Crônicas de um país sem sobrenome

Vamos combinar, minha gente. Mamãe sempre me ensinou que fazer disparates contra alguém sem propósito aparente é falta de educação, mas especialmente quando o alvo das chacotas parece se auto-chacotar insistentemente, fica difícil ficar quieto. E a bola da vez, ao que me consta, é o Enem.

Eu sou da época longínqua em que o Enem havia aparecido de repente na vida do vestibulando comum. Quando prestei a prova, o Exame Nacional do Ensino Médio tinha uma dupla função: a primeira, examinar nacionalmente o ensino médio (dârrr…); e a segunda, mais importante e “semi-presente” ainda em dias atuais, dar aquela forcinha básica pro cara entrar na universidade, a critério desta usar a nota em questão como acréscimo ou não na nota final de cada um. Ok, admito que é difícil falar da prova em si após tanto tempo (ainda eram 63 questões e uma redação que não dava a mínima vontade de fazer, mas que todos faziam, “por desencargo de consciência”, sabe?), mas certas coisas não se deixam passar, mesmo não fazendo mais ideia de quando foi que fiz esse troço…

Antes de falar sobre “as coisas que deram errado”, cabe colocar “as coisas que eram pra dar certo”. A idéia dessa reformulação toda do Enem, que começou três ou quatro anos atrás, era bolar uma prova que, primeiramente, não fosse uma avaliação do ensino médio em si, mas do andamento de cada aluno ao longo de seus três anos de ensino médio. Consta, também, que a prova estava já bastante obsoleta: ninguém entendia por que 63 questões (qual a graça ser um número divisível por 7 ou 9?), e o nível de dificuldade não avaliava o ensino médio. Algo assim:

Em segundo, destaca-se que a proposta do Novo Enem era a de substituição total dos vestibulares por essa prova, que seria prestada pelo candidato todos os anos, desde a época de “faculdade como realidade longínqua”, espinhas na cara e pêlos na mão. É daí, por exemplo, a mirabolante idéia dos “dois Enem por ano”, terror de vestibulandos, alunos, professores e avalistas da educação no Brasil.

Isso não foi tirado de um “momento maconha” dos senhores do MEC, caros leitores: a idéia não é ruim, já funciona nos Estados Unidos há um bom tempo. Lá nas gringas, o aluno já sai do colégio sabendo a universidade que vai se matricular, visto suas notas ao longo dos tempos escolares. E se a ideia do MEC é fazer um sistema de ensino de maior acessibilidade de cada aluno à universidade, assim matamos dois coelhos numa só pedrada: economizamos dinheiro público com os diversos processos seletivos Brasil afora e evitamos a deslealdade do vestibular.

Você conhece: projeto novo, logotipo novo...

O problema vem exatamente daí, a falta do pensamento óbvio. O modelo americano funciona perfeitamente… nos Estados Unidos! Começando pelo mais básico: se a ideia era aumentar a acessibilidade do aluno do ensino médio à universidade, como isso é possível num sistema em que alunos de escolas públicas e particulares prestam a mesma prova com os mesmos pesos? O povo se esqueceu que, infelizmente, salvo raríssimas exceções (leia-se escolas técnicas – e olhe lá) o ensino particular é de maior qualidade que o público? O povo se esqueceu quem são os professores que estão ali ensinando seus filhos todos os dias numa escola pública depredada? Na época do vestibular para todos, o cara da escola pública tinha ainda uma chance caso o aluninho de escolinha particular paga pelo papai tivesse uma diarréia súbita, ou um acesso de “tuberculepra infecto-cancerosa” no dia da prova: agora, avaliando o cara ao longo de todo seu ensino médio, as exceções reduzem, ou seja, a coisa fica ainda mais inacessível! Furo número 1!

Furo número 2: o Novo Enem veio com o slogan da modernidade estampado na figura da, cof-cof, “interdisciplinaridade”, aquela coisa toda de “áreas do saber interligadas numa dinâmica só, com visão sistêmica dos processos e formas do planeta e suas linguagens metafóricas da metalinguística intra-molecular whiskas-sachê”. Tudo lindo, não fosse por um detalhe: como obrigar o cara a fazer uma prova dessas, sendo preparado por um ensino médio que ainda tem um professor de história ensinando história, um professor de geografia ensinando geografia, um professor de física ensinando física? Meio que assim: o MEC prepara um teste para privilegiar os candidatos que NÃO seguem o MEC em sua preparação! E quem são esses caras? Esses caras são aqueles que dão mais liberdade para que o professor não fique ali, engessado no currículo básico do MEC. Ou seja, as escolas particulares! CA-BUM!

Sem contar, claro, aquilo que todo mundo vê na TV: entre corte de gastos ao máximo e facilitações aqui e ali de empresas amigas de fulano e ciclano, parece que já sabemos que o “fez-se a bosta” vai acontecer novamente, e esperamos ansiosamente os escândalos do Enem de todos os anos, entre vazamento de provas, roubo de prova na gráfica, juizes cearenses (por que sempre cearenses?) encrencando com a validade da prova, um sistema matemático de exclusão de chutes que ninguém entende como funciona (conheça o TRI: clique aqui), erros de impressão altamente prejudiciais nos cadernos de resposta, cancelamento e reformulação as pressas de novo teste, remarcação de calendário, e a mais nova azeitona da empadinha: a correção malfeita (mas é possível ter correção malfeita de uma prova alternativa? É, sim: clique aqui). Tipo de coisa que faz as universidades estaduais não aceitarem o Enem como avaliação, e as federais só aceitarem por imposição determinação maior do MEC (lembra do corte de gastos? Pois é…). Isso sem falar no tal do SISU, que direciona o candidato para uma universidade compatível com suas notas, ou em outras palavras, diz pro cara algo assim: ou você vai estudar paleontologia molecular na UNIFRALDAS, ou tenta a vida no Baixo-Augusta. Legal!

Tem remédio? Tem, sim, e é bastante conhecido: primeiro, pensar num desenvolvimento educacional que seja feito de acordo com a realidade nacional. Mais ou menos o que falei aqui uns meses atrás discutindo outro assunto, e que causou certa polêmica. Não adianta implantar um sistema de avaliação que não condiz com o que se é avaliado. O sistema do Enem pode, sim, funcionar no dia em que ele, o ensino médio, avaliado pelo Exame Nacional do Ensino Médio, for de fato reformulado, readequado, modernizado, priorizando a qualidade ao invés da quantidade de alunos matriculados, nem que pra isso tiremos os escorpiões do bolso! Antes disso, o critério continua desigual, o “fez-se a bosta” fica aí do mesmo jeito.

Em segundo, e olha eu batendo em outra tecla batida nesse blog anteriormente, pensar em formas de desenvolvimento que sejam implementadas de forma gradual, que não tenham validade de quatro anos: transformar um sistema educacional de uma nação como o Brasil, de realidades tão distintas entre cada um dos seus jovens estudantes, requer planejamento e implementação em etapas, primeiro de conhecimento, depois de ação incisiva. Nenhuma realidade educacional funciona na base de decretos, de um dia para o outro, isso é o famoso “pra inglês ver”. Enquanto isso, vamos todos nesse rumo, confusos com o que acontece todos os anos com o Enem, seu sistema falho de avaliação e seus escândalos sem fim.

Pensando bem, ironicamente, o Enem voltou a ser o que era lá nos primórdios das 63 questões: uma avaliação do ensino médio. Não do ponto de vista educacional, mas de sua invejável capacidade de trollar a si mesmo constantemente. Ou alguém tem dúvidas que, assim como o Enem não avalia nada, a educação no Brasil da forma como está também não educa ninguém?

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