Crônicas de um país sem sobrenome

Como dizem por aí, o ano começa depois do carnaval. Enfim, estamos finalmente em 2012, caros leitores, e como vocês sabem, 2012 é ano de… fim de mundo? Quase isso: é ano de eleições! E pior: eleições municipais!

Sou de uma cidade em que as eleições municipais são um circo a parte, recheadíssimo de clichês e estereótipos brasileiros. As coisas por aqui são assim: os abençoados com uma memória mais privilegiada não conseguem passar um só período eleitoral sem dar detalhes de falcatruas, votos fantasmas – no caso de minha cidade isso é literalmente, viu? -, urnas “esquecidas” até a terceira recontagem (sabe aquela coisa de “uia, esquecemos a urna daquele bairro rural”? Tá…). Sinceramente, não acredito em nada que possa ser verídico aqui em minha cidade. Se o negócio sai até no CQC, é porque a coisa tá feia mesmo! Assistam o video abaixo e, depois disso, perguntem qual o número da minha zona eleitoral e ganhe de mim um sorrisinho mais amarelo que nossa seleção de futebol…

Ressentimentos cajamarenses a parte, eu sou indelével a apontar que, de fato, os maiores problemas de sua cidade começam exatamente ali nas urnas, caro leitor. É ali, onde você não faz a menor ideia em quem votar e digita o número do santinho recebido dez minutos antes, que se joga fora a oportunidade de tentar algo diferente, mais limpo e transparente em seu município. Clichê? Lugar comum? Certamente, mas como negar que isso é verdade?

E para isso, elaboramos abaixo um pequeno guia para entender seu candidato, quem ele é, o que ele faz, o que ele quer. Vale pra quaisquer eleições, municipais ou “a mais grandona”. Damos também um adicional de “como você pensa o cara ao longo do ano”. Boa sorte, vamos lá!

Candidato #1: O almofadinha

Você conhece a figura. Ele está sempre engravatado, cabelo escovado e com tanto gel que ofusca o brilho do sol. Ele não imprime santinho, manda “carta ao cidadão”. Seu escritório / set de filmagens sempre tem uma estante com enciclopédias ao fundo, uma poltrona para leitura (sempre tem um take do cara chafurdado num livro, o qual sempre é bem volumoso e você nunca consegue ver o título), além de quadros com diplomas e certificados e, obviamente, porta-retratos dos filhos e netos na mesa. É aquele cara que sempre começa a campanha com discursos ininteligíveis, falando difícil, e que no meio da campanha resolve fazer comícios, sem terno, de mangas arregaçadas, pra mostrar que mesmo mais inteligente que vocês culto, ainda é “gente como a gente”. Seu pensamento sobre ele varia, ao longo do tempo, da seguinte forma:

  • Começo da campanha: “nossa, ele fala difícil, deve ter estudo, é disso que minha gente precisa”
  • Meio da campanha: “que cara chato, não para de me esnobar com esse palavreado complicado…”
  • Fim da campanha, pós comícios-mangas-arregaçadas: “além de inteligente ele é do povo. Ganhou meu voto!”

Por que fugir dele? Simples, meu caro: naquela verborragia parnasiana toda que ele jogou ao longo da campanha, você entendeu alguma proposta? Não, né? Então, o que te sobra como motivo para acreditar nele como alguém que vai melhorar as coisas? De gente inteligente, filho, o inferno está cheio!

Candidato #2: O engraçadão desdentado

Tá bom que o almofadinha é bastante irritante, mas no melhor esquema “comédia da vida privada”, surgem os extremos opostos do cara: os engraçadões com dentes a menos. Aquele cara que não faz a menor ideia do que está se candidatando (lembrou dele, né? Pois é…), despenteia toda a juba e aparece na TV, forçando a barra no “sou pobre merrrrrmo”, chama um tecno-brega de fundo e faz seu carnaval, em alguns casos, com aquelas dançarinas com PhD em vergonha alheia. E você nunca sabe se ele acabou ganhando por voto de protesto ou porque o povo realmente o viu como representante. Seu pensamento sobre o dito cujo:

  • Começo da campanha: “nossa, é cada figura que aparece…”
  • Meio da campanha: “é esse tipo de cara que faz essa merda de programa eleitoral gratuito ter alguma graça…”
  • Fim da campanha: “eu ri com ele, por isso eu só lembro o número dele, e por isso eu voto nele. Pronto!”

Por que fugir dele? Experiências anteriores apontam: assim que o cidadão ganha, você estranha ele de terno, com a barba mais cerrada, cabelos no lugar e uma carinha meio “uau, estou aqui”. Na hora que ele sorri pra uma câmera pela primeira vez, e você percebe que ele consertou os dentes já no primeiro mês de mandato, você já entende: o antes analfabeto pobre agora é um analfabeto rico, que no melhor estilo “Maria-vai-com-as-outras”, assina qualquer papel que aparece na frente. Fatalmente um corrupto ou um laranja a mais no Brasil.

Candidato #3: O hipnótico e apelativo

Normalmente essa vaga é preenchida por mulheres que, sem mostrar absolutamente nada concreto como proposta de trabalho, botam um fio-dental na TV e, com a melhor voz de travesseiro, solta aquele “Vote em mim, Mulher-Pera, número 23456”. Até você perceber que essa voz saiu de uma garganta e não de um útero, você já pensou assim:

  • Começo da campanha: “gostosa!”
  • Meio da campanha: “gos-TOOOOOOOOOO-sa!!!!”
  • Fim da campanha: “Oh madrinha da minha condição social, se eu votar na senhora a senhora vem aqui em casa?”

Por que fugir dele? Porque eleição é pra pensar com a cabeça de cima, não com a de baixo. E se isso não é motivo o suficiente pra não votar na gostosa, pense no seguinte: qual a chance de ela ir na casa de cada um de seus eleitores e, digamos, “retribuir” seu voto?

Candidato #4: O parcial e interesseiro

Normalmente é um bonachão risonho que se alguém conhece antes é por sua fama de polêmico. É o cara que entra lá pra defender algum interesse não público, mas pessoal-coletivo, se é que me entendem: “vou fazer com que o Quinze de Jaú tenha melhores estruturas”, “vou dar um barracão novo pra escola de samba dos Unidos da Vila do Chaves”, e sabidamente, o cara é cartola do Quinze de Jaú e presidente da Unidos da Vila do Chaves, usa isso como bandeira de campanha, não esconde isso de ninguém, e no fim ainda ganha com o voto dos “quinzedejauzenses” e “viladochavenses”!

  • Começo da campanha: “UHUUUULL, QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!!”
  • Meio da campanha: “esse daí pelo menos vai fazer alguma coisa pelo meu QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!”
  • Fim da campanha: “se for pra roubar, que seja pelo meu QUINZE, QUINZE, QUINZE!!!!”

Por que fugir dele? Porque um povo que justifica o interesse privado atuando no gasto das verbas públicas perde o direito de reclamar de qualquer coisa. Ainda mais se o tal “interesse privado” é algo tão paliativo como o futebol. Oh, wait

Candidato #5: O pretensioso

Especialmente nas campanhas municipais como a de 2012, sempre tem esse sujeito. Ele não é ninguém lá muito conhecido, normalmente de um partido pequeno, daqueles com pouca verba eleitoral, que dão 5 segundos pra cada um na TV ou a impressão de mil metades de santinho. Eu entendo, o espaço é pequeno, o tempo é curto, mas quando o cara, que é um candidato a vereador de Xique Xique na Bahia, solta algo do tipo “vote Joãozinho da Serralheria para acabar com a corrupção no Brasil”, eu penso estar na frente do verdadeiro Messias!

  • Começo da campanha: “whatever”
  • Meio da campanha: “whatever”
  • Fim da campanha: “eu acredito em milagres”, ou: “whatever…”

Por que fugir dele? Porque, convenhamos, o Joãozinho da Serralheria de Xique Xique na Bahia não é ninguém nem em Xique Xique na Bahia. Tá, isso não é motivo, mas o fato de nem ele mesmo saber quem é e para que está se candidatando é mais preocupante, concorda?

Candidato #6: O fundamentalista

Assim como o pretensioso, normalmente o fundamentalista também é de um partido pequeno, desses com pouco destaque e que normalmente tem uma sigla religiosa, aqueles PXC, onde P= partido, C= cristão, e X é qualquer coisa. O programa da legenda sempre tem uma musiquinha terna ao fundo, com imagens de livros brilhantes e pombas, e as propostas de governo – quando existem – são sempre relacionadas ao ensinamento da doutrina cristã e, não raro, termina seu discurso com “de acordo com os ensinamentos de Jesus”. Há que se destacar que, não raro, esse cidadão leva uma vida dupla: de dia ele é candidato / pastor, de noite vira desbravador da realidade e alimenta um blog sobre o satanismo do Michel Temer. Enfim, o cidadão comum vê esse cara e pensa assim:

  • Começo da campanha: “é exatamente disso que o Brasil precisa, de mais Deus no coração”
  • Meio da campanha: “esse daí, pelo menos, não vai ter coragem de roubar”
  • Fim da campanha: “nosso futuro está nas mãos de Deus, então, eu voto em quem crê”

Por que fugir dele? Eu, de acordo com meu credo e minhas convicções, até concordo que falta Deus no coração, e toda essa ladainha aí. Só que, por favor, existe um troço que se chama “Estado Laico”, e o Brasil é um deles! Sabe essa sua mania de ver notícias sobre o Mundo Árabe, aquele lance de “se o Alcorão diz pras mulheres usarem burca isso él lei no nosso país”, e achar toda aquela gente muito esquisita? Votando nesse cara, você está fazendo a mesmíssima coisa, caro amigo. Desculpa dizer, mas ou você é um cego, ou um grande hipócrita filho da p… mesmo!

Candidato #7: O do jingle grudento

Dentre todos, esse é o cara com a vida mais fácil, sem dúvida. Basta um amigo músico com criatividade, um estúdio amador e um carro de som, e o cara ganha uma eleição sem sequer sair de casa, fazer comício, apresentar proposta. É aquele cara que, quando depois de um ano você bate o olho na relação de vereadores de sua cidade, você se pergunta “mas quem é ele mesmo?” O número do sujeito cola igual chiclete na sua cabeça, e sem você sequer perceber, seus dedos estão fatalmente condicionados a procurar as teclas do número do cara no dia da urna. Entre nós, alguém duvida que Michel Teló, hoje, ganharia eleição até pra Papa no Vaticano? Mas isso é entre nós, tá? Ninguém conta isso pra ele, please!

  • Começo da campanha: “que música irritante!”
  • Meio da campanha: “porra, eu tô cantarolando essa merda no chuveiro!”
  • Fim da campanha: “porra, eu tô cantarolando essa merda no chuveiro, no ônibus, na academia, no trabalho, no momento do sexo, no…”

Por que fugir dele? É difícil fugir de mensagens quase subliminares como essa. Apenas tente se lembrar que por trás da musiquinha tem um sujeito que, quase sempre, não tem nenhuma proposta de governo na manga pra mostrar a quem pede… Ah, e leve no bolso um canivete na hora da votação: se seu dedo rumar sozinho para as teclas correspondentes ao número do jingle, decepe-o imediatamente!

Candidato #8: O zé ninguém

É o pretensioso, mas sem a parte da pretensão. A única coisa que você sabe sobre ele é que ele é candidato: o cara não faz comício, não imprime santinho, não aparece na TV.

  • Começo da campanha: “quem é ele?”
  • Meio da campanha: “ele deve ter alguma proposta, está muito quieto pro meu gosto…”
  • Fim da campanha: “voto nele só porque ele não quis se aparecer, é humilde…”

Por que fugir dele? Porque, acredite, ele não tem proposta nenhuma. Esse cara se candidatou só pra ter o direito federal de férias justificadas do seu serviço no período oficial de campanha. E quase que o sujeito ainda leva o caneco!

Candidato #9: o pseudo-celebridade

Por algum motivo o sujeito ficou relativamente famoso uns meses atrás. O cara saiu do anonimato em Taquarivaí/SP quando apareceu rapidinho no Datena, pelo circuito interno de seu açougue que flagrou as “incríveis cenas do espancamento de um assaltante”, seguidas de meia dúzia de elogios desse apresentador que eu tanto gosto. Em cidade pequena é assim: se por algum motivo que não envolva sequestro, estupro, latrocínio, corrupção ou estelionato você fez o nome de sua cidade aparecer em rede nacional, você ganha a chave da cidade! Por que não aproveitar os quinze minutos de fama decorrentes e tentar uma candidatura, afinal?

  • Começo da campanha: “legal, o Durvalino do Açougue é um herói taquarivaiense!”
  • Meio da campanha: “o Durvalino do Açougue bate em ladrão, é isso que a nossa Taquarivaí precisa!”
  • Fim da campanha: “em quem eu ia votar mesmo? Ah é, no Durvalino do Açougue…”

Por que fugir dele? Muito simples, caro amigo: nem o Datena vai lembrar mais do Durvalino do Açougue na próxima semana, e se você tentar se lembrar quem era o Durvalino do Açougue antes dos seus quinze minutos de fama, vai finalmente perceber que, na verdade, o Durvalino do Açougue está muito mais para alguém tentando uma carreira honro$a que para um governante idôneo…

Candidato #10: O pau de galinheiro

Basicamente, é o almofadinha tentando a reeleição, depois de “denúncias” de “escândalos” de “superfaturamentos” e lero-lero. O cara ganhou há quatro anos atrás, fez um mandato bem meia boca, está completamente sujo na praça para colegas e também para eleitores. É o cara que mais vai ter que contar com a ajuda deles, os marqueteiros, pra conseguir o que quer: um novo mandato. e normalmente a campanha segue dois viéses principais: a) mostrar todas as incontáááááveis obras que o cara já fez em quatro anos, no melhor estilo “ele rouba mas faz” (e eu sei de quem você lembrou); ou b) ir à tv todo engomado e fazer um discurso emocionado, pedindo uma nova chance, reconhecendo os erros e, principalmente, frisando “as dificuldades da função de gestor público que requerem alguém com experiência como eu” (e eu também sei de quem você lembrou, rs…)

  • Começo da campanha: “não acredito que ele é candidato de novo, que cara de pau!”
  • Meio da campanha: “é, eu não sabia que ele fez tudo isso…”
  • Fim da campanha: “ah, todos roubam, esse daí só é diferente porque a gente ficou sabendo. E ele fez bastante, votei de novo!”

Por que fugir dele? Por vários motivos. Primeiro, o fato de ele ter feito incontáááááveis coisas em seu mandato não é bondade, é obrigação. Segundo, tem uma equipe caríssima atrás dele dizendo exatamente o que ele deve dizer, sentir, exprimir, e você está se enganando direitinho com a estratégia deles. E por fim, vale a máxima: “rouba mas faz” é justificar o roubo. E se você justifica o roubo, perde seu direito de reclamar dele. Simples assim.

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