Crônicas de um país sem sobrenome

Em Brasília, 19 horas

E de repente, no meio da programação de final de tarde em sua rádio predileta, seus mais ouvidos sucessos de Rihanna, Beyoncé e Lady Gaga são trocados pela musiquinha mais manjada de todos os tempos no Brasil. Em Brasília, são sete horas da noite. Inicia-se ela, velha conhecida dos ouvintes do rádio, tradicionalíssima no quesito “monólogo mono-tom”, carregada de uma trilha sonora digna de concertos cuja única função é trazer sono ao ouvinte. Resquício máximo da Era Vargas (deixe-me repetir: Vargas!! Entendeu isso?), de um tempo em que o rádio era a maior das evoluções da comunicação: bem vindo, você está na Voz do Brasil.

Quem tem hoje a nobreza de espírito de continuar com seu rádio ligado após as sete horas da tarde se depara com uma agradável surpresa. Ela ainda está lá, claro, soberana como o maior e o mais antigo dos programas auditivos nacionais (e o Guiness tá aí pra provar isso), única programação da rádio nacional imposta por lei para todas as emissoras, e trazendo, como não poderia deixar de ser, sua velha musiquinha. A Voz do Brasil, no entanto, surpreende o ouvinte de boa fé que ainda não pôs um CD no tape do carro com um diálogo mais agradável que há 50 anos atrás, agora com dois apresentadores, e a velha canção renovada em choro, samba e capoeira, tentando, ao menos, dar uma cara mais moderna pro velho programa. Funciona mais ou menos como quando seu pai quer dar uma de moderninho, bota uma camiseta de qualquer banda anos 80, e perto de seus amigos solta aquele “vai sair com seus trutas, que brasa”: não convence, meio que constrange, mas vale a intenção.

Esse é o José Carlos, apresentador da Voz do Brasil. Liga o naipe do microfone...

A Voz do Brasil traz em si uma idéia tanto quanto contraditória. Sim, é tedioso, é constrangedor, é coisa de quem está preso no trânsito e sem a menor paciência pra escolher músicas no player. E, juntamente com o Diário Oficial (extremamente irritante com aquela letrinha minúscula que só está ali pra economizar papel), é também o principal dos meios de comunicação e informação sobre o que ocorre na já tão famigerada cúpula do Governo. Mas quem escuta? Quem exerce o dalailâmico exercício de sentar-se na frente do rádio para ouvir com interesse as notícias tão desmotivadamente apresentadas? Quem não o faz, e reclama exatamente da falta de transparência do Governo para com o povo, e acha que as únicas vezes em que Brasília dá um manifesto à população é em datas comemorativas, através dos badalados “Pronunciamentos da Presidente da República”, que sempre deixam o telespectador com a famosa cara de “que saco, volta logo os Trapalhões”?

Ok, ninguém disse que é fácil, ou divertido, ou interessante. Ninguém disse que é possível ou viável contratar o Restart para apresentar a Voz do Brasil. Ninguém acha que não há nada errado no Governo usar a mesma formatação de 75 anos atrás para anunciar suas novidades, em tempos de televisão, mídias passivas e internet. Ninguém pediu uma versão Calypso da musiquinha. E ninguém pode dizer que, ao menos, não há veículos de informação que apontem as medidas diárias de seu Governo. Leitor, use apenas uma mão e conte: quantas vezes você ouviu a Voz do Brasil ao longo de sua vida? É chato, eu sei, você não sabe sequer reconhecer uma voz dentre os ruídos ao procurar alguma estação por aquele botão redondo do rádio velho e de pilhas de seu avô. Então conte: quantas vezes você procurou na internet, seu meio de comunicação mais “moderninho” até então, acompanhar as medidas do seu deputado eleito?

Há, sim, algo errado em usar há 75 anos o mesmo apelo arcaico do rádio. E há, também algo errado em quem reclama da falta de transparência em Brasília, sem sequer procurar saber o que se passa no Planalto. A esses, eu recomendo: ligue seu rádio às 19 horas. Se não o deixar mais informado sobre o dia no Governo, ao menos lhe trará algum sentimento de nostalgia (ou constrangimento, ou vergonha alheia…).

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ADENDO DO AUTOR: não faz muito tempo, descobri que a Voz do Brasil (sim, ela mesma), é na verdade uma velhinha das bem moderninhas. Ela tem Twitter!! Clica aqui, vale o follow!!

Falando em Twitter, esse também é muito bom, seguindo a tendência dos informativos oficiais. Ambos os perfis enchem menos o saco que aquele seu amigo que entulha sua timeline com 50 tweets diários, e que você só não dá unfollow em nome da amizade…

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Comentários em: "Em Brasília, 19 horas" (1)

  1. bem por aí .. eu não desligo o rádio, aliás eu ligo o rádio, assim, poupo minha mente de receber ‘o medo’ da mídia televisiva – o jornal da tv é cultura é bom -, as manchetes e fotos de horror da mídia impressa, e ainda, a ineficiência da mídia virtual do governo – o dos correios é .. bem..alguns se salvam, principalmente em se tratando de grana. e a trilha faz parecer um teatro se faltou energia elétrica e está à luz de velas sintonizando radinho à pilha.

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