Crônicas de um país sem sobrenome

Jair Bolsonaro. Esse é o nome do mais novo desafeto social brasileiro. Este senhor, eleito democraticamente deputado federal pelo Rio de Janeiro, realizou declarações no CQC (um dos programas mais fantásticos da televisão brasileira em dias atuais) dignas de escândalo e repúdio, atacando livremente, segundo interpretação da maioria, grupos importantes da sociedade brasileira, em especial, negros e gays.

Para os que não viram, segue o vídeo abaixo.

Foi o que bastou para a incitação dos discursos mais inflamados de todas as partes da sociedade. Blogs, jornais, revistas, todos manifestando sua discórdia radical com os argumentos do ilustre deputado. Nos Trending Topics do Twitter, que mostra os assuntos mais comentados no serviço de microblog, o nome Jair Bolsonaro e a frase “fora Bolsonaro” dividem acirradamente espaço com a final do BBB e a morte de José Alencar. Sim, caro leitor: é repugnante, é escandaloso, e independente de quaisquer tentativas de explicação, é digno de revolta. Opinião ultrapassada, de gente que, definitivamente, não deveria governar este Brasil sem cara e sem sobrenome, e que, sim, deveria estar na cadeia.

Jair Bolsonaro representa algo mais. Caçá-lo, algemá-lo, como tem tentado os grupos ofendidos representados na esfera pública, é uma obrigação inquestionável, certamente, mas que fará sentido algum sem antes um entendimento. De onde vem o estranhamento com as palavras do ilustre deputado? Qual a fonte da revolta pelas palavras de Bolsonaro no programa de segunda feira? Quem não conhece, em sua casa, em sua família, em sua escola, ao menos dez Bolsonaros, de opiniões racistas e homofóbicas deveras até mais radicais, e que, neste momento, manifestam seu repúdio e intolerância com as opiniões deste típico representante do povo? Onde está a contradição quando se crucifica o homem que, diferentemente da grande maioria, teve a questionável coragem de mostrar o que realmente pensa?

A existência de Jair Bolsonaro na esfera política pública nada mais é do que a revelação de uma sociedade que, assim como este senhor de pensamentos arcaicos, tem também tais pensamentos. Caçar este homem é, sim, um ato de cidadania mas, ao mesmo tempo, uma personificação de uma idéia generalista, generalizada, é responsabilizar uma pessoa por um odioso pensamento já tão intrínseco em nossa sociedade. Bolsonaro é um laranja: passada esta onda de ódio pontual, local, personificada neste senhor, voltamos à prática de nossos pequenos ódios cotidianos, e nada mudará com relação ao preconceito geral no Brasil, país da “igualdade” e da “aceitação às diferenças”, um discurso que, por si próprio, incumbe-se de ocultar o preconceito que, de fato, existe e nunca deixou de existir no Brasil. Em outras palavras: caçar e prender Bolsonaro é justo e inquestionável, mas fazê-lo sem a reflexão necessária, sem enxergar o Bolsonaro dentro de cada um de nós, é caçar um homem, não um problema. Este, perdura nos Bolsonaros espalhados em nosso dia a dia.

Jair Bolsonaro foi eleito democraticamente, portanto, é representante legítimo do povo. E representa, de forma caricata, exatamente o que o povo é. Jair Bolsonaro é um espelho desta sociedade auto-intitulada “moderna”, em teoria livre de preconceitos e que, por si mesmo, odeia seus próprios pensamentos. E que, por fim, prefere o instinto de exterminar a personificação do mal, ao exercício da reflexão sobre o que, de fato, acontece na mentalidade geral de nossa “moderna” sociedade.

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ADENDO DO AUTOR: Coincidentemente, o incidente do ilustre deputado descrito acima aconteceu quando eu terminava de ler um livro totalmente pertinente com a temática proposta neste ensaio. Trata-se de “Pérola Negra – História de um caminho”, autobiografia de Elaine Pereira da Silva. Mulher, negra e pobre, moradora da periferia da Zona Leste de São Paulo, Elaine correu atrás de seu sonho de se formar em Medicina, e com o esforço que sua condição econômica lhe impôs a vida toda, batalhou incessantemente até seu ingresso no curso de Medicina da UNICAMP, um dos mais conceituados do Brasil.

Contar a história de Elaine aqui seria absolutamente pequeno, comparado aos impressionantes detalhes de seu livro, belissimamente decorados com as mais fantásticas e pertinentes citações. Adianto, no entanto, a história resumida, na contracapa do mesmo: no 5º ano de Medicina, ficou quatro dias em coma, na UTI, e sofreu lesão cerebral, por negligência médica. Passou por três meurocirurgias, cadeira de rodas, dezoito internações, perdeu a memória recente por três anos, teve infantilidade mental por meses, seu sono aumentou e, em função disso tudo, foi discriminada em todos os âmbitos e teve seu diploma atrasado em três anos.

Elaine Pereira da Silva está formada desde 1997. Trabalhou na rede pública de saúde do Brasil por sete anos. Atualmente, continua cumprindo promessa feita a Deus nos anos de cursinho: atende a pessoas financeiramente carentes, em seu trabalho voluntário na favela da Vila Brandina, em Campinas.

Eu tive o grande prazer de conhecer Lãlã, como ela se autodenominou em sua dedicatória do livro para mim, em meados de 2006, numa festa na casa de um amigo em comum. Lembro-me que até então, não tinha a menor consciência de toda essa sua história, totalmente exemplar neste nosso país da “igualdade racial”. Lembro-me de nossa automática identificação, rimos muito, cantamos muito, sua voz estridente em consonância com a minha: além do gosto por festas na casa de amigos, temos também em comum o volume da nossa voz. Ah, sim: por motivos de força maior, não pude ler seu livro naquela época (final de graduação, final de graduação), e cinco anos depois, eu o redescobri.

Lembro também que, em um determinado momento da festa, tive o lapso (se alcoólico ou por confluência de espíritos, não sei, não importa) de desabafar alguns problemas então recentes (reitero: muito recentes) à Lãlã. Pedi um alento, no que prontamente fui atendido, eu acho… minha única recordação deste momento é assim: escuro, eu sentado em uma cadeira, Lãlã ajoelhada em minha frente, segurando minhas mãos e me oferecendo, do fundo de seus olhos negros como a noite, palavras de consolo e força, junto do olhar e do sorriso mais penetrante que já tive em toda minha vida. E hoje, cinco anos depois, não esqueço daquele sorriso: não fosse seus lábios negros emoldurando-o, poderia jamais ter sido tão tocado. Antes tarde do que nunca: muito obrigado querida!!

Independente dessa experiência pessoal que fiz questão de contar-lhe, leitor, a leitura de sua história é absolutamente recomendável. Se não provocar-lhe profundas reflexões a respeito desse tão intrínseco preconceito racial no Brasil, certamente lhe tocará a história de mulher tão guerreira como Elaine Pereira da Silva.

PÉROLA NEGRA – HISTÓRIA DE UM CAMINHO

Elaine Pereira da Silva

Campinas/SP: Editora Komedi, 2006 – 256 páginas

Preço sugerido: R$ 26,00

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