Crônicas de um país sem sobrenome

Semana entra, semana sai, e sempre uma nova pataquada acontece nos corredores de Brasília. As dessa semana foram, claro, o panfleto anti-gay do Jair Bolsonaro (e minha opinião a respeito você pode ver aqui), e as discussões acaloradas, com direito a torcida organizada dentro e fora do Congresso, sobre o tal Novo Código Florestal Brasileiro.

É, eu sei, você ainda não sabe do que se trata esse documento, prestes a ser aprovado. Você ouve “floresta” e “código” e pensa em 4, 8, 15, 16, 23, 42… Caso você, leitor, tenha o desejo de conhecer o documento na íntegra, é só clicar aqui e testar sua paciência. Caso contrário, assista o vídeo aí embaixo, elaborado pela SOS Florestas, é mais divertido e didático que qualquer linha que eu tentasse propor a respeito:

A não ser que você tenha algum ódio mortal e infundado por florestas nativas (ou tenha mesmo um parafuso a menos), certamente ficou alarmado com a proposta do tal Novo Código Florestal Brasileiro, a ser votado a qualquer momento. E há que se ressaltar, logo de imediato, que este blogueiro que vos escreve tem suas faculdades mentais perfeitamente preservadas, e não demonstra sentimentos negativos por espécies vegetais, só queria demonstrar alguns pontos que, modestamente, acha relevante.

Discorde radicalmente do Novo Código Florestal Brasileiro. Eu discordo. Seja radical, elabore discursos que levem o ouvinte às lágrimas, se amarre em uma sequóia gigante. Não negue, no entanto, que essa proposta de manejo das florestas brasileiras traz em seu escopo uma ideologia que, como diz o vídeo, vai na contramão de tudo o que foi até então feito, e aos desavisados, adianto desde já que não me refiro à futura preservação/destruição das nossas florestas, do ecossistema, do verdinho – e mais uma lágrima rola em meu rosto.

Antes de tudo, o Novo Código Florestal Brasileiro vai numa contramão absolutamente política, a partir do momento em que propõe níveis de desmatamento maiores que o aceitável para o tal “Desenvolvimento Sustentável”, proposto na ECO-92, olha só, no Brasil (e calcado aqui em letras maiúsculas por ter se tornado, ao longo do tempo, quase um ser onipresente em qualquer discurso ambiental). Como o Brasil, símbolo máximo de país que tem a obrigação suprema de cuidar de suas reservas naturais, pode propor algo tão radical?

A proposta de reformulação do Novo Código Florestal Brasileiro mostra, acima de tudo, a falência do monstro do “desenvolvimento sustentável” no Brasil. Há 19 anos, o país tem, jogado em sua cabeça, um discurso que, no caso brasileiro, é fator altamente limitante de seu crescimento econômico. Não se engane, leitor: desenvolver sustentavelmente é algo além do bolso das possibilidades brasileiras, e dessa forma, foi-se alcunhado na testa do agricultor nacional que será ele um vilão demoníaco caso não estupre sua carteira para preservar o meio ambiente.

Acrescenta aí: XI - desenvolverás sustentavelmente

Em outras palavras, caro leitor: o Novo Código Florestal Brasileiro, apesar de absurdo (eu ainda concordo com isso, por gentileza, não me pendure numa cruz invertida), mostra, além de suas linhas, um anseio brasileiro por um desenvolvimento e um crescimento econômico diferente do que aquele imposto há 19 anos, e que, especialmente no caso brasileiro, sempre se apresentou como um atravanco aos novos projetos nacionais. O Novo Código Florestal Brasileiro evidencia o que sempre se soube: este é, de fato, um país diferenciado, que precisa de políticas e diretrizes ambientais próprias, elaboradas dentro de nossa própria realidade, além dos discursos óbvios e especialmente nocivos para certos setores sociais e econômicos.

Discorde, sim, caro leitor, mas entenda que, apesar do absurdo, é uma das primeiras tentativas de identidade e diferenciação brasileira perante todos os outros (quer pensar nisso? clica aqui). Discorde, mas não negue: o Novo Código Florestal pode mostrar ao mundo o que é o Brasil procurando não ter “aquela velha opinião formada sobre tudo” (ah, bons tempos da música nacional…)

Sim, caro leitor. Algo importante sempre está rolando em Brasília, e acho que insistir no seu interesse por isso, como faço em todos os outros posts, é chover no molhado. Você já sabe o que penso a respeito, você imaginou como esse novo texto iria acabar. Mas, de fato, essa semana que entra agora merece atenção, acredite. Portanto, acompanhe!

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ADENDO DO AUTOR: Elaborei esse texto baseado no que apresentei como minha opinião em um interessantíssimo debate sobre o Novo Código Florestal Brasileiro, realizado na ONG Cursinho Professor Chico Poço ontem, dia 14 de maio, e que contou com as brilhantes participações de algumas pessoas, as quais faço questão de mencionar e prestar tributo: Gabrieli Simões (queridíssima); Júlio Simões, que me arrumou o videozinho do começo desse post (esse menino vale ouro); Ícaro Pupo (grande parceiro, nobre colega deste espaço); Victor Augusto e Rafael Assis (amigos queridos, colegas de disciplina).

Enriqueceram a discussão de forma extasiada, impressionante, me ajudaram em muito no amadurecimento de minha idéia sobre o tema proposto, e quero muito colocar aqui, a todos eles, bem como aos alunos que contribuiram, meus mais sinceros agradecimentos. Valeu mesmo moçada, de coração! Grande abraço!

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Comentários em: "O código, a floresta e a selva do planalto" (4)

  1. Ícaro Pupo disse:

    Divergências de opinião à parte, excelente texto, leitura bastante agradável.

    Agora … olha os numeros romanos aí rsrsrs

  2. Saudades do grande Galeoti!!! Muito bom o blog cara parabéns!!! Preciso voltar a Jundiaí e visitar a o Chico Poço faz muito tempo que não passo lá!!!

    Bom como quase um biólogo discordo de alguns pontos mas tá beleza!! Ficou muito bom o texto!!!

    Abraços

  3. A principal discordância que tenho com este artigo é que o “agricultor nacional” no meu ponto de vista é uma categoria que cada vez se aproxima mais do desaparecimento. Não foram entretanto as leis ambientais (que realmente precisavam de atualizações em diversos pontos, calcanhar de aquiles usados pelos representantes de setores da agroindústria para fazer valer seus interesses) os maiores responsáveis por isto, mas sim a concentração fundiária e a formação dos modernos grupos empresariais rurais pesadamente subsidiados por verbas governamentais (como através do programa Pro-Alcool) e simultaneamente cada vez mais controlado pelo capital internacional. Que desenvolvimento é este que está sendo levado ao campo brasileiro por estes grupos? A expulsão em massa dos pequenos e médios agricultores originais, o inchamento das periferias das pequenas e média cidades interioranas, a erosão descontrolada e a contaminação generalizada das fontes de águas potáveis? Não criemos ilusões: se este projeto ligado ao agronegócio fornece empregos para um relativamente restrito número de profissionais especializados (não nego sua relevância em números absolutos, mas sua soma é muito inferior a dos agricultores originais desalojados) e gera arrecadação e verbas para o governo (que em grande parte serão usadas para subsidiar o próprio agronegócio, mas enfim…) seus amplos impactos sociais e ambientais em muito superam os supostos “benefícios”. Quem dera que no lugar disto tudo o paradigma adotado para modernizar o campo brasileiro tivesse sido pautados por iniciativas como o Projeto Floram do já saudoso professor Ab`Saber, estes sim capazes de conciliar melhoria material do padrão de vida com qualidade de vida e impactos relativamente reduzidos.

    • Fora a fragilidade de toda esta gigantesca estrutura que se expande pelo interior brasileiro, já que volta-se basicamente para o mercado de exportações (a maior parte da demanada interna de alimentos é fornecida por pequenas e médias propriedades, com especial participação de assentamentos oriundos da limitada reforma agrária já obtida). Uma vez que caiam os preços das principais comodities agrícolas brasileiras, irá se criar um rastro gigantesco de ondas de desemprego e cidades fantasmas de fazer inveja as Cidades Mortas de Monteiro Lobato. O Novo Código Florestal, se confirmado, não fortalecerá o agricultor nacional: pelo contrário, irá fragiliza-lo e fazer acelerar sua caminhada rumo a semi-aniquilação diante do avanço intensificado dos grandes grupos – capa vez mais concentrados e centralizadores – do agronegócio, que de brasileiro cada vez mais tem só o nome face seu controle crescentemente deslocado para grupos de investimentos internacionais. A posse das terras, da estrutura agrária e dos lucros passageiros serão cada vez mais deslocados mas os duradouros impactos ficarão pelo campo brasileiro mesmo – e por um tempo muito mais longo que seus superficiais aparentes benefícios.

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