Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para fevereiro, 2012

12 perguntas para entender o Estado laico

Senhores leitores, ótima tarde calorenta a todos, estamos novamente aqui, diretamente do SAC BdQ, para tirar as dúvidas de nossos leitores acerca de um assunto bastante discutido em dias atuais: o Estado laico. Quem é membro de alguma rede social, mais ou menos uns 90% da população brasileira com menos de 30 anos, já deve ter se deparado com alguma imagem de alguma associação de ateus e nome dos direitos do tal “Estado laico”, quase sempre com argumentos rebatidos por algum cristão ortodoxo ou evangélico defendendo… o Estado laico!

Enfim: o que é o Estado laico? Estamos aqui pra responder, em mais um episódio da nossa série “12 perguntas para entender”. Se você é leitor novo do BdQ, nossa relação de posts com essa temática está aqui embaixo. Aproveite!

Ah, não esquece de deixar seu comentário lá embaixo, criticando, concordando, rebatendo. Enfim, seu espaço ali é completamente livre. E aproveite para conhecer também nova nova página de feedback, onde queremos saber sua opinião para melhorar o BdQ cada vez mais. Clique aqui e participe de nossas enquetes!

1 – O que é o Estado?

Começamos com o que provavelmente é a pergunta mais cabeluda das 12, e que teria uma resposta completamente superficial se não tivesse aqui, sei lá, umas 300 linhas… você não vai encontrar 300 linhas aqui, caro leitor, mas eu prometo tentar não ser superficial, ok?

Vamos tentar resumir a coisa da forma mais simples possível: se você pensou no Palácio do Planalto em Brasília, na Casa Branca, na Casa Rosada, acertou. São os caras que fazem as leis pra esse mundão funcionar. É isso.

Tente enxergar como uma dinâmica de grupo, dessas que se você já procurou emprego na sua vida, sabe como é. Umas 10 pessoas confinadas numa sala pra fazer uma determinada atividade. Quase sempre há uma pessoa, ou um grupo de pessoas, que toma a iniciativa antes de todos pra organizar as tarefas, determinar um ritmo de trabalho, dividir as funções pra cada um de acordo com um determinado critério.

Agora tente imaginar a mesma dinâmica de grupo de uma forma em que cada um faz o que bem entender, sem um ponto de ligação com as tarefas dos demais. Sem esse papel de liderança, surgido espontaneamente por uma pessoa e aceito pelos demais, que viram ali uma vantagem para fazer a tal tarefa funcionar… caótico, não?

Por fim, imagine que essa dinâmica de grupo é formada por quase 200 milhões de pessoas, e você entende o papel do Estado na sociedade brasileira. É necessário? Tem quem diga que não, eu pessoalmente creio que sim, embora respeite os argumentos de qualquer um. Lembre-se: os comentários lá embaixo estão totalmente abertos para receber a sua opinião!

2 – O que é “laico”?

Meu vizinho tinha uma cachorra que chamava Laica (e eu estou tentando entender onde esse comentário é relevante, rs…). O adjetivo “laico” faz alusão ao movimento do Laicismo, surgido na Europa pós inquisição, e quer dizer algo como o “não-envolvimento” de uma ou outra determinada coisa nos assuntos religiosos, e vice-versa. Em outras palavras: o laicismo prega a separação da religião à quaisquer outros assuntos que não tenham ou que não deva ter envolvimento direto com questões dogmáticas de uma ou outra crença religiosa.

Laica. Uma graça, só que ao contrário.

3 – Juntando as coisas, portanto…

Genial, amigo! Um Estado laico é um Estado que tem suas próprias regras dissociadas de quaisquer dogmas religiosos, independente de qual religião é predominante naquele lugar governado por esse Estado. Parece, e é, fácil de entender, só que tem algumas coisas meio sinistras por aí, como a gente vai ver daqui a pouco…

4 – O Brasil é assim?

É pra ser. A nossa Constituição de 1988, bastante inspirada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, prevê que todo brasileiro é livre para a prática de todo e qualquer culto religioso em suas terras. Isso deveria, em síntese, predizer que o Estado Brasileiro não é comprometido com nenhum culto ou crença ou religião.

STF, ou "MINDFUCK - when you see it... you will shit bricks!"

Vamos às explicações: todo mundo tem dentro de si, pela criação que recebeu e mesmo pelo próprio convívio social (“ain, tipo, eu sou tãããão anti-social” – vai por mim, não é. Se você não mora numa caverna completamente isolada dos demais, você fatalmente tem convívio social), um código de regras e condutas que é independente de qual o seu credo.

Um exemplo prático: se eu te disser “assassinar uma pessoa é legal”, automaticamente você vai discordar, e se remeter a duas formas de pensar distintas e complementares:

  1. “Não, assassinar alguém não é legal, isso é crime e dá cadeia”…
  2. “Não, assassinar alguém não é legal, Deus castiga o pecado do assassinato”…

Percebeu que, embora ambos os pensamentos sejam idênticos, as justificativas dadas são diferentes? A primeira forma veio do que você considera um comportamento social aceitável: a sociedade não tolera a violência, a sociedade deve criminalizar a violência. E aqui não estamos falando só da violência no sentido literal da coisa, você pode entender “violência” como uma violação dos direitos básicos do cidadão (no exemplo em questão, o direito à própria vida). Em outras palavras, é a famosíssima sentença: seu direito vai até onde começa o direito do outro. Já ouviu isso antes, né? Já no seu segundo pensamento, que concorda com o primeiro, os motivos que te levam a negar a legalidade do assassinato não vem de uma conduta social, mas sim de uma crença sua, estritamente pessoal, que se você assassinar alguém, será julgado por Deus depois da sua morte.

É válido, claro, é importante que cada um tenha a sua crença (mesmo que ela envolva não acreditar em nada divino, ou superior, ou criacionista). Mas como um Estado lida com pessoas de diferentes credos e culturas, especialmente no Brasil tão miscigenado desde sua concepção, o Estado laico deve sempre formular suas leis e normas de funcionamento social de acordo com a primeira forma de pensar: levando em conta apenas o que se aceita como um comportamento social aceitável, sem interferência direta no que tange a cultura de um ou outro cidadão, independente de sua origem ou criação.

5 – Espera aí… cultura?

Nossa velha encrenca com a cultura. Falar de cultura nacional é complicado, visto que temos tantas origens culturais diferentes. Vamos por favor não mexer com essa questão, pelo menos por enquanto, ok? Entendendo que a religião é uma identificação cultural (e é, mesmo que você acredite que quem não lê um ou outro livro que a sua crença lê vai queimar no fogo eterno), deixemos as discussões no âmbito das religiões mesmo, fica mais fácil.

6 – Tem algum lugar do mundo em que não é assim?

Tem sim, e eu estimo que pelo menos metade da população mundial deve viver em Estados não-laicos. Um bom exemplo são os Estados Árabes, em que as leis são formadas por interpretações do livro sagrado dos caras, o Alcorão (e é por isso que você acha um absurdo, por exemplo, um lugar em que a lei não permite que a mulher saia sem burca de sua casa. É cultural, lembra? Como criticar?).

O mais curioso nessa discussão toda sobre a laicidade do Estado é o fato de que, de maneira geral, um Estado não-laico funciona de forma muito semelhante a um Estado laico. Isso acontece porque, de modo geral (pode reparar), as religiões e crenças ao redor do mundo divergem única e exclusivamente no simbolismo apresentado, mas suas leis de comportamento são bastante semelhantes ao aceitável para um comportamento social (lembra da discussão das duas formas de pensar, né? Pois é…).

Em outras palavras: o que muda é a história contada, não a mensagem que ela passa. Sobre as formas com que cada um deve se comportar em sociedade, Alá diz a mesma coisa que Buda, que diz a mesma coisa que Deus, que diz a mesma coisa que Javé, que diz a mesma coisa que Jeová, que diz… já entendeu? Nenhum deles prega a legitimidade da violência, com raras exceções (fundamentalistas islâmicos? Exato, e não só os islâmicos, viu?). E mesmo quem não acredita em nada disso, é regulado pelo comportamento social aceitável, e é por isso que ateus vivem relativamente bem no mesmo Brasil-país-com-maioria-cristã-no-mundo.

A propósito, uma das maiores regras de um Estado Islâmico, e portanto não-laico, é a tolerância com quem tenha regras culturais diferentes, portanto, fique tranquila caso tenha vontade de pegar uma praia em algum dia quente do verão paquistanês, ok? Nesse ponto, convenhamos, os caras estão bem mais evoluídos que por aqui, há que se dizer…

7 – Ok, e qual é o grande X da questão?

O X é esse: você aí, caro leitor, com toda essa bagagem cultural que você tem, vinda diretamente da criação de seus pais e do meio em que você viveu, dotado de uma crença (ou falta dela) e de um instinto social que lhe diz como se comportar. Responda com sinceridade, talvez a pergunta mais difícil que eu já tenha feito aqui no BdQ em todos esses meses: você tem convicção absoluta ao me dizer quais aspectos do seu comportamento vem da sua crença, e quais aspectos vem das normas sociais em que você vive? Pense com carinho antes de continuar o raciocínio, eu espero…

  • (pausa pra tomar um gole daquele café sempre muito bom da minha mãe)

Depois disso, meu caro, entenda que, como vimos lá em cima, um Estado é feito de pessoas como eu e você, controlados pela sociedade e por uma crença específica. Compreendeu onde está a grande deficiência do Estado-laico? E é daí, por exemplo, que vemos tantas coisas estranhas acontecendo no poder público nesse exato momento, como a formação de uma bancada religiosa que defende os valores cristãos em pleno Senado Federal, assim por diante. É um Estado-laico se comportando por crenças religiosas, muito pessoais, e que interferem de forma muito mais ativa do que parece: qual você acha que é o maior argumento de quem é contra o casamento gay, por exemplo? E de quem é contra o aborto? Não, não é o direito à vida: boa parte dos que se dizem contra o aborto, em algum momento já se revelaram a favor da pena de morte, mesmo num Estado com uma justiça tão julgável como é o Brasil.

Resumindo: você tem total direito de ter sua opinião sobre esses assuntos tão polêmicos, mas se a sua crença religiosa tem dogmas que interferem no direito do indivíduo (aquela história lá atras do “direito seu até onde vai o do próximo”), e o direito do indivíduo não compromete em nada seu convívio social, seu dogma não pode ser influência para a geração de nossas leis. E o problema não está em entender isso, está em separar o que é social e o que é dogmático em cada cultura e religião dentro do Brasil.

Veja como é a coisa: só essa semana, tivemos as discussões sobre a legalização da “cura-gay” (???), e caiu na mídia a Lei do Pai-Nosso em Ilhéus. E ainda estamos na quarta feira!

8 – E por que isso gera tanta polêmica?

Simples, caro amigo. O que você faria se o Senado Federal aprovasse uma lei em que todo aluno de escola pública tivesse que, antes de cada aula, matar um bode e beber seu sangue? Tente expandir seu pensamento e se colocar no lugar daqueles que, embora sejam minoria no Brasil, não se encaixam no perfil cultural/religioso da massa cristã nacional, e você vai entender quais as razões que levam as pessoas a questionar a legitimidade de diversas leis e propostas que são feitas, muitas vezes sem que o dono delas sequer tenha entendido que está lidando mais com seus valores e dogmas religiosos que com suas razões sociais.

9 – Tá, mas e entre a gente do povo aqui embaixo, por que há tanta polêmica?

Chegamos numa questão bastante complicada aqui, caro leitor. Outra daquelas em que 300 linhas seria pouco. Passeata gay daqui, passeata anti-gay dali, eu pessoalmente, entendo que parte disso pode ser explicado pelo advento das redes sociais, especialmente o Facebook, onde cada um expressa suas formas de pensar e joga no redemoinho do julgamento de qualquer um. Quem aí nunca viu um amigo cristão discutindo com outro amigo ateu, por uma ou outra figurinha compartilhada? “Hatters gonna hate”, faz todo sentido!

É só isso? Claro que não. Usei o Facebook por ser o veículo de informação onde vejo essa “guerra fria” de crenças e pensamentos de forma mais pungente ultimamente. Outra explicação possível (viu que eu disse “possível”, né?) é o fato de que, justamente por essa dissociação bastante difícil entre o que é um valor moral e o que é um valor social, quando há uma divergência entre eles a pessoa não sabe como julgar, portanto, julga de forma errônea, parcial, de acordo com suas crenças. Convenhamos: o que um heterossexual terá como desfavorecimento em sua vida particular, em seus direitos sociais, com a aprovação do casamento gay no Brasil? Acontece que para o cristianismo, o homossexualismo é uma abominação, um pecado, portanto, indissociavelmente o cristão (leia-se a grande maioria da população brasileira) entende como um direito que deve ser negado socialmente, independente da crença de quem, em síntese, seria individualmente favorecido com a aprovação da lei.

De qualquer forma, já que entendemos lá em cima o Estado como um órgão formado internamente, pela própria organização da sociedade (e portanto formado por indivíduos criados dentro dessa sociedade), se entre a população há um comportamento de intolerância com o pensamento diferente, não seria isso um reflexo de um Estado intolerante com o pensamento diferente? Voltamos ao ponto chave: cada um tem o direito de crer ou não crer, condenar ou não condenar a prática que bem entender, de acordo com suas crenças pessoais, mas quando falamos de organização social, a coisa é um pouco diferente, e o Estado não pode ter valores dogmáticos de uma ou outra religião interferindo em suas decisões… pense aí, qualquer coisa, grita lá nos comentários!

10 – Para essas temáticas maiores e mais abrangentes, como a legalização do aborto e a união homoafetiva, não seria viável que se resolvesse na base do plebiscito?

Eis uma boa pergunta, mas que te surpreenderá com a resposta: não, infelizmente não. Eu sei que o plebiscito é a maior demonstração de democracia que uma sociedade pode demonstrar, mas nesses casos, o furo é mais embaixo. Ao meu ver, nossa sociedade não está preparada para pensar de forma coletiva, e sempre decidirá seu voto em urna pelas razões pessoais e de crença. Lembra a dificuldade que foi definir o que é religião e o que é comportamento social? Pois é, não há o discernimento claro a respeito dessas questões, e portanto, o resultado das urnas atenderá sempre o que prega as crenças da maioria, o que certamente ferirá o direito do próximo, mesmo que a crença do próximo não interfira no direito de um membro da maioria, como no caso da discussão sobre a união homoafetiva.

11 – Hmm, entendo… e como fazer para as pessoas aprenderem a ter mais pensamento social?

Uma tubaína pra quem adivinhar… isso, investimentos em educação e formação de raciocínio crítico! Gênio!

12 – Então, o que o povo pode fazer?

Duas coisas. Individualmente, cada um deve sempre praticar o exercício de refletir sobre o que é opinião própria por comportamento social e o que é opinião formada por dogmas religiosos, sendo que o primeiro deve, sim, ser lei. Já coletivamente, é dever da sociedade continuar fazendo a coisa da forma como vem sendo feita: achou que seu direito individual foi ferido por alguma lei baseada na crença da maioria? Junte seus iguais e critique, denuncie, divulgue. É devagar, muito devagar, especialmente pela falta de um sistema educacional de qualidade no Brasil, mas eu ainda acredito que um dia, na base da exaustão mesmo, as pessoas aprendam a entender que os conceitos de “absurdo” e “pecado” são, sim, muito relativos…

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Nas entrelinhas da campanha, ou: guia de sobrevivência para as eleições 2012

Como dizem por aí, o ano começa depois do carnaval. Enfim, estamos finalmente em 2012, caros leitores, e como vocês sabem, 2012 é ano de… fim de mundo? Quase isso: é ano de eleições! E pior: eleições municipais!

Sou de uma cidade em que as eleições municipais são um circo a parte, recheadíssimo de clichês e estereótipos brasileiros. As coisas por aqui são assim: os abençoados com uma memória mais privilegiada não conseguem passar um só período eleitoral sem dar detalhes de falcatruas, votos fantasmas – no caso de minha cidade isso é literalmente, viu? -, urnas “esquecidas” até a terceira recontagem (sabe aquela coisa de “uia, esquecemos a urna daquele bairro rural”? Tá…). Sinceramente, não acredito em nada que possa ser verídico aqui em minha cidade. Se o negócio sai até no CQC, é porque a coisa tá feia mesmo! Assistam o video abaixo e, depois disso, perguntem qual o número da minha zona eleitoral e ganhe de mim um sorrisinho mais amarelo que nossa seleção de futebol…

Ressentimentos cajamarenses a parte, eu sou indelével a apontar que, de fato, os maiores problemas de sua cidade começam exatamente ali nas urnas, caro leitor. É ali, onde você não faz a menor ideia em quem votar e digita o número do santinho recebido dez minutos antes, que se joga fora a oportunidade de tentar algo diferente, mais limpo e transparente em seu município. Clichê? Lugar comum? Certamente, mas como negar que isso é verdade?

E para isso, elaboramos abaixo um pequeno guia para entender seu candidato, quem ele é, o que ele faz, o que ele quer. Vale pra quaisquer eleições, municipais ou “a mais grandona”. Damos também um adicional de “como você pensa o cara ao longo do ano”. Boa sorte, vamos lá!

Candidato #1: O almofadinha

Você conhece a figura. Ele está sempre engravatado, cabelo escovado e com tanto gel que ofusca o brilho do sol. Ele não imprime santinho, manda “carta ao cidadão”. Seu escritório / set de filmagens sempre tem uma estante com enciclopédias ao fundo, uma poltrona para leitura (sempre tem um take do cara chafurdado num livro, o qual sempre é bem volumoso e você nunca consegue ver o título), além de quadros com diplomas e certificados e, obviamente, porta-retratos dos filhos e netos na mesa. É aquele cara que sempre começa a campanha com discursos ininteligíveis, falando difícil, e que no meio da campanha resolve fazer comícios, sem terno, de mangas arregaçadas, pra mostrar que mesmo mais inteligente que vocês culto, ainda é “gente como a gente”. Seu pensamento sobre ele varia, ao longo do tempo, da seguinte forma:

  • Começo da campanha: “nossa, ele fala difícil, deve ter estudo, é disso que minha gente precisa”
  • Meio da campanha: “que cara chato, não para de me esnobar com esse palavreado complicado…”
  • Fim da campanha, pós comícios-mangas-arregaçadas: “além de inteligente ele é do povo. Ganhou meu voto!”

Por que fugir dele? Simples, meu caro: naquela verborragia parnasiana toda que ele jogou ao longo da campanha, você entendeu alguma proposta? Não, né? Então, o que te sobra como motivo para acreditar nele como alguém que vai melhorar as coisas? De gente inteligente, filho, o inferno está cheio!

Candidato #2: O engraçadão desdentado

Tá bom que o almofadinha é bastante irritante, mas no melhor esquema “comédia da vida privada”, surgem os extremos opostos do cara: os engraçadões com dentes a menos. Aquele cara que não faz a menor ideia do que está se candidatando (lembrou dele, né? Pois é…), despenteia toda a juba e aparece na TV, forçando a barra no “sou pobre merrrrrmo”, chama um tecno-brega de fundo e faz seu carnaval, em alguns casos, com aquelas dançarinas com PhD em vergonha alheia. E você nunca sabe se ele acabou ganhando por voto de protesto ou porque o povo realmente o viu como representante. Seu pensamento sobre o dito cujo:

  • Começo da campanha: “nossa, é cada figura que aparece…”
  • Meio da campanha: “é esse tipo de cara que faz essa merda de programa eleitoral gratuito ter alguma graça…”
  • Fim da campanha: “eu ri com ele, por isso eu só lembro o número dele, e por isso eu voto nele. Pronto!”

Por que fugir dele? Experiências anteriores apontam: assim que o cidadão ganha, você estranha ele de terno, com a barba mais cerrada, cabelos no lugar e uma carinha meio “uau, estou aqui”. Na hora que ele sorri pra uma câmera pela primeira vez, e você percebe que ele consertou os dentes já no primeiro mês de mandato, você já entende: o antes analfabeto pobre agora é um analfabeto rico, que no melhor estilo “Maria-vai-com-as-outras”, assina qualquer papel que aparece na frente. Fatalmente um corrupto ou um laranja a mais no Brasil.

Candidato #3: O hipnótico e apelativo

Normalmente essa vaga é preenchida por mulheres que, sem mostrar absolutamente nada concreto como proposta de trabalho, botam um fio-dental na TV e, com a melhor voz de travesseiro, solta aquele “Vote em mim, Mulher-Pera, número 23456”. Até você perceber que essa voz saiu de uma garganta e não de um útero, você já pensou assim:

  • Começo da campanha: “gostosa!”
  • Meio da campanha: “gos-TOOOOOOOOOO-sa!!!!”
  • Fim da campanha: “Oh madrinha da minha condição social, se eu votar na senhora a senhora vem aqui em casa?”

Por que fugir dele? Porque eleição é pra pensar com a cabeça de cima, não com a de baixo. E se isso não é motivo o suficiente pra não votar na gostosa, pense no seguinte: qual a chance de ela ir na casa de cada um de seus eleitores e, digamos, “retribuir” seu voto?

Candidato #4: O parcial e interesseiro

Normalmente é um bonachão risonho que se alguém conhece antes é por sua fama de polêmico. É o cara que entra lá pra defender algum interesse não público, mas pessoal-coletivo, se é que me entendem: “vou fazer com que o Quinze de Jaú tenha melhores estruturas”, “vou dar um barracão novo pra escola de samba dos Unidos da Vila do Chaves”, e sabidamente, o cara é cartola do Quinze de Jaú e presidente da Unidos da Vila do Chaves, usa isso como bandeira de campanha, não esconde isso de ninguém, e no fim ainda ganha com o voto dos “quinzedejauzenses” e “viladochavenses”!

  • Começo da campanha: “UHUUUULL, QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!!”
  • Meio da campanha: “esse daí pelo menos vai fazer alguma coisa pelo meu QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!”
  • Fim da campanha: “se for pra roubar, que seja pelo meu QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!!”

Por que fugir dele? Porque um povo que justifica o interesse privado atuando no gasto das verbas públicas perde o direito de reclamar de qualquer coisa. Ainda mais se o tal “interesse privado” é algo tão paliativo como o futebol. Oh, wait

Candidato #5: O pretensioso

Especialmente nas campanhas municipais como a de 2012, sempre tem esse sujeito. Ele não é ninguém lá muito conhecido, normalmente de um partido pequeno, daqueles com pouca verba eleitoral, que dão 5 segundos pra cada um na TV ou a impressão de mil metades de santinho. Eu entendo, o espaço é pequeno, o tempo é curto, mas quando o cara, que é um candidato a vereador de Xique Xique na Bahia, solta algo do tipo “vote Joãozinho da Serralheria para acabar com a corrupção no Brasil”, eu penso estar na frente do verdadeiro Messias!

  • Começo da campanha: “whatever”
  • Meio da campanha: “whatever”
  • Fim da campanha: “eu acredito em milagres”, ou: “whatever…”

Por que fugir dele? Porque, convenhamos, o Joãozinho da Serralheria de Xique Xique na Bahia não é ninguém nem em Xique Xique na Bahia. Tá, isso não é motivo, mas o fato de nem ele mesmo saber quem é e para que está se candidatando é mais preocupante, concorda?

Candidato #6: O fundamentalista

Assim como o pretensioso, normalmente o fundamentalista também é de um partido pequeno, desses com pouco destaque e que normalmente tem uma sigla religiosa, aqueles PXC, onde P= partido, C= cristão, e X é qualquer coisa. O programa da legenda sempre tem uma musiquinha terna ao fundo, com imagens de livros brilhantes e pombas, e as propostas de governo – quando existem – são sempre relacionadas ao ensinamento da doutrina cristã e, não raro, termina seu discurso com “de acordo com os ensinamentos de Jesus”. Há que se destacar que, não raro, esse cidadão leva uma vida dupla: de dia ele é candidato / pastor, de noite vira desbravador da realidade e alimenta um blog sobre o satanismo do Michel Temer. Enfim, o cidadão comum vê esse cara e pensa assim:

  • Começo da campanha: “é exatamente disso que o Brasil precisa, de mais Deus no coração”
  • Meio da campanha: “esse daí, pelo menos, não vai ter coragem de roubar”
  • Fim da campanha: “nosso futuro está nas mãos de Deus, então, eu voto em quem crê”

Por que fugir dele? Eu, de acordo com meu credo e minhas convicções, até concordo que falta Deus no coração, e toda essa ladainha aí. Só que, por favor, existe um troço que se chama “Estado Laico”, e o Brasil é um deles! Sabe essa sua mania de ver notícias sobre o Mundo Árabe, aquele lance de “se o Alcorão diz pras mulheres usarem burca isso él lei no nosso país”, e achar toda aquela gente muito esquisita? Votando nesse cara, você está fazendo a mesmíssima coisa, caro amigo. Desculpa dizer, mas ou você é um cego, ou um grande hipócrita filho da p… mesmo!

Candidato #7: O do jingle grudento

Dentre todos, esse é o cara com a vida mais fácil, sem dúvida. Basta um amigo músico com criatividade, um estúdio amador e um carro de som, e o cara ganha uma eleição sem sequer sair de casa, fazer comício, apresentar proposta. É aquele cara que, quando depois de um ano você bate o olho na relação de vereadores de sua cidade, você se pergunta “mas quem é ele mesmo?” O número do sujeito cola igual chiclete na sua cabeça, e sem você sequer perceber, seus dedos estão fatalmente condicionados a procurar as teclas do número do cara no dia da urna. Entre nós, alguém duvida que Michel Teló, hoje, ganharia eleição até pra Papa no Vaticano? Mas isso é entre nós, tá? Ninguém conta isso pra ele, please!

  • Começo da campanha: “que música irritante!”
  • Meio da campanha: “porra, eu tô cantarolando essa merda no chuveiro!”
  • Fim da campanha: “porra, eu tô cantarolando essa merda no chuveiro, no ônibus, na academia, no trabalho, no momento do sexo, no…”

Por que fugir dele? É difícil fugir de mensagens quase subliminares como essa. Apenas tente se lembrar que por trás da musiquinha tem um sujeito que, quase sempre, não tem nenhuma proposta de governo na manga pra mostrar a quem pede… Ah, e leve no bolso um canivete na hora da votação: se seu dedo rumar sozinho para as teclas correspondentes ao número do jingle, decepe-o imediatamente!

Candidato #8: O zé ninguém

É o pretensioso, mas sem a parte da pretensão. A única coisa que você sabe sobre ele é que ele é candidato: o cara não faz comício, não imprime santinho, não aparece na TV.

  • Começo da campanha: “quem é ele?”
  • Meio da campanha: “ele deve ter alguma proposta, está muito quieto pro meu gosto…”
  • Fim da campanha: “voto nele só porque ele não quis se aparecer, é humilde…”

Por que fugir dele? Porque, acredite, ele não tem proposta nenhuma. Esse cara se candidatou só pra ter o direito federal de férias justificadas do seu serviço no período oficial de campanha. E quase que o sujeito ainda leva o caneco!

Candidato #9: o pseudo-celebridade

Por algum motivo o sujeito ficou relativamente famoso uns meses atrás. O cara saiu do anonimato em Taquarivaí/SP quando apareceu rapidinho no Datena, pelo circuito interno de seu açougue que flagrou as “incríveis cenas do espancamento de um assaltante”, seguidas de meia dúzia de elogios desse apresentador que eu tanto gosto. Em cidade pequena é assim: se por algum motivo que não envolva sequestro, estupro, latrocínio, corrupção ou estelionato você fez o nome de sua cidade aparecer em rede nacional, você ganha a chave da cidade! Por que não aproveitar os quinze minutos de fama decorrentes e tentar uma candidatura, afinal?

  • Começo da campanha: “legal, o Durvalino do Açougue é um herói taquarivaiense!”
  • Meio da campanha: “o Durvalino do Açougue bate em ladrão, é isso que a nossa Taquarivaí precisa!”
  • Fim da campanha: “em quem eu ia votar mesmo? Ah é, no Durvalino do Açougue…”

Por que fugir dele? Muito simples, caro amigo: nem o Datena vai lembrar mais do Durvalino do Açougue na próxima semana, e se você tentar se lembrar quem era o Durvalino do Açougue antes dos seus quinze minutos de fama, vai finalmente perceber que, na verdade, o Durvalino do Açougue está muito mais para alguém tentando uma carreira honro$a que para um governante idôneo…

Candidato #10: O pau de galinheiro

Basicamente, é o almofadinha tentando a reeleição, depois de “denúncias” de “escândalos” de “superfaturamentos” e lero-lero. O cara ganhou há quatro anos atrás, fez um mandato bem meia boca, está completamente sujo na praça para colegas e também para eleitores. É o cara que mais vai ter que contar com a ajuda deles, os marqueteiros, pra conseguir o que quer: um novo mandato. e normalmente a campanha segue dois viéses principais: a) mostrar todas as incontáááááveis obras que o cara já fez em quatro anos, no melhor estilo “ele rouba mas faz” (e eu sei de quem você lembrou); ou b) ir à tv todo engomado e fazer um discurso emocionado, pedindo uma nova chance, reconhecendo os erros e, principalmente, frisando “as dificuldades da função de gestor público que requerem alguém com experiência como eu” (e eu também sei de quem você lembrou, rs…)

  • Começo da campanha: “não acredito que ele é candidato de novo, que cara de pau!”
  • Meio da campanha: “é, eu não sabia que ele fez tudo isso…”
  • Fim da campanha: “ah, todos roubam, esse daí só é diferente porque a gente ficou sabendo. E ele fez bastante, votei de novo!”

Por que fugir dele? Por vários motivos. Primeiro, o fato de ele ter feito incontáááááveis coisas em seu mandato não é bondade, é obrigação. Segundo, tem uma equipe caríssima atrás dele dizendo exatamente o que ele deve dizer, sentir, exprimir, e você está se enganando direitinho com a estratégia deles. E por fim, vale a máxima: “rouba mas faz” é justificar o roubo. E se você justifica o roubo, perde seu direito de reclamar dele. Simples assim.

Carta aberta aos membros da imprensa de massa

Brasil, 15 de fevereiro de 2012

Senhores jornalistas do Brasil.

Venho através dessa usar de meu direito de liberdade de expressão, o qual os senhores tanto brigaram no lastimável período da ditadura militar brasileira, para dar minhas opiniões a respeito de vossas recentes atividades no cenário de formadores de opinião no meu amado país.

Apresento-me como um brasileiro de classe média, que cresceu na era pré-popularização da TV a cabo e que, por isso, tem mãe, pai, tios e tias que nunca aprenderam o exercício do “não gostou, mude de canal”: há tempos, vocês estão em todos os canais. Em outros termos, venho do meio de vosso “público-alvo” mais regular. Não tenho influência alguma na formação da opinião nacional, não tenho estudo jornalístico, e exatamente por isso não faço ataque algum à classe como um todo, mas apenas a alguns membros notadamente mais destacados na chamada “boca do povão”. Inclusive, tenho vários grandes amigos que exercem essa nobre função, e até onde eu sei, da forma mais imparcial possível. Enfim, como um típico exemplar (não gosto de “representante”, falo apenas por mim) do público mais atingido por vossas ações na imprensa de massa, acredito ser até de grande valia para vossa senhoria ter esse feedback espontâneo que agora vos oferto.

Venho acompanhando, na medida do possível (leia-se, na medida em que minha condição de “trabalhador da classe média brasileira que tem exclusivamente em vocês o filtro das informações que me chegam”), os recentes episódios do julgamento do senhor Lindemberg Fernandes Alves, autor do assassinato da adolescente Eloá Pimentel em 13 de outubro de 2008. Não sei dizer se por minha própria opinião ou por imposição do filtro informacional de vossa senhoria, considero que o réu é, de fato, um “monstro”, “assassino frio”, “bandido da pior estirpe”, usando termos que os senhores calcaram em seus respectivos veículos de informação ao longo dessa semana. Como disse, sou alguém que também é fatalmente influenciado pela informação que chega aos meus sentidos, transmitidos por vosso trabalho.

Exceto-me de seus demais telespectadores, no entanto, ao elaborar um raciocínio crítico que permite-me apontá-los, também, como co-autores do terrível desfecho do caso em questão. O Caso Eloá, que voltou à mídia pelo acontecimento do julgamento do réu, me leva à profunda reflexão acerca dos limites que vossa profissão deve ou não ultrapassar. Senhores, questionem-se: vale tudo pelo IBOPE? Claramente, quando da ocasião do fatídico dia da perda da vida da pobre moça, a Polícia Militar de São Paulo sofreu influência direta das dezenas de câmeras ao vivo em busca do melhor ângulo, do melhor flash, da expectativa pela ação. O que, é inconteste, pode ter influenciado diretamente no possível “erro” da operação em questão, outro assunto amplamente abordado pelos senhores há três anos atrás. É verdade mesmo o que vossas senhorias disseram nesses últimos dias, sobre acreditar cegamente na total neutralidade da presença da imprensa no terrível desfecho mostrado ao vivo naquele dia?

Vocês conseguiram o telefone do réu antes da PM. Vocês conversaram, ao vivo em rede nacional, com o tal Lindemberg. Pergunto-lhes: algum de vocês era da família do réu? Algum de vocês tinha o poder de, mais que a própria Polícia Militar do Estado de São Paulo que vocês tanto exaltam, negociar com o até então sequestrador da moça? Qual o treinamento de vocês pra isso? Qual a experiência de vocês para participar da negociação de um sequestro? Não me digam, por favor, que os senhores sentiram-se “na obrigação de” representar a tal “sociedade de bem”, o tal “cidadão de bem”, novamente em termos amplamente usados por vocês. Eu, típico “público alvo”, sou um cidadão de bem, membro da sociedade do bem, e jamais, em hipótese alguma, vos elegi como meus representantes. Muito menos, não me digam que vocês também, assim como eu, são da “sociedade do bem”: nem de longe o “cidadão do bem” recebe salário semelhante ao de vossas senhorias, o que vos desqualifica como exemplos típicos da massa da sociedade brasileira.

Senhores, devo alertá-los que a vossa função é informar, apenas isso, não é criar a informação, não é manipular a informação. O Deus que vocês apregoam em seus pseudo-valores morais me deu um cérebro – e sou absolutamente grato a Ele por isso – que me faz ter livre capacidade de interpretação própria dos acontecimentos. Respondam, novamente: vocês, que aparecem na TV cotidianamente pregando implicitamente (ou nem tanto) as tradições cristãs de seu público-alvo, e que eu sigo também, conseguem se encapsular numa bolha de tranquilidade e ignorância a respeito do que aconteceu naquele 13 de outubro? Eu, um cristão como vocês constantemente se auto-declaram, confesso que não conseguiria…

E ainda me questiono, dentro da doutrina cristã que meus pais me ensinaram: que cristãos são vocês que julgam, e julgam, e julgam os criminosos de nossa sociedade, sem entendê-los num contexto de desigualdade social que terrivelmente assola nosso país? Ora, é isso o que vocês aprendem na religião que gostam tanto de declarar para todos os expectadores / leitores / ouvintes?  Confesso que não sou um frequentador assíduo da igreja, e que por isso já perdi muitas oportunidades de, dentro de minhas crenças, aprender sobre ser uma pessoa melhor. Mas vossas atitudes atuais me fazem perguntar: vocês perderam o sermão do padre de vossas paróquias sobre perdão? Principalmente, vocês perderam o sermão do padre de vossas paróquias sobre o poder exclusivo de Deus para julgar cada um de nós e nossas obras?

Meus caros, abismo-me de ver como vocês, ao que me parece, subestimam a importância de sua função para nosso povo. Desacredito na falta de responsabilidade que, obrigatoriamente, o cargo que lhes foi dado na sociedade (novamente, sem que eu tivesse poder de voto sobre isso) implica. Como pessoas aparentemente tão engajadas nas mazelas sociais que vocês são, deveriam saber melhor que eu: seu “público alvo” não teve educação de qualidade, não teve preparo para a formação de um raciocínio crítico, próprio. Seu “público alvo” não pensa, não critica, não reflete, e por isso está historicamente condicionado a acreditar em toda e qualquer informação que sai de umas linhas compradas na banca de jornal ou de uma telinha colorida em canto privilegiado da sala! Me dói muito informar-lhes, como se vocês ainda não soubessem: seu “público alvo” é total e incondicionalmente manipulável de acordo com o que se quer ou não mostrar.

Entendem agora o perigo da edição dessa realidade mostrada por vocês? Sim, eu sei, imparcialidade total é algo que não existe, nem sequer neste espaço que ora uso para escrever-lhes, mas vejo um enorme problema quando, ao que me parece, atualmente preocupa-se mais com a edição da realidade que com ela mesma em si! Ou vocês realmente acreditam que ninguém percebe que, hoje em dia, nossa imprensa televisiva preocupa-se apenas em causar o pânico na sociedade, fazendo com que o “cidadão de bem” gaste um dinheiro que não tem para fortificar sua casa e nunca mais sair de lá? Ou vocês realmente acreditam que ninguém percebe que nossa imprensa escrita assumiu há tempos um compromisso de disputar a tapas cada leitor para um ou outro ideal político, gastando o dobro, o triplo, o quádruplo de linhas com uma crítica mal construída de alguma ação governamental que com a exposição do fato em si? Isso é parcialidade, senhores, e da pior estirpe: uma parcialidade proposital, intencional, maldosa, sob a condição de “verdade absoluta” que minha sociedade lhes deu, e sob a égide da liberdade de expressão lutada e maravilhosamente conquistada nos idos da década de 80! Liberdade sem responsabilidade não é liberdade, é libertinagem!

Entendam, finalmente: o fato de lamentavelmente termos órgãos falhos de justiça não dá aos senhores o direito de sair julgando a torto e a direito por aí. Embora sabemos que aqueles que foram colocados ali para exercer o papel de justiceiros da sociedade constantemente não exercem seus respectivo papéis, prefiro ainda acreditar que para tal eles ainda são mais gabaritados e estudados que os senhores. Temos uma Polícia Militar falha? Concordo, mas seus diplomas não vos coloca no papel de policiais, não vos dá o direito de atuarem por conta própria. Isso não é de forma alguma ético, ou moral, ou concebível, muito menos cristão! Vocês reclamaram – com toda a razão, diga-se – quando propuseram que não era necessário gabarito para exercer o papel de jornalista no Brasil. Nada mais justo que pedir-lhes, encarecidamente: não cometam o mesmo erro que quiseram cometer com vocês! Quando assim o acontece, infelizmente temos consequências. No caso em questão, temos o sangue de uma adolescente.

Senhores jornalistas do meu amado Brasil, os senhores têm estudo. Os senhores tiveram o privilégio de conhecer a sociedade pela ótica da universidade (na maioria dos casos, com o dinheiro da própria sociedade que eu sei). Os senhores são intrinsecamente familiarizados com as diversas mazelas sociais de meu amado país, e se assim o é, sabem também que em sua grande maioria estes problemas são absolutamente ligados à fraqueza dos diversos setores da verdadeira quimera que é nosso poder público. Se os senhores tem mesmo a intenção de cumprir o juramento feito quando da formatura de cada um de vocês, que fala sobre “visar um futuro mais digno e mais justo para todo cidadão brasileiro”, o que ele mais precisa é uma informação coerente, limpa, seu tantos filtros. Como o “cidadão de bem” pode lutar por seus direitos, como o “cidadão de bem” pode se engajar para buscar o tal futuro digno, se dentro de sua própria casa ele é enganado flagrantemente pela televisão que tanto idolatra, paga em prestações a perder de vista? Caros, o que a sociedade clama hoje de nossa imprensa é o poder de denúncia, é o poder de enxergar a realidade, e apenas isso. Nada mais. É exatamente o que precisamos para chegar no caminho certo apontado pelo juramento da profissão de jornalista.

Senhores, peço-lhes encarecidamente que reflitam sobre isso, mas que por favor o façam rapidamente, antes que outro caso qualquer aponte todas as câmeras da nação para outra fatalidade e o Caso Eloá volte ao ostracismo de onde convenientemente veio. Que o Caso Eloá sirva para que vocês conheçam algo que, em meu entender, não lhes é algo usual: a auto-crítica. Pois tendo em mãos o juramento que vocês fizeram quando o poder público os reconheceu como jornalistas, é impossível não entender que há, no compromisso que vocês assumiram desde então, coisas absolutamente mais relevantes que o IBOPE. Caso discordem deste pensamento que acabei de expor a vocês nas linhas anteriores, peço perdão de entendê-los como mentirosos no juramento prestado. Se assim o são, desculpem meus caros, mas não estou seguro nem mesmo dentro de minha casa: a mentira e as más intenções chegam a mim de dentro de minha TV. Apesar de tamanha nobreza que o âmbito de vossa profissão incontestavelmente tem, os senhores usam esse poder de forma incoerente, e isso fez com que agora os senhores tenham sangue nas mãos. Por favor, não aumentem ainda mais esta mancha.

Respeitosamente,

Apenas um membro indignado do vosso tão famigerado “público alvo”.

Brasil com P – GOG feat. Maria Rita

É, leitor. Juntamos falta de tempo e falta de inspiração, e a coisa desanda por aqui. Nem faz tanto tempo que lancei aqui meu últmo post, mas por algum motivo, parece-me já uma eternidade. Espero, conto com sua compreensão sobre isso. Conto com sua compreensão sobre isso?

Enquanto as idéias pululam por aqui (e infelizmente ficam só nisso), eu recomendo muito o vídeo abaixo, da declamação musical de uma poesia fantástica de um dos caras mais geniais do Hip Hop nacional, o qual sou fã declarado faz tempo: o nome do cara é GOG (o nome artístico dele é a sigla de Genival Oliveira Gonçalves, seu nome de verdade. Bacana, né?), figura carimbada do meu “personal top-five” do rap e da crítica social brasileira, vindo diretamente da periferia de Brasília. Pois é, que irônico…

Já falei por aqui que sou fissurado pelo rap nacional, né? Vai por mim, o vídeo abaixo não foi colocado aqui só por isso. Eu sei que ainda quero, um dia, ter a inspiração desse cara pra compor poesia e, ao mesmo tempo, falar tão cruamente sobre o Brasil.

Se você, assim como eu, curte Hip Hop, vai por mim, vale pelo Hip Hop. Se você curte poesia, vale MUITO pela poesia, preste bem atenção! Se você curte Maria Rita… bem… tire suas próprias conclusões, rs…

PS: quer ver a poesia completa? Vai lá nos comentários. Aproveita e me diz o que achou!

Polícia para quem… para quem mesmo?

Carinha da classe média, independente se média alta ou baixa, crescendo nesse típico mundozinho pertencente a seu “status social”. Ensino médio completo, desses que se tem nas escolas públicas do Brasil, que como já discutimos, não forma pensamento crítico, só empurra o cara à formatura. Valores sociais completamente distorcidos levados desde berço, recebendo uma educação de seus pais repleta de pensamentos torpes sobre raça, credo, sexualidade. Sim, nós somos racistas, homofóbicos, católicos demais. Mas, principalmente, ouvindo desde pequenininho, pela amaldiçoada TV formadora de opinião ou pelos mais velhos, as velhas máximas pseudo-sociológicas. “Cuidado ao andar por ruas escuras”. “Muito cuidado com as drogas e com os drogados, gente do bem não usa, menino”. “Favela é lugar de bandido, gente que mata e rouba por prazer, que destrói a vida dos outros”. Associação direta: ação estatal e legalidade é sinônimo de retidão social, e tudo o que foge disso é mal, perigoso, amedrontador. Sabemos, um pouquinho mais de esclarecimento desfaz qualquer pensamento distorcido como esse, mas também sabemos: vivemos, infelizmente, num mundo em que a maioria tem e dissemina esses pensamentos distorcidos.

"Papai, papai, somos da nova classe média e estamos enfim numa rua segura. Desperdiça água em mim?"

Pegue esse cara e dê a ele um certo “poder de alteração das coisas” que, menino da classe média, ele nunca teve. Dê a ele uma arma, uma farda, e o poder de usar sua autoridade quando “julgar pertinente de acordo com sua preparação”. Leia-se: essa “preparação” é muito mais sobre “técnicas de combate” (ou algo semelhante, sei lá), que para entendimento das formas como a sociedade de fato funciona. E o cara que cresceu temendo o mundo e encarando qualquer pessoa diferente dele como potencial inimigo, individual ou social, agora tem uma carta branca, dada pelo Estado que sempre foi para ele a estância maior de respeito e direção, para “estabelecer a ordem”…

Você se lembra desse caso, eu sei, mas vale a pena ver de novo. Procure ao menos dessa vez colocar-se na pele do policial bonachão prestes a ganhar uma ponte de safena…

É fácil entender, caro leitor, a atual crise da polícia no Brasil. Casos como a invasão da Reitoria da USP, a desocupação da Cracolândia, e mais recentemente o caso da Favela do Pinheirinho em São José dos Campos e o show da Rita Lee em Aracaju, empurram ladeira abaixo a imagem dessa corporação tão secular na sociedade brasileira. Claro, com uma certa forcinha básica das redes sociais e do engajamento das classes médias-altas, frequentadoras dos sacralizados núcleos de formação crítica nacional, eis que entre um escândalo e outro, desde meados do ano passado a Polícia Militar, especialmente no estado de São Paulo, tem perdido rapidamente seu prestígio como órgão indispensável na sociedade atual. Sim, eu sei, todo aquele papo de “ordens superiores de um estado fascista” e lero-lero, e algum dia eu até posso jogar um post aqui sobre isso, mas o “estado fascista”, até que se prove o contrário, determinou as ordens mas não os modos: a violência vem dali mesmo.

Explicável? Totalmente! Dar uma arma para aquele cara que conversamos lá em cima é pedir para que ela seja usada. É só notar, por exemplo, que um em cada cinco assassinatos cometidos na cidade de São Paulo em 2011 foi por um policial, fardado ou a paisana, segundo dados da Corregedoria da Polícia Militar e levantamento da Folha de São Paulo. E que, obviamente, os casos de “resistência seguida de morte” é maioria, mas não correspondem de modo algum à totalidade desses óbitos.

A corporação que deveria cuidar da segurança social, na verdade é um dos maiores agentes de perigo de vida. Se por um lado já não é simples enxergar no transgressor abatido pela bala do 38 do homem fardado um alguém sem futuro, um alguém que viu na criminalidade a forma mais fácil (se não a única) de sobrevivência; mais difícil ainda é perceber que o próprio homem fardado, portador do 38 que abateu o transgressor, é também um cidadão típico de nossa sociedade, com seus receios e valores herdados, que é esfolado pelos impostos todos os dias e tem esposa e filhos e desejos de futebol nos finais de semana. Exatamente como você, cheio de medo e paranóias sociais, mas com um revólver na mão. Você consegue afirmar com firmeza que, no lugar dele, agiria diferente?

Alguém como você, como eu. Quem nunca quis encoxar uma vaca colorida ao encontrar uma na rua? (clique na figura para conhecer o caso)

Caros, o buraco e bem mais embaixo. O comportamento individual de cada um dos membros dessa corporação reflete com exatidão os valores que cada um deles ganhou ao longo da formação de nossa sociedade. E não é o caso de uma família desregrada, ou preconceituosa, caro leitor: a sociedade brasileira como um todo é exatamente assim, preconceituosa, paranóica e altamente corruptível desde sua concepção. É claro que uma instituição que em tese zela pelo bem-estar social teria obrigatoriamente que se desfazer desses ônus históricos, mas será tão simples? Pense: você conseguiria racionalizar e se desvencilhar de algo que seus pais lhe incutiram como valor de caráter?

Eu acredito na polícia? Sim, acredito. Acredito mais nela do que em um suposto pseudo-poder de autorregulação de um comportamento social aceitável para o indivíduo. Acredito que ela é um (____) necessário – complete com “bem” ou “mal” da forma que melhor lhe convir. Acredito que a maior parte dos policiais passam seus 30, 40 anos de carreira realizando seu trabalho, se não da melhor forma, mas da melhor forma possível de acordo com suas condições (que, sabemos, assim como qualquer repartição pública deve ter lá suas pendengas).  E é por isso que, antes de demonizar a corporação, devemos antes entender que ela é formada por “gente como a gente” (oh, que coisa mais Gugu Liberato, desculpem!), e por vê-la como um espelho dos nossos próprios comportamentos, e medos, e preconceitos, e pseudo-ameaças de seja lá o que for.

Uma polícia mais justa viria apenas com uma sociedade mais justa? Não é bem assim. Seria hipócrita se desse, aqui, detalhes do processo de formação militar de um policial brasileiro: confesso que não sei, mas não preciso saber para ver que é evidente que uma maior preparação e um maior pensamento social é necessário no processo de formação do policial militar. Mas eu volto a provocar-te, leitor: pense, reflita profundamente, lembre-se de cada piadinha e cada comentário doutrinador de sua mãe. Você seria um policial diferente?

Se quiser, comenta aí.

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PS: A ONG Cursinho Professor Chico Poço, que faz um cursinho pré-vestibular comunitário para pessoas de baixo poder aquisitivo em Jundiaí, começou o Projeto “Adote um Aluno”, onde você pode colaborar para a redução das mensalidades de seus alunos ao longo do ano. Nem preciso dizer o tamanho do meu xodó por esse trabalho, e por isso, te convido a conhecer o trabalho da ONG e a clicar na figura aí embaixo para se inscrever. Eu sei que você é dessa mesma classe média que conversamos anteriormente, e como eu também sou, sei que você consegue doar R$30 por mês para uma causa tão nobre.

PS(2): faz uns meses, estou tentando assistir um documentário sobre a Zona Sul de São Paulo, chamado “A Ponte”, de Roberto Oliveira e João Wainer. Ou o sono me pega (eu e essa mania de se pendurar no computador de madrugada), ou não tenho tempo de ver inteiro, mas entre ver pedacinho hoje e amanhã e esperar carregar no outro dia até o ponto onde parei (e assim perder a paciência), estou realmente curtindo muito, recomendo! Clique aqui para ir ao documentário no Vimeo.

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