Crônicas de um país sem sobrenome

I-Revolts Beta

Hoje, dia 22 de dezembro, marca os 23 anos do falecimento de Chico Mendes, importante sindicalista e ativista ambiental brasileiro. Imagino, hoje, qual seria a reação do Chico ao observar as atuais manifestações ambientais, da forma como são feitas no Brasil: imagino, claro, ser bem mais seguro estar por detrás de um teclado que enfrentando fazendeiros com uma foice e um facão, é verdade, mas e quanto a eficácia e a energia do movimento? Hein, energia do movimento? Prefiro perguntar: isto é um movimento?

Fato é que, hoje, o Brasil é foco maior de uma epidemia mundial de jovens altamente conectados à internet. Pacotes de bandas largas muitas vezes mais baratos que aquele boleto mensal das Casas Bahia. Com apenas um real por dia, menos que um cafezinho (papo mais Polishop esse, né?), o brasileiro de hoje passa uma hora inteira dentro do grande e diversificado “mundo virtual” numa lan-house de quebrada, com o mesmo um real não compra sequer metade de um marmitex. Engana-se aquele que, ainda hoje, diz ser “um luxo para poucos privilegiados” o acesso à internet hoje em dia no Brasil: isso pode, sim, ter ocorrido há muitos anos atrás, na época dos cursos de datilografia… hoje, no entanto, as classes sociais classicamente contextualizadas como “excluídas” dos processos de melhoria social, tem ao menos esse luxo direito assegurado: a navegação.

Vale "uma velha opinião formada sobre tudo"

Che Guevara disse (disse?) uma vez: “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. Só acho uma pena que essa frase do dono do rosto mais estampado em camisetas ao redor do mundo seja, no Brasil, levada tão a sério, de forma que nem Che nem Chico estariam orgulhosos… o jovem do Brasil de hoje, conectado até dentro dos ônibus mais lotados, é a antítese do menino alienado, alheio a qualquer assunto importante de sua sociedade e sua nação. Em um clique, estão ali as notícias, está ali a interação, esta ali o “curtir”, está ali o “compartilhar”…

Quem disse eu disse eu??

A menina descoladinha e com consciência social revoltou-se com a nova proposta do Novo Código Florestal. Achou uma figurinha bacana no Facebook, pôs ali um comentário pessoal qualquer, e compartilhou com os amigos. Ganhou uns 20, 30 “curtir”. Passam-se dez minutos, e na timeline surge a TER-RÍ-VEL imagem de um pobre cachorrinho espancado pela dona até a morte, ou com o focinho destruído por uma bomba atômica. Revoltante o que se faz com os animais no Brasil, e isso não pode continuar: curtir, comentar, compartilhar. Meia hora depois, Gilberto Kassab fala qualquer bobagem sobre a Cracolândia, cai no Estadão e, dali para a página inicial da menina descoladinha e com consciência social, são dois minutos, nem isso. Revoltar-se, curtir, comentar, compartilhar… um minuto: o que aconteceu com as discussões sobre o Novo Código Florestal?

A antítese do menino alienado e alheio a qualquer assunto importante de sua sociedade e sua nação torna-se o que? Bingo: bem vindos à era da alienação 2.0! Exagero? Nem tanto: que manifestação pode ser menos efetiva que uma foto compartilhada a toque de caixa, sem o mínimo de reflexão e pesquisa sobre o assunto? Brasileiro de hoje: compartilhar uma imagem ou uma frase sem exigir dela uma reflexão, e principalmente sem passar essa reflexão para outras pessoas, é simples e somente isso: compartilhar uma imagem ou uma frase… ah, pode ser também um vídeo, em que a mensagem é sempre mais enfática e tira do passivo internauta a obrigação chata de ler e reler as coisas. A coisa parece mais direta, é verdade, mas o que mudou em sua vida ou em sua opinião sobre aquele assunto ao assistir um videozinho? Você refletiu? Percebe como dá na mesma?

Eu penso, eu luto, eu curto, eu compartilho!

Antes que você se equivoque, caro leitor, é evidente que em momento algum meu papel nessa reflexão é condenar o uso da internet, ou sugerir a menor acessibilidade do brasileiro padrão ao mundo virtual. Qualquer egípcio concordaria comigo: a internet é uma ferramenta fantástica para a compreensão e, por que não, para o estarte das mudanças que se quer no mundo. E se você me acompanha há algum tempo aqui no BdQ, sabe também que a aparente falta de vontade de manifestação do brasileiro, bem como, o uso da internet para qualquer coisa mais bizarra e menos reflexiva por parte dos usuários não são novidades nesse blog. E qualquer egípcio concordaria comigo, também, ao apontar com toda a certeza para o fato de que a internet é ótima para começar os processos, as manifestações, as revoltas. O “manifestar-se”, o “dar a opinião”, é aqui fora, no mundo real, onde as coisas acontecem!

O que se propõe aqui, amigo, é que as ferramentas de compartilhamento de informações seja algo mais que isso: que as informações sejam digeridas, que gerem discussões, reflexões! “A título de” informação: a agressora do Yorkshire não foi presa, nem morta, apenas pagou uma multa. O Novo Código Florestal Brasileiro foi aprovado em primeira instância e segue para novas etapas de implantação; o projeto de Belo Monte sobreviveu ileso aos montes de vídeos idênticos criticando a obra e segue de vento em popa; e a Cracolândia, bem… essa continua lá, com as mesmas políticas (ou falta delas) escandalosas para a “solução” do problema. Ok, o Facebook salva a sua popularidade e te dá vários “curtir” todos os dias, parabéns! Salvar a humanidade e fazer um Brasil mais justo, no entanto…

Não sei o que Chico Mendes diria sobre isso. Acho até que ele não apoiaria a idéia de todos saírem da frente de um PC e empunhar facões e foices, afinal, foi exatamente isso que fez com que ele perdesse a vida com apenas 44 anos, completos uma semana antes de sua execução por fazendeiros rivais aos seus princípios. Acho, no entanto, que ele também diria que seu legado de preservação florestal e luta pelo meio ambiente, com grupos aos montes que levantam sua bandeira, não foi obtido com apenas um teclado…

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PS: se você acha que escrevi esse texto pensando na poluição atual do Facebook, em partes você está certo. Existe um número cada vez maior de nonsenses e coisas ridículas sendo compartilhadas, é verdade! Não sugiro, aqui, que todos nós tornemo-nos ativistas de seja lá qual for a atividade, seria muito nerd da minha parte, e isso não é legal…

Sobre isso, saca só o que o Cauê Moura disse no seu canal:

Pois é, eu concordo em gênero, número, grau e palavrões!

PS(2): aproveitando a deixa, desejo a todos um feliz natal, e um 2012 foda de verdade, em todos os sentidos! Abraços e até lá!

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