Crônicas de um país sem sobrenome

Brasil, 15 de fevereiro de 2012

Senhores jornalistas do Brasil.

Venho através dessa usar de meu direito de liberdade de expressão, o qual os senhores tanto brigaram no lastimável período da ditadura militar brasileira, para dar minhas opiniões a respeito de vossas recentes atividades no cenário de formadores de opinião no meu amado país.

Apresento-me como um brasileiro de classe média, que cresceu na era pré-popularização da TV a cabo e que, por isso, tem mãe, pai, tios e tias que nunca aprenderam o exercício do “não gostou, mude de canal”: há tempos, vocês estão em todos os canais. Em outros termos, venho do meio de vosso “público-alvo” mais regular. Não tenho influência alguma na formação da opinião nacional, não tenho estudo jornalístico, e exatamente por isso não faço ataque algum à classe como um todo, mas apenas a alguns membros notadamente mais destacados na chamada “boca do povão”. Inclusive, tenho vários grandes amigos que exercem essa nobre função, e até onde eu sei, da forma mais imparcial possível. Enfim, como um típico exemplar (não gosto de “representante”, falo apenas por mim) do público mais atingido por vossas ações na imprensa de massa, acredito ser até de grande valia para vossa senhoria ter esse feedback espontâneo que agora vos oferto.

Venho acompanhando, na medida do possível (leia-se, na medida em que minha condição de “trabalhador da classe média brasileira que tem exclusivamente em vocês o filtro das informações que me chegam”), os recentes episódios do julgamento do senhor Lindemberg Fernandes Alves, autor do assassinato da adolescente Eloá Pimentel em 13 de outubro de 2008. Não sei dizer se por minha própria opinião ou por imposição do filtro informacional de vossa senhoria, considero que o réu é, de fato, um “monstro”, “assassino frio”, “bandido da pior estirpe”, usando termos que os senhores calcaram em seus respectivos veículos de informação ao longo dessa semana. Como disse, sou alguém que também é fatalmente influenciado pela informação que chega aos meus sentidos, transmitidos por vosso trabalho.

Exceto-me de seus demais telespectadores, no entanto, ao elaborar um raciocínio crítico que permite-me apontá-los, também, como co-autores do terrível desfecho do caso em questão. O Caso Eloá, que voltou à mídia pelo acontecimento do julgamento do réu, me leva à profunda reflexão acerca dos limites que vossa profissão deve ou não ultrapassar. Senhores, questionem-se: vale tudo pelo IBOPE? Claramente, quando da ocasião do fatídico dia da perda da vida da pobre moça, a Polícia Militar de São Paulo sofreu influência direta das dezenas de câmeras ao vivo em busca do melhor ângulo, do melhor flash, da expectativa pela ação. O que, é inconteste, pode ter influenciado diretamente no possível “erro” da operação em questão, outro assunto amplamente abordado pelos senhores há três anos atrás. É verdade mesmo o que vossas senhorias disseram nesses últimos dias, sobre acreditar cegamente na total neutralidade da presença da imprensa no terrível desfecho mostrado ao vivo naquele dia?

Vocês conseguiram o telefone do réu antes da PM. Vocês conversaram, ao vivo em rede nacional, com o tal Lindemberg. Pergunto-lhes: algum de vocês era da família do réu? Algum de vocês tinha o poder de, mais que a própria Polícia Militar do Estado de São Paulo que vocês tanto exaltam, negociar com o até então sequestrador da moça? Qual o treinamento de vocês pra isso? Qual a experiência de vocês para participar da negociação de um sequestro? Não me digam, por favor, que os senhores sentiram-se “na obrigação de” representar a tal “sociedade de bem”, o tal “cidadão de bem”, novamente em termos amplamente usados por vocês. Eu, típico “público alvo”, sou um cidadão de bem, membro da sociedade do bem, e jamais, em hipótese alguma, vos elegi como meus representantes. Muito menos, não me digam que vocês também, assim como eu, são da “sociedade do bem”: nem de longe o “cidadão do bem” recebe salário semelhante ao de vossas senhorias, o que vos desqualifica como exemplos típicos da massa da sociedade brasileira.

Senhores, devo alertá-los que a vossa função é informar, apenas isso, não é criar a informação, não é manipular a informação. O Deus que vocês apregoam em seus pseudo-valores morais me deu um cérebro – e sou absolutamente grato a Ele por isso – que me faz ter livre capacidade de interpretação própria dos acontecimentos. Respondam, novamente: vocês, que aparecem na TV cotidianamente pregando implicitamente (ou nem tanto) as tradições cristãs de seu público-alvo, e que eu sigo também, conseguem se encapsular numa bolha de tranquilidade e ignorância a respeito do que aconteceu naquele 13 de outubro? Eu, um cristão como vocês constantemente se auto-declaram, confesso que não conseguiria…

E ainda me questiono, dentro da doutrina cristã que meus pais me ensinaram: que cristãos são vocês que julgam, e julgam, e julgam os criminosos de nossa sociedade, sem entendê-los num contexto de desigualdade social que terrivelmente assola nosso país? Ora, é isso o que vocês aprendem na religião que gostam tanto de declarar para todos os expectadores / leitores / ouvintes?  Confesso que não sou um frequentador assíduo da igreja, e que por isso já perdi muitas oportunidades de, dentro de minhas crenças, aprender sobre ser uma pessoa melhor. Mas vossas atitudes atuais me fazem perguntar: vocês perderam o sermão do padre de vossas paróquias sobre perdão? Principalmente, vocês perderam o sermão do padre de vossas paróquias sobre o poder exclusivo de Deus para julgar cada um de nós e nossas obras?

Meus caros, abismo-me de ver como vocês, ao que me parece, subestimam a importância de sua função para nosso povo. Desacredito na falta de responsabilidade que, obrigatoriamente, o cargo que lhes foi dado na sociedade (novamente, sem que eu tivesse poder de voto sobre isso) implica. Como pessoas aparentemente tão engajadas nas mazelas sociais que vocês são, deveriam saber melhor que eu: seu “público alvo” não teve educação de qualidade, não teve preparo para a formação de um raciocínio crítico, próprio. Seu “público alvo” não pensa, não critica, não reflete, e por isso está historicamente condicionado a acreditar em toda e qualquer informação que sai de umas linhas compradas na banca de jornal ou de uma telinha colorida em canto privilegiado da sala! Me dói muito informar-lhes, como se vocês ainda não soubessem: seu “público alvo” é total e incondicionalmente manipulável de acordo com o que se quer ou não mostrar.

Entendem agora o perigo da edição dessa realidade mostrada por vocês? Sim, eu sei, imparcialidade total é algo que não existe, nem sequer neste espaço que ora uso para escrever-lhes, mas vejo um enorme problema quando, ao que me parece, atualmente preocupa-se mais com a edição da realidade que com ela mesma em si! Ou vocês realmente acreditam que ninguém percebe que, hoje em dia, nossa imprensa televisiva preocupa-se apenas em causar o pânico na sociedade, fazendo com que o “cidadão de bem” gaste um dinheiro que não tem para fortificar sua casa e nunca mais sair de lá? Ou vocês realmente acreditam que ninguém percebe que nossa imprensa escrita assumiu há tempos um compromisso de disputar a tapas cada leitor para um ou outro ideal político, gastando o dobro, o triplo, o quádruplo de linhas com uma crítica mal construída de alguma ação governamental que com a exposição do fato em si? Isso é parcialidade, senhores, e da pior estirpe: uma parcialidade proposital, intencional, maldosa, sob a condição de “verdade absoluta” que minha sociedade lhes deu, e sob a égide da liberdade de expressão lutada e maravilhosamente conquistada nos idos da década de 80! Liberdade sem responsabilidade não é liberdade, é libertinagem!

Entendam, finalmente: o fato de lamentavelmente termos órgãos falhos de justiça não dá aos senhores o direito de sair julgando a torto e a direito por aí. Embora sabemos que aqueles que foram colocados ali para exercer o papel de justiceiros da sociedade constantemente não exercem seus respectivo papéis, prefiro ainda acreditar que para tal eles ainda são mais gabaritados e estudados que os senhores. Temos uma Polícia Militar falha? Concordo, mas seus diplomas não vos coloca no papel de policiais, não vos dá o direito de atuarem por conta própria. Isso não é de forma alguma ético, ou moral, ou concebível, muito menos cristão! Vocês reclamaram – com toda a razão, diga-se – quando propuseram que não era necessário gabarito para exercer o papel de jornalista no Brasil. Nada mais justo que pedir-lhes, encarecidamente: não cometam o mesmo erro que quiseram cometer com vocês! Quando assim o acontece, infelizmente temos consequências. No caso em questão, temos o sangue de uma adolescente.

Senhores jornalistas do meu amado Brasil, os senhores têm estudo. Os senhores tiveram o privilégio de conhecer a sociedade pela ótica da universidade (na maioria dos casos, com o dinheiro da própria sociedade que eu sei). Os senhores são intrinsecamente familiarizados com as diversas mazelas sociais de meu amado país, e se assim o é, sabem também que em sua grande maioria estes problemas são absolutamente ligados à fraqueza dos diversos setores da verdadeira quimera que é nosso poder público. Se os senhores tem mesmo a intenção de cumprir o juramento feito quando da formatura de cada um de vocês, que fala sobre “visar um futuro mais digno e mais justo para todo cidadão brasileiro”, o que ele mais precisa é uma informação coerente, limpa, seu tantos filtros. Como o “cidadão de bem” pode lutar por seus direitos, como o “cidadão de bem” pode se engajar para buscar o tal futuro digno, se dentro de sua própria casa ele é enganado flagrantemente pela televisão que tanto idolatra, paga em prestações a perder de vista? Caros, o que a sociedade clama hoje de nossa imprensa é o poder de denúncia, é o poder de enxergar a realidade, e apenas isso. Nada mais. É exatamente o que precisamos para chegar no caminho certo apontado pelo juramento da profissão de jornalista.

Senhores, peço-lhes encarecidamente que reflitam sobre isso, mas que por favor o façam rapidamente, antes que outro caso qualquer aponte todas as câmeras da nação para outra fatalidade e o Caso Eloá volte ao ostracismo de onde convenientemente veio. Que o Caso Eloá sirva para que vocês conheçam algo que, em meu entender, não lhes é algo usual: a auto-crítica. Pois tendo em mãos o juramento que vocês fizeram quando o poder público os reconheceu como jornalistas, é impossível não entender que há, no compromisso que vocês assumiram desde então, coisas absolutamente mais relevantes que o IBOPE. Caso discordem deste pensamento que acabei de expor a vocês nas linhas anteriores, peço perdão de entendê-los como mentirosos no juramento prestado. Se assim o são, desculpem meus caros, mas não estou seguro nem mesmo dentro de minha casa: a mentira e as más intenções chegam a mim de dentro de minha TV. Apesar de tamanha nobreza que o âmbito de vossa profissão incontestavelmente tem, os senhores usam esse poder de forma incoerente, e isso fez com que agora os senhores tenham sangue nas mãos. Por favor, não aumentem ainda mais esta mancha.

Respeitosamente,

Apenas um membro indignado do vosso tão famigerado “público alvo”.

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