Crônicas de um país sem sobrenome

Durante as últimas semanas temos assistido a um espetáculo protagonizado por uma parcela da sociedade que vai às ruas contestar um dispositivo legal, e no Brasil tem sido interpretado pelos orgãos coercitivos como apologia ao crime, quase uma institucionalização do tráfico de drogas. Entretanto, a Marcha Global da Maconha representa mais que contestação, é uma busca pelos direitos individuais, representa o interesse coletivo de grupos sociais e, acima de tudo, é a luta em defesa da expansão da democracia.

A semente de toda essa mobilização e rebuliço em nível global é a planta Cannabis sativa, ou cânhamo, ou maconha, ou tantos outros nomes populares. Originária do continente asiático (provavelmente norte do Afeganistão), é utilizada há pelo menos 8 mil anos, isso mesmo caro leitor, OITO MIL ANOS. Desde as cordas e velas dos navios gregos até a medicina chinesa e indiana (curava prisão de ventre, malária, reumatismo e dores menstruais, além de ser utilizada como artefato religioso para os hindus se encontrarem com Shiva) sua fibra era vastamente empregada. Com isso a planta começou a fazer sucesso na Europa e África.

Provavelmente a maconha tenha sido introduzida no território brasileiro pelos escravos africanos que disseminaram seu uso não médico entre os índios, que passaram a plantar o cânhamo, e as camadas mais pobres da população, portanto não atingia a elite da época, exceto talvez pela alegação de que Carlota Joaquina (esposa do Rei D. João VI) teria o hábito de tomar chá de maconha enquanto vivia aqui no Brasil.

Da segunda metade do século XIX até a decada de 1930 a maconha era utilizada medicinalmente como remédio contra “asthma, catarrhos, insomnia, roncadura, flatos.” Porém, nessa mesma década  houve intensificação da repressão ao seu uso, possivelmente em decorrencia de um delegado brasileiro que, numa Conferência em 1924, em Genebra, sobre o ópio e a coca, ousou ao confrontar o uso da maconha devido aos estudos que confirmavam efeitos psicoativos.

Desde então o que ocorre é a ilegalização e criminalização da maconha, resultando na marginalização de seus usuários, tidos como criminosos, financiadores do tráfico, más companhias, ou seja, a sociedade passa a vê-los como maus elementos, imorais e inimigos dos bons costumes.

Policial utilizando spray de pimenta.

Contudo, desde meados dos anos 90 vemos uma mobilização popular em defesa da abertura das instituições e leis para que a maconha possa ser estudada para trazer novos conhecimentos à medicina, para que possa ser comercializada de forma legal, controlada e regulamentada, sem que o usuário tenha que se expor aos riscos de lidar com narcotraficantes violentos seja dos morros cariocas ou das favelas paulistas.  A regulamentação seria benéfica também na luta contra a economia do tráfico. Atualmente o traficante tem 1500% de lucro com a venda de um quilo da droga (é comprado por cerca de R$300,00 e vendido por R$5.000,00 aos usuários).

Bala de Borracha: Não mata, não é violento?

Entretanto, o que estamos assistindo no Rio de Janeiro e, principalmente, em São Paulo é uma repressão extremamente violenta aos defensores da descriminalização e legalização da maconha sob a alegação de apologia ao crime. O Tribunal de Justiça de São Paulo está deturpando o sentido da marcha, revelando uma atitude antidemocrática reprimindo o poder de contestação e a liberdade de expressão de pensamento, ambos previstos em lei.

Ameaça

O Brasil, país que caminha para a plena consolidação de sua democracia, ainda é palco para atitudes descompensadas e desproporcionais. As repressões que vemos são o reflexo da oligofrenia autoritária incompatível com nosso regime político. Não podemos deixar a ditadura escalafobética reprimir o livre pensamento.

Isso é mesmo necessário?

*Imagens retiradas de um vídeo feito pela equipe do Folha Tv.

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Comentários em: "A semente da discórdia e a autoridade insana" (1)

  1. Rafael Galeoti disse:

    E o bacana é que ainda tem quem diga que a ditadura foi há taaaaaanto tempo…
    Bom texto carinha! Abraço!

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