Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para junho, 2011

Lembranças do Ribeira

NOTA DO AUTOR: Não, amigo visitante, o texto abaixo não é nada novo, e caso você me conheça pessoalmente, é bem possível que já tenha lido algo semelhante em algum outro lugar, ou já tenha perdido a paciência com meus relatos encharcados a respeito. Pra você, aviso de antemão que não haverá coisas novas nas linhas abaixo. Caso queira ler novamente, no entanto, tenha a gentileza, eu lavo minhas mãos.

Fato é que o Luis Renato, um grande amigo de longos tempos, pediu-me nos idos de 2009 que fizesse um relato acerca de minhas experiências no Projeto Rondon, iniciativa do Governo Federal para “integração” das áreas mais remotas do Brasil. Eu fui rondonista da Operação Vale do Ribeira, e estive na zona sul do Estado de São Paulo por quinze dias em 2006. Ele montou um blog para propagar a ideia de formar um grupo e inscrever um projeto de sua faculdade para o Ministério da Defesa, órgão responsável pela empreitada.

As linhas abaixo, relembradas recentemente, foram escritas com o intuito de atender esse pedido. Tenho consciência, sim, que elas são embargadas, encharcadas, e fogem de uma racionalidade até então imposta como prerrogativa para este autor neste espaço. Hoje, no entanto, vejo-as como absolutamente pertinentes também para a proposta desse nosso modesto blog de reflexão sobre o Brasil: há um pouco de Tapiraí em qualquer lugar, há um pouco dessa frieza tapiraiense em qualquer brasileiro.

Ao Luís Renato: um grande abraço meu irmão! Saudades de tê-lo junto em uma mesa de bar, ocasião pra mim sempre fantástica! Fica com Deus!

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Três anos se passaram após minha experiência no Projeto Rondon, quando fui enviado com completos desconhecidos (hoje grandes amigos) à cidade de Tapiraí, um ponto isolado do mundo no Vale do Ribeira, cá mesmo em São Paulo, o estado mais rico da Federação. Hoje, 10 de setembro de 2009, outro grande amigo, co-autor deste blog, lança em mim uma provocação: relatar minha experiência. Sequer imaginava que ainda tinha em mim as angústias de uma experiência que, sem medo de exageros, deu a mim a oportunidade de ter uma nova visão acerca do mundo em que me encontro: não sabia que sentiria de novo, com a mesma força de um soco recém-tomado na boca do estômago, o mesmo nó na garganta que senti por 15 dias e que acompanharam (acompanham) meu desenvolvimento profissional e pessoal como um cara mudado, diferente… como não se nega convite de amigo, cá estou, debruçado na frente de um computador, vendo o piscar interminável do cursor do meu editor de textos, com tanto a dizer que me é tarefa ingrata achar algum ponto específico e dizer: aqui eu começo meu relato… dando-me o direito desmedido de certa comodidade, opto pela linha temporal dos fatos, peço-te desculpas por este enfadonho primeiro parágrafo e inicio a seguir meu depoimento.

Fui convidado a participar do Rondon apenas uma semana antes do início da operação. Outro colega não poderia mais participar. Aceitei o convite na mesma hora: 15 dias de viagem, espairecer idéias, respirar novo ar, sem quaisquer custos, exatamente o que precisava, momento tenso de minha vida. Uma semana “googlando” tudo o que poderia sobre a tal Tapiraí. Mata Atlântica intocada e exuberante, cachoeiras de todos os tamanhos e gostos, clima de interior. Semana seguinte, malas feitas, grupo unido, embarque.

Estranhamento geral no desembarque da cidade… aparentemente, tratava-se de um vilarejo tranquilo, de ruas simpáticas e bucólicas. Por que uma equipe de Rondon em Tapiraí afinal? Nada ali lembrava os baixíssimos índices numéricos vistos nas minhas “googladas”, a situação social precária do Vale do Ribeira. Aos poucos, no entanto, tal realidade fez-se diferente. Os números do Google, frios e quantitativos, só fazem sentido quando sentidos na pele. Qual não era a surpresa quando cada casa visitada, nos pontos mais afastados do bucolismo do centrinho da cidade, constatava a fome, a desnutrição, os inúmeros focos de transmissão de doenças, a precária estrutura de saúde pública, o desemprego de mais de 70% da população, a má distribuição de renda, o analfabetismo, a violência, os desrespeitos com os direitos da criança e do adolescente, fatores e situações que, amargamente, constatei, junto com minha equipe, tratar-se de algo existente somente em discursos e longos documentos da prefeitura local.

Eu vi esgoto despejado sorrateiramente no único rio que abastece a cidade. Há menos de 50 metros da principal cachoeira, a única diversão de muitas crianças locais. Eu vi uma senhora que sofria há dois anos com sarna. Ela nunca pôde ir ao médico: não há médicos. Eu vi uma jovem mãe desempregada cujo único dinheiro mirrado de todo mês serve pra comprar cachaça, servida maternalmente todas as noites aos seus filhos pequenos para que estes consigam dormir com a dor da fome. As vezes, ela também tomava, pra matar a sua própria dor. Eu vi um jovem agente de saúde andar 15 quilômetros diários para atender meia dúzia de idosos nos bairros mais afastados da cidade. Todos os demais agentes de saúde haviam desistido. Eu vi um jovem senhor rezar todos os dias para que sua casa não caísse no enorme barranco que se abria cada vez mais a cada chuva, há menos de 5 metros da parede do quarto de seus filhos. Ele não tem para onde ir. Eu vi crianças de todos os tamanhos ofegantes, correndo às pressas em nossa direção com brilhos profundos nos olhos. Alguém espalhou um boato de que distribuiríamos meia bala e meio copo de guaraná pra cada um. Eu vi um menino de apenas 6 anos que há menos de uma semana havia sido brutalmente violentado por seu próprio pai alcoolizado. Ainda rezo todos os dias para que ele cresça com o mínimo de decência: ninguém na cidade sequer sabe o que é o trabalho de um psicólogo ou um psiquiatra. Até hoje não sei se alguém em Tapiraí chora, só o que vi foi a frieza da naturalidade em cada rosto observado. Quanto a mim, parei de chorar pelo meu desespero, frente à tanta impotência.

Caro amigo, se me pergunta hoje se voltaria ao Rondon, ou se viveria novamente as chocantes experiências parcamente relatadas aqui, tenho a impressão que não saberia te responder. Foram para mim 15 dias realmente muito sofridos, mas que me obrigaram a repensar as minhas tristezas, os climas tensos que passei antes da viagem. Não tenho mais a coragem necessária para sofrer com minhas pequenas perdas cotidianas, meu baixo salário, as brigas com minha família ou minha namorada. Não faz mais sentido. Mas se por outro lado me pergunta se vale a pena, as dúvidas desaparecem e digo: vá ao Rondon, de coração aberto. Você jamais será o mesmo, e será lembrado disso sempre que algum bom amigo lhe propor o desafio de recordar os motivos.

Rafael Galeoti de Lima

Mestre Geógrafo – UNICAMP

Participante da Operação Vale do Ribeira, 14/07 a 01/08 de 2006

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Eles: os reis do Brasil

Você não os conhece. Eles, no entanto, te conhecem muito bem, acredite. Eles sabem o que você pensa, sente, enxerga. Eles te resumem a um conjunto de equações simplificadas – e são muito eficientes nisso. Acredite, caro amigo: eles vão dominar o mundo.

Eles: os publicitários. Profissionais formados pelas mais altas faculdades e universidades brasileiras com a habilidade, arduamente estudada, de fazer você engolir qualquer opinião. Repetindo: QUALQUER opinião. Basta uma pequena mudança aqui e acolá de seu produto à venda (pode ser biscoito, cerveja, jogador de futebol – político), pra deixar mais com a cara do “público-alvo”, e bingo! Produto vendido. Basta um ou outro ajuste (leia-se entrevista no Fantástico) para quebrar uma imagem negativa criada bruscamente por alguma cagada homérica de seu produto.

E é assim que o público vê uma menina eternamente virgem tentar virar uma devassa do dia pra noite (você até achou estranho, mas nunca mais deixou de associar o rótulo da marca à imagem da menina purinha que, obviamente, todos querem comer); o Governo Obama sair completamente ileso (e aplaudido) após matar UM ÚNICO cara dentre tantos americanos mortos no Oriente Médio; o Brasil todo aplaudir de pé a despedida de um cara que, no final da carreira, tinha como única tarefa emagrecer (e não conseguiu) e fazer todos esquecerem seus escândalos homossexuais (e não conseguiu). Enfim, todos aplaudiram.

O que isso tem a ver com o Brasil? Essa é simples. Potencialize esse efeito publicitário nas massas sem instrução do Brasil, e você terá o cenário perfeito para a dissimulação e geração de QUALQUER opinião pública, fazendo esta parecer óbvia e ululante desde sua concepção. E se alguém tem o cérebro e o coração do povo, de fato tem o ouro do país em mãos. São nossos verdadeiros reis, profissionais em reescrever a história da nação da forma como bem desejar. O cara que manipula o povo é bom, mas aqui no Brasil é chutar cachorro morto!

Quer ver? Pense em Fernando Collor (cuja entrada E SAÍDA do poder se deram por pura influência da Globo mídia sobre qualquer marcha pró-impeachment), FHC (visto com bons olhos até seu sucessor ter mais carisma e ele se tornar o mais novo FDP maconheiro nacional), e agora, Antonio Palocci (ninguém conseguiu provar nada dele – aliás, fosse provar fraude por fraude de todos, não sobrava alma viva no Planalto). Sim, amigo: até o que você NÃO gosta também é ditado por pessoas atrás dos holofotes, gente que você nunca viu o rosto mas que sabe o que você pensa, sonha, respira. Colocam na sua roda de amigos (ou no seu elevador) o assunto que quiserem, da forma que quiserem, e fazem você acreditar que foi VOCÊ que elaborou sua opinião sozinho. Eles: os donos da nação.

Uma prévia observação? Não é destas linhas que sairá uma crítica explícita aos publicitários, tenho vários amigos no ramo e, se tudo isso acontece, é apenas por competência deste profissional. Da mesma forma, não estou defendendo causa alguma, político algum, mandato algum, partido algum (ok, talvez apenas o fato de querer comer a Sandy, o que não é deveras novidade pra nenhum marmanjo geneticamente macho). Peço ao leitor que, se ainda estiver por aqui, e se ainda não estiver convencido do que disse acima, dê uma olhada aí abaixo e acredite: existem apenas dois seres humanos retratados nas imagens.

Acredita agora que, as vezes, um produto precisa de um tapinha para ser vendido?

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