Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para janeiro, 2012

Os erros do Enem, ou: da impressionante capacidade do governo de trollar a si mesmo

Vamos combinar, minha gente. Mamãe sempre me ensinou que fazer disparates contra alguém sem propósito aparente é falta de educação, mas especialmente quando o alvo das chacotas parece se auto-chacotar insistentemente, fica difícil ficar quieto. E a bola da vez, ao que me consta, é o Enem.

Eu sou da época longínqua em que o Enem havia aparecido de repente na vida do vestibulando comum. Quando prestei a prova, o Exame Nacional do Ensino Médio tinha uma dupla função: a primeira, examinar nacionalmente o ensino médio (dârrr…); e a segunda, mais importante e “semi-presente” ainda em dias atuais, dar aquela forcinha básica pro cara entrar na universidade, a critério desta usar a nota em questão como acréscimo ou não na nota final de cada um. Ok, admito que é difícil falar da prova em si após tanto tempo (ainda eram 63 questões e uma redação que não dava a mínima vontade de fazer, mas que todos faziam, “por desencargo de consciência”, sabe?), mas certas coisas não se deixam passar, mesmo não fazendo mais ideia de quando foi que fiz esse troço…

Antes de falar sobre “as coisas que deram errado”, cabe colocar “as coisas que eram pra dar certo”. A idéia dessa reformulação toda do Enem, que começou três ou quatro anos atrás, era bolar uma prova que, primeiramente, não fosse uma avaliação do ensino médio em si, mas do andamento de cada aluno ao longo de seus três anos de ensino médio. Consta, também, que a prova estava já bastante obsoleta: ninguém entendia por que 63 questões (qual a graça ser um número divisível por 7 ou 9?), e o nível de dificuldade não avaliava o ensino médio. Algo assim:

Em segundo, destaca-se que a proposta do Novo Enem era a de substituição total dos vestibulares por essa prova, que seria prestada pelo candidato todos os anos, desde a época de “faculdade como realidade longínqua”, espinhas na cara e pêlos na mão. É daí, por exemplo, a mirabolante idéia dos “dois Enem por ano”, terror de vestibulandos, alunos, professores e avalistas da educação no Brasil.

Isso não foi tirado de um “momento maconha” dos senhores do MEC, caros leitores: a idéia não é ruim, já funciona nos Estados Unidos há um bom tempo. Lá nas gringas, o aluno já sai do colégio sabendo a universidade que vai se matricular, visto suas notas ao longo dos tempos escolares. E se a ideia do MEC é fazer um sistema de ensino de maior acessibilidade de cada aluno à universidade, assim matamos dois coelhos numa só pedrada: economizamos dinheiro público com os diversos processos seletivos Brasil afora e evitamos a deslealdade do vestibular.

Você conhece: projeto novo, logotipo novo...

O problema vem exatamente daí, a falta do pensamento óbvio. O modelo americano funciona perfeitamente… nos Estados Unidos! Começando pelo mais básico: se a ideia era aumentar a acessibilidade do aluno do ensino médio à universidade, como isso é possível num sistema em que alunos de escolas públicas e particulares prestam a mesma prova com os mesmos pesos? O povo se esqueceu que, infelizmente, salvo raríssimas exceções (leia-se escolas técnicas – e olhe lá) o ensino particular é de maior qualidade que o público? O povo se esqueceu quem são os professores que estão ali ensinando seus filhos todos os dias numa escola pública depredada? Na época do vestibular para todos, o cara da escola pública tinha ainda uma chance caso o aluninho de escolinha particular paga pelo papai tivesse uma diarréia súbita, ou um acesso de “tuberculepra infecto-cancerosa” no dia da prova: agora, avaliando o cara ao longo de todo seu ensino médio, as exceções reduzem, ou seja, a coisa fica ainda mais inacessível! Furo número 1!

Furo número 2: o Novo Enem veio com o slogan da modernidade estampado na figura da, cof-cof, “interdisciplinaridade”, aquela coisa toda de “áreas do saber interligadas numa dinâmica só, com visão sistêmica dos processos e formas do planeta e suas linguagens metafóricas da metalinguística intra-molecular whiskas-sachê”. Tudo lindo, não fosse por um detalhe: como obrigar o cara a fazer uma prova dessas, sendo preparado por um ensino médio que ainda tem um professor de história ensinando história, um professor de geografia ensinando geografia, um professor de física ensinando física? Meio que assim: o MEC prepara um teste para privilegiar os candidatos que NÃO seguem o MEC em sua preparação! E quem são esses caras? Esses caras são aqueles que dão mais liberdade para que o professor não fique ali, engessado no currículo básico do MEC. Ou seja, as escolas particulares! CA-BUM!

Sem contar, claro, aquilo que todo mundo vê na TV: entre corte de gastos ao máximo e facilitações aqui e ali de empresas amigas de fulano e ciclano, parece que já sabemos que o “fez-se a bosta” vai acontecer novamente, e esperamos ansiosamente os escândalos do Enem de todos os anos, entre vazamento de provas, roubo de prova na gráfica, juizes cearenses (por que sempre cearenses?) encrencando com a validade da prova, um sistema matemático de exclusão de chutes que ninguém entende como funciona (conheça o TRI: clique aqui), erros de impressão altamente prejudiciais nos cadernos de resposta, cancelamento e reformulação as pressas de novo teste, remarcação de calendário, e a mais nova azeitona da empadinha: a correção malfeita (mas é possível ter correção malfeita de uma prova alternativa? É, sim: clique aqui). Tipo de coisa que faz as universidades estaduais não aceitarem o Enem como avaliação, e as federais só aceitarem por imposição determinação maior do MEC (lembra do corte de gastos? Pois é…). Isso sem falar no tal do SISU, que direciona o candidato para uma universidade compatível com suas notas, ou em outras palavras, diz pro cara algo assim: ou você vai estudar paleontologia molecular na UNIFRALDAS, ou tenta a vida no Baixo-Augusta. Legal!

Tem remédio? Tem, sim, e é bastante conhecido: primeiro, pensar num desenvolvimento educacional que seja feito de acordo com a realidade nacional. Mais ou menos o que falei aqui uns meses atrás discutindo outro assunto, e que causou certa polêmica. Não adianta implantar um sistema de avaliação que não condiz com o que se é avaliado. O sistema do Enem pode, sim, funcionar no dia em que ele, o ensino médio, avaliado pelo Exame Nacional do Ensino Médio, for de fato reformulado, readequado, modernizado, priorizando a qualidade ao invés da quantidade de alunos matriculados, nem que pra isso tiremos os escorpiões do bolso! Antes disso, o critério continua desigual, o “fez-se a bosta” fica aí do mesmo jeito.

Em segundo, e olha eu batendo em outra tecla batida nesse blog anteriormente, pensar em formas de desenvolvimento que sejam implementadas de forma gradual, que não tenham validade de quatro anos: transformar um sistema educacional de uma nação como o Brasil, de realidades tão distintas entre cada um dos seus jovens estudantes, requer planejamento e implementação em etapas, primeiro de conhecimento, depois de ação incisiva. Nenhuma realidade educacional funciona na base de decretos, de um dia para o outro, isso é o famoso “pra inglês ver”. Enquanto isso, vamos todos nesse rumo, confusos com o que acontece todos os anos com o Enem, seu sistema falho de avaliação e seus escândalos sem fim.

Pensando bem, ironicamente, o Enem voltou a ser o que era lá nos primórdios das 63 questões: uma avaliação do ensino médio. Não do ponto de vista educacional, mas de sua invejável capacidade de trollar a si mesmo constantemente. Ou alguém tem dúvidas que, assim como o Enem não avalia nada, a educação no Brasil da forma como está também não educa ninguém?

Crônica: amigos, cervejas e bundas ao léu

Brás e Astolfo, dois grandes amigos, brasileiros típicos, se encontram num bar. Toda quinta feira depois do expediente, sabe como é: o guerreiro merece. Tradição não se quebra, oras! Após as reclamações de chefe, imposto, esposa em TPM e comentários sobre bundas ao léu no ambiente, segue o diálogo…

  • Astolfo – Vamos falar mal dos outros que é mais divertido!
  • Brás – Alguma novidade?
  • Astolfo – Cara, você não acredita. Sabe o Bruno? Dez anos casado, o cara descobriu que é viado e vai largar a mulher!
  • Brás – Ah, como assim cara, verdade?
  • Astolfo – Opa! Vê se pode, depois de velho vira bicha… eu hein, não quero mais contato!
  • Brás – Ah, nada a ver cara, o que importa é a amizade…
  • Astolfo – Ih, vai lá ser amiguinho dele então, bichona!
  • Brás – Nada a ver, sério. E daí que o cara é gay? Apesar disso o cara é muito gente fina!

(pausa: bunda passando)

  • Astolfo – Vai ser gostosa na minha cama, potranca!
  • Brás – Fala a verdade amigo, usar uma sainha dessas é deixar claro que tá caçando macho.

(fim da pausa: a bunda virou a esquina)

  • Astolfo – Deixa eu perguntar: conseguiu pegar aquela grana barrada no banco?
  • Brás – Ah cara, nem deu, vários problemas…

(pausa: outra bunda aparece. Dessa vez, é uma negra)

  • Astolfo – E essa pretinha linda hein? Vem pra mim, vem!
  • Brás – “Pretinha linda”? Cara, isso é racismo!
  • Astolfo – Tá bom, mané: afro-descendente, melhorou?
  • Brás – Não precisa ser irônico!

(fim da pausa: a pretinha linda sentou-se numa mesa de mal-encarados)

  • Astolfo – Você dizia sobre…
  • Brás – Sobre o dinheiro parado. Acontece que aquela estagiária estranha e mal encarada não arrumou a papelada toda, e enquanto isso não acontece, eu não tenho acesso à conta da empresa!
  • Astolfo – Qual estagiária, aquela gorda?
  • Brás – Sim, ela mesmo. Cara, como você é preconceituoso!
  • Astolfo – Preconceituoso, eu? Ué, ela que é gorda e eu que tenho problemas?
  • Brás – Sim, mas se todo o problema fosse esse eu estaria feliz, acontece que além de gorda ela é insuportável!
  • Astolfo – É foda, gente assim tem a obrigação de ser ao menos legal…
  • Brás – Nossa, quem é você? Reencarnação do Hitler? Traz a conta que depois dessa eu vou embora, credo!

Nota-se, um diálogo bastante comum numa mesa de bar. Nota-se, também, que ali naquela mesa encontra-se um babaca preconceituoso, machista, racista. Versão pobre do Bolsonaro. Eu também abandonaria essa mesa.

O cara é um cretino, típico amigo que todo mundo tem e que não deve ser levado a sério. Será? Vamos reproduzir novamente o diálogo e interpretar algumas falas (comentários destacados em azul, pra facilitar a leitura):

  • Astolfo – Vamos falar mal dos outros que é mais divertido! (diz aí: você já ficou chocado com a primeira frase, certo? Agora me diz que nunca ouviu ou mesmo foi quem disse isso numa roda de bar…)
  • Brás – Alguma novidade?
  • Astolfo – Cara, você não acredita. Sabe o Bruno? Dez anos casado, o cara descobriu que é viado e vai largar a mulher! (nem a medicina sabe ao certo como funciona o cérebro de um homossexual, mas o cara aqui já sabe que é assim: um dia você acorda e plim: é gay… melhor: viado!)
  • Brás – Ah, como assim cara, verdade?
  • Astolfo – Opa! Vê se pode, depois de velho vira bicha… eu hein, não quero mais contato! (chocante, é verdade, mas quem tem algum conhecido homossexual sabe que isso é completamente normal, talvez, só não seja assim tão declarado…)
  • Brás – Ah, nada a ver cara, o que importa é a amizade… (como assim? Claro que tem tudo a ver! Imagine só o quanto isso revolucionou, pro bem ou pro mal, a vida do tal amigo Bruno! Não acho que “fingir ser tudo como antes” seja o melhor tipo de apoio que um amigo pode dar numa hora dessas…)
  • Astolfo – Ih, vai lá ser amiguinho dele então, bichona! (afinal, amigo de gay é gay, certo?)
  • Brás – Nada a ver, sério. E daí que o cara é gay? Apesar disso o cara é muito gente fina! (“apesar disso”, precisa dizer mais algo? Precisa, sim: já reparou que, quando alguém quer dizer que é amigo de um homossexual, o dito cujo nunca é somente “legal”? Ele tem que ser sempre “muito gente fina”, pra compensar seu “defeito” e pro elogio parecer mais sincero…)

(pausa: bunda passando)

  • Astolfo – Vai ser gostosa na minha cama, potranca! (acredite, mulher: mais homens pensaram isso, não somente esse cretino aqui)
  • Brás – Fala a verdade amigo, usar uma sainha dessas é deixar claro que tá caçando macho. (claro, pois a roupa da pessoa nunca quer dizer o quanto de frio ou calor ela está sentindo aquele dia, diz somente a disposição para o sexo que ela tem naquele exato instante, né?)

(fim da pausa: a bunda virou a esquina)

  • Astolfo – Deixa eu perguntar: conseguiu pegar aquela grana barrada no banco?
  • Brás – Ah cara, nem deu, vários problemas…

(pausa: outra bunda aparece. Dessa vez, é uma negra)

  • Astolfo – E essa pretinha linda hein? Vem pra mim, vem! (tudo bem que ele podia ter dito “negrinha linda”, mas soaria diferente?)
  • Brás – “Pretinha linda”? Cara, isso é racismo! (é mesmo? O que dizer sobre “loirinha linda”, é racismo? A pessoa de pele branca é branca, e se o contrário de “branco” é “preto”, a  pessoa de pele preta é preta, oras! Chamar um preto de “preto” é racismo, e é daí que surge o “mulatinho” – ele não é mulato, é preto -, o “moreninho” – ele não é moreno, é preto -, e o pior deles: o “pessoa de cor”!)
  • Astolfo – Tá bom, mané: afro-descendente, melhorou? (não, não melhorou: esse termo já está tão batido que já virou ofensa, é como dizer que a pessoa “além de preta” é chata pra caralho!)
  • Brás – Não precisa ser irônico! (onde está a ironia em jogar na cara de alguém que a pessoa é chata? Alguém me diz, por favor?)

(fim da pausa: a pretinha linda sentou-se numa mesa de mal-encarados)

  • Astolfo – Você dizia sobre…
  • Brás – Sobre o dinheiro parado. Acontece que aquela estagiária estranha e mal encarada não arrumou a papelada toda, e enquanto isso não acontece, eu não tenho acesso à conta da empresa! (é fato, pode reparar: quando uma pessoa quer falar sobre os “defeitos físicos” de alguém sem ser direto – e portanto agressivo – sempre enfia um “estranho” na frase. Acredite: todo mundo entende o que você quer dizer!)
  • Astolfo – Qual estagiária, aquela gorda? (sim, o gordo vira ponto de referência, assim como o negro, o gay… a diferença é que, talvez pelo fato de todos associarem gordura com relaxo e preguiça, ninguém se importa em usar ou inventar “termos leves” pra coisa…)
  • Brás – Sim, ela mesmo. Cara, como você é preconceituoso! (“você” é preconceituoso? Astolfo disse “a gorda” e imediatamente Brás entendeu sobre quem Astolfo se referia. Precisa de prova mais inconteste de que Brás pensou a mesma coisa?)
  • Astolfo – Preconceituoso, eu? Ué, ela que é gorda e eu que tenho problemas? (veja que, aqui, “problema” não se refere ao fato de a pessoa ser obesa, e portanto, mais suscetível a diversos problemas de saúde. O “problema” referido é o de visualizar a imagem da dita cuja!)
  • Brás – Sim, mas se todo o problema fosse esse eu estaria feliz, acontece que além de gorda ela é insuportável! (“se todo o problema fosse esse”? “Além de gorda ela é insuportável”? Admitiu: a gordura alheia é um problema!)
  • Astolfo – É foda, gente assim tem a obrigação de ser ao menos legal… (claro! Afinal de contas, se não há uma personalidade agradável numa pessoa gorda, fica difícil soltar o famoso “muito gente fina”, né?)
  • Brás – Nossa, quem é você? Reencarnação do Hitler? Traz a conta que depois dessa eu vou embora, credo! (sim, preconceito tem que ser tratado como algo antigo e de outro continente, já que o Brasil é o país da multidiversidade de pessoas e preconceito é inaceitável. Sei…)

Se precisa ainda de moral da história, ela é: existem dois tipos de preconceito no Brasil. Aquele que é falado e escrachado, e aquele velado e disfarçado sobre um discurso de igualdade e respeito. Ambos são condenáveis, babacas e cretinos, mas ao menos um deles é transparente.

E você, se enxerga mais como Astolfo ou como Brás? Você que pensou “eu abandonaria a mesa”, faria isso por verdadeira indignação? Ou por ser um “homem-branco-hétero-magro-católico” e não ter interesse em pensar nisso?

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PS: Acho importante deixar claro que esse negócio de sair comentando um texto no meio dele não é coisa minha. A cópia descarada inspiração veio dos escritos da Madrasta do Texto Ruim, codinome da autora de um dos blogs que mais gosto na internet, o Objetivando Disponibilizar, onde sempre dou umas boas risadas e aprendo um pouco de português. Vale a visita, eu recomendo de verdade! Se um dia eu tiver a honra de ter uma visitinha dela por aqui, deixo registrado: um beijo, querida!

E por sinal, só percebi depois a bela coincidência de usar azul para destacar os comentários do autor. É exatamente o mesmo que Ms. Texto Ruim usa no espaço dela. Testei outras cores antes da publicação, acabei por usar azul quando entendi ser esta a cor que mais chama a atenção sem atrapalhar a leitura ou incomodar os olhos. Espero que não role um processo, rs…

Feliz 2012 Brasil, ou: divagação sobre os sinais reais do fim do mundo

Muitíssimo boa tarde, caros leitores, sejam bem vindos ao ano de 2012 e às atividades retomadas do blog mais incrível e inteligente que existe sobre o Brasil (fonte: minha mãe)!

Eu sei que o dia 4 de janeiro ainda é meio cedo pra meter a cara na reflexão, mas vamos combinar: que Réveillon mais fraquinho esse, não? Não via a hora de escrever novamente por aqui, porque o embalo de ano novo… ah, esse nem veio! Choveu o tempo todo, a São Silvestre foi quase uma corrida de caiaque por São Paulo, e o pior: caiu num sábado, ou seja, feriado prolongado virou lenda! Justo no último Réveillon da vida de todos nós, já que o número do ano na folhinha agora é 2012, e até Hollywood já profetizou a explosão mundial lá por dezembro…

E como não podia deixar de ser, começamos o ano do apocalipse falando exatamente deles, os sinais do apocalipse! Se não a hecatombe mundial de verdade, talvez a enorme crise brasileira de 2014 com a Copa do Mundo e o caos logístico, hoteleiro, urbano… meio que assim: o mundo está condenado, mas se por acaso a implosão mundial não der certo, o Brasil assinou um seguro contra falhas, a ser acionado dois anos depois. E sobre isso, vamos pensar (repensar) alguns sinais recentes de que o mundo vai acabar de qualquer jeito e não demora:

1 – Moinho Troll

O começo do ano já mostrou uma imagem digna de abertura de retrospectiva no final do ano (claro, se o ano tiver um final): contagem regressiva, 800 kg de dinamite na base de um baita prédio caindo aos pedaços antes mesmo do incêndio que devastou a favela ao lado, todos ansiosos pra resolver o caos metropolitano da paralisação das linhas de trem ali perto, e CABRUUUM, depois da nuvem de fumaça, ali está um monte de… prédio ainda em pé! Logo no dia 2 de janeiro, um prédio velho trollou os engenheiros semi-deuses da Prefeitura de São Paulo!

Se você acabou de voltar do Réveillon em Júpiter e não viu as cenas mais cotadas para #FAIL do ano, acompanhe abaixo. Eu mesmo não paro de rir toda vez que vejo!

♦ Potencial para o apocalipse: a não ser que os 800 kg de dinamite tenham sido suficientes para abalar o eixo de rotação do planeta, nenhum. Mas convenhamos: ver uma cena dessas não nos faz acreditar na possibilidade?

♦ O que tem a ver com a Copa: não sei você, caro leitor, mas eu boto toda a fé do mundo que uma prefeitura trollada por um prédio velho daquele consegue realizar as obras de 2014 no tempo certo, sem atrasos ou superfaturamentos…

2 – O fim de Walking Dead em São Paulo

O mesmo poder público municipal trollado pelo Moinho no começo do ano realizou, dois dias depois, a Operação Raio de Luz, que apesar do nome não é uma missão evangélica da Igreja Quadrangular do Triângulo Redondo, nem nada parecido. A Polícia Militar invadiu a região da Cracolândia (sim, eu cansei de falar dela ano passado) e despachou os usuários sem rumo das ruas dessa região. Galera que nunca viu um usuário de drogas, que dirá uma rua inteira dominada por eles, comparou as cenas da Cracolândia com a Zombie Walk, o afastamento dos usuários com a equipe de Alices em Resident Evil, e a equipe de limpeza (literalmente) lavando as ruas da cidade com a esterilização do Ébola.

♦ Potencial para o apocalipse: vejamos… o poder público se importou com aquelas pessoas, e vai oferecer tratamento adequado para os usuários. Isso sim, é sinal do apocalipse! Oh, wait…

♦ O que tem a ver com a Copa: com a palavra, o comandante geral da PM-SP, em nota oficial sobre a Operação Raio de Luz: “o objetivo é restabelecer a ordem urbana na região da Luz, garantindo o direito de ir e vir das pessoas e oferecendo uma cidade limpa e segura para todos, paulistanos e visitantes”. OK, entendi…

3 – O dilúvio mineiro

Não que seja novidade pra ninguém, a gente até já conversou sobre isso por aqui, mas a bola da vez das enchentes e catástrofes naturais de janeiro é Minas Gerais. Um descanso merecido (ou só um pequeno abono de natal) aos nossos amigos cariocas.

♦ Potencial para o apocalipse: tá, é um processo natural, todo ano acontece, todo mundo sabe disso, e boa parte das mortes que ocorrem nestes períodos é, em partes, causada pela ocupação urbana absolutamente irregular das grandes e médias cidades Brasil afora. Mas as cenas que a Globo sempre mostra de cidades dentro de metros e metros de água barrenta, de corredeiras devastando o que eram avenidas e um ou outro “Sinfonaldo, o pedreiro herói das enchentes”, nos faz perguntar todo ano se há o dedinho do homem fazendo seu próprio apocalipse do aquecimento global, enfim…

♦ O que tem a ver com a Copa: é bem relativo. Como um assumido odiador de futebol, eu poderia muito bem dizer aqui que as obras da Copa fazem com que não haja dinheiro para obras de contenção de catástrofes, mas o fato é que bem antes da Copa ser anunciada no Brasil esse tipo de coisa já acontecia. Se a coisa toda piora em épocas de 2014, prefiro não afirmar, porque de fato eu não sei. E como aqui neste blog sempre priorizamos a discussão e a reflexão, deixo todo o discurso reaça pra você, caso queira, querido leitor!

4 – Obama fora do Iraque

Ok, foi lá no final de seu mandato e começo de campanha presidencial, mas não é que o rapaz realmente tirou as tropas do Iraque? Tudo bem que ele não prometeu deixar o país organizado, tudo bem que o caos continua, até pior que antes, mas se a promessa era apenas mandar os soldados de volta pra suas mães latinas dos pântanos da Flórida, está feito!

♦ Potencial para o apocalipse: alto. Vai que surge um “Ahmadinejad com mais colhões” por lá e realmente algumas bombinhas saiam voando de lá…

♦ O que tem a ver com a Copa: não muito, apenas o fato de que é confortante ver que não é só aqui que as coisas se encaminham em épocas de eleição.

5 – Michel Teló com projeção internacional

Eu confesso que só conheço uma música dessa versão loira semi-sertaneja do Justin Bieber, aquela coisinha fofa do “se eu te pego, aiai, se eu te pego”. Ok, todo mundo sabe que uma música brasileira de sucesso não é necessariamente uma obra prima da literatura, que o diga as lacraias,  bolas de fogo e o esquadrão de mulheres-fruta que fariam uma feira do tamanho do Mercadão da Lapa, mas notícias como “Se eu te pego foi traduzida para cirílico, seu décimo quinto idioma” é algo simplesmente impossível de ser entendido!

Nossa, nossa, assim você SE mata!

♦ Potencial para o apocalipse: creio que pouco. Se o mundo já sobreviveu ao Meteoro da Paixão (oh, dor!), possivelmente passa por isso com certa facilidade. Quer dizer, nunca se sabe, né?

♦ O que tem a ver com a Copa: absolutamente tudo! Se como disse Gandhi “o sucesso depende de suas escolhas”, a Copa de 2014 está fadada ao fracasso (na falta do Luan Santana que já pagou seu mico esportivo mundial, alguém duvida que o Michel Teló vai ser escolhido pra cantar “Ai se eu te pego” na abertura da Copa?)

6 – A pacificação das favelas cariocas

Você já conhece a história e a discussão, bem como, a minha opinião a respeito. Podemos avançar, não?

♦ Potencial para o apocalipse: potencial negativo! Incrível né? Não que eu seja a favor da pacificação das favelas, e se você acompanha esse blog, sabe que essas coisas são alvo fácil de discussões por aqui, mas uma favela pacificada é uma favela com menos bailes funk, e menos bailes funk significam música de maior qualidade na boca do povo. Hey, Michel Teló, o mundo ainda tem esperanças!

Seus dias estão contados, bitch!

♦ O que tem a ver com a Copa: Tranquilo, gente, o barulho ouvido nos arredores do Maraca serão apenas fogos de artifício…

7 – Os impostos de janeiro

Ano novo, dívida nova. Janeiro é marcado pelo zerar do impostômetro (que vai voltar a ser notícia lá por maio ou junho) e pelo desembolsar de IPVA, IPTU, IR, IPHONE, IPAD, IMAC…

♦ Potencial para o apocalipse: é fato, outros janeiros já passaram, e o mundo não vai acabar por causa da arrecadação deste em 2012. Mas que dá uma vontade de acabar com o mundo, isso dá!

♦ O que tem a ver com a Copa: Nossa Senhora das Obviedades, rogai por nós.

8 – A faxina da Dilma no Planalto

Tá bom que não é a limpeza que todo mundo um dia sonha em ver em Brasília, tá bom que não é a cura da AIDS, tá bom que a Dilma não concorre ao concurso de melhor ser humano do planeta, mas convenhamos: tantos ministros corruptos derrubados em um único ano é algo, ao menos, inusitado, não? Só pra recordar, falamos sobre isso aqui, caso seja de seu interesse.

♦ Potencial para o apocalipse: considerável. Que o diga a Veja, a Isto é, a Folha de SP…

♦ O que tem a ver com a Copa: quem quer apostar que a Dilma vai, no discurso inicial do presidente na cerimônia de abertura, falar sobre a limpeza no planalto, com tradução simultânea para 42976 línguas? E quem quer apostar que a gringaiada toda vai acreditar piamente na Dilma como a Mandela da nação?

9 – Teresa Cristina e Pereirinha morando juntos em Fina Estampa

WILSON é o cacete, enfia aquela bola no c*!

A Folha de SP deu manchete nisso, então, deve ser algo super relevante na sua vida, não? Oh, wait…

♦ Potencial para o apocalipse: temerosamente considerável. A Teresa Cristina é a Cristiane Torloni, aquela que vez em quando curte um “rock, bebê”; e o Pereirinha é José Mayer, o maior comedor da face da terra logo após Kid Bengala. Isso só pode dar errado de alguma forma…

♦ O que tem a ver com a Copa: nada. É só não deixar a Torloni se aproximar de um repórter e bebida alcoólica no show de abertura que tá tudo certo.

10 – Desempenho do Corinthians na Libertadores

HAUHuahuahuHAUAHuahuahUHUAHuhuahuHUAHuhuahuHAUAHUahuahuHh

ahuahauhUAHUhuahuHUAHuhauhUHAUhuahuHUAHUhuahuHUAHUahuhUHA

hauhauhUAHUhauhauHAUhauhUAHUAHuHAUHAUAHuhauhAuHAUHuHAuUAH

♦ Potencial para o apocalipse: Altíssimo! O Corinthians, obviamente, vai perder de novo pra algum time esdrúxulo da Guiana Francesa, e todo mundo já conhece o caos instaurado nas ruas das cidades brasileiras na noite do fatídico jogo…

♦ O que tem a ver com a Copa: O Corinthians? Só o fato de o estádio deles ser construído com dinheiro público para a abertura da Copa, porque em se tratando de qualidade de futebol…

11 – As polêmicas ambientais

Do ponto de vista ambiental, 2011 foi o ano em que o governo de Brasília foi mais negligente na história recente brasileira. O Código Florestal foi aprovado, Belo Monte também, mesmo com o ciber-chororô comendo solto por aí. Foi o único ano desde 1992 que não foi criado nenhuma área de proteção ambiental no Brasil.

Discutir mais sobre isso? Sempre cabe. Relembre aí, caro leitor, o que pensamos sobre Belo Monte, e também sobre o Código Florestal Brasileiro que a discussão é sempre válida e deve ser sempre exercida (“auto-merchan” – a gente vê por aqui, rs…)

♦ Potencial para o apocalipse: oh, dúvida cruel. Se eu disser que não, sou um insensível que não pensa no meio ambiente, no planeta de nossos filhos e netos, no que o homem faz com o planeta, nos pentelhos da Cláudia Ohana e toda essa coisa. Se eu disser que sim, sou um ambientalista eco-chato que deveria pegar o pescoço de uma tartaruga marinha e enfiar no meio do c*. E agora, José?

♦ O que tem a ver com a Copa: Nossa Senhora das Obviedades, pelo amor de Deus, aparece logo, cacete!

12 – Big Brother Brasil 12

É… começo de ano, lá vem BBB goela abaixo. Lá vem pseudo-cults de Facebook indignados. Lá vem discussões intermináveis sobre o que é heroísmo, só porque a anta do Bial chama os caras de heróis. Tudo de novo, outra vez.

Façam suas apostas: quem vai ser o herói do Bial? Quem vai ser o mau caráter que o Brasil vai amar e criticar ao mesmo tempo? Ou o mais relevante: quem vai ser a primeira pelada da Playboy?

♦ Potencial para o apocalipse: cão que ladra não morde, caro leitor, e nem os BBBs, nem os críticos, nem os colunistas da Folha de SP vão fazer absolutamente nada que danifique a estrutura de nossa bolinha azul. Só o Boni, ah o Boni, esse é foda! 2012 vai acabar assim: o Boni vira pra Deus e manda um “acaba logo essa merda de mundo que eu paguei caro pelo Globo Repórter a respeito”, e Deus acaba. Simples assim. Não sabe do que eu estou falando? Clica aqui, vale a pena.

♦ O que tem a ver com a Copa: Não estranharia nada se um dia ouvisse um áudio vazado do ponto eletrônico no ouvido do goleiro da Espanha dizendo algo como “Casillas, dejar que la pelota se mueva, Brasil tiene que tomar la copa this time“. Obviamente, a voz seria do Boni, de quem mais?

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