Crônicas de um país sem sobrenome

Uma curiosidade aos leitores do BdQ. Minha mãe é leitora deste espaço, e certamente uma das leitoras mais interessadas que eu tenho por aqui. Só que, por ser de uma geração diferente da nossa, depende de mim para que eu mostre, na tela do PC, os textos que vez em quando publico por aqui. Você deve conhecer algumas dessas pessoas, que não sabem e nem vêem necessidade de aprender a usar o computador. É normal, cresceram sem isso, conseguiram administrar super bem a própria vida sem um teclado em mãos. Enfim, as vezes pego meu notebook, boto no colo de mamãe, e espero pacientemente que ela leia as coisas que escrevo. E sempre acho graça quando, ao invés de elogios ou críticas de minha leitora mais importante, recebo aquele “filho, você tem certeza que ninguém vai arrumar confusão com você por isso aí que você escreveu? Internet é pública, hein?” Eu rio, faço chacota. Ela insiste, eu me irrito. Mamãe é linda. Faz tempo que não mostro meus textos a ela…

Mamãe é meu maior exemplo de como o brasileiro ainda não sabe lidar direito com uma liberdade que, acredita, já tem. Embora não tenha crescido em uma cidade onde as terríveis ações da Ditadura Militar Brasileira tenha mostrado atos pungentes, mamãe vivenciou a coisa toda. Volta e meia, em nossas “conversas sobre tudo”, mamãe sempre frisa: naquela época, não se podia dizer tudo. Não se podia fazer tudo. Compreendo que mamãe tenha vivido em épocas certamente mais difíceis, e que talvez por isso ainda fique tão cismada com os dizeres deste humilde blogueiro neste canto ainda desconhecido da internet. Mas penso: até onde vai a razão de mamãe? A repressão praticada pela Ditadura Militar Brasileira está mesmo num passado tão distante?

Que brasileiro tem memória curta, caro leitor, isso todo mundo sabe. O Ricardo foi brilhante quando passou por aqui falando sobre isso. É o tipo de coisa que nos faz entender certos fenômenos como “fantasmas de uma época obscura”, mas que na verdade nunca acabou. As coisas não mudam tão rapidamente como se pensa. Eu, que nem tenho 30 anos, nasci no auge do governo do General João Baptista Figueiredo, último integrante da “linhagem” dos militares no poder. Nossa democracia recente, de longe o período democrático mais comprido da história do Brasil, não é e nem poderia ser democrática no sentido mais amplo da palavra, como a geração Y de hoje pensa ser, enxergando seus pais como “quadrados e antiquados” quando na verdade eles sentem a mudança mais lentamente, gradual e não concluída, mais da forma como ela realmente é. Ou alguém consegue ver democracia no massacre de Eldorado dos Carajás? Ou no massacre do Carandiru?

Ou alguém consegue ver democracia na recentíssima aliança entre Brasil, Índia e Paquistão (dois grandes exemplos conhecidíssimos de democracia mundial, só que ao contrário) para impedir a aprovação imediata de um plano de ação da ONU, cujo objetivo é tentar reduzir o assassinato de jornalistas no mundo, além de combater a impunidade quando muitos desses crimes são cometidos? Tipo, quem fala tem que morrer, e impunemente? A proteção à liberdade de expressão fica pra depois? Muita “faxina” pode ainda ser feita em um ano?

Ou alguém consegue ver democracia no IR? Corre, amigo, esta é a última semana pra você declarar detalhadamente seus bens e pagar por seus rendimentos! E presta atenção no “detalhadamente”, se não vem malha fina por aí! E pra que? O SUS melhora? Ah, sim, existe um imposto só para o SUS, no mesmo esquema “pagou sai ileso, não pagou tá preso”. Mas se você não pagar a parte um plano de saúde, o próprio SUS te mata por definhamento. E tudo isso te fazendo pensar que seu dinheiro está sendo bem empregado. Democrático, não?

Ou alguém consegue ver democracia nas ações altamente duvidosas de órgãos que, em teoria, deveriam defender a população, como a Polícia Militar brasileira? Bate primeiro e depois pergunta. Isso se você tiver a sorte de perguntar. Forma milícias em morros “pacificados”, trocando de comando. Não gostou, vai chamar quem, a Polícia Militar? Calma aí, a polícia é “Militar”? Ah, tá.

Ou alguém tem alguma dúvida de que a própria cabeça do brasileiro ainda é da Ditadura Militar, quando se vê pessoas censurando manifestações alheias, aquela história do “dane-se a passeata, esses vagabundos não me deixam passar”? Até a internet, símbolo máximo da liberdade de expressão, tem agora seus “censuradores anônimos”, gente que num dia publica mensagens clamando por liberdade e “lutando” por seus direitos, e no outro quer te impor sua crença, sua opinião, seu time de futebol, praticando uma “auto-ditadura” para com os demais. Amigos, a democracia que hoje temos (ou não) é fruto de muito sangue recente brasileiro, não sejamos nós mesmos a esquecer disso, ok?

Respondendo a pergunta frequente de mamãe: não acho que criarei confusões com “gente grande” apenas escrevendo nesse espaço não tão influente no ideário popular. Com que grau de certeza eu posso dizer isso? Certamente não é 100%, nunca foi – e eu prevejo uma felicidade irônica nos olhos de mamãe quando ela ler esse trecho (ela é linda!). Mas um pouco de lucidez no meio dessa “confusão proposital” praticada diariamente com cada um de nós no Brasil, que bota uma cordinha invisível todos os dias em nossos braços, pernas, mãos e pescoço, me parece sensato. Enquanto ninguém me bater, estaremos aí. Isso é democracia – ou não: com essa educação emburrecedora de hoje em dia, vai que nesse exato momento estou eu também moldando seus pensamentos…

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Atualização da noite: o BdQ é um espaço que meia dúzia de pessoas criou na net, para compartilhar pensamentos acerca desse nosso amado país, e isso todo mundo sabe. É claro que este espaço é completamente aberto a todos, conhecidos ou não, mas tem coisa mais legal que o incentivo e a a contribuição espontânea dos amigos? Tipo de coisa que faz a gente continuar, sabe?

A imagem e a mensagem abaixo veio de uma pessoa bastante especial e querida pra mim, daquelas pessoas diferenciadas, sabe? Me refiro ao Vitor Zarantonelo, ex-aluno e hoje amigo, e quem sabe (eu torço pra isso e ele também) um futuro autor do BdQ. Ele leu meu texto, achou isso na internet, e achou que tinha tudo a ver. E sabe o melhor? Eu concordo!

Segue abaixo imagem e mensagem relacionada à imagem, extraída do Facebook. E parafraseando o garotão: foooorte abraço Vitor (sempre quis te dizer isso, rs…), valeu mesmo, de verdade!!

 ♦ “Sabe o que me incomoda? Essas pessoas que pensam que você é arrogante ou está querendo aparecer quando coloca em uma rede social um pensamento elaborado, seja ele seu ou não. Até parece que você não pode colocar nada com uma pegada mais cultural, seja uma passagem de um livro que você goste, um pensamento de um filósofo, ou uma crítica feita por você mesmo acerca da sociedade, literatura ou atualidades. Parece que só se pode postar coisas descompromissadas, tirinhas de memes e fotos do seu fim de semana na praia. Percebam que eu não estou dizendo que essas coisas que são postadas rotineiramente são irrelevantes, claro que não, as redes sociais são ótimas pra gente rir de bobagens e eu até vejo importância nisso, não se pode exigir um ambiente totalmente cultural e politizado, aliás, acho que esse tipo de ambiente seria no fim das contas um pouco chato. A questão é que eu me preocupo de verdade quando vejo essa censura sobre as pessoas que tentam mostrar algo “diferente” dentro de uma rede social. Simplesmente não te levam a sério quando você posta alguma coisa que fuja desse padrão de memes e piadinhas, aliás, é bem provável que você seja taxado de “pseudo-intelectual” pelos seus amigos ao tentar fugir desse padrão. Qual o resultado disso tudo? Você só se sente seguro pra postar alguma coisa mais elaborada por meio de compartilhamentos, e daí dia após dia a gente vai se anulando cada vez mais, virando refém de alguém que tem atitude pra mostrar o que pensa sem se preocupar com os rótulos que os internautas impõem. Não tenham vergonha de mostrarem o que vocês pensam, não tenham medo de serem quem vocês são. Tenham receio de acabarem sendo calados por essa “ditadura” boba e fútil!” – IronicoDepre ♦

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Comentários em: "A herança maldita dos governos militares, ou: as paranoias de mamãe" (1)

  1. Muito bom o texto, a cabeça do brasileiro ainda é a da ditadura mesmo, tanto que alguns ainda preferem aqueles tempos… Acho que a lavagem cerebral foi tão grande que aquela geração de nossos pais ainda mantém algo intocado.

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