Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para março, 2012

A alma do negócio

Propaganda é aquilo ali que está no título, e isso todo mundo sabe. Inclusive quem é leitor antigo deste espaço já me viu falar disso por aqui. Agora, junte essa informação com outra: uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade…

Você pode não acreditar nesta última frase, caro amigo. Direito todinho seu. Mas é inegável que por aqui no Brasil, a coisa é mais ou menos assim.

Vejamos… o que você vê em todo lugar é isso:

O que você NÃO se pergunta é isso:

  • Por que os órgãos governamentais brasileiros é, disparadamente, comprovadamente, o maior contratante de publicitários em nosso país, com mais que o dobro de gastos com propaganda que o segundo colocado (ninguém menos que o McDonalds Brasil)?
  • De onde vem o dinheiro para tanta publicidade, justamente de governantes que adoram dizer “não gastar com bobagens”?
  • Por que toda e qualquer placa de obra pública tem sempre o logotipo do órgão governante (prefeitura, Governo do Estado ou Governo Federal), muitas vezes em tamanho maior que as informações passadas?

  • Por que sempre tem uma frase de efeito como “trabalhando por você” nelas? Pra quem mais eles trabalhariam? Por que sempre fazem parecer um favor, o que na verdade é uma obrigação? Quem é o patrão e quem são os empregados nessa porra?

  • Por que tanta propaganda de si mesmo? Por que o governo se auto-promove? Alguém me deu outra opção que não seja viver sob a égide de um governo? Será que existe outra opção, será que eu posso enxergar uma verdade diferente?

Uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade. Uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade. Uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade. Uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade. Uma mentira contada inúmeras vezes torna-se uma verdade. Uma…

Na boa jão? Acho que eu também estaria rindo.

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PS: vocês devem se lembrar de quando mencionei por aqui o trabalho dos caras do Coletivo Garagem Aberta, da cena independente cultural e artística de Jundiaí e região. Pois bem, os caras agora estão chiques demais, estrearam até programa de TV!

Tem coisa mais bacana que ver um projeto que você curte crescendo? Eu não participo do CGA (falta de “dons artísticos”, por assim dizer, sabe?), mas apoio 100% a iniciativa, puta trabalho bacana dos caras. Clique aqui e assista o piloto, vale MUITO a pena!

Aquele abraço moçada, parabéns, ficou SHOW!

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Um cenário otimista para a copa de 2014

Nota inicial: pois bem, caros leitores e internautas sempre atrás de um ponto de vista sobre qualquer coisa, você já deve ter visto por aí inúmeros comentários contra a Copa do Mundo no Brasil. Inclusive aqui, nesse blog que vos fala. Viu também um número reduzido, mas também grande, de comentários e reflexões sobre o porque a copa seria benéfica para o país. Você conhece os argumentos, você já conversou com alguém sobre isso, pessoalmente ou pela internet. Não sabe o que eu já disse antes? Ó o link abaixo:

De minha parte, deixo claro: eu continuo contra a Copa no Brasil. Isso não mudou. Entre prós e contras, eu ainda vejo mais contras. E não é só pelo fato de eu ser o paradoxo ambulante do “brasileiro que odeia futebol”, mas por ser um brasileiro que terá nas obras da Copa um dreno absurdo de dinheiro público, enquanto que, todos sabem, a vida aqui não é das melhores, por assim dizer. E esse argumento, eu também sei, também não é nada novo…

Entre um post e outro, eu conservo a busca por argumentos não ortodoxos para defender meu ponto de vista. Só que agora, eu defenderei (sim leitor, você leu bem: defenderei) os megaeventos no Brasil. Lembre-se: você é convidado a pensar sobre isso, e também convidado a compartilhar seu ponto de vista, ali nos comentários. Boa leitura!

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Essa é para os paulistanos. Amigos, como vocês se sentem hoje ao andar na Avenida Paulista? Conseguem pensar naquele corredor gigantesco e cheio de luzes noturnas como algo simplesmente cultural, romântico, até bucólico? Eu não. A Paulista é, sim, tudo isso, mas especialmente em dias atuais, é também foco inconteste de cenas improváveis numa cidade que se autodenomina tão cosmopolita e avançada como São Paulo. Que o digam os grupos de negros e homossexuais constantemente agredidos nas calçadas históricas da Paulista, ou mesmo todo e qualquer cidadão que, em pleno saguão do Masp, já teve sua carteira batida, sua bolsa arrancada…

Gringos passeando ou gringos apanhando?

Essa São Paulo, da Paulista histórica e simultaneamente assustadora, será um dos principais palcos da Copa de 2014 no Brasil. E pela primeira vez na história da capital, os olhos do mundo não estarão voltados para o Ibirapuera, ou Morumbi, ou Centro. A bola da vez (perdão pelo trocadilho) é Itaquera, hoje de violência urbana inconteste e, especialmente, diversos problemas estruturantes para a sociedade local, como o domínio do crack e o caos nos serviços públicos de saúde, transporte e educação.

Polo turístico. É.

Os efeitos diretos da coisa todo mundo sabe. Violência, assaltos, arrastões. Intolerância. Caos nos metrôs, nos ônibus, nas vias de circulação. Penso, no entanto, que algum rescaldo positivo pode surgir daí.

Pergunto-me: por que o Rio de Janeiro, sabidamente o maior pólo turístico nacional, foi considerado recentemente como o melhor roteiro gay do Brasil? Não que a intolerância e o preconceito não existam por lá, ao contrário, quase sempre ouvimos um caso carioca de agressão sem sentido. Mas não tenho dúvidas ao dizer que, ali no Rio de Janeiro, a convivência com indivíduos de mentalidades diferentes dos pontos mais distantes do globo contribuiu, em muito, para que a cidade maravilhosa fosse símbolo de tolerância à diversidade sexual. Será que não é exatamente isso que a sociedade brasileira de fato precisa? Uma injeção cultural diversificada, uma terapia intensiva, um tratamento de choque contra os preconceitos velados (ou nem tanto), que os megaeventos trarão para o país?

Não me refiro aqui, caro leitor, à coerção psicológica que seria um escândalo internacional caso haja, como suspeitam por aí, uma onda de assaltos e arrastões e ataques sem motivo aparente aos turistas. Me refiro, sim, à percepção de que, naquele caso, é justamente a diversidade de culturas e cores e credos e sexualidade que ativará a tão esperada economia turística da cidade, e ao que tudo indica, o acréscimo em cada carteira de comerciante e dono de hotel no Brasil será bastante considerável. Alô Governo, que tal uma cartilha sobre bons modos com nossos turistas estrangeiros? Que tal repensar aquele “kit gay” tão aplaudido por uns e demonizado por outros? Parece-me, não temos nada a perder.

Não é disso que eu estou falando...

E se, ao contrário, essa “estrangeirice” que tomará conta de nossas cidades tiver efeito contrário ao que pensei? E se, na verdade, o povo se encarregar de rejeitar a injeção cultural que forçadamente será dada em nossa sociedade tão arcaica e aristocrata? Aquela coisa de “gringos safados”, sabe? Não que eu apoie a xenofobia (que evidentemente pode existir com a sobrecarga ainda maior do metrô Itaquera com o embarque dos gringos torcedores), ao contrário, qualquer pensamento deve ser acima de tudo tolerante, mas por que não criar nesse caso um sentimento de nacionalismo e patriotismo que nunca existiu? Se depender do futebol, daquele “patriotismo bissexto” que já falei antes nesse espaço, parece que não será dessa vez que o brasileiro terá “muito orgulho e muito amor”…

Vejo que, durante os megaeventos, se socialmente temos muito a perder com a falta de verbas para obras fundamentais à nação, sociologicamente temos a ganhar. E somente isso. E depois dos megaeventos? Depois, peguemos o nacionalismo aprendido na convivência forçada com os estrangeiros e o empreguemos para tentar um país mais justo e igual, com reivindicações, mobilidade política, reclamação sobre nossos problemas públicos (que a essa altura do campeonato – desculpem o trocadilho, novamente – já devem estar insustentáveis), e finalmente saiamos do estado de inércia tão inerente à nossa sociedade? Se perdemos dinheiro, no caos podemos ganhar pensamento. Por que não? Otimismo demais?

Se é assim que começa, que assim comece.

Sim, caros. Se não temos como ganhar em quatro linhas, se ão temos como ganhar em situação social, temos como ganhar de outras formas. Quem sabe se no fundo do poço não tem mesmo uma mola?

Você aí! Tá feliz?

Saiu mais uma notícia, vinda de pesquisa de “sabe-se lá Deus o que esse órgão faz”, que mede a felicidade média das pessoas ao redor do mundo. E chuta que país lidera a pesquisa? Sim, o Brasil. Pela quarta vez seguida. E a felicidade do brasileiro, de zero a dez, mede 8,6.

Vejamos... eu sou 1/3 feliz, mais 2/7 de sorriso e 1/4 de paixonite aguda, noves fora dá...

Legal, né? Eu fico daqui imaginando como seria uma pesquisa dessas. Um cara qualquer te aborda na rua, e te pergunta se você está feliz. Primeiro que eu nem responderia, mas se fosse pra responder, eu diria o quê? Que não? Vai que o cara é um doido varrido que precisa de atenção e você diz “não”: “ah, eu também não, minha vida é uma merda, minha sogra me odeia, meu emprego é horrível…” – você arriscaria?

Em seguida, o mesmo cara qualquer pergunta: “de zero a dez, quanto é a sua felicidade?” O cara está de roupa social e tem uma bolsa com papéis a tira-colo, aparentemente bem pesada… vai que se eu disser um valor abaixo de nove e meio o cara saca panfletos e uma Bíblia com borda dourada e começa a me pregar a palavra de Deus pra explicar o que falta na minha vida pra minha felicidade ser dez (e eu aturando isso meia hora dentro da fila interminável do ponto do busão)…

Vejamos, caro leitor: alguém perguntou pra você se você está feliz? O que significa um país feliz? Por que o brasileiro está feliz? No dia em que o Neymar dá show e faz três gols, dois de pintura diga-se, vai lá o Messi e faz cinco. Adoradores do Neymar: sinto, mas ele não foi o melhor do mundo naquele dia. Odiadores do Neymar: tudo bem que ele perdeu, mas você já se deu conta que seu argumento é falar bem de um argentino?

Bom dia faces! Vamos estar sendo felizes?

Felicidade? Justo numa semana de caos nos postos de abastecimento? De carros abandonados nas esquinas com o tanque vazio, e gente cobrando CINCO REAIS por um litro nos poucos postos ainda abertos? Só se for a felicidade dos mendigos, já que com cinco reais o litro da gasolina os malucos da rua vão pensar duas vezes antes de comprar um galão e riscar um fósforo.

Felicidade? Justo numa semana de neguinho da Fifa falando merda da gente? Temos uma Copa aí, minha gente, o maior orgulho da nação merece “um chute no traseiro”, senhor Walcke? Só se for a felicidade dos haters de plantão, que acharam no cara aí mais um pseudo-argumento pra criticar “whatever deva ser metralhado” e correr pro Paintbrush fazer suas figurinhas pseudo-políticas para Facebook.

Felicidade? Justo numa semana em que o ECAD resolveu mandar geral nos boletos pra todo mundo que “usa discriminadamente” qualquer coisa do YouTube? Só se for a felicidade dos esqueletos dos generais da Ditadura Militar, rolando em suas tumbas de tanto orgulho dessa nação herdada por seus filhos e netos, muitos deles em Brasília dando um orgulho danado aos avós lá no inferno céu…

Tá feliz com o que mesmo, brasileiro? Ah sim, a pesquisa fala de “felicidade futura”, só pra daqui há 5 anos, eu sei. É o famoso “e a vida vai melhorar”, e eu realmente espero que sim. Vejamos o que nos espera nos próximos cinco anos:

  • Uma copa do mundo. Que, por sinal, vai ser um fiasco. Não, haters, nem é da estrutura brasileira do cacete-a-quatro que eu estou dizendo, é do futebol mesmo. Ou alguém ainda acha que o Brasil leva? Ou alguém ainda acha que o brasileiro estará lá pra ver?
  • Uma olimpíada nem um pouco louvável no Rio de Janeiro. Um show de abertura com todos os estereótipos brasileiros que nós simplesmente a-do-ra-mos, uma organização meia-boca, e um quadro olímpico com resultados brasileiros de dar inveja aos… sei lá, senegaleses?
  • Três eleições, duas municipais como a desse ano (cuidado, já falei dela aqui), e uma pra presidente e outros cargos mais relevantes menos conhecidos. E aquele SHOW de todo ano eleitoral, de candidatos polêmicos que ganharam e brigas em debates eleitorais daqueles que dá vontade de jogar o Serra e a Dilma de maiô num ringue com gel (pensando bem, melhor não…)
  • Uma quantidade incalculável de programas de desgraça e mais desgraça na TV, e você se trancando cada vez mais em casa.

Somos o 88º lugar na educação no mundo. Somos o 73º em serviços de saúde no mundo. Ok, passamos o Reino Unido na economia mundial, agora somos sexto, mas e quanto ao abessurdo-mór-digno-de-revolta-e-travamento-da-marginal-tietê-e-piquete-nas-ruas-do-planalto, de sermos QUINTO no Ranking da FIFA? E ae, tá feliz? Só porque a Argentina é o quadragésimo primeiro país mais feliz do mundo mesmo com o Messi? Tá, a Argentina é só o oitavo na Fifa, mas o Uruguai (sim, URUGUAI) é o quarto. Bem ali, logo acima do Brasil…

A ignorância é uma bênção. Com os cumprimentos do excelentíssimo senhor Aloísio Mercadante, diretamente do Ministério da Educação (aquele mesmo do Enem, lembra?), através das maravilhas da nossa mídia nacional. Admita: você não sabia que o Mercadante era o ministro da educação. Admita: você teve dificuldade de confirmar mentalmente o número de eleições nos próximos cinco anos. Admita: você leu tudo isso aqui e a única coisa que lembrará amanhã é a imagem mental que você fez do Serra e da Dilma de maiô no ringue de gel…

A espontaneidade de um sorriso como o nosso...

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