Crônicas de um país sem sobrenome

É bem simples, meu caro. Se você está nesta página, e se consegue entender essas linhas, é porque, minimamente, você frequentou uma escola. E se frequentou uma escola, certamente passou um bocado de dias da sua vida lidando com professores. Lembra-se deles? Quais eram seus nomes? Quais as disciplinas que ministravam em seu colégio?

Demorou a puxar em sua memória? Experiências traumáticas vieram à sua lembrança? Faz sentido. É assim que você, seus pais, irmãos, tios e amigos vêem os professores que tem / tiveram ao longo de sua experiência na escola. Agora, caso seja alguém que já saiu da escola, que já tenha terminado seus estudos, por favor pense: qual a importância que eles, seus professores, tiveram no que hoje você considera como “indivíduo formado”?

Claro, a resposta é bastante vaga. Muitas pesquisas apontam que a maior parte de suas características atuais tem mais a ver com a convivência com seus amigos e colegas de sala de aula que com o próprio professor em si. Eu, pessoalmente, discordo. Vejo na figura do professor alguém completamente singular e de total importância na formação de sua pessoa, e das pessoas que convivem com você, e por que não, da sociedade como um todo.

Eu sou de um tempo em que o professor era autoridade em sala de aula, em que os alunos tinham respeito (medo não, medo é forte demais) pela figura do educador. Sou de um tempo em que preencher algum campo profissional com a palavra “professor” era sinônimo de status, era sinal de que aquela pessoa devia ser reverenciada, por seu papel social de absoluta relevância. Sou de um tempo em que, como aluno, um simples olhar torto do mestre em seu assento era acompanhado de um frio na espinha, e certamente de um urgente maior policiamento de meu comportamento em sala de aula.

Sou de eras passadas, talvez. É o que você pensa, caro leitor. Olhe, no entanto, meu perfil ali acima, e verá que eu não tenho nem sequer 30 anos completos. Sou ainda um infante nesse Brasil tão perdido. Fato é que algum meteoro da paixão (oh, dor) passou como um raio da saudade (oh, dor)² pela sociedade brasileira e mudou a figura do professor de meu tempo de escola (saudosos anos 90) para exatamente isso que se vê hoje em dia.

Surpreendi-me, claro, ao ver, no dia 15 de outubro, a hashtag #DiadoProfessor nos TTs do twitter brasileiro. Deixei de me surpreender, no entanto, ao ver os comentários dos que a usavam. Arrisco dizer (e isso quer dizer “acho que foi assim, não fiz nenhum levantamento, não me encha o saco com isso”) que a maioria dos comentários deste sábado gelado com a hashtag eram com comentários rebaixantes, de gente ainda em idade escolar, que de formas mais polidas possíveis mandavam seus mestres a tomar naquele lugar. Coisas de adolescente? Nem tanto, amigo. Veja as fotos abaixo, do rescaldo de uma ação policial no Ceará uns 10 dias atrás:

Vai um desavisado e grita: “cadeia neles, esses arruaceiros”. Faria sentido, ó desavisado, se esses agredidos pela polícia não fossem professores, exercendo seu direito, garantido em Constituição, de manifestação e paralisação de atividades em casos de descontentamento! “Mas parar a sala de aula pode então, é isso?” E desde quando alguém, da forma como se trata a educação no Brasil, aprende alguma coisa na escola? Qual a diferença? E daí você pergunta: “descontentamento do que?” E eu, simplesmente, deixo uma professora do ensino público do Rio Grande do Norte explicar, de uma forma que, afirmo com todas as letras, não saberia jamais fazer-me tão claro:

Até aqui, pensa ser meu texto tanto “senso comum”, certo? Você já viu esse vídeo antes, no Faustão ou em qualquer outro programa “forreca” da TV brasileira, que sim, o passou à exaustão. Você já havia visto as fotos dos professores agredidos. Até aqui, você está certo, caro amigo. Mas e sua mentalidade, sua forma de enxergar seus professores lá atrás em seu passado, mudou com isso? Como esperar que a sociedade dê o valor que seus professores de fato merecem, se em seu pensamento você é incapaz de se colocar na pele daquele professor que te maltratou no colegial, e ainda tem em sua cabeça a imagem do “professor carrasco”, querido leitor?

Acho necessário colocar meu ponto de vista, talvez justificando um texto que já está ficando longo demais. Este blog tem o objetivo, certamente modesto, de provocar a reflexão em alguns, poucos, leitores sobre os problemas essenciais de nosso país tão contraditório. Deixei bem claro, desde o começo, que tentaria provocar a discussão colocando dedos em feridas abertas de nossa sociedade. E eu, modesto blogueiro deste espaço, tenho em mim apenas uma certeza, uma crença que levo comigo já por muito tempo e que, peço, preste bastante atenção: NENHUMA transformação de nossa sociedade (repito, com categoria: NENHUMA transformação) pode acontecer sem, antes, passar pela reforma da educação no Brasil! Essa coisa de “mudar o modo de pensar”, sabe?

E isso, caro amigo, tem apenas um local como possível estarte da coisa toda: é na escola, exatamente ali, no giz do professor, figura tão importante para a sociedade e, ao mesmo tempo, tão esquecida ao longo dos anos. Quer discutir sobre isso? Vai ali embaixo nos comentários e conversamos, sem problemas, mas eu já adianto: DUVIDO que você encontrará um só argumento que contradiga essa minha idéia.

Só não sei como isso pode acontecer com eles, os mestres, sendo engolidos pelo salário que mal sustenta sua casa, turnos triplos, agressão da polícia, dos diretores, da sociedade, dos alunos (e eu sei que nos mesmos programas “forreca” da TV brasileira você já viu alguma notícia sobre professores agredidos Brasil afora). Na boa? Tanto se fala em bullying daqui e bullying dali, só se esquecem de apontar as verdadeiras vítimas do maior dos bullyings na escola: o holerite daquele seu professor de geografia filho da p@#$ da sexta série, que hoje já deve estar aposentado e nem ganhou bônus por insalubridade! Enquanto isso, vai você aí, revoltadinho, ainda incrédulo com a eleição do Tiririca, ou com a falcatrua de Brasília comendo solta a olhos cada vez mais vistos…

PS: “ah, você só colocou esse texto porque o Dia dos Professores foi esses dias. E ainda está atrasado!” – E daí? Existe dia certo para discutir essa questão? Volta pra escola, meu filho!

PS(2): o título do post é a frase de um adesivo que, já na minha época, via colado nos carros (riscados, claro) dos professores de meu colégio. Não esqueci dessa frase nunca mais, mas o pensamento é inevitável: ah, se eles soubessem o futuro que os aguardava…

PS(3): aos meus mestres, uma singela homenagem. Hoje, os entendo e sei da importância que tiveram em minha vida. Grande abraço!

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Comentários em: "“Não adianta me sequestrar, sou professor”" (2)

  1. Amanda Piffer disse:

    Mais um excelente texto!
    Professores como você, assim como outros do CP², por exemplo, mostraram e ainda mostram a importância dos professores. É lamentável que nem todos enxergam isso. Como futura professora, espero que o respeito volte para as escolas, caso contrário, o Brasil estará perdido.
    Parabéns, Galeoti!

  2. Mais um texto que brilhantemente provoca a reflexão. Cara, parabéns por continuar apreciando a formação que nossos heróis professores colaboraram em forjar mantendo o chamado ao debate. Não conhecia o vídeo, muito obrigado por apresentá-lo. Abraço!

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