Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para setembro, 2011

12 dicas para montar seu estereótipo nacional

Daí a Globo (sempre ela…) passa, a cada dois minutos, aquela vinhetinha toda empolgadinha do “UO-Ô, UO-Ô-Ô-OW, WRÓ-QUIN-WRI-OOW!”, de um dos maiores festivais de rock mundial, com apresentações típicas do cenário roqueiro nacional e global, e que traz como principais atrativos ao público artistas de renome no cenário como… Ivete Sangalo e Cláudia Leitte (baiana de São Gonçalo/RJ que achou mais chique e menos povão dobrar o T de seu sobrenome e que, definitivamente, não toca WRÓKI)?

Afinal de contas, tudo o que tem Brasil tem que ter, quase que obrigatoriamente, uma relação tanto quanto rígida de acontecimentos. Segue a receita simplificada para o sucesso garantido de sua festa/evento temático brasileiro, com 12 ingredientes que jamais podem faltar, sob o risco de não se reconhecer o Brasil na sua imagem:

1 – Futebol. O grande campeão de audiência! Bota lá um peão qualquer com camisa amarela e bermuda azul fazendo embaixadinha, preferencialmente ao som de Skank, “uma partida de futebol” (oh, dor). Sucesso garantido, especialmente quando um brasileiro fora do país se irrita quando um gringo diz: “BRAZIL? ROWNALDOW, PELÊÊ, KÁKA…”

2 – Biodiversidade. Ok, um orgulho nacional, mas POR QUE RAIOS todo evento onde se quer simbolizar o Brasil tem uma menina com uma sucuri de borracha em volta do pescoço, vitórias-régias no cabelo e absolutamente nada nas nádegas? Não é a toa que a Capcom decidiu fazer ele aí embaixo a esquerda para que eu me sinta super bem representado no joystick. Também nunca entendi o lance de dar choque: pense como um bônus, sei lá…

Moradores da COHAB ali atrás gritando: "porradaaaa, porradaaaa"

3 – Cadernos Tilibra. Alusão aos cadernos vendidos em toda e qualquer papelaria dos anos 90, que sempre tinha um grupo de jovens, em sua maioria brancos, mas sempre com um ou dois negros abraçados fraternalmente, como se aceitos por igual no grupinho. Todos com um sorriso irritantemente branco-plutônio. Sim, você teve um caderno desses. Caso não tinha, ou tenha vergonha de admitir, você pode também chamar esse fenômeno de “Clichê Malhação”, dá na mesma. Jair Bolsonaro que o diga…

4 – Capoeira. Eu já nasci gingando, e você? Puxe um berimbau e coloque dois negros gigantes sem camisa e com óleo no tórax, daqueles que se vêem as veias saltadas nos braços, gingando capoeira. Pouco importa se o cenário simboliza a Ponte Estaiada de São Paulo (né, Miss Universo?), a capoeira é marco na cultura nacional. Se um deles tiver cabelos rastafári, o efeito é ainda melhor! Mas lembre-se, apenas um deles deve ter rastafári nos cabelos, para que ninguém diga que o Brasil fica na Jamaica (ou vice-versa).

5 – Obras públicas. Não se engane, brasileiro, você está, SIM, no país do futuro, haja visto as inúmeras obras públicas mostradas em todo e qualquer evento patrocinado por algum governo estadual ou por Brasília. Aquela coisa de um câmera num helicóptero dando rasante em Itaipu, ou nos dutos da Transposição do São Francisco, tocando uma musiquinha toda “prafrentex”, sabe?

6 – Leblon. Tenha a curiosidade de, um dia, se tiver a oportunidade, perguntar a um estrangeiro qualquer como ele pensa ser a vida de um brasileiro padrão, e surpreenda-se ao vê-lo narrar nosso cotidiano como o de uma Regina Duarte em horário nobre. Sim, eu já fiz isso, numa mesa com um peruano, um moçambicano e um francês, e foi uma das experiências mais estranhas e inusitadas que já passei ao conversar com alguém sobre meu país…

7 – MPB. Essa é pra quem quer pagar clichê dizendo “Tá vendo? Eu NÃO sou clichê”. Prova inconteste que, mesmo uma música boa, pode tornar-se insuportável quando repetida a exaustão por mais de 40 anos, e pela propaganda de uma imagem. Afinal de contas, o Brasil é inteiro uma praia de Ipanema, todos os nossos passeios tem calçamento de ondas e todos os biquínis são minúsculos em corpos exuberantes. Certo moça aí embaixo?

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...

8 – Lampião e Maria Bonita. O maior clichê interno que existe no Brasil, e também, a maior imagem que se quer passar para a grande maioria dos brasileiros, pessoas urbanas em grandes aglomerações sudestinas, que existe variedade cultural no Brasil. Ninguém nunca reparou que, ao que parece, o Maurício Kubrusly praticamente tem residência fixa no sertão cearense? Nada contra, mas um “Me Leva Brasil” mereceria mostrar algo mais que isso, não?

9 – AXÉ. Meu preferido. Alguém (plim-plim) um dia inventou que promover Ivete Sangalo e Cláudia Leitte (é, os dois T`s) é uma imagem bastante intere$$ante para o Brasil, e assim, soquemos as myladies mencionadas em aberturas e/ou encerramentos de quaisquer eventos criados em território nacional. Vez em quando, inventemos uma briguinha entre elas, só pra ficar mais interessante.

Eu grito "tira o pé do chão". Eu tenho uma guitarra. Pára gente, eu sou do rock!

10 – Roberto Carlos. Nada contra o rei, ao contrário, um excelente cantor, dono de canções memoráveis e, ao que demonstra, uma pessoa exemplar. Mas ter que ouvir “Nossa Senhora, me dê a mão, cuida do meu coração” em cada funeral de famoso e missa de feriado me faz sentir tão… católico?

11 – Bunda. Você já sabia, né? ÓBVIO que a bunda brasileira não poderia deixar de figurar nessa lista, afinal de contas, não é porque rezamos muito em nossos templos e cantamos “Jesus Cristo eu estou aqui” umas dez vezes ao ano que deixaremos de mostrar as nádegas, certo? Com ou sem photoshop, a bunda brasileira é cartão de visitas mundial. Quer vender, chamar a atenção? Bota uma bunda, sucesso garantido! Bate o olho no layout desse blog e muita coisa já se explica…

12 – Jingles bissextos. Sim amigo, eu me refiro àquela musiquinha de muito orgulho e muito amor que você cantou na copa de 2002, a última que o Brasil viu a cor da taça. Vejamos se em 2014 cantaremos nosso orgulho nacional outra vez, só depende de uma boa cerimônia de abertura, que certamente terá Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, capoeira, bundas, embaixadinhas…

Aos heróis, um brinde

Houve, um dia, o sonho de uma nação independente chamada Brasil, mal e porcamente idealizado por uns, caçoado por outros e desprezado por todos. Quem arrisca dizer qual o legado dessa história tão louca que insistiram em chamar Brasil? O que afinal aconteceu com essa estranha alucinação coletiva, criou vida própria e todo mundo acreditou? Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade no ideário popular? Onde está a verdade numa nação de pessoas que preferem ser “Nação Gaúcha”, “Nação Corinthiana” ou “Nação Luan Santana”?

Cabe a mim fazer uma breve lista de agradecimentos a alguns heróis que dão um toque suave de lucidez meio a tanta balbúrdia. Antes que a carne esfrie e a cerveja esquente:

Obrigado Jaqueline Roriz, por mostrar ao povo quem é que de fato manda em Brasília e, ao mesmo tempo, quem são os todos os “nossos” representantes.

Obrigado Ricardo Teixeira, por fazer o povo ver corrupção, falcatrua e falta de caráter no único meio em que o brasileiro entende, se importa, se manifesta.

Obrigado Paulo Maluf, por ridicularizar-nos sempre que mostra sua cara na TV, em ternos muito bem cortados e, sabe-se lá Deus como, sem nenhuma bola de aço nos pés.

Obrigado Joseph Blatter, por dar-nos o prazer de torrarmos rios de dinheiro que poderiam ser mais bem utilizados em muita coisa, apenas para fazer o povo (achar que vai) sorrir com isso.

Obrigado Jair Bolsonaro, por mostrar com sua figura sempre tão emblemática que igualdade de direitos e celebração da diversidade no Brasil são apenas discursos.

Obrigado Wellington dos Santos, por mostrar com sua vida e com a de 12 crianças inocentes no Realengo que o povo brasileiro ainda tem a habilidade de se comover.

Obrigado Dom Pedro I, por ter (ou não) gritado alguma coisa doida na beirada de um riozinho e, por isso, fazer a nação se orgulhar de, ao menos, ter um churrasco regado à cerveja e um som estranho de banda militar ao longe, em outro canto da cidade, em plena quarta feira.

Bons sonhos, nação brasileira. Se beber, não dirija!

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