Crônicas de um país sem sobrenome

O ano das mulheres

2011 é, certamente, o ano das mulheres no Brasil. Desde o dia 1º de janeiro, o cargo mais relevante de nosso governo é ocupado por uma mulher. A representação do Brasil no hall da fama do futebol, templo sagrado da virilidade masculina, é de uma mulher. Cada dia mais, vivenciamos um número cada vez maior de mulheres chefes de família. O perfil da mulher no Brasil está mudando a olhos vistos: a jovem brasileira não é mais aquela dona de casa submissa, que aprendeu com sua mãe os cuidados do lar. Ao contrário, é uma mulher cada vez mais empreendedora, executiva, profissional, e busca seu espaço merecido em todos os ramos da sociedade.

Até o calendário lunar parece ajudar a colocar a mulher em destaque. Memorizem esta data: 08 de março de 2011. É o Dia Internacional da Mulher, comemoração anual de luta das mulheres por seu espaço, sua valorização, sua vontade de mostrar não ser apenas um pedaço de carne, seu respeito até então negligenciado na maioria das sociedades ao redor do mundo. E é o Carnaval, maior festival de corpos femininos voluntariamente desnudos que a sociedade brasileira consegue ver ao longo de todo o ano, uma vitrine erótica pra homem nenhum botar defeito.

Diriam os puristas: a mulherada não se respeita. Diriam os “convenientemente puristas”: desse jeito, como valorizar a mulher? “Depois que estrupa (sic), a culpa é do homem” – atire a primeira pedra quem nunca ouviu um new-ogro a proclamar a pérola. De fato, o pensamento geral evidencia a situação como um considerável retrocesso social. A mesma mulher que luta pela valorização de qualquer outra coisa senão seu corpo, se orgulhará com seu corpo desnudo, purpurinado e capturado pelas câmeras posicionadas nos ângulos mais íntimos. Como se o samba-enredo da Sapucaí trouxesse, na mesma data, uma dança de um passo pra frente, e sempre dois pra trás. Contradição? Paradoxo?

Eu tenho mais a mostrar. Mesmo!

Ao contrário, homens machos brasileiros: a mulher brasileira é, sim, independente do que qualquer pesquisa européia possa dizer, a mulher mais bela do mundo, e isso, de forma alguma, mostraria quaisquer inferioridades de quaisquer tipos (sim, adoro o plural de “qualquer”). A estudante universitária da sainha rosa não deixou de ser uma estudante universitária, ao mesmo nível dos palhaços que a vaiaram por sua roupa. A presidente eleita democraticamente recebeu o mesmo voto de confiança de inúmeros homens que a antecederam. A consagrada jogadora de futebol (frisa-se: templo sagrado de masculinidade e virilidade) mostra que, atualmente, elas podem dar mais orgulho que muito marmanjo brasileiro por aí. A funcionária com a mesma qualificação que seu colega homem merece, sim, o mesmo salário. E com um adicional que, ao meu ver, homem nenhum terá jamais: simpatia, sensualidade. Beleza. A mulher brasileira é, ao mesmo tempo, símbolo máximo de capacidade, inteligência e sedução. Por que não?

8 de março de 2011. O dia em que, de fato, a mulher deve, sim, mostrar toda sua graça, beleza, sensualidade e simpatia, sem deixar de lado a crescente conquista de seu espaço. O dia em que a mulher mostra que, sim, pode ser erótica, sensual, sexual, sem ter que passar por qualquer tipo de censura. O dia em que se pede a reflexão: a limitação, o retrocesso, o “passinho pra trás”, está afinal embutido na cabeça de qual sexo?

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