Crônicas de um país sem sobrenome

Lembranças do Ribeira

NOTA DO AUTOR: Não, amigo visitante, o texto abaixo não é nada novo, e caso você me conheça pessoalmente, é bem possível que já tenha lido algo semelhante em algum outro lugar, ou já tenha perdido a paciência com meus relatos encharcados a respeito. Pra você, aviso de antemão que não haverá coisas novas nas linhas abaixo. Caso queira ler novamente, no entanto, tenha a gentileza, eu lavo minhas mãos.

Fato é que o Luis Renato, um grande amigo de longos tempos, pediu-me nos idos de 2009 que fizesse um relato acerca de minhas experiências no Projeto Rondon, iniciativa do Governo Federal para “integração” das áreas mais remotas do Brasil. Eu fui rondonista da Operação Vale do Ribeira, e estive na zona sul do Estado de São Paulo por quinze dias em 2006. Ele montou um blog para propagar a ideia de formar um grupo e inscrever um projeto de sua faculdade para o Ministério da Defesa, órgão responsável pela empreitada.

As linhas abaixo, relembradas recentemente, foram escritas com o intuito de atender esse pedido. Tenho consciência, sim, que elas são embargadas, encharcadas, e fogem de uma racionalidade até então imposta como prerrogativa para este autor neste espaço. Hoje, no entanto, vejo-as como absolutamente pertinentes também para a proposta desse nosso modesto blog de reflexão sobre o Brasil: há um pouco de Tapiraí em qualquer lugar, há um pouco dessa frieza tapiraiense em qualquer brasileiro.

Ao Luís Renato: um grande abraço meu irmão! Saudades de tê-lo junto em uma mesa de bar, ocasião pra mim sempre fantástica! Fica com Deus!

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Três anos se passaram após minha experiência no Projeto Rondon, quando fui enviado com completos desconhecidos (hoje grandes amigos) à cidade de Tapiraí, um ponto isolado do mundo no Vale do Ribeira, cá mesmo em São Paulo, o estado mais rico da Federação. Hoje, 10 de setembro de 2009, outro grande amigo, co-autor deste blog, lança em mim uma provocação: relatar minha experiência. Sequer imaginava que ainda tinha em mim as angústias de uma experiência que, sem medo de exageros, deu a mim a oportunidade de ter uma nova visão acerca do mundo em que me encontro: não sabia que sentiria de novo, com a mesma força de um soco recém-tomado na boca do estômago, o mesmo nó na garganta que senti por 15 dias e que acompanharam (acompanham) meu desenvolvimento profissional e pessoal como um cara mudado, diferente… como não se nega convite de amigo, cá estou, debruçado na frente de um computador, vendo o piscar interminável do cursor do meu editor de textos, com tanto a dizer que me é tarefa ingrata achar algum ponto específico e dizer: aqui eu começo meu relato… dando-me o direito desmedido de certa comodidade, opto pela linha temporal dos fatos, peço-te desculpas por este enfadonho primeiro parágrafo e inicio a seguir meu depoimento.

Fui convidado a participar do Rondon apenas uma semana antes do início da operação. Outro colega não poderia mais participar. Aceitei o convite na mesma hora: 15 dias de viagem, espairecer idéias, respirar novo ar, sem quaisquer custos, exatamente o que precisava, momento tenso de minha vida. Uma semana “googlando” tudo o que poderia sobre a tal Tapiraí. Mata Atlântica intocada e exuberante, cachoeiras de todos os tamanhos e gostos, clima de interior. Semana seguinte, malas feitas, grupo unido, embarque.

Estranhamento geral no desembarque da cidade… aparentemente, tratava-se de um vilarejo tranquilo, de ruas simpáticas e bucólicas. Por que uma equipe de Rondon em Tapiraí afinal? Nada ali lembrava os baixíssimos índices numéricos vistos nas minhas “googladas”, a situação social precária do Vale do Ribeira. Aos poucos, no entanto, tal realidade fez-se diferente. Os números do Google, frios e quantitativos, só fazem sentido quando sentidos na pele. Qual não era a surpresa quando cada casa visitada, nos pontos mais afastados do bucolismo do centrinho da cidade, constatava a fome, a desnutrição, os inúmeros focos de transmissão de doenças, a precária estrutura de saúde pública, o desemprego de mais de 70% da população, a má distribuição de renda, o analfabetismo, a violência, os desrespeitos com os direitos da criança e do adolescente, fatores e situações que, amargamente, constatei, junto com minha equipe, tratar-se de algo existente somente em discursos e longos documentos da prefeitura local.

Eu vi esgoto despejado sorrateiramente no único rio que abastece a cidade. Há menos de 50 metros da principal cachoeira, a única diversão de muitas crianças locais. Eu vi uma senhora que sofria há dois anos com sarna. Ela nunca pôde ir ao médico: não há médicos. Eu vi uma jovem mãe desempregada cujo único dinheiro mirrado de todo mês serve pra comprar cachaça, servida maternalmente todas as noites aos seus filhos pequenos para que estes consigam dormir com a dor da fome. As vezes, ela também tomava, pra matar a sua própria dor. Eu vi um jovem agente de saúde andar 15 quilômetros diários para atender meia dúzia de idosos nos bairros mais afastados da cidade. Todos os demais agentes de saúde haviam desistido. Eu vi um jovem senhor rezar todos os dias para que sua casa não caísse no enorme barranco que se abria cada vez mais a cada chuva, há menos de 5 metros da parede do quarto de seus filhos. Ele não tem para onde ir. Eu vi crianças de todos os tamanhos ofegantes, correndo às pressas em nossa direção com brilhos profundos nos olhos. Alguém espalhou um boato de que distribuiríamos meia bala e meio copo de guaraná pra cada um. Eu vi um menino de apenas 6 anos que há menos de uma semana havia sido brutalmente violentado por seu próprio pai alcoolizado. Ainda rezo todos os dias para que ele cresça com o mínimo de decência: ninguém na cidade sequer sabe o que é o trabalho de um psicólogo ou um psiquiatra. Até hoje não sei se alguém em Tapiraí chora, só o que vi foi a frieza da naturalidade em cada rosto observado. Quanto a mim, parei de chorar pelo meu desespero, frente à tanta impotência.

Caro amigo, se me pergunta hoje se voltaria ao Rondon, ou se viveria novamente as chocantes experiências parcamente relatadas aqui, tenho a impressão que não saberia te responder. Foram para mim 15 dias realmente muito sofridos, mas que me obrigaram a repensar as minhas tristezas, os climas tensos que passei antes da viagem. Não tenho mais a coragem necessária para sofrer com minhas pequenas perdas cotidianas, meu baixo salário, as brigas com minha família ou minha namorada. Não faz mais sentido. Mas se por outro lado me pergunta se vale a pena, as dúvidas desaparecem e digo: vá ao Rondon, de coração aberto. Você jamais será o mesmo, e será lembrado disso sempre que algum bom amigo lhe propor o desafio de recordar os motivos.

Rafael Galeoti de Lima

Mestre Geógrafo – UNICAMP

Participante da Operação Vale do Ribeira, 14/07 a 01/08 de 2006

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