Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para julho, 2011

A inércia e os almofadinhas do caos

E todo santo dia, lá por perto das três da tarde, começam os freak-shows da realidade brasileira. Programas da TV aberta de diversas emissoras, de comentaristas e apresentadores bufantes, exaltados, de tom de voz sempre alto e indignado, aparados por uma equipe de “jornalismo” disputando clique a clique as notícias mais bizarras do cotidiano da violência no Brasil (ou frequentemente, mostrando exatamente as mesmas imagens que seus concorrentes). Vez ou outra, um flash ao vivo de algum helicóptero mostrando carros de polícia costurando o trânsito, em busca de sabe-se lá o que. De forma alguma, no entanto, perde-se esse tom de “severidade da notícia”, embargado sempre por aquele mesmo tom de voz crítico, inconformado, revoltado.

Assisti-los é um convite ao ódio, ao medo, à indignação. Os freak-shows da realidade brasileira causam ao espectador o pavor de sentir-se inseguro ao apenas sair do conforto de sua casa (vez ou outra, nem isso: um ou outro sequestro ou assalto à residência). Eles, os apresentadores e comentaristas do caos (e em alguns casos, garotos-propaganda de iogurteiras e cogumelos do sol), engordando suas contas bancárias mês a mês, tornam-se ícones populares ao combate à impunidade. “Cadeia neles!” – grita um. “É um total absurdo!” – grita outro. Gente que você não conhece, não faz idéia de quem seja ou de qual formação tenha, mas que se sente na autoridade máxima de persuasivamente comentar qualquer assunto possível e imaginável. E rapidamente, esse sentimento de desespero e impotência dissemina-se aos espectadores e à sociedade brasileira, que assimila a informação tão passivamente como a preguiça de não trocar de canal pelo fato de o controle remoto estar na mesinha inalcançável do outro lado da sala.

Não, leitor, isso não é uma crítica aos agentes do caos televisivo da TV aberta. Até onde se saiba, independente de eles realmente pensarem dessa forma ou incorporarem um papel (magistralmente interpretado, diga-se), do ponto de vista legal isso ainda é um trabalho honesto, portanto, não posso aqui criticar os gordos salários, frutos dos altos retornos do IBOPE e dos patrocinadores (é, os cogumelos do sol). Lembremos que nossas queridas emissoras de TV, antes de sua função social, são acima de tudo empresas, que buscam retorno financeiro pelo entretenimento dos consumidores (é, você mesmo), e assim, os almofadinhas da revolta são, antes de geradores da polêmica, funcionários exemplares. E, embora a TV seja um elemento altamente persuasivo na formação de opinião popular (plim-plim), ninguém te obriga a concordar com aquilo que lhe é mostrado. Buscar o controle remoto do outro lado da sala pode ser um ótimo exercício de demonstrar sua insatisfação com a programação (quer pensar nisso? Clique aqui, vale recordar).

No entanto, caso decida não levantar seu corpanzil em direção à mesinha de canto do outro sofá, peço apenas que entenda que a questão colocada pelos apresentadores dos programas de sangue da TV aberta é absolutamente mais complexa que simplesmente botar todo criminoso na cadeia. Não amigo, não defendo nessas linhas a impunidade, apenas não entendo como uma emissora que a tarde quer mandar todos para atrás das grades faz a noite um documentário sobre a superpopulação carcerária em condições precárias, onde o ladrão da galinha do vizinho divide espaço com o homicida de vasta ficha criminal. Cadeia neles! – resolve? Nosso sistema criminal é eficiente na ressocialização dos presos?

E se nesse insight das imagens do programa documental da noite você incorpora o próprio almofadinha da tarde e pensa “bem feito pra eles, esses bastardos nojentos”, pense também em “se isso é cadeia, pra onde foi meu imposto?”. E se nesse fervor da punição dos bandidos você pensa “e eu ainda tenho que sustentar esses vagabundos”, pense também em “se eles trabalharem, alguém aqui fora perde o emprego”. Isso sem sequer mencionar a competência da polícia brasileira, incontestavelmente suspeita (está acompanhando o Caso Juan, menino preto e pobre da favela?). Viu como é difícil pensar numa solução? Ainda concorda que todos devem apodrecer na cadeia?

Se você, amigo leitor, chegou até aqui nesse texto, deve estar aguardando minha solução mágica pra todo esse “xabu”. Não tenho, nem tinha a intenção de tê-la. Apenas peço a você, caro amigo, que caso realmente esteja indisposto a levantar de seu sofá e buscar o controle do outro lado do cômodo, caso assuma a responsabilidade de ouvir os agentes do caos vespertino, tenha a sobriedade de entender que há uma complexidade muito maior por detrás daquilo que lhe é mostrado como revoltas e inconformidades com a realidade. Pense. Eu garanto: não é preciso mexer um só músculo pra isso.

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ADENDO DO AUTOR: E no final das contas, você acredita na recuperação e na reabilitação de um ex-criminoso? Pode usar os comentários pra refletir sobre isso, caso julgue pertinente. Eu, deixo Racionais MCs responder por mim:

Ah sim, o Rap nacional é uma paixão antiga desse que vos escreve.

12 perguntas para entender os novos estados brasileiros

Senhores leitores, é com prazer que lhes digo mais uma vez: boa noite!

Seguindo nossa já enorme linha dos posts “12 perguntas para entender alguma coisa”, o BdQ propõe agora algumas questões para que você, nosso ávido leitor (caiu aqui duas vezes na sua vida? É um ávido leitor – coisa anda feia, sabe?), entenda de uma vez toda essa confusão que alguns sites bastante conhecidos proliferaram nos últimos dias, sobre a formação de novos estados dentro do território brasileiro. Tudo de acordo com uma ociosidade criativa desse blogueiro rigorosa seleção das perguntas mais frequentes feitas por nossos leitores nos últimos dias. Esse é o SAC BdQ realizando novamente seu trabalho elucidativo sobre temas pertinentes do nosso Brasilzão, de forma absolutamente imparcial e alheia às opiniões pessoais de seus escritores. Bora lá:

1 – É verdade que tem novas propostas de novos estados querendo aparecer no mapa do Brasil?

Não. Tudo que vem sendo falado sobre o assunto em questão é, na verdade, uma conspiração dos Iluminati para alienar o povo brasileiro com questões que o distraiam da construção superfaturada do Itaquerão. E como uma mentira contada várias vezes torna-se uma verdade, você finalmente acreditou nessa teoria tão estúpida… Brincadeiras a parte, as novas propostas de estados brasileiros não são tão novas como os sites que divulgaram isso queriam fazer parecer. Ao todo, existem mais de 30 propostas de novas partilhas do território brasileiro, elaboradas ao longo dos últimos 30 anos e que, por um motivo ou outro, nunca foram levadas tão a sério como agora. Você que está esperando o mapinha das propostas existentes, segue o famigerado aí abaixo:

2 – Juruá, Oiapoque, Carajás, Araguaia,Tapajós, Gurguéia… que diabo é isso?

Sim, são nomes estranhos, difíceis de decorar e muito mais difíceis de dizer, mas que não deveriam provocar tanto estranhamento. Afinal, já temos Goiás, Tocantins, Piaui (cinco letras e uma só consoante!), nomes que são tão indígenas quanto os dos novos estados e que te soam naturais. Sim amigo, nomes indígenas! E repare bem, tem estado novo aí que já foi até nome de novela! Você se acostuma, aos poucos vai deixando de ser estranho, acredite!

3 – Quais as justificativas pra tudo isso?

Se você passou do estágio 1 da discussão, aquele famoso “Que legal, o novo mapa do Brasil” (sim, dentre nossos leitores existem os aficionados por mapas, eu sei), a pergunta mais óbvia pertinente da noite é: por que? E dentre essa discussão toda existem três respostas dentre as mais possíveis, que podem perfeitamente ser combinadas entre si. Vamos lá:

→ Motivo I: A área em questão é o “carro chefe” da economia estadual, onde se produz o maior número das riquezas estaduais, e como os impostos arrecadados nessa área são, em teoria, devolvidos para benfeitorias no estado como um todo, surge aí um separatismo, para que a tributação estadual da região seja revertida para benefícios nela mesma.

→ Motivo II: Exatamente o contrário. A área em questão é a porção do estado mais subdesenvolvida, com municípios dentre os menores IDHs do estado, e dessa forma, os governos municipais entendem que o poder estadual não investe suficientemente na região, gerando ali um novo movimento separatista.

→ Motivo III: Independente de 1 ou 2 estarem corretas, o motivo 3 ora apresentado é evidente, e vem do tal “repasse igualitário federal” para todos os estados da federação. Veja bem: o Governo Federal (aquele, de Brasília) repassa uma parte significativa dos impostos arrecadados ao longo do ano para os estados brasileiros investirem em melhorias internas, e esse repasse é absolutamente igual para qualquer estado, independentemente de tamanho da população ou de área. Separar um estado em dois (ou três, ou quatro – vamos ficar com o dois?), significa que, ao invés de a área receber do Governo Federal 1/27 do que é arrecadado no Brasil, passará a receber 2/28 da tributação repassada, coisa que os matemáticos (algum por aí?) podem explicar melhor que eu: pegue sua calculadora e veja, é uma quantia relativamente maior.

4 – Mas se a questão é tão cheia dos parâmetros financeiros, isso não daria uma baita briga entre o estado que já existe e o estado que quer aparecer?

É aí que entra a grande sacada dos mega-empresários e fazendeiros caras que pensaram nos projetos apresentados de separação dos novos estados brasileiros. Obviamente, o discurso realizado é tanto quanto diferente dos motivos descritos acima. Para que um novo estado apareça no seu mapa do Brasil, é necessário que antes ocorra um plebiscito nos municípios pertencentes ao “novo território” para que haja demonstração de interesse da população local na proposta. E aí surgem eles para panfletar e pontuar diversos outros motivos que, supostamente, fariam o cidadão acreditar na melhoria da sua vida pertencendo a um novo estado da federação. A coisa esbarra na cultura local, no desenvolvimento, dentre outros motivos. Quer um exemplo? Olha aí embaixo:

E aí, já secou as lágrimas?

5 – Espera aí… cultura???

Oh, nossa velha encrenca com a cultura… vá para a próxima pergunta, por favor?

6 – Por que a maioria desses projetos é no Norte, Nordeste e Centro-Oeste?

Essa resposta é muito simples: tratam-se das regiões mais pobres do Brasil, que precisam de novos incentivos federais, nem que seja na base do picote estadual para se desenvolver, e isso certamente você já sabia. O que você talvez não saiba é que esses territórios são permeados por grandes fazendas de grandes grupos corporativistas do agronegócio, que teriam na criação desses novos estados uma maior autonomia para poder fazer o que bem entender desenvolver suas atividades de forma mais economicamente dinâmica e ambientalmente sustentável (ela, a sustentabilidade. Clique aqui e pense melhor sobre isso).

7 – Isso já deu certo antes?

Já sim, e se você é um pouco mais velho que a geração internet, deve se lembrar de quando o Mato Grosso era uma coisa só, ou de quando não existia o Tocantins, criado da separação do estado de Goiás em 1988. Antes disso, o Tocantins era, de fato, a região mais pobre do estado de Goiás, representando, na época, apenas 3% do PIB goiano. Se anexado novamente a Goiás em dias atuais, no entanto, a mesma área corresponderia hoje a mais de 30% do PIB de Goiás. Parece que as coisas deram certo por lá, não é?

8 – E dessa vez, vai dar certo também?

Depende do que você chama de “certo”. Se para você o crescimento da produção de riquezas numa área é sinal de que as coisas deram “certo”, tudo indica que sim. Se os novos estados de fato surgirem, teremos novos territórios brasileiros voltados quase que exclusivamente para a extração vegetal e mineral, ou para o agronegócio, e independente do seu ponto de vista radicalista ou não acerca do assunto, é inquestionável que o tal primeiro setor da economia, que abrange essas atividades, rende, sim, um lucro bem gordo para os que dominam a produção e, claro, para o estado como um todo. Se para a população no geral isso trará benefícios, se essa renda se reverterá em recursos humanos para os moradores desses novos territórios, isso fica mais difícil de saber, melhor perguntar pra moça aí embaixo. Diz a lenda que ela acerta umas coisas sinistras de vez em quando…

9 – Por que tem gente que é contra?

Por dois motivos bem básicos. Em primeiro lugar, a criação de novos territórios no Brasil não é uma coisa que pode ser feita de graça. Imagine aí os custos para a criação de novos departamentos estaduais, novas eleições e, principalmente, toda a estrutura física que acompanha um poder estadual (ou alguém já viu algum “Governo do Estado de Qualquer Coisa” num puxadinho da casa de alguém?). Alguns nerds estudiosos fizeram as contas, e viram que o recurso que deve ser investido inicialmente para que o projeto de Tapajós comece a rodar, por exemplo, seria tão alto que o estado demoraria mais de 50 anos para recuperar os investimentos iniciais e seja economicamente sustentável. Cinquenta anos, é bastante, não? Em segundo lugar, tem aqueles que perceberam as intenções por detrás dos panfletos como o que mostrei acima, e imaginaram os novos estados como terras de ninguém, onde funcionaria somente o capitalismo do agronegócio como lei, com impactos bem grandes nos setores sociais locais. Vai aí um exemplo: o Araguaia, aquele do panfleto fofinho lá em cima, teria como governador provisório um senhor chamado Blairo Maggi, e não é necessário nada mais que a Wikipédia pra te dizer quem é esse sujeito: clique aqui, tire suas próprias conclusões.

10 – E esses estados, já tem bandeira e capital?

Amigo aficionado por bandeiras, tenha paciência, eu sei que eles já estarão pensando nisso quando os projetos forem aprovados. Com relação às capitais, a maioria desses estados teriam como sedes administrativas estaduais municípíos que hoje tem metade da população de Cajamar. Entendeu isso? Metade de Cajamar! Parece absurdo, mas o desenvolvimento desses novos estados poderia fazer surgir ali as novas metrópoles nacionais, a exemplo de Palmas, capital do até então mais novo estado brasileiro, que o Censo de 2010 mostrou ser a cidade cuja população tem os maiores índices de crescimento do Brasil. Quem sabe ainda seria possível um plano de desenvolvimento de Cajamar, vai saber…

11 – Eu posso fundar um estado novo na minha cidade?

Depende. Você é um grande fazendeiro, ou um político influente, ao menos um líder comunitário? Não, né? Próxima!

12 – O que eu faço com meu mapa atual do Brasil? Comprei novinho!

Enfia no… armário! Mantenha a calma, guarde seu mapa provisoriamente. Nada indica que essas mudanças serão efetuadas em 2011, e há grandes chances de isso não acontecer nem em 2012, daí o mundo acaba e, por motivos tanto óbvios, ninguém lembrará mais dos novos estados brasileiros. Sabe como é, a coisa no Brasil é deveras demorada, quem viu a “quase prisão” do Edmundo sabe do que estou falando. Outro post, talvez…

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