Crônicas de um país sem sobrenome

Brás e Astolfo, dois grandes amigos, brasileiros típicos, se encontram num bar. Toda quinta feira depois do expediente, sabe como é: o guerreiro merece. Tradição não se quebra, oras! Após as reclamações de chefe, imposto, esposa em TPM e comentários sobre bundas ao léu no ambiente, segue o diálogo…

  • Astolfo – Vamos falar mal dos outros que é mais divertido!
  • Brás – Alguma novidade?
  • Astolfo – Cara, você não acredita. Sabe o Bruno? Dez anos casado, o cara descobriu que é viado e vai largar a mulher!
  • Brás – Ah, como assim cara, verdade?
  • Astolfo – Opa! Vê se pode, depois de velho vira bicha… eu hein, não quero mais contato!
  • Brás – Ah, nada a ver cara, o que importa é a amizade…
  • Astolfo – Ih, vai lá ser amiguinho dele então, bichona!
  • Brás – Nada a ver, sério. E daí que o cara é gay? Apesar disso o cara é muito gente fina!

(pausa: bunda passando)

  • Astolfo – Vai ser gostosa na minha cama, potranca!
  • Brás – Fala a verdade amigo, usar uma sainha dessas é deixar claro que tá caçando macho.

(fim da pausa: a bunda virou a esquina)

  • Astolfo – Deixa eu perguntar: conseguiu pegar aquela grana barrada no banco?
  • Brás – Ah cara, nem deu, vários problemas…

(pausa: outra bunda aparece. Dessa vez, é uma negra)

  • Astolfo – E essa pretinha linda hein? Vem pra mim, vem!
  • Brás – “Pretinha linda”? Cara, isso é racismo!
  • Astolfo – Tá bom, mané: afro-descendente, melhorou?
  • Brás – Não precisa ser irônico!

(fim da pausa: a pretinha linda sentou-se numa mesa de mal-encarados)

  • Astolfo – Você dizia sobre…
  • Brás – Sobre o dinheiro parado. Acontece que aquela estagiária estranha e mal encarada não arrumou a papelada toda, e enquanto isso não acontece, eu não tenho acesso à conta da empresa!
  • Astolfo – Qual estagiária, aquela gorda?
  • Brás – Sim, ela mesmo. Cara, como você é preconceituoso!
  • Astolfo – Preconceituoso, eu? Ué, ela que é gorda e eu que tenho problemas?
  • Brás – Sim, mas se todo o problema fosse esse eu estaria feliz, acontece que além de gorda ela é insuportável!
  • Astolfo – É foda, gente assim tem a obrigação de ser ao menos legal…
  • Brás – Nossa, quem é você? Reencarnação do Hitler? Traz a conta que depois dessa eu vou embora, credo!

Nota-se, um diálogo bastante comum numa mesa de bar. Nota-se, também, que ali naquela mesa encontra-se um babaca preconceituoso, machista, racista. Versão pobre do Bolsonaro. Eu também abandonaria essa mesa.

O cara é um cretino, típico amigo que todo mundo tem e que não deve ser levado a sério. Será? Vamos reproduzir novamente o diálogo e interpretar algumas falas (comentários destacados em azul, pra facilitar a leitura):

  • Astolfo – Vamos falar mal dos outros que é mais divertido! (diz aí: você já ficou chocado com a primeira frase, certo? Agora me diz que nunca ouviu ou mesmo foi quem disse isso numa roda de bar…)
  • Brás – Alguma novidade?
  • Astolfo – Cara, você não acredita. Sabe o Bruno? Dez anos casado, o cara descobriu que é viado e vai largar a mulher! (nem a medicina sabe ao certo como funciona o cérebro de um homossexual, mas o cara aqui já sabe que é assim: um dia você acorda e plim: é gay… melhor: viado!)
  • Brás – Ah, como assim cara, verdade?
  • Astolfo – Opa! Vê se pode, depois de velho vira bicha… eu hein, não quero mais contato! (chocante, é verdade, mas quem tem algum conhecido homossexual sabe que isso é completamente normal, talvez, só não seja assim tão declarado…)
  • Brás – Ah, nada a ver cara, o que importa é a amizade… (como assim? Claro que tem tudo a ver! Imagine só o quanto isso revolucionou, pro bem ou pro mal, a vida do tal amigo Bruno! Não acho que “fingir ser tudo como antes” seja o melhor tipo de apoio que um amigo pode dar numa hora dessas…)
  • Astolfo – Ih, vai lá ser amiguinho dele então, bichona! (afinal, amigo de gay é gay, certo?)
  • Brás – Nada a ver, sério. E daí que o cara é gay? Apesar disso o cara é muito gente fina! (“apesar disso”, precisa dizer mais algo? Precisa, sim: já reparou que, quando alguém quer dizer que é amigo de um homossexual, o dito cujo nunca é somente “legal”? Ele tem que ser sempre “muito gente fina”, pra compensar seu “defeito” e pro elogio parecer mais sincero…)

(pausa: bunda passando)

  • Astolfo – Vai ser gostosa na minha cama, potranca! (acredite, mulher: mais homens pensaram isso, não somente esse cretino aqui)
  • Brás – Fala a verdade amigo, usar uma sainha dessas é deixar claro que tá caçando macho. (claro, pois a roupa da pessoa nunca quer dizer o quanto de frio ou calor ela está sentindo aquele dia, diz somente a disposição para o sexo que ela tem naquele exato instante, né?)

(fim da pausa: a bunda virou a esquina)

  • Astolfo – Deixa eu perguntar: conseguiu pegar aquela grana barrada no banco?
  • Brás – Ah cara, nem deu, vários problemas…

(pausa: outra bunda aparece. Dessa vez, é uma negra)

  • Astolfo – E essa pretinha linda hein? Vem pra mim, vem! (tudo bem que ele podia ter dito “negrinha linda”, mas soaria diferente?)
  • Brás – “Pretinha linda”? Cara, isso é racismo! (é mesmo? O que dizer sobre “loirinha linda”, é racismo? A pessoa de pele branca é branca, e se o contrário de “branco” é “preto”, a  pessoa de pele preta é preta, oras! Chamar um preto de “preto” é racismo, e é daí que surge o “mulatinho” – ele não é mulato, é preto -, o “moreninho” – ele não é moreno, é preto -, e o pior deles: o “pessoa de cor”!)
  • Astolfo – Tá bom, mané: afro-descendente, melhorou? (não, não melhorou: esse termo já está tão batido que já virou ofensa, é como dizer que a pessoa “além de preta” é chata pra caralho!)
  • Brás – Não precisa ser irônico! (onde está a ironia em jogar na cara de alguém que a pessoa é chata? Alguém me diz, por favor?)

(fim da pausa: a pretinha linda sentou-se numa mesa de mal-encarados)

  • Astolfo – Você dizia sobre…
  • Brás – Sobre o dinheiro parado. Acontece que aquela estagiária estranha e mal encarada não arrumou a papelada toda, e enquanto isso não acontece, eu não tenho acesso à conta da empresa! (é fato, pode reparar: quando uma pessoa quer falar sobre os “defeitos físicos” de alguém sem ser direto – e portanto agressivo – sempre enfia um “estranho” na frase. Acredite: todo mundo entende o que você quer dizer!)
  • Astolfo – Qual estagiária, aquela gorda? (sim, o gordo vira ponto de referência, assim como o negro, o gay… a diferença é que, talvez pelo fato de todos associarem gordura com relaxo e preguiça, ninguém se importa em usar ou inventar “termos leves” pra coisa…)
  • Brás – Sim, ela mesmo. Cara, como você é preconceituoso! (“você” é preconceituoso? Astolfo disse “a gorda” e imediatamente Brás entendeu sobre quem Astolfo se referia. Precisa de prova mais inconteste de que Brás pensou a mesma coisa?)
  • Astolfo – Preconceituoso, eu? Ué, ela que é gorda e eu que tenho problemas? (veja que, aqui, “problema” não se refere ao fato de a pessoa ser obesa, e portanto, mais suscetível a diversos problemas de saúde. O “problema” referido é o de visualizar a imagem da dita cuja!)
  • Brás – Sim, mas se todo o problema fosse esse eu estaria feliz, acontece que além de gorda ela é insuportável! (“se todo o problema fosse esse”? “Além de gorda ela é insuportável”? Admitiu: a gordura alheia é um problema!)
  • Astolfo – É foda, gente assim tem a obrigação de ser ao menos legal… (claro! Afinal de contas, se não há uma personalidade agradável numa pessoa gorda, fica difícil soltar o famoso “muito gente fina”, né?)
  • Brás – Nossa, quem é você? Reencarnação do Hitler? Traz a conta que depois dessa eu vou embora, credo! (sim, preconceito tem que ser tratado como algo antigo e de outro continente, já que o Brasil é o país da multidiversidade de pessoas e preconceito é inaceitável. Sei…)

Se precisa ainda de moral da história, ela é: existem dois tipos de preconceito no Brasil. Aquele que é falado e escrachado, e aquele velado e disfarçado sobre um discurso de igualdade e respeito. Ambos são condenáveis, babacas e cretinos, mas ao menos um deles é transparente.

E você, se enxerga mais como Astolfo ou como Brás? Você que pensou “eu abandonaria a mesa”, faria isso por verdadeira indignação? Ou por ser um “homem-branco-hétero-magro-católico” e não ter interesse em pensar nisso?

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PS: Acho importante deixar claro que esse negócio de sair comentando um texto no meio dele não é coisa minha. A cópia descarada inspiração veio dos escritos da Madrasta do Texto Ruim, codinome da autora de um dos blogs que mais gosto na internet, o Objetivando Disponibilizar, onde sempre dou umas boas risadas e aprendo um pouco de português. Vale a visita, eu recomendo de verdade! Se um dia eu tiver a honra de ter uma visitinha dela por aqui, deixo registrado: um beijo, querida!

E por sinal, só percebi depois a bela coincidência de usar azul para destacar os comentários do autor. É exatamente o mesmo que Ms. Texto Ruim usa no espaço dela. Testei outras cores antes da publicação, acabei por usar azul quando entendi ser esta a cor que mais chama a atenção sem atrapalhar a leitura ou incomodar os olhos. Espero que não role um processo, rs…

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Comentários em: "Crônica: amigos, cervejas e bundas ao léu" (2)

  1. curti muito o seu texto! E não, não vou considerar o uso do azul plágio do meu estilo. fique à vontade! :o)

    Abraços da
    Bruxa

  2. que bela bunda é da shelda?

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