Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para abril, 2012

12 perguntas para entender as cotas raciais

Boa tarde, queridos leitores!

Vocês devem ter acompanhado na semana passada a decisão por unanimidade do STF, de julgar a constitucionalidade da política de cotas raciais promovidas por algumas instituições de ensino no Brasil, discussão que um DEM-terminado partido político havia levantado e pedido para votação. Obviamente, como não podia deixar de ser, isto gerou burburinhos a mil em todos os lugares, de colunistas e cientistas respeitados, outros nem tão respeitados, outros que eu nem sei quem são, além daqueles que eu não faço a menor questão de saber, e claro, os colunistas anônimos do Facebook, sempre.

Seguindo mais uma edição de nossa já tradicional coluna “12 perguntas para entender”, o assunto de hoje é esse: a política de cota raciais. Não conhece a coluna? Olha aí embaixo, relacionamos todas as edições anteriores:

Num trabalho absolutamente árduo de nossos afoitos leitores, que encheram nossas caixas de mail com perguntas mais variadas a respeito deste polêmico tema, selecionamos as doze perguntas mais pertinentes e, assim, tentamos responder a todos. Caso sua dúvida não tenha sido esclarecida, escreva-nos, teremos satisfação em responder (provavelmente porque você será o único dentre nossos quase 10 leitores que o farão, rs…). Bora lá:

1 – O que são cotas?

Em conceito, um sistema de cotas é aquele que trata com diferença determinados candidatos a uma vaga num concurso, público ou privado, de acordo com algum critério que o trata como pertencente a uma margem de maior exclusão social. Esta diferenciação, normalmente positiva para este grupo em específico, pode ser com reserva rígida de vagas para pessoas nestas condições, ou com benefícios de pontuação quando do processo seletivo. Isso não é novo, e está inclusive na Constituição Brasileira de 1988, saca só:

  • “A lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão” (Constituição Brasileira de 1988)

Antes que alguém me julgue como um “Bolsonaro-Cover” (se você viveu os últimos meses em Saturno e não sabe quem é esse cara, clique aqui) por definir raça como “deficiência”, vamos explicar de fato as coisas.  No caso em específico das cotas raciais discutidas pelo STF na semana passada, a discussão gira em torno de beneficiar, nos processos seletivos das universidades federais, candidatos de etnias tradicionalmente menos favorecidas, como é o caso dos negros e índios no Brasil. E se você ainda não entendeu o que eu quero dizer com “deficiência”, passe a próxima pergunta.

2 – O que é racismo?

O racismo é essa linha de pensamento de uma pessoa ou de um determinado grupo de, por sua raça pré-definida por sua carga genética e que causa aspectos físicos bastante diferenciados nos seres humanos, considerar-se superior aos indivíduos da mesma espécie (no caso, o homo sapiens) por pertencer a uma raça diferente. Sim, assim como os cachorros ou gatos, somos todos da mesma espécie mas de raças diferentes. Agora, pergunte a um fila brasileiro se ele despreza ou se se sente superior ou inferior a um poodle…

Vale lembrar que, em muitos casos, e o Brasil é um deles, a diferenciação de tratamento e oportunidades sociais para raças diferentes já foi algo além de um mero pensamento individual estapafúrdio como esse, e já foi, em inúmeros casos na história, justificativa para que tais diferenças fossem institucionalizadas por lei. A lei previa que o negro trazido ao Brasil era inferior ao branco, e por isso deveria ser escravizado, tratado como “ser” inferior, sem direitos civis, sem reconhecimento de posses, essas coisas todas.

Apesar da Lei Áurea ter sido assinada do dia pra noite, em 1888, sabemos que uma cultura não se muda no mesmo ritmo. E embora a lei e a Constituição Brasileira de 1988 prevejam direitos iguais para todos os brasileiros sem exceções ou diferenciações de raça e credo, sabemos que na prática a coisa não funciona exatamente assim. Na sociedade, o negro ainda é tratado como cidadão de segunda classe, se não das formas mais implícitas, basta apreciar as diversas pesquisas que saem todos os dias por aí, mostrando que um branco com a mesma qualificação e no mesmo cargo que um negro recebe um salário significativamente maior.

Desculpem, caros leitores, revirei toda a net atrás de uma pesquisa dessas e incrivelmente não achei. Devo estar digitando algum termo de busca absolutamente esdrúxulo. Deve ser o frio…

3 – E a universidade nisso?

Pra quem não sabe, a universidade é talvez o foco mais significativo do que é de fato o negro ser cidadão de segunda classe no Brasil. Apenas 2% dos alunos, professores e pesquisadores são negros, num país em que 60% da população encontra-se entre negros e “pardos”. Compare, amigo, isso não é uma pequena discrepância, falamos de 60% de pessoas no Brasil que correspondem a apenas 2% de vagas nas universidades, algo está errado, não?

4 – Existe algum “plano maior” depois das cotas raciais, imagino… não?

Opa, e como existe! Entende-se que jogando dentro da universidade, um duplo efeito a longo prazo poderá ser sentido. O primeiro deles, e o mais óbvio, é o de aumentar o número de negros e índios com diploma superior no Brasil, e dessa forma inseri-los mais enfaticamente no mercado de trabalho qualificado. Culturalmente, entende-se que com um maior número de negros nas funções mais básicas da sociedade (atendimento médico, professores, engenheiros, etc), o cidadão terá maior facilidade em aceitar, dentro de si, que o negro tem, sim, capacidade semelhante a um branco nas mesmas competências.

O segundo efeito, menos óbvio mas tão importante quanto, é o de inserir mais cabeças negras e índias na elite pensante brasileira, das universidades brasileiras, correspondente a apenas 2% da população como um todo. Isso, claro, ajudará o Brasil a entender melhor todos os lados de um mesmo problema social, e quem sabe não ajuda, inclusive, na obtenção de sua identidade

Lembrando, sempre: isso nunca foi tentado no Brasil, e tudo o que se colocou aqui são apenas teorias. Pode ser que nunca dê certo, mas como saber se nunca tentamos?

5 – Mas se racismo é tratar diferente um cidadão por sua raça, as cotas raciais nas universidades não são um tipo de racismo?

BINGO! Você acabou de sacar qual o maior argumento dos contra-racismo! É fato que este pensamento faz todo o sentido, mas ele se perde caso não se faça outra pergunta em seguida: um racismo pode ser usado para combater o outro? Vai lá, pergunte!

6 – Ahn… um racismo pode ser usado para combater o outro?

Que pergunta inteligente! Vamos pensar a respeito… se a ideia original é combater as diferenças, combater as formas arcaicas de pensar tão arraigadas em nossa cultura, um plano que destaque pessoas em detrimento de outras usando como critério a raça delas é tão racismo quanto qualquer outro, e não é porque as políticas anteriores eram negativas e esta é positiva para este determinado grupo que isso não deixa de ser racismo.

Por outro lado, há uma questão muito importante a ser pensada também: as medidas não racistas para combate ao racismo surtiram efeito? A Lei Áurea não, simplesmente despejou um monte de negros pobres nas ruas, concretizando o negro como raça inferior não mais como imposição legal, mas como condição social. A criminalização do racismo também não surte efeito algum: acusações de crimes raciais estendem-se por anos e anos a fio nos corredores da justiça, para caducar em pouco tempo e, quando isso não acontece, as penas são ínfimas ao racista infrator, e servem apenas para aumentar o ódio racial de grupos extremistas. Alguma ação não-racista deu certo?

É a famosa história, caro leitor. Pedir por atitudes não racistas para consertar o racismo é entender que este, o racismo, não existe mais no Brasil. E não existe mesmo, ao menos nos termos “legais”. Mas nos “sociais”, ora, aí a coisa é diferente. E até onde se saiba, os termos legais devem ser feitos de acordo com as demandas da sociedade, e não o contrário. Portanto, neste caso, uma medida “racista” como a discriminação de cotas raciais é aceitável, o “um racismo para combater o outro” para mudar ao longo prazo toda uma cultura de desigualdade racial, parece aceitável e justo.

7 – Cultura?

Sim, cultura. O racismo está arraigado na cultura nacional em todos os níveis, talvez pelo fato de que a porção negra do Brasil é quase que perfeitamente coincidente com a porção pobre, mas claro que o fator ideológico da escravidão ainda é bastante presente. 130 anos é pouquíssimo tempo para mudar uma cultura, acredite.

8 – Mas como confiar num profissional, independente de sua raça, que teve sua vaga na universidade por benefícios concedidos?

Parabéns, caro leitor, você conseguiu, com palavras diferentes e mais leves, a mesma máxima batida que anda se escutando por aí, a do “não passarei por médico negro, perguntarei a raça do doutor antes de marcar a consulta”.

Quem já passou numa universidade sabe muito bem que sair dela é mais difícil do que entrar, ou seja, mesmo que o cidadão tenha se beneficiado do programa de cotas para seu ingresso na universidade, é mérito total dele, assim como de qualquer outro profissional, a obtenção do diploma de ensino superior. Vá para a faculdade, amigo, a coisa não é tão simples como parece. Além do mais, tem vários estudos por aí que mostram exatamente isso, que o aluno beneficiado por um ou outro projeto de inclusão social não tem desempenho diferente dos demais em seus cursos, e em muitos casos, talvez por entender a chance que tiveram se não fossem tais projetos, são ainda alunos exemplares, dentre os primeiros de suas turmas.

Em suma: enquanto não houver cota de diploma para universitários negros, fique tranquilo, caro leitor: seu médico negro é tão ou mais capacitado que qualquer outro médico branco, ok?

9 – Esse sistema é falho? Existem casos de oportunistas que burlaram o sistema para se beneficiar injustamente das cotas raciais no Brasil?

Infelizmente sim, e justamente porque o assunto é sempre tão polêmico que a repercussão da mídia quando isso acontece é avassaladora. O caso mais famoso é o dos gêmeos Alan e Alex aí embaixo, de Brasília, que se inscreveram no vestibular da UnB. Um foi considerado negro, o outro branco. Com notas muito semelhantes n processo seletivo, o “gêmeo negro” garantiu sua vaga, enquanto o “gêmeo branco” não.

Foto artística com cara de indignação a uma atitude do governo. Adivinhe: qual revista estampou esta foto em sua capa?

Casos como estes levantam uma questão fundamental: o que é ser negro no Brasil, numa população tão miscigenada como a nossa? Você consideraria Alan e Alex como bancos ou negros? Solução 1: uma comissão avaliadora, solução 2: auto-consideração do candidato. Problema 1: tem racismo pior que alguém te caracterizar como branco ou negro? Problema 2: eu posso me declarar negro e me aproveitar da situação.

Um salve pra todos os meus irmãos negros como eu aí, se eu consegui minha vaga vocês também podem, se liga na universidade irmão! Paz!

Isso sem contar os já numerosos casos de estudantes que botam a boca no trombone na mídia sensacionalista quando obtém índice mínimo para ingresso na universidade e são privados por um cotista que obteve a vaga antes. É revoltante? Claro que é. Gera racismo? Talvez, pra essa pessoa e pras pessoas que acompanham essas mídias sensacionalistas, que sempre dão o microfone ao candidato privado de sua vaga mas nunca fazem uma simples pergunta básica:

"Mas você JURA que leu TODO o manual do vestibulando?"

10 – E qual seria, então, uma solução mais adequada?

Bom, o senso comum anda dizendo por aí que a solução seria a cota para pobres, ao invés de cotas para negros. Que isso seria, ao mesmo tempo, a solução para a redução do racismo e também da desigualdade racial. Até um dos ministros do STF disse isso na sessão de constitucionalização das leis de cotas. Fato é que talvez eles estejam certos. Assim como as cotas raciais, algumas universidades entram com cotas para alunos de escolas públicas, e com resultados tão satisfatórios quanto. A questão é: uma coisa exclui a outra? Cotas para negros restringe as cotas para os pobres?

E tem mais. Levando-se em conta a grande relação que a Lei Áurea trouxo para o país, de fixar negros como historicamente pobres no Brasil, as medidas de cotas raciais não seriam elas também uma forma de combate à desigualdade? Afinal, eu até conheço muitos brancos pobres, mas quantos negros ricos você conhece?

Eu concordo com todos os que dizem, também, que a inclusão na universidade deve ser também dada pelo critério da classe social, mas não vejo onde uma coisa exclui a outra, ao contrário, acho até que elas se coincidem: releia os “erros” do projeto de cotas descritos na questão anterior. Com ambos os projetos juntos, talvez os dois gêmeos estivessem agora na universidade, não?

E por fim, eu obviamente concordo com todos os que apontam que a justiça só será de fato feita quando todos receberem a mesma preparação para o vestibular, e isso implicaria fatalmente na reforma educacional no Brasil. Parece algo a longo prazo, e que precisa ser feito, mas o racismo é algo que precisa ser corrigido o mais breve possível: a sociedade espera?

11 – Então por que ninguém reforma a educação no Brasil?

Olha, amigo, estou aqui me fazendo essa pergunta há anos, e posso dar a você as mais diversas respostas que já pensei a respeito. A mais rápida a se entender agora é: estipular cotas pode ser feito em quatro anos, reformar a educação e fazê-la de forma qualitativa não.

12 – As cotas vão resolver os problemas raciais no Brasil?

Infelizmente, as políticas de cotas raciais por si só não fazem sentido algum. Como dito, esse é um projeto que pretende mudar culturalmente a sociedade, e que portanto não pode ser feito de forma sozinha e alienada. Após a inclusão de negros e índios nas elites pensantes nacionais, cabe ao poder privado entender, posteriormente, o valor desses novos profissionais, e assim dá-los as mesmas chances que aos demais não cotistas. Não cabe só ao governo erradicar o racismo, mas aos poucos a coisa engatilha. Creio que as polêmicas pontuais causadas pelo regime de cotas raciais serão brevemente esquecidas quando a sociedade enxergar o bem maior que isso pode causar. Diferentemente da maior parte da opinião pública e da mídia sensacionalista, eu torço para que a coisa dê certo, enfim.

A herança maldita dos governos militares, ou: as paranoias de mamãe

Uma curiosidade aos leitores do BdQ. Minha mãe é leitora deste espaço, e certamente uma das leitoras mais interessadas que eu tenho por aqui. Só que, por ser de uma geração diferente da nossa, depende de mim para que eu mostre, na tela do PC, os textos que vez em quando publico por aqui. Você deve conhecer algumas dessas pessoas, que não sabem e nem vêem necessidade de aprender a usar o computador. É normal, cresceram sem isso, conseguiram administrar super bem a própria vida sem um teclado em mãos. Enfim, as vezes pego meu notebook, boto no colo de mamãe, e espero pacientemente que ela leia as coisas que escrevo. E sempre acho graça quando, ao invés de elogios ou críticas de minha leitora mais importante, recebo aquele “filho, você tem certeza que ninguém vai arrumar confusão com você por isso aí que você escreveu? Internet é pública, hein?” Eu rio, faço chacota. Ela insiste, eu me irrito. Mamãe é linda. Faz tempo que não mostro meus textos a ela…

Mamãe é meu maior exemplo de como o brasileiro ainda não sabe lidar direito com uma liberdade que, acredita, já tem. Embora não tenha crescido em uma cidade onde as terríveis ações da Ditadura Militar Brasileira tenha mostrado atos pungentes, mamãe vivenciou a coisa toda. Volta e meia, em nossas “conversas sobre tudo”, mamãe sempre frisa: naquela época, não se podia dizer tudo. Não se podia fazer tudo. Compreendo que mamãe tenha vivido em épocas certamente mais difíceis, e que talvez por isso ainda fique tão cismada com os dizeres deste humilde blogueiro neste canto ainda desconhecido da internet. Mas penso: até onde vai a razão de mamãe? A repressão praticada pela Ditadura Militar Brasileira está mesmo num passado tão distante?

Que brasileiro tem memória curta, caro leitor, isso todo mundo sabe. O Ricardo foi brilhante quando passou por aqui falando sobre isso. É o tipo de coisa que nos faz entender certos fenômenos como “fantasmas de uma época obscura”, mas que na verdade nunca acabou. As coisas não mudam tão rapidamente como se pensa. Eu, que nem tenho 30 anos, nasci no auge do governo do General João Baptista Figueiredo, último integrante da “linhagem” dos militares no poder. Nossa democracia recente, de longe o período democrático mais comprido da história do Brasil, não é e nem poderia ser democrática no sentido mais amplo da palavra, como a geração Y de hoje pensa ser, enxergando seus pais como “quadrados e antiquados” quando na verdade eles sentem a mudança mais lentamente, gradual e não concluída, mais da forma como ela realmente é. Ou alguém consegue ver democracia no massacre de Eldorado dos Carajás? Ou no massacre do Carandiru?

Ou alguém consegue ver democracia na recentíssima aliança entre Brasil, Índia e Paquistão (dois grandes exemplos conhecidíssimos de democracia mundial, só que ao contrário) para impedir a aprovação imediata de um plano de ação da ONU, cujo objetivo é tentar reduzir o assassinato de jornalistas no mundo, além de combater a impunidade quando muitos desses crimes são cometidos? Tipo, quem fala tem que morrer, e impunemente? A proteção à liberdade de expressão fica pra depois? Muita “faxina” pode ainda ser feita em um ano?

Ou alguém consegue ver democracia no IR? Corre, amigo, esta é a última semana pra você declarar detalhadamente seus bens e pagar por seus rendimentos! E presta atenção no “detalhadamente”, se não vem malha fina por aí! E pra que? O SUS melhora? Ah, sim, existe um imposto só para o SUS, no mesmo esquema “pagou sai ileso, não pagou tá preso”. Mas se você não pagar a parte um plano de saúde, o próprio SUS te mata por definhamento. E tudo isso te fazendo pensar que seu dinheiro está sendo bem empregado. Democrático, não?

Ou alguém consegue ver democracia nas ações altamente duvidosas de órgãos que, em teoria, deveriam defender a população, como a Polícia Militar brasileira? Bate primeiro e depois pergunta. Isso se você tiver a sorte de perguntar. Forma milícias em morros “pacificados”, trocando de comando. Não gostou, vai chamar quem, a Polícia Militar? Calma aí, a polícia é “Militar”? Ah, tá.

Ou alguém tem alguma dúvida de que a própria cabeça do brasileiro ainda é da Ditadura Militar, quando se vê pessoas censurando manifestações alheias, aquela história do “dane-se a passeata, esses vagabundos não me deixam passar”? Até a internet, símbolo máximo da liberdade de expressão, tem agora seus “censuradores anônimos”, gente que num dia publica mensagens clamando por liberdade e “lutando” por seus direitos, e no outro quer te impor sua crença, sua opinião, seu time de futebol, praticando uma “auto-ditadura” para com os demais. Amigos, a democracia que hoje temos (ou não) é fruto de muito sangue recente brasileiro, não sejamos nós mesmos a esquecer disso, ok?

Respondendo a pergunta frequente de mamãe: não acho que criarei confusões com “gente grande” apenas escrevendo nesse espaço não tão influente no ideário popular. Com que grau de certeza eu posso dizer isso? Certamente não é 100%, nunca foi – e eu prevejo uma felicidade irônica nos olhos de mamãe quando ela ler esse trecho (ela é linda!). Mas um pouco de lucidez no meio dessa “confusão proposital” praticada diariamente com cada um de nós no Brasil, que bota uma cordinha invisível todos os dias em nossos braços, pernas, mãos e pescoço, me parece sensato. Enquanto ninguém me bater, estaremos aí. Isso é democracia – ou não: com essa educação emburrecedora de hoje em dia, vai que nesse exato momento estou eu também moldando seus pensamentos…

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Atualização da noite: o BdQ é um espaço que meia dúzia de pessoas criou na net, para compartilhar pensamentos acerca desse nosso amado país, e isso todo mundo sabe. É claro que este espaço é completamente aberto a todos, conhecidos ou não, mas tem coisa mais legal que o incentivo e a a contribuição espontânea dos amigos? Tipo de coisa que faz a gente continuar, sabe?

A imagem e a mensagem abaixo veio de uma pessoa bastante especial e querida pra mim, daquelas pessoas diferenciadas, sabe? Me refiro ao Vitor Zarantonelo, ex-aluno e hoje amigo, e quem sabe (eu torço pra isso e ele também) um futuro autor do BdQ. Ele leu meu texto, achou isso na internet, e achou que tinha tudo a ver. E sabe o melhor? Eu concordo!

Segue abaixo imagem e mensagem relacionada à imagem, extraída do Facebook. E parafraseando o garotão: foooorte abraço Vitor (sempre quis te dizer isso, rs…), valeu mesmo, de verdade!!

 ♦ “Sabe o que me incomoda? Essas pessoas que pensam que você é arrogante ou está querendo aparecer quando coloca em uma rede social um pensamento elaborado, seja ele seu ou não. Até parece que você não pode colocar nada com uma pegada mais cultural, seja uma passagem de um livro que você goste, um pensamento de um filósofo, ou uma crítica feita por você mesmo acerca da sociedade, literatura ou atualidades. Parece que só se pode postar coisas descompromissadas, tirinhas de memes e fotos do seu fim de semana na praia. Percebam que eu não estou dizendo que essas coisas que são postadas rotineiramente são irrelevantes, claro que não, as redes sociais são ótimas pra gente rir de bobagens e eu até vejo importância nisso, não se pode exigir um ambiente totalmente cultural e politizado, aliás, acho que esse tipo de ambiente seria no fim das contas um pouco chato. A questão é que eu me preocupo de verdade quando vejo essa censura sobre as pessoas que tentam mostrar algo “diferente” dentro de uma rede social. Simplesmente não te levam a sério quando você posta alguma coisa que fuja desse padrão de memes e piadinhas, aliás, é bem provável que você seja taxado de “pseudo-intelectual” pelos seus amigos ao tentar fugir desse padrão. Qual o resultado disso tudo? Você só se sente seguro pra postar alguma coisa mais elaborada por meio de compartilhamentos, e daí dia após dia a gente vai se anulando cada vez mais, virando refém de alguém que tem atitude pra mostrar o que pensa sem se preocupar com os rótulos que os internautas impõem. Não tenham vergonha de mostrarem o que vocês pensam, não tenham medo de serem quem vocês são. Tenham receio de acabarem sendo calados por essa “ditadura” boba e fútil!” – IronicoDepre ♦

Crônica: bom dia, esquizofrenia

8:00 – Um programa culinário. Em meio a comentários fúteis e um boneco de papagaio estridente, receitas. Receitas, muitas receitas. Tudo com muito açúcar. Hummmm…. de novo: hummmmmm….

10:30 – Propaganda de cerveja. Amigos num bar, meninas, sorrisos, paquera. Muita gente bonita, até o garçom. Tudo regado à cerveja. Muita cerveja.

13:00 – Programa esportivo no self-service de sempre. Futebol é o tema. Jogador por jogador, sua rotina, sua vida, seus pais, seus filhos, seus sonhos, sua alimentação. Nada de açúcar.

14:00 – Jornal na TV do corredor. O IBGE alerta: o Brasil nunca foi tão obeso. A alimentação do brasileiro é desequilibrada. Muito carboidrato. Muito açúcar. Palavra do nutricionista: cortem o açúcar. Atrasos nas obras da Copa. Escândalos, lavagem de dinheiro.

16:15 – Comercial de carro no rádio do carro enquanto se encara o trânsito da volta pra casa. O carro mais moderno do Brasil. Incrível capacidade do porta-malas. Não perca, é só esse final de semana.

18:00 – Jornal do rádio. Ainda. Recordes de trânsito batidos na capital. Média de quatro horas pra se chegar em casa, principais vias de tráfego totalmente paradas. Palavra do comentarista de qualquer coisa: o brasileiro compra carro demais, e o transporte público é uma merda. Atrasos e lavagem de dinheiro nas obras da Copa. O comentarista de qualquer coisa: o brasileiro leva o futebol a sério demais.

19:30 – Comercial da novela. A única cerveja que não empapuça, uma cadeira pra gatinha e um brinde com colarinho. Sua cinturinha está grande? Conheça o incrível redutor de medidas, que vem com guia nutricional para garantir aquela forma no verão.

20:30 – Programa de entretenimento. Petição para maior rigidez da Lei Seca. Denúncia no transporte público. Patrocínio: marca de cerveja, no boteco. Se beber não dirija, pegue o transporte público. Conheça o incrível automóvel recém-chegado ao Brasil.

22:30 – Futebol. Confira lance a lance cada jogo da rodada, com 15 replays de cada gol. Patrocínio: marca de cerveja no boteco com gente tão bonita, mas tão bonita, que nem parece que usa o transporte público. E montadora de automóvel, claro.

0:00 – Jornal da meia noite. Caos no trânsito. Atrasos nas obras da Copa: o brasileiro leva o futebol muito a sério. O brasileiro está comendo demais. Faça uma receita refrescante de torta de chocolate para agradar as crianças. Confira lance a lance as partidas da rodada.

0:30 – Cama. Amanhã tem trânsito de novo. Lá fora, o som dos botecos abertos e o silêncio dos ônibus que já não passam. Nota mental: acordar tentando entender os próprios sonhos.

E a realidade, é pra entender?

Bora pra laje, ou: breve análise dos feriados do calendário brasileiro

Certas coisas, caros amigos, se conservam em todo e qualquer feriado: o mega-trânsito, as praias lotadas e sujas, os churrascos na laje, os acidentes provocados pelos bêbados, a preguiça da segunda feira. A alegria é saber que, em breve, mais feriados virão.

Atire a primeira pedra quem nunca disse a si mesmo, naquela bravíssima segundona pós-feriado prolongado: “mais uma semana, e essa é semana cheia ainda”. Hein? Semana cheia? O normal é termos semanas mais curtas? Quase que sim, aliás, o Brasil é o país com mais feriados nacionais no mundo todo!

Hoje é Sexta Feira Santa, ou Sexta Feira da Paixão para alguns. Em teoria, comemora-se a morte (hein?) de Cristo; na prática, come-se bacalhau. E o motivo de todo mundo comer bacalhau (para alegria de nossos amigos de peixarias) é simplesmente este: minha mãe sempre fez, minha avó fazia. Só isso. Significado? Pra que? É feriado!

E é por isso que, em mais um serviço de utilidade pública, vamos tentar aqui no BdQ resgatar algumas tradições dos feriados nacionais. Ok, é legal estar descansando, eu também adoro. Mas entender pelo menos um pouquinho sobre o por que estar descansando não faz mal a ninguém. Vamos lá:

1 – páscoa

Em teoria, a páscoa é a representação da ressurreição de Cristo. Na prática, é uma data pra se comer chocolate igual doido, pra alegria dos comerciantes e, em seguida, do Oscar Schmidt. Saca só:

Bumeranguista?

Fatos interessantes sobre a páscoa:

  1. Sempre tem aquela tia que, no meio do churrasco ou do jantar de família, pede a todos que rezem um terço com ela, pra lembrar a ressurreição de Cristo. Você nunca sabe se gosta dela por tentar respeitar uma tradição, ou se a odeia por atrasar o jantar com o resto do bacalhau da Sexta feira Santa.
  2. Jesus ressuscitou num feriado de Páscoa, sabia? A Páscoa é mais antiga que Jesus, na época do Big JC, era uma celebração judaica que tinha como ponto alto a crucifixão de infratores. Tá ligado o tal do Barrabás? O resto da história, você já sabe.
  3. Além disso, claro, a Páscoa é um desperdício de feriado: cai sempre no domingo. Pow Cristo, podia esperar mais um ou dois dias pra voltar?

2 – corpus christi

A celebração do corpo e sangue de Jesus. Sim leitor, é isso mesmo, um feriado que celebra o corpo e o sangue de Jesus. Você não sabia, né? Nem eu. Valeu Wikipedia!

Fatos interessantes sobre o Corpus Christi:

  1. Nem é uma das festas católicas mais importantes do calendário cristão, mas é feriado no Brasil. Alguém aí se lembra de nossa discussão sobre o estado laico? Pois é…
  2. Quinta feira é dia de futebol na TV (qual dia que não é?). E pra desespero de meu pai, houve um dia que o Parmêra dele perdeu no Corpus Christi, e o Brasil inteiro chamou o feriado, naquele ano, de “Porcos Tristes”. Adoro a capacidade do brasileiro de criar trocadilhos, mesmo com as coisas mais sacras.
  3. Em geral, eu gosto do Corpus Christi: sempre cai numa quinta. Aquele chefe malandrão enforca a sexta e, YES, vamos pra praia!

Procissão de Corpus Christi. Isso é fé, manja?

3 – Sete de setembro

Celebra-se, tradicionalmente, o dia da independência do Brasil da coroa portuguesa. Em outras palavras, e pra resumir de forma grotesca pra caramba, foi num 7 de setembro que, nada mais nada menos, o Brasil virou Brasil! Só isso, pouco né? Eu já analisei o 7 de setembro aqui no BdQ, caso tenha curiosidade, tenha a bondade: clique aqui.

Fatos interessantes sobre o 7 de Setembro:

  1. A maioria das pessoas não chama mais o 7 de Setembro de Dia da Independência. O novo nome é este: 7 de Setembro. Expressivo, né?
  2. Na minha época de infante, o 7 de Setembro era sempre marcado por um desfile cívico, de alunos engomadinhos cantando o hino nacional nas ruas e a fanfarra municipal tocando ao fundo, com instrumentistas espinhentos e porta-bandeiras gostosas. Você ainda pode ver estes desfiles, mas hoje é só pela TV, com a presença da Dilma Roussef no camarote e a ilustre (?) presença da Esquadrilha da Fumaça.
  3. Deviam chamar o 7 de Setembro de “Dia da Esquadrilha da Fumaça”: você os vê nos céus em algum outro dia do ano? Nem eu…

"Dia do Aquecimento Global" também é um bom novo nome para o 7 de Setembro.

4 – doze de outubro

Eu demorei vários anos pra entender por que, afinal, o dia das crianças era feriado. Eu até me achava importante, até o dia que meus pais resolveram ir pra Aparecida do Norte num 12 de outubro. Aí sim, eu entendi tudo.

Fatos interessantes sobre o 12 de outubro:

  1. Eu recomendo fortemente, caro leitor, mesmo que você não seja católico devoto: em algum 12 de outubro, chegue em Aparecida do Norte as cinco da manhã e observe o movimento. Os ônibus param ao lado da catedral, os fiéis descem. Os ônibus saem para os estacionamentos, os fiéis desviam e se rumam para a famosa passarela, direção ao centro comercial de Aparecida do Norte!
  2. Não. Aparentemente não há relação alguma entre o 12 de outubro ser, ao mesmo tempo, dia das crianças e dai da padroeira do Brasil. Parece ser um dos pouquíssimos casos de feriado nacional economicamente importante em que a coincidência é apenas isso mesmo, uma coincidência.
  3. Quem fatura alto no 12 de outubro? Os lojistas de Aparecida do Norte, e as lojas de brinquedos Brasil afora, certo? E quanto aos lojistas de brinquedos de Aparecida do Norte? Oh, God: descobrimos o segredo de como ficar milionário no Brasil! Obrigado Nossa Senhora!

5 – Dia de Finados

Sei não, mas esse negócio de comemorar a morte é muito estranho. Ou lucrativo, depende do seu ponto de vista.

Ela concorda.

Fatos interessantes sobre o Dia de Finados:

  1. Admita, caro leitor: você se diverte em Finados. Existe outra oportunidade de rever aqueles amigos extremamente sumidos, e que fatalmente você encontrará em algum corredor do cemitério, ou na barraca de pastel do lado de fora?
  2. Diz a lenda que o Dia de Finados marca uma briga bastante antiga no Brasil: floristas vs. crematórios. O business é agressivo por aqui.
  3. Você sabia que, até 2005, o Dia de Finados NÃO era feriado nacional? Pois é, era um dos dois feriados municipais que cada prefeitura tinha direito ao ano. E é por isso que o aniversário de sua cidade não era feriado, mas o dia do padroeiro sim. Agradeça ao cara que, lá em Brasília, fez com que o Finados fosse feriado nacional: você ganhou mais um dia de descanso aí na sua quebrada.

6 – natal

Meu feriado preferido, talvez por ser o mais clichê de todos. E claro, por ser o que mais movimenta a economia do Brasil, numa cadeia produtiva e geradora de renda que vai desde os fabricantes de luzinhas, até os panificadores e lojistas de todas as modalidades, sem falar nos fornecedores de papel de presente. Perfeito! Os autônomos país afora agradecem por ter seus lucros aumentados e, na prática, ganharem seus décimos-terceiros. Tudo ao som de Simone, Roberto Carlos… oh, dor!

Fatos interessantes sobre o Natal:

  1. O Natal simboliza o nascimento de Cristo, e isso todo mundo sabe. O que provavelmente ninguém pensou até agora é: se o nosso calendário é cristão, e se iniciou no nascimento de Cristo, o Natal não deveria ser dia 1º de janeiro?
  2. Ah, nossa incrível mania de querer copiar o primeiro mundo em tudo. Você que engordou sem esforço na Páscoa, terá uma incrível chance de se redimir e conseguir um corpão no Natal: basta se candidatar pra usar roupa de Papai-Noel, daquelas tradicionais, bem peludas e quentes. Três quilos por toque de sineta e HO-HO-HO. Chupa Oscar Schmidt!
  3. Eu confesso ter inveja daquelas pessoas que conseguem emendar o Natal com o Ano Novo. Sério. Só fico feliz com o fato de saber que meu fígado demorará mais a doer que o deles.

Noite feliz.

7 – Carnaval

Não poderia deixar de acabar com o Carnaval, o feriado mais esperado, comemorado e “dê-esse-tezado” do calendário brasileiro. A maior das festas pagãs é um sucesso no Brasil país mais cristão do mundo. E já está dando saudade…

Fatos interessantes sobre o Carnaval:

  1. Existem dois tipos de pessoas no Brasil, e você as conhece no Carnaval. A primeira é aquela que, confessa, ama a putaria e cai no samba nua na primeira batucada do final de semana. A segunda você conhece: é aquele seu amigo que diz odiar carnaval, achar perda de tempo, baixaria. Este, você sabe, não pega ninguém nem no carnaval e nem no restante do ano.
  2. Cada região do Brasil tem uma data diferente para término do Carnaval. Em São Paulo é na terça, no Rio de Janeiro é na quarta, na Bahia é nunca mesmo. Mas convenhamos: você nunca soube se a quarta feira de cinzas é ou não dia de trabalho, correto? Lamento dizer: é.
  3. A festa do Carnaval é comemorada no mundo todo, mas de formas bem diferentes que no Brasil. Repito: BEEEEM diferentes. Repare:

Você ama o Brasil? Eu também. Na boa.

Gostou? Agora, caro leitor, cabe a você saber o que fazer com estes feriados. Curtir na praia, na laje, ou abrir um açougue e uma distribuidora de bebidas e ser feliz financeiramente, dando continuidade ao que, me parece, ser a única tradição levada a sério no Brasil. E viva o churrasco de feriado! Especificamente pra hoje: viva a bacalhoada da mãe!

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