Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para dezembro, 2011

I-Revolts Beta

Hoje, dia 22 de dezembro, marca os 23 anos do falecimento de Chico Mendes, importante sindicalista e ativista ambiental brasileiro. Imagino, hoje, qual seria a reação do Chico ao observar as atuais manifestações ambientais, da forma como são feitas no Brasil: imagino, claro, ser bem mais seguro estar por detrás de um teclado que enfrentando fazendeiros com uma foice e um facão, é verdade, mas e quanto a eficácia e a energia do movimento? Hein, energia do movimento? Prefiro perguntar: isto é um movimento?

Fato é que, hoje, o Brasil é foco maior de uma epidemia mundial de jovens altamente conectados à internet. Pacotes de bandas largas muitas vezes mais baratos que aquele boleto mensal das Casas Bahia. Com apenas um real por dia, menos que um cafezinho (papo mais Polishop esse, né?), o brasileiro de hoje passa uma hora inteira dentro do grande e diversificado “mundo virtual” numa lan-house de quebrada, com o mesmo um real não compra sequer metade de um marmitex. Engana-se aquele que, ainda hoje, diz ser “um luxo para poucos privilegiados” o acesso à internet hoje em dia no Brasil: isso pode, sim, ter ocorrido há muitos anos atrás, na época dos cursos de datilografia… hoje, no entanto, as classes sociais classicamente contextualizadas como “excluídas” dos processos de melhoria social, tem ao menos esse luxo direito assegurado: a navegação.

Vale "uma velha opinião formada sobre tudo"

Che Guevara disse (disse?) uma vez: “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. Só acho uma pena que essa frase do dono do rosto mais estampado em camisetas ao redor do mundo seja, no Brasil, levada tão a sério, de forma que nem Che nem Chico estariam orgulhosos… o jovem do Brasil de hoje, conectado até dentro dos ônibus mais lotados, é a antítese do menino alienado, alheio a qualquer assunto importante de sua sociedade e sua nação. Em um clique, estão ali as notícias, está ali a interação, esta ali o “curtir”, está ali o “compartilhar”…

Quem disse eu disse eu??

A menina descoladinha e com consciência social revoltou-se com a nova proposta do Novo Código Florestal. Achou uma figurinha bacana no Facebook, pôs ali um comentário pessoal qualquer, e compartilhou com os amigos. Ganhou uns 20, 30 “curtir”. Passam-se dez minutos, e na timeline surge a TER-RÍ-VEL imagem de um pobre cachorrinho espancado pela dona até a morte, ou com o focinho destruído por uma bomba atômica. Revoltante o que se faz com os animais no Brasil, e isso não pode continuar: curtir, comentar, compartilhar. Meia hora depois, Gilberto Kassab fala qualquer bobagem sobre a Cracolândia, cai no Estadão e, dali para a página inicial da menina descoladinha e com consciência social, são dois minutos, nem isso. Revoltar-se, curtir, comentar, compartilhar… um minuto: o que aconteceu com as discussões sobre o Novo Código Florestal?

A antítese do menino alienado e alheio a qualquer assunto importante de sua sociedade e sua nação torna-se o que? Bingo: bem vindos à era da alienação 2.0! Exagero? Nem tanto: que manifestação pode ser menos efetiva que uma foto compartilhada a toque de caixa, sem o mínimo de reflexão e pesquisa sobre o assunto? Brasileiro de hoje: compartilhar uma imagem ou uma frase sem exigir dela uma reflexão, e principalmente sem passar essa reflexão para outras pessoas, é simples e somente isso: compartilhar uma imagem ou uma frase… ah, pode ser também um vídeo, em que a mensagem é sempre mais enfática e tira do passivo internauta a obrigação chata de ler e reler as coisas. A coisa parece mais direta, é verdade, mas o que mudou em sua vida ou em sua opinião sobre aquele assunto ao assistir um videozinho? Você refletiu? Percebe como dá na mesma?

Eu penso, eu luto, eu curto, eu compartilho!

Antes que você se equivoque, caro leitor, é evidente que em momento algum meu papel nessa reflexão é condenar o uso da internet, ou sugerir a menor acessibilidade do brasileiro padrão ao mundo virtual. Qualquer egípcio concordaria comigo: a internet é uma ferramenta fantástica para a compreensão e, por que não, para o estarte das mudanças que se quer no mundo. E se você me acompanha há algum tempo aqui no BdQ, sabe também que a aparente falta de vontade de manifestação do brasileiro, bem como, o uso da internet para qualquer coisa mais bizarra e menos reflexiva por parte dos usuários não são novidades nesse blog. E qualquer egípcio concordaria comigo, também, ao apontar com toda a certeza para o fato de que a internet é ótima para começar os processos, as manifestações, as revoltas. O “manifestar-se”, o “dar a opinião”, é aqui fora, no mundo real, onde as coisas acontecem!

O que se propõe aqui, amigo, é que as ferramentas de compartilhamento de informações seja algo mais que isso: que as informações sejam digeridas, que gerem discussões, reflexões! “A título de” informação: a agressora do Yorkshire não foi presa, nem morta, apenas pagou uma multa. O Novo Código Florestal Brasileiro foi aprovado em primeira instância e segue para novas etapas de implantação; o projeto de Belo Monte sobreviveu ileso aos montes de vídeos idênticos criticando a obra e segue de vento em popa; e a Cracolândia, bem… essa continua lá, com as mesmas políticas (ou falta delas) escandalosas para a “solução” do problema. Ok, o Facebook salva a sua popularidade e te dá vários “curtir” todos os dias, parabéns! Salvar a humanidade e fazer um Brasil mais justo, no entanto…

Não sei o que Chico Mendes diria sobre isso. Acho até que ele não apoiaria a idéia de todos saírem da frente de um PC e empunhar facões e foices, afinal, foi exatamente isso que fez com que ele perdesse a vida com apenas 44 anos, completos uma semana antes de sua execução por fazendeiros rivais aos seus princípios. Acho, no entanto, que ele também diria que seu legado de preservação florestal e luta pelo meio ambiente, com grupos aos montes que levantam sua bandeira, não foi obtido com apenas um teclado…

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PS: se você acha que escrevi esse texto pensando na poluição atual do Facebook, em partes você está certo. Existe um número cada vez maior de nonsenses e coisas ridículas sendo compartilhadas, é verdade! Não sugiro, aqui, que todos nós tornemo-nos ativistas de seja lá qual for a atividade, seria muito nerd da minha parte, e isso não é legal…

Sobre isso, saca só o que o Cauê Moura disse no seu canal:

Pois é, eu concordo em gênero, número, grau e palavrões!

PS(2): aproveitando a deixa, desejo a todos um feliz natal, e um 2012 foda de verdade, em todos os sentidos! Abraços e até lá!

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Precisa-se de matéria prima para construir um País

Nota inicial: como deve ser, damos os créditos a quem se devem os créditos, caro leitor. Ou, nesse caso, os tiramos de quem eles não são: o texto que segue não é meu. Pronto!

Explico. Recebi esse texto hoje de manhã por uma ex-aluna minha, que o postou em meu perfil no Facebook achando que eu gostaria de tal leitura. A coincidência é que, sem que ela soubesse, já há algum tempo pensava com meus botões durante minhas idas e vindas diárias dentro de um ônibus sobre escrever algo parecido com o proposto aí embaixo. Constatei que não seria original de minha parte, e que não teria tamanho brilhantismo com as palavras. A propósito, também é importante: Gianny, muito obrigado, realmente adorei, você acertou em cheio!

Enfim: de quem é o texto? Pela versão enviada por minha ex-aluna, era de autoria de ninguém menos que João Ubaldo Ribeiro, famoso escritor e roteirista brasileiro. De fato, surpreso que fiquei, procurei mais sobre o texto em questão, aparentemente escrito em 2005 (você notará os “atrasos” nos argumentos usados, mas que em nada tiram a validade da argumentação), e a maior parte das referências que encontrei na internet apontam Ubaldo, ele mesmo, como dono da obra. Escarafunchando pouco mais, achei gente falando que também não era dele, inclusive com uma nota do próprio esclarecendo e indignando-se com o crédito dado, haja visto que, ao que me parece, ele discorda da opinião refletida. A essa altura do campeonato, caro amigo, questiono até a veracidade dessa nota de indignação…

Pra mim, caro leitor, a cabeça que pensou e organizou tais idéias permanece desconhecida, algo que “grila” no começo mas passa logo em seguida, ao embrenhar-se na reflexão proposta. Além disso, confesso, fiquei feliz ao ver que não sou o único a elaborar coisas tão longas (quanto à qualidade, prefiro deixar o exercício da equiparação contigo, não me atreverei a isso, rs…)

Boa leitura, divirta-se! E, como sempre, se quiser deixar seu comentário lá no fim, fique a vontade, será mais que bem vindo! Um abraço!

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Precisa-se de matéria prima para construir um País

por João Ubaldo Ribeiro (ou não)

“A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula, com certeza, também não servirá para nada.

Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão e corrupto que foi Collor, ou na farsa, como dizemos nas ruas, que é o Lula. O problema está em nós.

Nós como povo. Nós como matéria prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a “esperteza” é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, em caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando os demais onde estão.

Pertenço ao país onde as “empresas privadas ou as repartições públicas” são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos… e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu “puxar” a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.

Onde fazemos “gatos” para roubamos luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros.

Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior é o nosso atual Presidente, que recentemente falou que é “muito chato ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica. Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar os que não tem, encher o saco dos que tem pouco e beneficiar só a alguns privilegiados.

Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser “comprados”, sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Collor, do Fernando Henrique, do Itamar e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem “molhei” a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro, apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um alguém através de uma pequena fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.

Como “Matéria Prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa.

Esses defeitos, essa “esperteza brasileira” congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalos, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, eleitos por nós. Nascidos aqui, não em outra parte.

Eu me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada. A maior possibilidade de mudança está em nós.

Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados… igualmente sacaneados!

É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilianidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda…

Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar, um novo governante com os mesmos brasileiros não poderá fazer muita coisa. Está muito claro… Somos nós os que temos que mudar.

Sim, creio que isto se encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo: desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.

Sim, decidi procurar ao responsável e estou seguro que o encontrarei quando me olhar no espelho. Aí está. Não preciso procurá-lo em outro lugar. E você, o que pensa? MEDITE!”

A memória é uma ilha de edição

Depois de um convite a mesa de bar, há meses atrás, venho por meio desta escrever alguns apontamentos sobre audiovisual, área em que ultimamente tenho me dedicado, em conjunto às minhas atividades no setor financeiro.

Junto com a forja que está moldando a opinião pública sobre a UH de Belo Monte, e também sobre a pauta de divisão ou não do Pará em Tapajós e Carajás, a nossa velha amiga Rede Globo de Televisão celebra um de seus maiores títeres, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Direto ao ponto, entre as comemorações de lançamento de uma autobiografia, e uma reportagem relizada na Globo News por Geneton Moraes Neto, Boni nesta última “deixa escapar” que realmente houve manipulação por parte da emissora no último debate realizado nas eleições de 1989, quando a mesma buscou uma melhoria da imagem de Collor, contrariando qualquer princípio de boas práticas jornalisticas (isso na melhor hipótese).

São mais de 20 anos, mas mesmo assim é interessante pensar no porque de declarar que houve favorecimento por parte da emissora para com um candidato. Boni alega na entrevista que Lula estava com total apoio do povo, e isso causava desequilíbrio no debate. Ou seja, para o programa não é negócio ter um candidato já definido pela população, afinal isso esvazia a importancia do debate (ou melhor, do evento de debate televisionado, com vistas a aumentar índices de audiência, e arrecadação com propaganda – pouco em relação a formação\consolidação de um pensamento político). Isso é debatido extensamente no documentário feito pelo Channel 4\BBC – Muito além do Cidadão Kane, que entre outras evidências de más práticas da Globo no período 1960-1990, detalha parte do que aconteceu nesta eleição.

Se o leitor se atentar, esse assunto é notícia batida e pública na internet quando se fala da Globo, e de certa maneira, boa parte da comunidade tem alguma noção desse evento. De qualquer maneira, reforço que o que foi realizado foi literalmente forjar uma realidade, aproveitando-se da desatenção das pessoas a manipulação em produtos audiovisuais de “não-ficção” (afinal de contas hoje em dia detalhar realidade em audiovisual é extremamente questionável, e assundo discutido nos últmos 30-40 anos em qualquer fórum de audiovisual). Isso no meu ver é condenável,  e passível de criminalização, pois os produtores desse conteúdo tem pleno conhecimento dos impactos e dimensões desses efeitos na comunicação de massa, não podendo portanto alegar desatenção. Se isso é ainda crime, se uma confissão disto ainda não prescreveu, isso é algo que deixo para algum leitor advogado responder. Mas possívelmente não há mais nada a fazer, ou o Boni deve ter mais cartas na manga.

Apesar de tudo, esse post chama a atenção para outra coisa (desculpem a demora no desenvolvimento da idéia). Contar isso hoje têm um propósito. Ninguém do calibre de Boni, produtor cultural, e um dos maiores títeres da televisão brasileira, iria declarar tal evento a toa. Assunto enterrado, sendo entrevistado na própria emissora, não há necessidade em se mexer em espinhos sem um propósito. Dentre um universo de respostas prováveis, incluindo as maiores bondades e teorias da conspiração, creio que essa seja uma tentativa de mea culpa de Boni/Globo. Uma tentativa de descolar a imagem da emissora de um evento sórdido na história deste país, onde Lula poderia ter ganho as eleições, sendo o primeiro presidente eleito democraticamente, um presidente que veio de baixo, etc, etc, etc, em um momento pós-ditadura, onde teria forte apelo popular. Mais do que em 2002.

Teantativa também de se livrar da Globo ter a imagem colada na de Collor, deposto 2 anos depois em processo também movido com apoio da grande mídia.

A Globo tenta se retirar dos momentos onde teve presença incisiva na determinação de rumos históricos deste país. Nesta sexta-feira é a vez da Globo se posicionar a favor do movimento Gota d’água (no Globo Repórter), parcialmente encabeçado pelo Global Sérgio Marone, e um casting de centenas de milhares de Reais. Isso não é a toa. Há somente artistas nesse movimento, com vídeos bem editados, plástica visual bem feita, e uma tentativa de roteiro para convencer o espectador. Não sou favorável a Belo Monte, mas até agora não vi o Governo Federal investindo em propaganda sobre a usina, para defender seu projeto. Normalmente propaganda serve para moldar a opinião contrária das pessoas.

Espero que em um futuro as pessoas tenham educação em colégio sobre como interpretar uma peça audiovisual, sobre enquadramento, iluminação, composição de quadro, montagem, trilha sonora, entre outras coisas. Pois é isso que estão utilizando para formar opinião das pessoas nos últimos anos, seja na televisão, mas mais ainda na internet. Com câmeras acessíveis, e conhecimento difundido na rede, é possível fabricar qualquer coisa, e atualmente nos resta rezar para que os autores tenham bom senso, pois uma imagem plástica bem feita, com boa trilha sonora ainda é capaz de moldar sem questionamento, seja para o bem, seja para o mal, a cabeça de todos que a assistem, mesmo que a pessoa tenha discernimento, é algo físico, é algo de uma realidade tal como prega a Gestalt.

Quando teremos educação que comporte isso? Há algum lugar que se ensine em escala de massa tal percepção? Devemos regular as comunicações, mas podendo sofrer as consequências de um totalitarismo na comunicação (tal como na atual batalha sobre a classificação indicativa? São perguntas a serem debatidas, pois é um país cuja imagem estamos construindo na memória, aquela que talvez ficará quando estivermos velhos.

Mas se todos tiverem amnésia, o que acontecerá? A imagem de um terceiro será a nossa lembrança. Que ele tenha piedade de nós.

A contradição de Belo Monte e a nudez da Maitê Proença

Senhores leitores, bem vindos novamente a esse espaço, onde peço licença, desligo meu botão da insensatez, ligo meu chip da insolência e solto o verbo sobre algum assunto estranho do nosso Brasil. E, como não poderia deixar de ser, o assunto a ser tratado agora, foco de discussões escritas, assistidas, produzidas e até já enfadonhas, é – uma bala de caramelo pra quem adivinhar… exato: a Usina de Belo Monstro Monte. Poderia fazê-lo perder alguns minutos importantes de vida explicando como funciona uma usina hidrelétrica, ou indo direto ao caso e despejando belos montes de informação repetida sobre Belo Monte. Não. E caso você estivesse de férias em Júpiter, faço uma retrospectiva dos últimos fatos.

Bora lá: em 15 de novembro (Proclamação da República… apelativo, não?), um grupo de celebridades que você vê todos os dias na sua televisão, produziu e divulgou em massa a pérola aí embaixo. Ao que deu pra entender, seria o primeiro vídeo do tal Movimento Gota D´Água, um manifesto desses caras (e de mais uns 20 ou 30 desconhecidos que devem ser feios pra cacete) contra a construção da usina. Já assistiu? Claro que sim, eu mesmo já vi várias vezes! Não pelo movimento em si, ou pela petição que já assinei, mas faço aqui uma confissão: sou muito tarado pela admirador da Maitê Proença, desde os tempos da Dona Beija… que mulher, meu Deus!

O que eu sei é que a reação do brasileiro foi se alterando ao longo do tempo mais ou menos assim:

  • 16/nov – CARAAACA, é a Maitê Proença pelada!
  • 17/nov – Nossa, que celebridades legais! E a Maitê está MESMO pelada!
  • 18/nov – Espera aí, o que eles querem? Ah, foda-se, a Maitê Proença aparece pelada…
  • 19/nov – Sérgio Marone se achando o Leo DiCaprio do Brasil, só quer se aparecer… ao menos, a Maitê Proença está pelada.
  • 20/nov – Celebridades falando de Belo Monte? Ow, Maitê Proença, você é maravilhosa, mas é burrinha, hein?
  • 21/nov – Puro golpe de marketing! Ah, essa Juliana Paes querendo ser a Maitê…
  • 22/nov – Deixa eu ver de novo… tem a Maitê, né?
  • 23/nov – Desde quando uma celebridade pode opinar sobre Belo Monte? E só a Maitê tá pelada! Bando de poser!
  • 24/nov – Argumentos tão inválidos que tem que tirar a roupa pra chamar a atenção! Esperava mais de você, Maitê!
  • 25/nov – Eu odeio celebridades! Só a Maitê Proença que salva…

Surpresa: em 26 de novembro (nenhum feriado nacional importante, que eu me lembre), um grupo de estudantes da Engenharia Civil da UNICAMP sem um nome bonitinho lançou na web a respostinha aí embaixo, ironizando as celebridades que apareceram no vídeo anterior, e do alto da sacralização universitária, despejando argumento atrás de argumento para defender a construção da Usina de Belo Monte. Eu pessoalmente duvido da autoria desse vídeo: lembro que na minha época de UNICAMP a Engenharia Civil não era um local reconhecido pela beleza de meninas como as que aparecem no vídeo… de qualquer jeito, olha aí embaixo:

Sim, elas perdem da Maitê Proença. Mesmo que a loira linda que ameaçou tirar a camiseta o fizesse. Esse, no entanto, é o vídeo que mais se assiste, se comenta e se concorda hoje sobre Belo Monte. Enquanto outro grupo X não fizer novos vídeos defendendo um ou outro ponto de vista, ao que parece o brasileiro continua apoiando a construção da usina. Ou pior, acreditando nos argumentos dados por um ou por outro vídeo de forma absoluta e sem dúvidas, e pra esses, vai o recado: AMBOS os vídeos tem erros conceituais graves, e independente de ter sido feito por atores profissionais ou amadores, foram feitos mais para convencimento que para conhecimento…

É sabido que o Brasil é, de fato, um país emergente, alçado à sexta maior economia mundial recentemente, e que, para atrair mais investimentos da iniciativa privada nacional e externa, precisa, sim, de maior demanda por energia elétrica. E claro, tem os eventos, né? Entre 2014 e 2016, serão três anos em que o mundo voltará seus olhos para a nossa nação (legal ou não? Outro assunto, outro post). Mas por que Belo Monte? Por que uma usina hidrelétrica novamente? Confesso, caro leitor, não consigo entender Belo Monte. Nunca consegui. Mesmo antes dos super vídeos apresentados acima. Mesmo antes da Maitê Proença pelada.

A história recente brasileira aponta para os episódios do apagão energético “do FHC” e “do Lula”, e ao menos no primeiro caso, decorrente da pouca variabilidade da matriz energética nacional. Hidrelétricas dependem dos rios, e portanto, dependem das chuvas: não choveu, a represa abaixa; a represa abaixa, a geração de energia é menor. É óbvio! Quem é que sabe com o clima brasileiro vai se comportar nesse apocalipse particular do Al Gore do aquecimento global? E daí eu pergunto: por que Belo Monte?

E tem mais: quem se lembra da ECO 92, sabe que, desde então, essa tal “pegada ecológica” é forte em qualquer discurso internacional (de novo: com ou sem razão, cabe seu julgamento). Todo mundo discute energias limpas! Todo mundo discute degradação das grandes florestas! E daí, o Governo Brasileiro tem a brilhante ideia de construir a terceira maior usina hidrelétrica do mundo… no coração da Amazônia! Jurando de pés juntos que não isso não trará impactos negativos ao meio ambiente! Cacete, alguém me explica, por favor? Por que raios Belo Monte?

Tá, energia elétrica é mais barata, é fato. É sabido, sim, que a construção de cataventos ou painéis solares é muito mais custosa para os bolsos públicos, além de mais demorada. Mas espera um minuto: a ideia então é cagar belos montes para o desequilíbrio ecológico produzindo energia barata, é isso? É esse o desenvolvimento que se quer da sexta maior economia mundial? É assim que supriremos a nossa atual deficiência energética, com pressa e menor custo possível? Não é chegada a hora de pensar num desenvolvimento que não seja um “auto-estupro” ambiental, e que prime mais pela qualidade e menos pelo custo? Inevitável fugir do pensamento mais clichê: é a Copa. Sim, deve ser a Copa mesmo…

A favor ou contra, caro leitor, você não pode deixar de lado o fato de que Belo Monte evidencia claramente uma enorme contradição brasileira. Afinal, somos um país grande ou pequeno? Podemos andar com nossas próprias pernas, ou ainda dependemos de agradar gregos e troianos para ter os sorrisos dos amiguinhos mais velhos desse “Top10” mundial? E se sim, se quer agradar, pra que? Como?

Como explicar que o mesmo país consegue, em menos de um ano, pensar grande e atrair para si os dois maiores eventos esportivos mundiais ao mesmo tempo (coisa que ninguém nunca ousou fazer, nem mesmo os brothers mais velhos), para logo em seguida reduzir sua capacidade criativa e ignorar seus enormes e capacitados centros de pesquisa para repetição do nosso polêmico modelo de geração elétrica barata e pouco ecológica?

O Brasil é a Zara das nações: oferece um produto cada vez mais refinado sem abrir mão de métodos pouco ortodoxos, polêmicos e amplamente criticados de produção, é isso? Belo Monte é mesmo necessária? Afinal Brasil, qual é a sua identidade? É um país grande que pensa pequeno? Ou é um país pequeno que pensa grande?

Enquanto daí você fica pensando sobre essa bipolaridade nacional, caro amigo, deixe carregando o vídeo abaixo, terceiro que conheci sobre a polêmica de Belo Monstro, do Rafinha Bastos. O cara é comediante, não é especialista no assunto, mas pelo menos admite isso. Dentre as três propostas, o prêmio “saber seu limite intelectual e fazer o que se propõe desde o início a fazer” vai para:

É, não é a Maitê Proença…

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ATUALIZAÇÃO PÓSTUMA: pouco tempo depois que fechei o texto apresentado, meu grande amigo Ricardo Lourenço, que acabou de fazer uma bela estréia por aqui, mandou mais um vídeo interessante da turma da UnB, feito ontem, a favor da construção de Belo Monte e (ó, que original…) satirizando a superprodução dos globais, mostrada lá em cima. Argumentos interessantes, olha aí:

Aproveitando a deixa, coloco aqui também o link para uma reportagem feita pela Folha de São Paulo sobre a vida dos munícipes de Altamira/PA, onde será construída a super hidrelétrica. Um ponto de vista muito válido, talvez mais válido que qualquer outro já apresentado. Esse vídeo não pode ser upado diretamente aqui no BdQ, não é do YouTube, portanto para que você o veja, clique aqui e vá direto para a reportagem do jornal.

Valeu, Ricardo! Seja bem vindo ao BdQ! Aquele abraço!

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