Crônicas de um país sem sobrenome

Senhores leitores, bem vindos novamente a esse espaço, onde peço licença, desligo meu botão da insensatez, ligo meu chip da insolência e solto o verbo sobre algum assunto estranho do nosso Brasil. E, como não poderia deixar de ser, o assunto a ser tratado agora, foco de discussões escritas, assistidas, produzidas e até já enfadonhas, é – uma bala de caramelo pra quem adivinhar… exato: a Usina de Belo Monstro Monte. Poderia fazê-lo perder alguns minutos importantes de vida explicando como funciona uma usina hidrelétrica, ou indo direto ao caso e despejando belos montes de informação repetida sobre Belo Monte. Não. E caso você estivesse de férias em Júpiter, faço uma retrospectiva dos últimos fatos.

Bora lá: em 15 de novembro (Proclamação da República… apelativo, não?), um grupo de celebridades que você vê todos os dias na sua televisão, produziu e divulgou em massa a pérola aí embaixo. Ao que deu pra entender, seria o primeiro vídeo do tal Movimento Gota D´Água, um manifesto desses caras (e de mais uns 20 ou 30 desconhecidos que devem ser feios pra cacete) contra a construção da usina. Já assistiu? Claro que sim, eu mesmo já vi várias vezes! Não pelo movimento em si, ou pela petição que já assinei, mas faço aqui uma confissão: sou muito tarado pela admirador da Maitê Proença, desde os tempos da Dona Beija… que mulher, meu Deus!

O que eu sei é que a reação do brasileiro foi se alterando ao longo do tempo mais ou menos assim:

  • 16/nov – CARAAACA, é a Maitê Proença pelada!
  • 17/nov – Nossa, que celebridades legais! E a Maitê está MESMO pelada!
  • 18/nov – Espera aí, o que eles querem? Ah, foda-se, a Maitê Proença aparece pelada…
  • 19/nov – Sérgio Marone se achando o Leo DiCaprio do Brasil, só quer se aparecer… ao menos, a Maitê Proença está pelada.
  • 20/nov – Celebridades falando de Belo Monte? Ow, Maitê Proença, você é maravilhosa, mas é burrinha, hein?
  • 21/nov – Puro golpe de marketing! Ah, essa Juliana Paes querendo ser a Maitê…
  • 22/nov – Deixa eu ver de novo… tem a Maitê, né?
  • 23/nov – Desde quando uma celebridade pode opinar sobre Belo Monte? E só a Maitê tá pelada! Bando de poser!
  • 24/nov – Argumentos tão inválidos que tem que tirar a roupa pra chamar a atenção! Esperava mais de você, Maitê!
  • 25/nov – Eu odeio celebridades! Só a Maitê Proença que salva…

Surpresa: em 26 de novembro (nenhum feriado nacional importante, que eu me lembre), um grupo de estudantes da Engenharia Civil da UNICAMP sem um nome bonitinho lançou na web a respostinha aí embaixo, ironizando as celebridades que apareceram no vídeo anterior, e do alto da sacralização universitária, despejando argumento atrás de argumento para defender a construção da Usina de Belo Monte. Eu pessoalmente duvido da autoria desse vídeo: lembro que na minha época de UNICAMP a Engenharia Civil não era um local reconhecido pela beleza de meninas como as que aparecem no vídeo… de qualquer jeito, olha aí embaixo:

Sim, elas perdem da Maitê Proença. Mesmo que a loira linda que ameaçou tirar a camiseta o fizesse. Esse, no entanto, é o vídeo que mais se assiste, se comenta e se concorda hoje sobre Belo Monte. Enquanto outro grupo X não fizer novos vídeos defendendo um ou outro ponto de vista, ao que parece o brasileiro continua apoiando a construção da usina. Ou pior, acreditando nos argumentos dados por um ou por outro vídeo de forma absoluta e sem dúvidas, e pra esses, vai o recado: AMBOS os vídeos tem erros conceituais graves, e independente de ter sido feito por atores profissionais ou amadores, foram feitos mais para convencimento que para conhecimento…

É sabido que o Brasil é, de fato, um país emergente, alçado à sexta maior economia mundial recentemente, e que, para atrair mais investimentos da iniciativa privada nacional e externa, precisa, sim, de maior demanda por energia elétrica. E claro, tem os eventos, né? Entre 2014 e 2016, serão três anos em que o mundo voltará seus olhos para a nossa nação (legal ou não? Outro assunto, outro post). Mas por que Belo Monte? Por que uma usina hidrelétrica novamente? Confesso, caro leitor, não consigo entender Belo Monte. Nunca consegui. Mesmo antes dos super vídeos apresentados acima. Mesmo antes da Maitê Proença pelada.

A história recente brasileira aponta para os episódios do apagão energético “do FHC” e “do Lula”, e ao menos no primeiro caso, decorrente da pouca variabilidade da matriz energética nacional. Hidrelétricas dependem dos rios, e portanto, dependem das chuvas: não choveu, a represa abaixa; a represa abaixa, a geração de energia é menor. É óbvio! Quem é que sabe com o clima brasileiro vai se comportar nesse apocalipse particular do Al Gore do aquecimento global? E daí eu pergunto: por que Belo Monte?

E tem mais: quem se lembra da ECO 92, sabe que, desde então, essa tal “pegada ecológica” é forte em qualquer discurso internacional (de novo: com ou sem razão, cabe seu julgamento). Todo mundo discute energias limpas! Todo mundo discute degradação das grandes florestas! E daí, o Governo Brasileiro tem a brilhante ideia de construir a terceira maior usina hidrelétrica do mundo… no coração da Amazônia! Jurando de pés juntos que não isso não trará impactos negativos ao meio ambiente! Cacete, alguém me explica, por favor? Por que raios Belo Monte?

Tá, energia elétrica é mais barata, é fato. É sabido, sim, que a construção de cataventos ou painéis solares é muito mais custosa para os bolsos públicos, além de mais demorada. Mas espera um minuto: a ideia então é cagar belos montes para o desequilíbrio ecológico produzindo energia barata, é isso? É esse o desenvolvimento que se quer da sexta maior economia mundial? É assim que supriremos a nossa atual deficiência energética, com pressa e menor custo possível? Não é chegada a hora de pensar num desenvolvimento que não seja um “auto-estupro” ambiental, e que prime mais pela qualidade e menos pelo custo? Inevitável fugir do pensamento mais clichê: é a Copa. Sim, deve ser a Copa mesmo…

A favor ou contra, caro leitor, você não pode deixar de lado o fato de que Belo Monte evidencia claramente uma enorme contradição brasileira. Afinal, somos um país grande ou pequeno? Podemos andar com nossas próprias pernas, ou ainda dependemos de agradar gregos e troianos para ter os sorrisos dos amiguinhos mais velhos desse “Top10” mundial? E se sim, se quer agradar, pra que? Como?

Como explicar que o mesmo país consegue, em menos de um ano, pensar grande e atrair para si os dois maiores eventos esportivos mundiais ao mesmo tempo (coisa que ninguém nunca ousou fazer, nem mesmo os brothers mais velhos), para logo em seguida reduzir sua capacidade criativa e ignorar seus enormes e capacitados centros de pesquisa para repetição do nosso polêmico modelo de geração elétrica barata e pouco ecológica?

O Brasil é a Zara das nações: oferece um produto cada vez mais refinado sem abrir mão de métodos pouco ortodoxos, polêmicos e amplamente criticados de produção, é isso? Belo Monte é mesmo necessária? Afinal Brasil, qual é a sua identidade? É um país grande que pensa pequeno? Ou é um país pequeno que pensa grande?

Enquanto daí você fica pensando sobre essa bipolaridade nacional, caro amigo, deixe carregando o vídeo abaixo, terceiro que conheci sobre a polêmica de Belo Monstro, do Rafinha Bastos. O cara é comediante, não é especialista no assunto, mas pelo menos admite isso. Dentre as três propostas, o prêmio “saber seu limite intelectual e fazer o que se propõe desde o início a fazer” vai para:

É, não é a Maitê Proença…

__________________________________________________

ATUALIZAÇÃO PÓSTUMA: pouco tempo depois que fechei o texto apresentado, meu grande amigo Ricardo Lourenço, que acabou de fazer uma bela estréia por aqui, mandou mais um vídeo interessante da turma da UnB, feito ontem, a favor da construção de Belo Monte e (ó, que original…) satirizando a superprodução dos globais, mostrada lá em cima. Argumentos interessantes, olha aí:

Aproveitando a deixa, coloco aqui também o link para uma reportagem feita pela Folha de São Paulo sobre a vida dos munícipes de Altamira/PA, onde será construída a super hidrelétrica. Um ponto de vista muito válido, talvez mais válido que qualquer outro já apresentado. Esse vídeo não pode ser upado diretamente aqui no BdQ, não é do YouTube, portanto para que você o veja, clique aqui e vá direto para a reportagem do jornal.

Valeu, Ricardo! Seja bem vindo ao BdQ! Aquele abraço!

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Comentários em: "A contradição de Belo Monte e a nudez da Maitê Proença" (5)

  1. Aaah, finalmente um texto que aborde de maneira lógica todo esse bafafá que Belo Monte tem repercutido.
    Qual a melhor forma de contornar essa situação? Não sei…
    Apesar de já ter visto ‘n’ palestras/discussões sobre energia limpa, não dá pra definir o que é “o certo” e o que é “o errado”. A melhor expressão a se utilizar é “adequado” ou “inadequado”.
    O Brasil tem relativamente um grande desenvolvimento no setor hidrelétrico. Será que não seria a hora de abrir os olhos pra novos horizontes? Não só energia solar ou eólica, mas tem muito “japonês” enfiado em universidades e empresa (lê-se brasileiras) descobrindo como tirar watts de célula de hidrogênio, entre outros.
    Mas o que me pergunto é: Como é que a GLOBO, uma mídia massificada que vive ‘lambendo’ o governo, faz um vídeo tão polêmico contra essa ideia ? Não era pra ser o contrário?

    Sr. Galeoti, texto muito bom! 🙂

  2. Pois é Mayara, já me perguntei isso também, aliás, me pergunto pq afinal DESSA VEZ o povo não se convenceu de imediato…

    Obrigado pelos elogios, querida! Um beijo!

  3. Karina Maretti disse:

    Querido amigo Galeoti.
    Você sabe o quanto gosto de vc e espero que não leve essa minha resposta para o lado pessoal, mas não só os vídeos mas a sua fala tb tem erros conceituais.
    Primeiro, vc não pode afirmar que a construção de Usinas Eólica (não cataventos, por favor) ou Usinas Fotovoltaicas (que são muitos painéis/módulos solares conectados) é mais demorada, mais custosa tudo bem.
    No Brasil já foram construídas 65 Usinas Eólicas, e 6 Usinas Fotovoltaicas, sendo que a maior destas foi inaugurada esse ano em Tauá (CE) e é de uma empresa privada, a MPX.
    O Brasil vive uma crise energética, e vc como geógrafo, sabe melhor do q ninguém os impactos econômicos que a falta de energia pode gerar na sociedade.
    Qto aos impactos ambientais, vc já parou pra reparar que qdo as hidroelétricas não dão conta de fornecer a energia necessária, as termoelétricas são ativadas?? Se vc quiser fazer um estudo comparando os impactos ambientais da construção de Belo Monte e do impacto gerado pela queima do nosso carvão pouco energético quando as termoelétricas são ativadas, eu apoio muito pois, além dos resultados muito interessantes, acho q ainda não foi feito esse estudo.
    Com relação a hidroeletricidade, acho que a maioria das pessoas esquecem de olhar algumas informaçãoes que considero muito relevantes, por exemplo, existem 961 hidroelétricas no Brasil, sendo que mais 64 estão em construção e 215 foram outorgadas, ou seja, Belo Monte é só uma dessas outorgadas. Se pararmos para considerar agora que quanto menor a Hidroelétrica, menor é o rendimento dela, o que acareta em uma maior área alagada por energia produzida, o que gera muito mais impactos ambientais, eu realmente prefiro a Belo Monte. (informações extraidas do BIG, Banco de informações de geração da ANEEL)
    Quanto a resposta da querida Mayara, a tecnologia se chama células a combustível, que erroneamente aparecem muito como células a hidrogênio, mas elas podem ser alimentada por vários tipos de gases, e um deles é o hidrogênio. Essa tecnologia é bem conhecida, mas existe o por que de não estar sendo muito empregada: você precisa produzir o hidrogênio, e para isso é necessária uma quantia enorme de energia, já que é necessário fazer a eletrólise da água, ou produzir o Hidrogênio por reformas a vapor de cadeias carbônicas, como gás natural, etanol, etc (há uma patente nacional de reformador de Etanol para a produção de Hidrogênio). Nesse setor existem várias pesquisas acadêmicas que posso indicar posteriormente.
    O que quis mostrar com essa minha resposta, é que precisamos de energia elétrica. Infelizmente, dependemos de custos máximos para produção, pois esses serão repassados a todos, e necessitamos de energia para manter a taxa de crescimento do país. Então olhando o contexto, e sendo estudiosa da área de fontes alternativas de energia, concordo que os aspectos mostrados pelos alunos de Engenharia Civil e de Economia da Unicamp no vídeo são sim muito relevantes e devem ser levados em conta para se pomar uma posição com relação a esse assunto.
    Galeoti, gostei muito da sua iniciativa.
    Mayara, gostei de saber que você está a par de novas alternativas.
    Estou a disposição para conversar pessoalmente.
    Bjos.
    Karina Maretti.

    • Querida! Não sabe a felicidade que essa sua participação aqui me proporciona! Se a idéia era provocar a discussão, e a idéia sempre foi essa desde o começo do blog, essa foi a contribuição que mais me encanta, de uma pessoa que, ao mesmo tempo, é uma pesquisadora da área (eu não sou, admito) e uma grande amiga! Obrigado mesmo Ká!

      O foco desse meu texto foi exatamente esse, suscitar a reflexão sobre o assunto, de forma alguma doutrinar alguém para o MEU ponto de vista. Seria muito egoísta de minha parte tentar convencer a todos de que eu estou certo e todos estão errados.

      Sobre o tema apresentado, já debatemos isso pessoalmente, em outra ocasião em que ADOREI ter você por perto, lembra? Acontece que eu penso em um plano para o Brasil em que se tenha mais idéias, saiba se fazer coisas diferentes… Belo Monte tem um monte de vantagens, eu SEI bem disso, a questão é que simplesmente não acredito que não seja possível gerar energia no Brasil, sexta economia mundial, que não seja ainda mais ecologicamente correta que a UH em questão. O foco principal da minha discussão, embora tenha deixado claro que sou, sim, CONTRA Belo Monte, é que não acho que devamos pensar tão pequeno a ponto de repetir mais do mesmo, com toda essa pressa, tanto atropelo, e é do atropelo que vem a polêmica, eu acho. A diversidade é essencial, justamente pela ativação ainda mais nociva das termoelétricas, entende? Tá certo isso, ou geramos EE por UH ou queimamos carvão? Não existem outras alternativas que o Brasil pode, SIM, pensar? Que bipolaridade é essa desse país, que pensa grande pra chamar empreiteiras mundo afora para construção de uma Copa e uma Olimpíada, e não elabora um plano maior, de mais longo prazo, para seu desenvolvimento interno?

      De qualquer forma, fique tranquilíssima com relação a levar para o lado pessoal ou não, eu JAMAIS pensaria negativamente de alguém que discorde de mim, ainda mais sendo uma pessoa tão importante para mim como você, meu anjo! Da mesma forma, espero que você também não me leve a mal, e entenda que é preciso MUITO MAIS que pontos de vista discordantes para que eu deixe de gostar MUITO de você!

      E a propósito, para os próximos leitores / comentaristas dessa minha pérola por aqui, queira MESMO fazer o favor de ler atentamente as informações que a Karina trouxe aí em cima, e sinta-se, novamente, a vontade para participar da discussão, em qualquer lado da história!

      Um beijo ENORME Ká! Muito obrigado, novamente, MESMO!

      PS: o lance do “catavento” foi mais pela informalidade do texto mesmo, eu sei que esse não é o termo certo da coisa, mas imagino que deve ter doído a beça seus olhos, né? Desculpa, rs…

  4. Lucas Ramirez disse:

    Sobre o tema Belo Monte fica difícil de se posicionar a favor/contra essa Usina.

    Ainda mais quando vemos esses vídeos que fazem análises simplistas e com o ar de verdade absoluta.

    Vídeos de engenheiros dizendo asneiras a respeito de energia limpa assim como biólogos afirmando que são os únicos que podem realmente opinar sobre Belo Monte porque defendem a natureza e com a efetivação da Usina eles nada ganharão. (https://www.facebook.com/video/video.php?v=10150396031994436)

    Esses vídeos parecem estar mais preocupados com a questão, quem sabe mais, é o Engenheiro ou o Biólogo? do que com a questão necessidade de energia Vs desmatamento.

    Acredito que é necessário uma discussão com o foco de uma conciliar as duas questões.

    Biólogo/Ambientalista: é o seguinte, essa Usina aqui, nessas proporções afeta isso e isso, o nosso prejuízo será este. Podemos amenizar esses efeitos dessa e desta maneira.

    Engenheiro Elétrico/Especialistas em Geração de Energia: Esse método de obtenção de energia custa tanto, produz tanto e o retorno é X, se fizermos uso deste outro modelo os resultados serão estes…

    Apartir disso acredito ser possível chegarmos a uma “verdade”.

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