Crônicas de um país sem sobrenome

Nota inicial: pois bem, caros leitores e internautas sempre atrás de um ponto de vista sobre qualquer coisa, você já deve ter visto por aí inúmeros comentários contra a Copa do Mundo no Brasil. Inclusive aqui, nesse blog que vos fala. Viu também um número reduzido, mas também grande, de comentários e reflexões sobre o porque a copa seria benéfica para o país. Você conhece os argumentos, você já conversou com alguém sobre isso, pessoalmente ou pela internet. Não sabe o que eu já disse antes? Ó o link abaixo:

De minha parte, deixo claro: eu continuo contra a Copa no Brasil. Isso não mudou. Entre prós e contras, eu ainda vejo mais contras. E não é só pelo fato de eu ser o paradoxo ambulante do “brasileiro que odeia futebol”, mas por ser um brasileiro que terá nas obras da Copa um dreno absurdo de dinheiro público, enquanto que, todos sabem, a vida aqui não é das melhores, por assim dizer. E esse argumento, eu também sei, também não é nada novo…

Entre um post e outro, eu conservo a busca por argumentos não ortodoxos para defender meu ponto de vista. Só que agora, eu defenderei (sim leitor, você leu bem: defenderei) os megaeventos no Brasil. Lembre-se: você é convidado a pensar sobre isso, e também convidado a compartilhar seu ponto de vista, ali nos comentários. Boa leitura!

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Essa é para os paulistanos. Amigos, como vocês se sentem hoje ao andar na Avenida Paulista? Conseguem pensar naquele corredor gigantesco e cheio de luzes noturnas como algo simplesmente cultural, romântico, até bucólico? Eu não. A Paulista é, sim, tudo isso, mas especialmente em dias atuais, é também foco inconteste de cenas improváveis numa cidade que se autodenomina tão cosmopolita e avançada como São Paulo. Que o digam os grupos de negros e homossexuais constantemente agredidos nas calçadas históricas da Paulista, ou mesmo todo e qualquer cidadão que, em pleno saguão do Masp, já teve sua carteira batida, sua bolsa arrancada…

Gringos passeando ou gringos apanhando?

Essa São Paulo, da Paulista histórica e simultaneamente assustadora, será um dos principais palcos da Copa de 2014 no Brasil. E pela primeira vez na história da capital, os olhos do mundo não estarão voltados para o Ibirapuera, ou Morumbi, ou Centro. A bola da vez (perdão pelo trocadilho) é Itaquera, hoje de violência urbana inconteste e, especialmente, diversos problemas estruturantes para a sociedade local, como o domínio do crack e o caos nos serviços públicos de saúde, transporte e educação.

Polo turístico. É.

Os efeitos diretos da coisa todo mundo sabe. Violência, assaltos, arrastões. Intolerância. Caos nos metrôs, nos ônibus, nas vias de circulação. Penso, no entanto, que algum rescaldo positivo pode surgir daí.

Pergunto-me: por que o Rio de Janeiro, sabidamente o maior pólo turístico nacional, foi considerado recentemente como o melhor roteiro gay do Brasil? Não que a intolerância e o preconceito não existam por lá, ao contrário, quase sempre ouvimos um caso carioca de agressão sem sentido. Mas não tenho dúvidas ao dizer que, ali no Rio de Janeiro, a convivência com indivíduos de mentalidades diferentes dos pontos mais distantes do globo contribuiu, em muito, para que a cidade maravilhosa fosse símbolo de tolerância à diversidade sexual. Será que não é exatamente isso que a sociedade brasileira de fato precisa? Uma injeção cultural diversificada, uma terapia intensiva, um tratamento de choque contra os preconceitos velados (ou nem tanto), que os megaeventos trarão para o país?

Não me refiro aqui, caro leitor, à coerção psicológica que seria um escândalo internacional caso haja, como suspeitam por aí, uma onda de assaltos e arrastões e ataques sem motivo aparente aos turistas. Me refiro, sim, à percepção de que, naquele caso, é justamente a diversidade de culturas e cores e credos e sexualidade que ativará a tão esperada economia turística da cidade, e ao que tudo indica, o acréscimo em cada carteira de comerciante e dono de hotel no Brasil será bastante considerável. Alô Governo, que tal uma cartilha sobre bons modos com nossos turistas estrangeiros? Que tal repensar aquele “kit gay” tão aplaudido por uns e demonizado por outros? Parece-me, não temos nada a perder.

Não é disso que eu estou falando...

E se, ao contrário, essa “estrangeirice” que tomará conta de nossas cidades tiver efeito contrário ao que pensei? E se, na verdade, o povo se encarregar de rejeitar a injeção cultural que forçadamente será dada em nossa sociedade tão arcaica e aristocrata? Aquela coisa de “gringos safados”, sabe? Não que eu apoie a xenofobia (que evidentemente pode existir com a sobrecarga ainda maior do metrô Itaquera com o embarque dos gringos torcedores), ao contrário, qualquer pensamento deve ser acima de tudo tolerante, mas por que não criar nesse caso um sentimento de nacionalismo e patriotismo que nunca existiu? Se depender do futebol, daquele “patriotismo bissexto” que já falei antes nesse espaço, parece que não será dessa vez que o brasileiro terá “muito orgulho e muito amor”…

Vejo que, durante os megaeventos, se socialmente temos muito a perder com a falta de verbas para obras fundamentais à nação, sociologicamente temos a ganhar. E somente isso. E depois dos megaeventos? Depois, peguemos o nacionalismo aprendido na convivência forçada com os estrangeiros e o empreguemos para tentar um país mais justo e igual, com reivindicações, mobilidade política, reclamação sobre nossos problemas públicos (que a essa altura do campeonato – desculpem o trocadilho, novamente – já devem estar insustentáveis), e finalmente saiamos do estado de inércia tão inerente à nossa sociedade? Se perdemos dinheiro, no caos podemos ganhar pensamento. Por que não? Otimismo demais?

Se é assim que começa, que assim comece.

Sim, caros. Se não temos como ganhar em quatro linhas, se ão temos como ganhar em situação social, temos como ganhar de outras formas. Quem sabe se no fundo do poço não tem mesmo uma mola?

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