Crônicas de um país sem sobrenome

E todo santo dia, lá por perto das três da tarde, começam os freak-shows da realidade brasileira. Programas da TV aberta de diversas emissoras, de comentaristas e apresentadores bufantes, exaltados, de tom de voz sempre alto e indignado, aparados por uma equipe de “jornalismo” disputando clique a clique as notícias mais bizarras do cotidiano da violência no Brasil (ou frequentemente, mostrando exatamente as mesmas imagens que seus concorrentes). Vez ou outra, um flash ao vivo de algum helicóptero mostrando carros de polícia costurando o trânsito, em busca de sabe-se lá o que. De forma alguma, no entanto, perde-se esse tom de “severidade da notícia”, embargado sempre por aquele mesmo tom de voz crítico, inconformado, revoltado.

Assisti-los é um convite ao ódio, ao medo, à indignação. Os freak-shows da realidade brasileira causam ao espectador o pavor de sentir-se inseguro ao apenas sair do conforto de sua casa (vez ou outra, nem isso: um ou outro sequestro ou assalto à residência). Eles, os apresentadores e comentaristas do caos (e em alguns casos, garotos-propaganda de iogurteiras e cogumelos do sol), engordando suas contas bancárias mês a mês, tornam-se ícones populares ao combate à impunidade. “Cadeia neles!” – grita um. “É um total absurdo!” – grita outro. Gente que você não conhece, não faz idéia de quem seja ou de qual formação tenha, mas que se sente na autoridade máxima de persuasivamente comentar qualquer assunto possível e imaginável. E rapidamente, esse sentimento de desespero e impotência dissemina-se aos espectadores e à sociedade brasileira, que assimila a informação tão passivamente como a preguiça de não trocar de canal pelo fato de o controle remoto estar na mesinha inalcançável do outro lado da sala.

Não, leitor, isso não é uma crítica aos agentes do caos televisivo da TV aberta. Até onde se saiba, independente de eles realmente pensarem dessa forma ou incorporarem um papel (magistralmente interpretado, diga-se), do ponto de vista legal isso ainda é um trabalho honesto, portanto, não posso aqui criticar os gordos salários, frutos dos altos retornos do IBOPE e dos patrocinadores (é, os cogumelos do sol). Lembremos que nossas queridas emissoras de TV, antes de sua função social, são acima de tudo empresas, que buscam retorno financeiro pelo entretenimento dos consumidores (é, você mesmo), e assim, os almofadinhas da revolta são, antes de geradores da polêmica, funcionários exemplares. E, embora a TV seja um elemento altamente persuasivo na formação de opinião popular (plim-plim), ninguém te obriga a concordar com aquilo que lhe é mostrado. Buscar o controle remoto do outro lado da sala pode ser um ótimo exercício de demonstrar sua insatisfação com a programação (quer pensar nisso? Clique aqui, vale recordar).

No entanto, caso decida não levantar seu corpanzil em direção à mesinha de canto do outro sofá, peço apenas que entenda que a questão colocada pelos apresentadores dos programas de sangue da TV aberta é absolutamente mais complexa que simplesmente botar todo criminoso na cadeia. Não amigo, não defendo nessas linhas a impunidade, apenas não entendo como uma emissora que a tarde quer mandar todos para atrás das grades faz a noite um documentário sobre a superpopulação carcerária em condições precárias, onde o ladrão da galinha do vizinho divide espaço com o homicida de vasta ficha criminal. Cadeia neles! – resolve? Nosso sistema criminal é eficiente na ressocialização dos presos?

E se nesse insight das imagens do programa documental da noite você incorpora o próprio almofadinha da tarde e pensa “bem feito pra eles, esses bastardos nojentos”, pense também em “se isso é cadeia, pra onde foi meu imposto?”. E se nesse fervor da punição dos bandidos você pensa “e eu ainda tenho que sustentar esses vagabundos”, pense também em “se eles trabalharem, alguém aqui fora perde o emprego”. Isso sem sequer mencionar a competência da polícia brasileira, incontestavelmente suspeita (está acompanhando o Caso Juan, menino preto e pobre da favela?). Viu como é difícil pensar numa solução? Ainda concorda que todos devem apodrecer na cadeia?

Se você, amigo leitor, chegou até aqui nesse texto, deve estar aguardando minha solução mágica pra todo esse “xabu”. Não tenho, nem tinha a intenção de tê-la. Apenas peço a você, caro amigo, que caso realmente esteja indisposto a levantar de seu sofá e buscar o controle do outro lado do cômodo, caso assuma a responsabilidade de ouvir os agentes do caos vespertino, tenha a sobriedade de entender que há uma complexidade muito maior por detrás daquilo que lhe é mostrado como revoltas e inconformidades com a realidade. Pense. Eu garanto: não é preciso mexer um só músculo pra isso.

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ADENDO DO AUTOR: E no final das contas, você acredita na recuperação e na reabilitação de um ex-criminoso? Pode usar os comentários pra refletir sobre isso, caso julgue pertinente. Eu, deixo Racionais MCs responder por mim:

Ah sim, o Rap nacional é uma paixão antiga desse que vos escreve.

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