Crônicas de um país sem sobrenome

Nota inicial: como deve ser, damos os créditos a quem se devem os créditos, caro leitor. Ou, nesse caso, os tiramos de quem eles não são: o texto que segue não é meu. Pronto!

Explico. Recebi esse texto hoje de manhã por uma ex-aluna minha, que o postou em meu perfil no Facebook achando que eu gostaria de tal leitura. A coincidência é que, sem que ela soubesse, já há algum tempo pensava com meus botões durante minhas idas e vindas diárias dentro de um ônibus sobre escrever algo parecido com o proposto aí embaixo. Constatei que não seria original de minha parte, e que não teria tamanho brilhantismo com as palavras. A propósito, também é importante: Gianny, muito obrigado, realmente adorei, você acertou em cheio!

Enfim: de quem é o texto? Pela versão enviada por minha ex-aluna, era de autoria de ninguém menos que João Ubaldo Ribeiro, famoso escritor e roteirista brasileiro. De fato, surpreso que fiquei, procurei mais sobre o texto em questão, aparentemente escrito em 2005 (você notará os “atrasos” nos argumentos usados, mas que em nada tiram a validade da argumentação), e a maior parte das referências que encontrei na internet apontam Ubaldo, ele mesmo, como dono da obra. Escarafunchando pouco mais, achei gente falando que também não era dele, inclusive com uma nota do próprio esclarecendo e indignando-se com o crédito dado, haja visto que, ao que me parece, ele discorda da opinião refletida. A essa altura do campeonato, caro amigo, questiono até a veracidade dessa nota de indignação…

Pra mim, caro leitor, a cabeça que pensou e organizou tais idéias permanece desconhecida, algo que “grila” no começo mas passa logo em seguida, ao embrenhar-se na reflexão proposta. Além disso, confesso, fiquei feliz ao ver que não sou o único a elaborar coisas tão longas (quanto à qualidade, prefiro deixar o exercício da equiparação contigo, não me atreverei a isso, rs…)

Boa leitura, divirta-se! E, como sempre, se quiser deixar seu comentário lá no fim, fique a vontade, será mais que bem vindo! Um abraço!

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Precisa-se de matéria prima para construir um País

por João Ubaldo Ribeiro (ou não)

“A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula, com certeza, também não servirá para nada.

Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão e corrupto que foi Collor, ou na farsa, como dizemos nas ruas, que é o Lula. O problema está em nós.

Nós como povo. Nós como matéria prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a “esperteza” é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, em caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal e se tira um só jornal, deixando os demais onde estão.

Pertenço ao país onde as “empresas privadas ou as repartições públicas” são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos… e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu “puxar” a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.

Onde fazemos “gatos” para roubamos luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros.

Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior é o nosso atual Presidente, que recentemente falou que é “muito chato ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica. Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar os que não tem, encher o saco dos que tem pouco e beneficiar só a alguns privilegiados.

Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser “comprados”, sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Collor, do Fernando Henrique, do Itamar e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem “molhei” a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro, apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um alguém através de uma pequena fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.

Como “Matéria Prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa.

Esses defeitos, essa “esperteza brasileira” congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalos, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, eleitos por nós. Nascidos aqui, não em outra parte.

Eu me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada. A maior possibilidade de mudança está em nós.

Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados… igualmente sacaneados!

É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilianidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda…

Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar, um novo governante com os mesmos brasileiros não poderá fazer muita coisa. Está muito claro… Somos nós os que temos que mudar.

Sim, creio que isto se encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo: desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.

Sim, decidi procurar ao responsável e estou seguro que o encontrarei quando me olhar no espelho. Aí está. Não preciso procurá-lo em outro lugar. E você, o que pensa? MEDITE!”

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Comentários em: "Precisa-se de matéria prima para construir um País" (2)

  1. Fiquei feliz que gostou do texto, já havia pensado em escrever sobre o tema, mas, não saberia me expressar tão bem como Ubaldo.
    Mas, peço permissão para continuar lhe enviando textos que achar interessante, quem sabe, compartilhamos da mesmas ideias!
    Abs!

  2. Paloma Bulerjahn disse:

    A realidade é dura

    A culpa não é somente do povo, mas há uma grande parcela para o que está acontecendo em nosso país. Praticamente fechamos nossos olhos para a realidade, sabemos criticar o político corrupto, mas, quem o colocou lá?
    O povo se em toda época de eleição não se importar com o voto continuará a mesma coisa. Achamos normal desviarmos de mendigos nas ruas, ocupar uma vaga de estacionamento de um idoso, como assim normal? Isso jamais poderia ser normal, um país onde sediará Copa do Mundo e Olimpíadas. È claro que não podemos comparar Brasil com outro país da Europa, mas, pagamos altos impostos para que? Se os governantes não tem consciência de seus atos. O autor tem toda razão em encontrar o responsável quando olhamos no espelho.Mas não podemos esquecer que a atitude do povo não mudará da noite para o dia, se nossos governantes não fizer a sua parte.

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