas as nações ao redor do planeta. E, claro, temos ali a imagem de um Brasil que, de fato, se importa com os demais esportes, não é? Vejamos… Globo Esporte, ao que me consta, não se chama “Globo Futebol”, e mais destaque é dado para reportagens que apontam o cardápio do jantar do Mano Menezes em Veneza ou os cortes de cabelo extravagantes dos jogadores do Santos com direito a dicas de cabeleireiro e conservação das madeixas; do que os resultados das ligas nacionais de vôlei, ou o NBB, ou campeonatos de judô ou de ginástica olímpica ao redor do mundo, e que, via de regra, mostram um Brasil muito mais vitorioso que o Brasil do Futebol (e após os resultados da Copa de 2010 na África, quero ver quem discorda…).

Isso sem nenhum daqueles painéis gigantes de patrocinadores atrás de qualquer futeboleiro entrevistado (só falta mesmo tatuar o patrocínio na testa do infeliz). Ao contrário, quem pratica qualquer outro esporte no Brasil sabe das dificuldades de patrocínio, locais de treinamento, apoio de amigos e mesmo de familiares, prefeituras. Meio assim: há uma situação, a manteremos da mesma forma. Pipocam traves ao longo das cidades, pela iniciativa pública ou privada: onde estão as tabelas, ou as redes, ou as barras assimétricas, os tatames? Ninguém sabe quem são Mosiah Rodrigues, Flávio Canto, Thiago Splitter, mas sabe de cor o nome do terceiro reserva de goleiro do América de Cabo Frio, algum “Zé Lasanha” que mostrou os dentes no Esporte Espetacular. Ainda se este fosse todo o problema: conhecer o Zé do Bode em questão e achar que o Marco Maciel é o cara do comercial do Bom Bril é ainda mais grave. E por fim, quem se importa com as Olimpíadas, afinal? Temos a Copa do Mundo, gastar ainda mais dinheiro com os jogos olímpicos parece bobagem. Aqui, o discurso vale.

escolha o melhor logo para...

Agora, caro leitor, se você conseguiu chegar até aqui sem ter se irritado com os comentários sobre seu amado futebol (obrigado pela paciência), some aí tudo o que você já escutou sobre verba pública, aeroportos, estrutura, essas coisas todas da conversa do busão, e tem-se o cenário perfeito para o desperdício de dinheiro. Deste “pão e circo”, o povo nem merece o circo. Mas eu, se puder, esquecerei tudo o que acabei de escrever e, caso minhas condições financeiras permitirem (prepare o bolso amigão), eu vou lá assistir algum joguinho…

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