Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para maio, 2011

A semente da discórdia e a autoridade insana

Durante as últimas semanas temos assistido a um espetáculo protagonizado por uma parcela da sociedade que vai às ruas contestar um dispositivo legal, e no Brasil tem sido interpretado pelos orgãos coercitivos como apologia ao crime, quase uma institucionalização do tráfico de drogas. Entretanto, a Marcha Global da Maconha representa mais que contestação, é uma busca pelos direitos individuais, representa o interesse coletivo de grupos sociais e, acima de tudo, é a luta em defesa da expansão da democracia.

A semente de toda essa mobilização e rebuliço em nível global é a planta Cannabis sativa, ou cânhamo, ou maconha, ou tantos outros nomes populares. Originária do continente asiático (provavelmente norte do Afeganistão), é utilizada há pelo menos 8 mil anos, isso mesmo caro leitor, OITO MIL ANOS. Desde as cordas e velas dos navios gregos até a medicina chinesa e indiana (curava prisão de ventre, malária, reumatismo e dores menstruais, além de ser utilizada como artefato religioso para os hindus se encontrarem com Shiva) sua fibra era vastamente empregada. Com isso a planta começou a fazer sucesso na Europa e África.

Provavelmente a maconha tenha sido introduzida no território brasileiro pelos escravos africanos que disseminaram seu uso não médico entre os índios, que passaram a plantar o cânhamo, e as camadas mais pobres da população, portanto não atingia a elite da época, exceto talvez pela alegação de que Carlota Joaquina (esposa do Rei D. João VI) teria o hábito de tomar chá de maconha enquanto vivia aqui no Brasil.

Da segunda metade do século XIX até a decada de 1930 a maconha era utilizada medicinalmente como remédio contra “asthma, catarrhos, insomnia, roncadura, flatos.” Porém, nessa mesma década  houve intensificação da repressão ao seu uso, possivelmente em decorrencia de um delegado brasileiro que, numa Conferência em 1924, em Genebra, sobre o ópio e a coca, ousou ao confrontar o uso da maconha devido aos estudos que confirmavam efeitos psicoativos.

Desde então o que ocorre é a ilegalização e criminalização da maconha, resultando na marginalização de seus usuários, tidos como criminosos, financiadores do tráfico, más companhias, ou seja, a sociedade passa a vê-los como maus elementos, imorais e inimigos dos bons costumes.

Policial utilizando spray de pimenta.

Contudo, desde meados dos anos 90 vemos uma mobilização popular em defesa da abertura das instituições e leis para que a maconha possa ser estudada para trazer novos conhecimentos à medicina, para que possa ser comercializada de forma legal, controlada e regulamentada, sem que o usuário tenha que se expor aos riscos de lidar com narcotraficantes violentos seja dos morros cariocas ou das favelas paulistas.  A regulamentação seria benéfica também na luta contra a economia do tráfico. Atualmente o traficante tem 1500% de lucro com a venda de um quilo da droga (é comprado por cerca de R$300,00 e vendido por R$5.000,00 aos usuários).

Bala de Borracha: Não mata, não é violento?

Entretanto, o que estamos assistindo no Rio de Janeiro e, principalmente, em São Paulo é uma repressão extremamente violenta aos defensores da descriminalização e legalização da maconha sob a alegação de apologia ao crime. O Tribunal de Justiça de São Paulo está deturpando o sentido da marcha, revelando uma atitude antidemocrática reprimindo o poder de contestação e a liberdade de expressão de pensamento, ambos previstos em lei.

Ameaça

O Brasil, país que caminha para a plena consolidação de sua democracia, ainda é palco para atitudes descompensadas e desproporcionais. As repressões que vemos são o reflexo da oligofrenia autoritária incompatível com nosso regime político. Não podemos deixar a ditadura escalafobética reprimir o livre pensamento.

Isso é mesmo necessário?

*Imagens retiradas de um vídeo feito pela equipe do Folha Tv.

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O código, a floresta e a selva do planalto

Semana entra, semana sai, e sempre uma nova pataquada acontece nos corredores de Brasília. As dessa semana foram, claro, o panfleto anti-gay do Jair Bolsonaro (e minha opinião a respeito você pode ver aqui), e as discussões acaloradas, com direito a torcida organizada dentro e fora do Congresso, sobre o tal Novo Código Florestal Brasileiro.

É, eu sei, você ainda não sabe do que se trata esse documento, prestes a ser aprovado. Você ouve “floresta” e “código” e pensa em 4, 8, 15, 16, 23, 42… Caso você, leitor, tenha o desejo de conhecer o documento na íntegra, é só clicar aqui e testar sua paciência. Caso contrário, assista o vídeo aí embaixo, elaborado pela SOS Florestas, é mais divertido e didático que qualquer linha que eu tentasse propor a respeito:

A não ser que você tenha algum ódio mortal e infundado por florestas nativas (ou tenha mesmo um parafuso a menos), certamente ficou alarmado com a proposta do tal Novo Código Florestal Brasileiro, a ser votado a qualquer momento. E há que se ressaltar, logo de imediato, que este blogueiro que vos escreve tem suas faculdades mentais perfeitamente preservadas, e não demonstra sentimentos negativos por espécies vegetais, só queria demonstrar alguns pontos que, modestamente, acha relevante.

Discorde radicalmente do Novo Código Florestal Brasileiro. Eu discordo. Seja radical, elabore discursos que levem o ouvinte às lágrimas, se amarre em uma sequóia gigante. Não negue, no entanto, que essa proposta de manejo das florestas brasileiras traz em seu escopo uma ideologia que, como diz o vídeo, vai na contramão de tudo o que foi até então feito, e aos desavisados, adianto desde já que não me refiro à futura preservação/destruição das nossas florestas, do ecossistema, do verdinho – e mais uma lágrima rola em meu rosto.

Antes de tudo, o Novo Código Florestal Brasileiro vai numa contramão absolutamente política, a partir do momento em que propõe níveis de desmatamento maiores que o aceitável para o tal “Desenvolvimento Sustentável”, proposto na ECO-92, olha só, no Brasil (e calcado aqui em letras maiúsculas por ter se tornado, ao longo do tempo, quase um ser onipresente em qualquer discurso ambiental). Como o Brasil, símbolo máximo de país que tem a obrigação suprema de cuidar de suas reservas naturais, pode propor algo tão radical?

A proposta de reformulação do Novo Código Florestal Brasileiro mostra, acima de tudo, a falência do monstro do “desenvolvimento sustentável” no Brasil. Há 19 anos, o país tem, jogado em sua cabeça, um discurso que, no caso brasileiro, é fator altamente limitante de seu crescimento econômico. Não se engane, leitor: desenvolver sustentavelmente é algo além do bolso das possibilidades brasileiras, e dessa forma, foi-se alcunhado na testa do agricultor nacional que será ele um vilão demoníaco caso não estupre sua carteira para preservar o meio ambiente.

Acrescenta aí: XI - desenvolverás sustentavelmente

Em outras palavras, caro leitor: o Novo Código Florestal Brasileiro, apesar de absurdo (eu ainda concordo com isso, por gentileza, não me pendure numa cruz invertida), mostra, além de suas linhas, um anseio brasileiro por um desenvolvimento e um crescimento econômico diferente do que aquele imposto há 19 anos, e que, especialmente no caso brasileiro, sempre se apresentou como um atravanco aos novos projetos nacionais. O Novo Código Florestal Brasileiro evidencia o que sempre se soube: este é, de fato, um país diferenciado, que precisa de políticas e diretrizes ambientais próprias, elaboradas dentro de nossa própria realidade, além dos discursos óbvios e especialmente nocivos para certos setores sociais e econômicos.

Discorde, sim, caro leitor, mas entenda que, apesar do absurdo, é uma das primeiras tentativas de identidade e diferenciação brasileira perante todos os outros (quer pensar nisso? clica aqui). Discorde, mas não negue: o Novo Código Florestal pode mostrar ao mundo o que é o Brasil procurando não ter “aquela velha opinião formada sobre tudo” (ah, bons tempos da música nacional…)

Sim, caro leitor. Algo importante sempre está rolando em Brasília, e acho que insistir no seu interesse por isso, como faço em todos os outros posts, é chover no molhado. Você já sabe o que penso a respeito, você imaginou como esse novo texto iria acabar. Mas, de fato, essa semana que entra agora merece atenção, acredite. Portanto, acompanhe!

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ADENDO DO AUTOR: Elaborei esse texto baseado no que apresentei como minha opinião em um interessantíssimo debate sobre o Novo Código Florestal Brasileiro, realizado na ONG Cursinho Professor Chico Poço ontem, dia 14 de maio, e que contou com as brilhantes participações de algumas pessoas, as quais faço questão de mencionar e prestar tributo: Gabrieli Simões (queridíssima); Júlio Simões, que me arrumou o videozinho do começo desse post (esse menino vale ouro); Ícaro Pupo (grande parceiro, nobre colega deste espaço); Victor Augusto e Rafael Assis (amigos queridos, colegas de disciplina).

Enriqueceram a discussão de forma extasiada, impressionante, me ajudaram em muito no amadurecimento de minha idéia sobre o tema proposto, e quero muito colocar aqui, a todos eles, bem como aos alunos que contribuiram, meus mais sinceros agradecimentos. Valeu mesmo moçada, de coração! Grande abraço!

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