Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para novembro, 2011

A Universidade, Sagrada e Profana – que lições tirar do caso USP

Nota inicial: tá, eu sei, o assunto está na moda, e isso fará com que alguns leitores desavisados pensem: “ele só escreveu por causa disso”. Admito que andei relutando bastante para botar a minha opinião a respeito do que se passa na USP em dias atuais, fatos que dispensam novas explicações: todo mundo viu, todo mundo absorveu, e todo mundo opinou. Algumas coisas bastante absurdas foram ditas, outras opiniões foram até bem construídas, para um ou outro lado da história (e, admito, posso ter bebido dessas boas fontes ao elaborar meu raciocínio abaixo: não posso afirmar que estou totalmente banhado nos louros da originalidade…). Houve até quem associasse os alunos invasores da Reitoria com a Yakuza, FARCs e Máfia Russa (não viu? Eu garanto, vale muitas risadas: clique aqui). E foi depois delas, nossas lindas socialites (gostaria que, um dia, alguém pudesse me explicar satisfatoriamente o que é uma “socialite”), que tomei coragem pra escrever sobre tudo isso aqui.

Posso não ser da USP, e tenho total consciência que ninguém (repito: ninguém) tem mais poder de opinião que quem de fato está vivendo toda a situação, mas como um cara nascido e crescido na Grande São Paulo, ex-aluno de uma universidade estadual e um cientista humano (pronto, tá aí meu “quem sou eu” completo… enjoy!), acho que ao menos das socialites eu ganho em consistência de opinião. Acho que só por reconhecer que a opinião de quem está mais perto é sempre mais relevante, eu já passo na frente de uns 80% de todos os que deram seus pitacos sobre o caso USP, não é?

Feitas as considerações que queria antes de mostrar o que penso sobre toda essa balbúrdia, encerro esse mini-prefácio dando-te, leitor, o seguinte recado: eu não estou nem um pouco interessado sobre sua futura tentativa de me enquadrar em um ou outro lado da história. Quer me chamar de revoltado, maconheiro, burguesinho, ou quaisquer outros rótulos que pipocam por aí nas redes sociais quando o assunto é a USP? Fique a vontade, não estou nem aí. Apenas saiba que, caso eu lhe seja desagradável daqui pra frente, você tem o direito sempre democrático de comentar ali embaixo seu ponto de vista, de concordar ou discordar, ou de simplesmente não aparecer mais por esse espaço, se assim preferir. Um sorriso amarelo e um abraço pra você, querido!

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Pensar sobre a situação atual da Universidade Estadual de São Paulo, reconhecida com todos os méritos como uma das 200 maiores universidades mundiais, requer pensar um pouco no que ela, a Universidade Estadual de São Paulo, representa no contexto da cidade de São Paulo como um todo. Na verdade, quero deixar claro, a partir daqui, que quando digo “a USP”, refiro-me exclusivamente ao espaço ocupado pela entidade em questão na cidade. Aproveito e deixo claro também: guardadas as devidas proporções, essa reflexão cabe perfeitamente a quaisquer outras universidades estaduais e federais do Estado de São Paulo, dentre elas, a UNICAMP, de onde surgi no meio acadêmico, e de onde eu observei, ao longo de meus sete anos por lá, muitas semelhanças com o que acontece na USP hoje em dia. Guardemos as devidas proporções, novamente, ok?

A USP surgiu em São Paulo na década de 30, quando existia, ali, uma cidade ainda pungente no que diz respeito à vida social, população total e cultura. A São Paulo de oitenta anos atrás comportou bem um espaço, às margens de “um rio qualquer”, para uma universidade pomposa como aquela, com amplas áreas verdes, arquitetura arrojada para os padrões atuais, e claro, com uma produção científica promissora (promessa cumprida em dias atuais, indubitavelmente). Ali, neste terreno tão cheio de pompa, são formadas até hoje cabeças de maior renome no cenário nacional em diversos âmbitos da ciência e de outras funções sociais. Sacralizou-se o espaço da USP como um antro intocável, uma bolha de conhecimento e saber, onde nada entra, nada interfere, nada pode atrapalhar o paraíso do saber acadêmico.

Como é o espaço da USP

O problema, agora, é encaixar esse espaço tão fetichizado da USP, resgatado diretamente de um bizarro túnel do tempo, numa região tão nobre como a que pertence no contexto da cidade de São Paulo, oitenta anos depois um monstro urbano megalomaníaco de 16 milhões de pessoas, trânsito caótico, poluição, e com cada metro quadrado de terreno disputado no tapa pela especulação imobiliária e tantos outros órgãos sociais e econômicos… o “rio qualquer” ganhou uma das principais vias de escoamento de pessoas e cargas de toda a cidade, sempre entupida pelo trânsito infernal dos horários de pico e saídas de feriado prolongado. A região ganhou novos pólos econômicos de extrema importância e centralidade para a dinâmica paulistana e paulista (brasileira? Não, não é exagero).

Veio o grande choque, afinal: a USP não é uma bolha isolada da dinâmica caótica da urbanização de São Paulo. Ao contrário, como um espaço em teoria tão público como qualquer outro espaço de circulação da cidade, foi absorvida pelos fenômenos urbanos recorrentes: o ar da USP é tão poluído como o do resto da cidade, enfim. Vi recentemente uma pesquisa, divulgada na Folha de São Paulo, que mostra o espaço das ruas da USP usados como estacionamento de passageiros da CPTM, que deixam os carros nas ruas pacatas do campus para embarcar a pé na estação em frente à portaria principal da universidade (clique aqui e veja a reportagem). A USP tem suas próprias regras de circulação e comportamento, mas ainda assim é São Paulo, faz parte da cidade, nunca deixou de ser São Paulo, e hoje mais do que nunca está inserida na dinâmica da mesma!

Como (ainda) se vê o espaço da USP

A coisa se agrava quando constata-se que essa inserção da USP nessa urbanidade monstruosa de São Paulo inclui, também, certos aspectos sociais que seriam ainda mais indesejados num espaço tao intocável e sacralizado. É o caso da criminalidade, que sabidamente não assume para si as regras de uso e comportamento estipulados para a USP e para a sociedade como um todo, e que tem na USP terreno fértil para suas atividades. As grandes áreas verdes projetadas para o “antro do saber” de São Paulo, totalmente escuras e desoladas a noite, são perfeitos para a abordagem de um estudante desavisado vacilando com sua carteira, celular, carro. Além disso, e mais importante que tudo, o regimento interno não permite a entrada da polícia no campus, sem comunicado especial diretamente da Reitoria para ocasiões de grande desordem. Perfeito! Daí que vê-se, após o terrível assassinato de um estudante no bolsão de estacionamento da FEA, o estarte de todas as discussões relacionadas com as atuais atividades da PM no sagrado e profanado terreno da USP.

A partir deste ponto, caro leitor, você teve as fontes necessárias para entender (ou, ao contrário, “desentender”) tudo o que acontece na USP em dias atuais. Você viu os diferentes pontos de vista de estudantes e estudantes, pró e contra a PM no campus. Você viu a ação da PM de retirada dos estudantes do prédio da Reitoria. Você acreditou ou não nas palavras de um ou de outro sujeito entrevistado de cada lado da história. Você reproduziu seu velho discurso comunista, ou ao contrário, adotou seu “VEJA way of life” de ver as coisas (oh, dor) e comemorou com sua família as cenas da prisão dos 70 estudantes com narração exclusiva de William Bonner e comentários escrachados e exaltados deles, sempre deles.

Daqui, desse meu modesto ponto de vista, uso esse espaço para mostrar que há uma discussão, que em meu entender tange o cerne da questão, e que foi deixada de lado visto a tanto burburinho da imprensa escrita, falada, online, tentando (ou não) manter a imparcialidade dos fatos. Não há como pensar a presença ou não da PM no campus da USP sem entender que ele, o campus da USP, deixou há muito de ter apenas o uso oficial de espaço da ciência e do saber: a sociedade paulistana, legalmente ou não, reclama há muito o direito de uso do espaço da universidade pública que lhe é de direito, sempre foi! O usuário do espaço paga seus impostos, e por isso pode circular pela USP, pode parar seu carro nas avenidas esverdeadas da USP, “pode” bater carteira na USP, “pode” assaltar e matar na USP.

A propósito, eis o único uso que o citadino comum ainda pode fazer do campus da USP, não é? Se antes falamos do espaço da universidade (deixe-me frisar de novo, é sempre bom: USP, UNICAMP, UNESP, UNI…) há que se perguntar se a reivindicação deste espaço não é digna, visto o retorno que a universidade dá para a sociedade, para o cara que paga 40%, 50%, 60% de seus impostos para a manutenção daquele espaço e suas atividades. Ou foi só eu que nunca entendi por que, afinal, atividades sociais no campus são consideradas “extensão”, quando deveriam ser “obrigação”? Assunto para outro post, talvez…

Isto é São Paulo.

Isto, também.

E se o espaço da USP, assim, não é diferente de qualquer outro espaço da cidade de São Paulo, entendo que os que lá frequentam também deveriam ser tratados como igual. Oh, não, caro leitor, não estou defendendo a ação da polícia ao reprimir os invasores da Reitoria, independente do nome que você usou para eles, se maconheiros ou manifestantes. Ou estudantes, olha só! O que mostro aqui é a incoerência de uma instituição como a PM (o Ícaro foi brilhante quando falou sobre ela anteriormente por aqui), vinculada com o Governo Estadual que fetichiza o estudante e o espaço universitário e apreende os três “maconheiros”, enquanto deixa as atividades da região da Cracolândia (que, olha só, também é em São Paulo) fluirem normalmente, como se nada acontecesse. Ora, não é tudo São Paulo? Não são todos paulistanos? Do outro lado da história: o rótulo “Estudante” dá ao rotulado uma classe especial, uma entidade absoluta e intocável, fetichizada como o espaço o qual pertence? Se tudo ainda é São Paulo, por que uma morte na USP chama mais atenção que as dez, vinte, trinta mortes de Parelheiros todos os dias? Falamos aqui de status ou de dinheiro? Sabemos: o estudante das universidades públicas nacionais tem um perfil sócio-econômico muito além do brasileiro médio. E a pergunta ainda é a mesma: Brasil de quem?

Sinto se decepcionei aquele que entrou aqui esperando por um “a favor” ou “contra” isso e aquilo. Meu ponto de vista é limitado: não estou lá, não conheço toda a realidade do que acontece ali naquele espaço, e ao contrário da grande maioria, limito-me a falar do que sei. E o que sei, afinal, é que, se há tanta divergência de opiniões a respeito da permanência ou não da PM na USP, se há tanta gente olhando pra aquilo e rotulando tudo como “antro de maconheiros”, ou “casa do estudante”, ou “espaço do saber”, eu prefiro rotular como “São Paulo”, e levanto a bola de que, mais do que nunca, é necessário re-discutir o espaço da universidade pública no Brasil (e agora uso “espaço” com o sentido de “lugar” e também com o sentido de “função social”), pra que se perca essas idéias tão ainda presentes de sacralização da universidade, lugar onde nada é permitido (nem as pessoas), e que pode funcionar da forma como bem entender, sem dar o merecido retorno à sociedade que a financia.

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PS: Pois é, você ainda está esperando as lições tiradas do caso USP, como eu disse no título do post. Confesso que não pensei muito bem sobre isso, mas de cara, posso apontar algumas delas, vamos lá:

  • Cuidado: se você ou seu grupo está na mídia, todos podem falar o que bem entenderem sobre você, independente de te conhecerem ou conhecerem suas reivindicações.
  • Ao se manifestar sobre algum problema, certifique-se de que quem te assiste pela TV consiga entender o que você quer.
  • Talvez, o passo anterior possa ser resolvido com a prática de manifestar-se com mais frequência, sem deixar acumular trocentas causas no mesmo movimento.
  • “Maconheiro” deixou de ser um nome para o usuário da erva em questão para ser um xingamento, uma ofensa terrível no Brasil, especialmente se você usa um moleton da GAP.
  • A propósito, surpreenda-se: moletom da GAP é entendido como sinal de status social e financeiro!
  • Ao que parece, o cidadão comum entende que sua capacidade de entendimento e raciocínio sobre as questões sociais é inversamente proporcional à sua conta bancária. No caso das socialites, eu admito que concordo…
  • NUNCA, JAMAIS, DE FORMA ALGUMA despreze a mídia burguesa e manipuladora chamando-a de “mídia burguesa e manipuladora”. Lembre-se que é ela, a mídia burguesa e manipuladora, que ainda faz a cabeça do brasileiro, e é ela que vai fazer com que a sociedade inteira te ofenda ostensivamente no Jornal Nacional e, obviamente, despreze você e suas idéias até sua desejada morte lenta e dolorosa!
  • Sim, ainda é possível se surpreender com a postura social de amigos, familiares, parceiros, colegas, e o quanto estas cabeças podem ser maiores / menores do que você imaginava.
  • Sim, o brasileiro ainda é um especialista em reprodução de discursos alheios.

PS(2): Você deve estar se perguntando porque deixei para escrever isso quando a situação já está controlada. Na verdade, nada ainda foi resolvido, caro leitor: acontece que os abutres da mídia burguesa e manipuladora viram carne fresca na captura do Nem da Rocinha e correram para o Rio de Janeiro. Mas não se engane: as discussões dentro da USP e das demais universidades estaduais estão mais pungentes do que nunca!

PS(3): na verdade, a demora em postar sobre esse assunto veio de uma longa e profunda maturação de minhas idéias, sozinho e/ou com amigos, em rodas de bar ou redes sociais. Precisava de um tempo pra, simultaneamente, colocar as idéias no lugar e escrever com a densidade necessária e fugir dos holofotes dos pseudo-urubus da “mídia Facebook”… tá, não engano ninguém, foi falta de tempo mesmo!

PS(4): Falando na Rocinha, relembro o que escrevi na época da invasão do Morro do Alemão. Vale a mesmíssima coisa, caso tenha a curiosidade: clique aqui e troque mentalmente o “Morro do Alemão” por “Rocinha”, ok?

PS(5): Momento “propaganda gratuita” – começou a Campanha Papai Noel dos Correios, em que você pode adotar uma carta de uma criança carente destinada ao Papai Noel em alguma agência dos Correios e realizar o desejo dela. Vale a pena, e muito: clique na figura abaixo e conheça melhor esse bonito trabalho.

Clique, conheça, participe e colabore

A antítese do blogueiro – post comemorativo

14 de novembro de 2010. Surgia, nesse mundo obscuro da internet, um blog esquisito, com uma proposta diferente, cheio de bundas no layout e alguns marmanjos se achando os maiores “experts de qualquer coisa”, dando pitacos aleatórios sobre assuntos diferentes relacionados ao Brasil. Com a permissão dos camaradas Ícaro Pupo (grande parceiro de textos e de aulas, autor de excelentes textos publicados aqui) e Ricardo Lourenço (amigo querido, convidado a participar disso tudo e que – entendemos, caro Ricardo, rotina nunca é fácil pra ninguém – ainda não pôde contribuir conosco), começo aqui em nome de nós três uma análise do que foi feito ao longo deste tempo. Vossas bênçãos Ícaro, Ricardo e leitores: lá vou eu.

Você leu certo, esse bolo é mesmo do Eduardo: achei essa figura na net e não entendo de Photoshop... algum problema?

Um ano se passou, e para nós, blogueiros autores das crônicas aqui presentes, tornou-se um requinte digitar palavras desencadeadas em raciocínios e reflexões. Eu, ao menos, digo com toda a ênfase, agora apenas em meu nome: tenho prazer em estar aqui. É claro, adoraria poder estar aqui mais vezes, compartilhando meu ponto de vista (oh, meu ego que julga minhas opiniões como importantes para alguém) com quem quer que seja, mas a correria do dia-a-dia – sou brasileiro, portanto, mato um leão por dia, lembra? – não me permite sequer estar antenado em absolutamente tudo o que acontece nessa minha amada nação, quanto mais escrever textos longos e devidamente aprofundados sobre cada uma dessas coisas. Confesso, achei que seria mais fácil, que teria mais tempo, que trabalharia mais, contribuiria mais aos leitores deste espaço, que produziria coisas mais complexas, de maior profundidade, de opiniões mais fechadas e direcionadas, enfim…

E falando neles, os leitores deste espaço, algumas curiosidades bastante inusitadas podem ser apontadas, ao analisar as ferramentas de estatísticas do site (obrigado, WordPress): os dias de mais acesso são os dias em que colocamos postagens novas, graças às redes sociais em que divulgamos, com nossos perfis pessoais, que tem coisa nova por aqui no BdQ?. O que me leva a crer, obviamente, que:

  • Sim, nossos maiores leitores são nossos amigos pessoais, e em alguns momentos, nos ajudam com a divulgação em seus perfis. Muitíssimo obrigado, de verdade!
  • Sim, nossos leitores entram, saciam-se com o cheiro da tinta fresca da última postagem, e somem daqui. É sério MESMO que tudo o que existe aqui já foi lido, digerido, fagocitado, refletido, questionado?

Um ano se passou desde que este modesto espaço foi ao ar (eu sei, eu sei, é quase isso: este blogueiro estará um tanto ocupado no próximo final de semana, e portanto, rezemos para que a lenda do “dar parabéns antes da hora dá azar” seja apenas isso: uma lenda), com uma bonita dramatização do que nos propomos a fazer, e com a sua primeira crônica, homônima ao título do blog no geral, até hoje a preferida deste que vos escreve. Ao mesmo tempo que comemoro esta data, pelo prazer que me é proporcionado ao bater estas teclas expressando um raciocínio, trago também certo pesar pelo que pude constatar ao longo deste tempo: não conseguimos realizar plenamente nossa proposta.

Alguns números que mostram isso:

  • 1 ano de trabalho – tá bom, tá bom, quase um ano… seu chato!
  • 32 textos publicados
  • 2.105 acessos à páginas, postagens, enfim, qualquer conteúdo deste site (7 de novembro, duas da manhã)
  • 14 comentários dos leitores

Entendeu isso? Apenas 14 comentários! Não quero ser uma máquina de popularidade, caro leitor, até porque entendo que os dois mil e sei lá quantos acessos é um número ainda bastante baixo para um site no ar há uma translação (quase) completa da Terra. Antes que me interprete mal, apenas quero explicar que isso a meu ver tem alguns significados, e dentre os possíveis:

  • Nossos textos são tão bem escritos, mas tão bem escritos, e com pontos de vista tão bem argumentados, que não suscitam sequer discussão relevante;
  • Nossos textos são totalmente superficiais, e assim não provocam a reação desejada no leitor que por aqui passa;
  • Nossos leitores leem, compreendem a idéia, e sim, refletem, mas preferem guardar pra si suas opiniões sobre os assuntos aqui abordados;
  • Nossos leitores / amigos pessoais passam por aqui por simples camaradagem, na esperança de achar, finalmente, algo de relativa qualidade, já que o site é apenas uma merda de uma utopia de alguém que quer transformar o mundo com textos baratos e não profissionais.

Nenhuma das explicações acima me agrada, como você bem pode imaginar. Pensei em esclarecer esse grande mistério que rodeia este espaço com uma enquete, ou pedindo que vocês, leitores, se manifestem nos comentários, mas sinceramente, seria tanto narcisista quanto enfadonho, portanto, ignore sua vontade de comentar sobre isso. Algum dia descobriremos, por nossas próprias pernas, qual o problema da proposta.

Se é que o problema está no site, caro leitor: no fim (e isso não deixa de ser irônico afinal), o BdQ? mostra o Brasil da forma como ele é, e não poderia deixar de ser diferente. Para explicar o que quero aqui dizer, lembro de uns dados que tive acesso alguns meses atrás – todos baseados em pesquisa IBOPE, Datafolha e todas essas tranqueiras Brasil afora, além de dados que eu ouvi falar, acreditei e reproduzi aqui – sobre o perfil do brasileiro no mundo virtual. Veja só:

  • O brasileiro é o cara que, disparadamente, passa mais tempo online no mundo, superando a marca de duas horas diárias na internet
  • O Brasil é o país que mais tem usuários do Orkut (tanto que a administração mundial do site, ainda muito popular, é agora da Google Brasil)
  • O Brasil é, de longe, o país que mais cresce em número de usuários do Facebook e Twitter
  • O brasileiro é o cara que menos produz conteúdo novo na internet, como blogs, vlogs e sites diversos com o domínio .br, se comparado com qualquer outro país de demografia semelhante

Este site, afinal, é a antítese brasileira por si mesma: um ano atrás, propusemo-nos a criar informação que mostrasse reflexões sobre a realidade de nosso país a um povo que, ao que os dados acima mostram, faz-se completamente desacostumado com exatamente isso: a reflexão, a argumentação, o entendimento de sua realidade, suas ironias, seus sarcasmos, suas contradições. Como poderia, portanto, dar certo? Como três blogueiros acharam que mudariam o mundo em que vivem, usando-se da linguagem que é a mais desconhecida de sua gente?

Se você acompanha meus textos por aqui, caro leitor, já deve imaginar como eu encerrarei essa volta que dei em auto-homenagem ao nosso blog: “lá vem ele querendo enfiar a educação goela abaixo de quem está lendo”… errou, amigo, ao menos dessa vez. Hoje, eu proponho outra coisa. Hoje, eu quero que você apenas pense (se quiser, compartilhe conosco ali embaixo): como você gasta suas mais de duas horas na internet? Você produz conhecimento, abre sua mente para novas informações, foge dos veículos tradicionais e cada vez mais tendenciosos de distribuição de informação? Quanto de seu tempo online é gasto nas redes sociais, e quanto tempo é gasto para leituras mais densas como esta, neste blog ou em outro canto qualquer da internet? Ou, mais específico ainda, encerro perguntando-te: o que você faz na internet que traz qualquer tipo de crescimento em sua vida?

Chega, escrevi demais. Infelizmente é um hábito meu, e isso certamente faz alguns leitores pararem antes da hora em minhas reflexões (eu seria um desses, não fosse o dono da cria, admito). Escrever é o que eu sei fazer melhor, muito embora possa não ser o mais didático, ou divertido, ou de rápida digestão pra quem está do outro lado da tela. Parabéns pra você, que chegou aqui sem ter fechado a janela antes!

Ah, e se em algum momento este site lhe trouxe alguma reflexão, ficamos felizes por isso, era exatamente essa a nossa idéia. Se não mudamos o mundo com esse blog, ao menos mudemos algumas cabeças: por enquanto me é suficiente. Parabéns pra gente, autores do BdQ?, por esse primeiro ano de vida, até então de números bastante rasos mas ainda sem quaisquer indícios de uma futura possível desistência. Força!

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PS: sobre aquela parte toda do perfil do brasileiro online, não posso jamais deixar de agradecer meu grande irmão Rafael Zanini, que foi quem me apresentou essa realidade na primeira vez, uns meses atrás, numa ocasião bastante especial. Um abraço gigante pra ele, talvez só equiparado ao tamanho do coração desse menino! Valeu mesmo brother!

PS(2): falando em produção de conteúdo independente, e que foge dos veículos tradicionais de produção de informação, aproveito para divulgar um trabalho que venho acompanhando quase que desde o começo e que admiro cada vez mais: o Coletivo Garagem Aberta, de Jundiaí. Trata-se de um canal de divulgação do trabalho de artistas da cidade e da região, e que vem destacando um número cada vez maior de pessoas e trabalhos de grande qualidade, só não destacados em rede nacional por falta de QI (é, isso é Brasil minha gente!). Clica aí na figura abaixo, vale a pena, de verdade!

Clique na figura

 PS(3): “Propaganda gratuita, Rafael?” – Qual o problema? É você que paga pra eu atualizar esse blog? Se merece, e é o caso, eu faço MESMO!

Que deselegante!

Eu concordo plenamente quando a Sandra Annenberg, pleno Jornal Hoje ao vivo em rede nacional, vê a colega Monalisa Perrone ser agredida em público e não consegue esboçar quaisquer outras reações que soltar a pérola-título deste post. Ela, Sandra, a pessoa, conservou toda sua elegância com o comentário (fosse comigo, e quem me conhece certamente confirma, seria algo mais parecido com um “que grande FILHO DA P***”), mas nem de longe seu comportamento reflete o que acontece em dias atuais na TV, e por conseguinte, na sociedade brasileira.

Eu trabalho na Globo, mas sou elegante.

Caros: todos que mais ou menos me conhecem sabem que, embora respeite bastante e saiba da importância deles na minha vida, nunca fui dado aos cálculos, encontrar padrões, essas coisas doidas todas. Cada um no seu quadrado, e isso é ótimo. Confesso, porém, tentei encontrar algum padrão comportamental e de etiqueta da televisão e da sociedade brasileira (e se me permite, jogo junto neste caldeirão o mundo pipocante das redes sociais) que fizesse algum sentido. Nem suspeita…

Vamos às evidências, caro amigo, chegue às suas próprias conclusões:

  • Incitar a agressão física e a violência explícita no Programa do Ratinho, por motivos bizarros como testes de DNA: PODE
  • Achar a cena dos estudantes agredidos na USP engraçada: NÃO PODE
  • Achar a cena da agressão à Monalisa Perrone engraçada: PODE
  • Declarar ter achado engraçado qualquer uma das duas cenas anteriores: NÃO PODE
  • Desejar a morte de todos os líderes de torcida ao ver na TV cenas de brigas de torcedores: PODE
  • Criticar os sensacionalistas que tiram o IBOPE de seu programa fazendo exatamente isso: NÃO PODE
  • Botar um bustiê e um shortinho minúsculo em sua filhinha de cinco anos: PODE
  • Fazer uma piada de questionável conotação sexual com um feto: NÃO PODE
  • Deixar soltos todos os políticos já denunciados pelo CQC: PODE
  • Deixar solto o apresentador do CQC, por uma simples piada de mal gosto: NÃO PODE
  • Encher seu Facebook de mensagens moralistas em terceira pessoa (essa pessoa isso, essa pessoa aquilo): PODE
  • Se você for o Rafinha Bastos: NÃO PODE
  • Brincar com o câncer do presidente Lula: PODE
  • Brincar com o câncer do Reynaldo Gianecchini: NÃO PODE
  • Ter uma overdose de remédios com cachaça e ocupar um quarto de UTI por uma simples questão de privacidade: PODE
  • Ser ex-presidente do Brasil, ter convênio médico e, portanto, ter direito a uma acomodação mais bem preparada para seu tratamento: NÃO PODE
  • Criticar o ex-presidente por não usar o SUS: PODE
  • Usar, efetivamente, o SUS antes de criticar quem não o faz: NÃO PODE
  • Abordar por quase um mês em todos os canais a tragédia de um estudante da USP baleado e morto num assalto: PODE
  • Noticiar os dez, vinte assassinatos que ocorrem todos os dias nas ruas da periferia de São Paulo: NÃO PODE
  • Infinitas piadas sobre o sobrepeso de um determinado jogador de futebol antes de sua aposentadoria: PODE
  • Bullying: NÃO PODE
  • Escrever qualquer asneira, esquecendo completamente a tão apregoada imparcialidade jornalística, com o mero intuito de criticar a emissora que ganhou os direitos de transmissão do PAN: PODE
  • Mandar um revigorante “chupa meu grosso e vascularizado cacete” pra essas mesmas pessoas: NÃO PODE
  • Sair de casa completamente nua no carnaval e posar como veio ao mundo para milhares de câmeras: PODE
  • Enxergar / abordar uma mulher com intenção meramente sexual: NÃO PODE
  • Expor anões em situações ridículas, justificadas apenas por sua estatura diferente, em programas de sábado a noite: PODE
  • Preconceito: NÃO PODE
  • Ter 90% das faxineiras de novela como as únicas personagens negras das tramas: PODE
  • Preconceito: NÃO PODE
  • Caricaturar os homossexuais de novela como personagens sempre hilariantes e com pouca profundidade dramática: PODE
  • Preconceito: NÃO PODE 

Bem deselegante, não?

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