Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para maio, 2012

Os deuses da “pesquisa IBOPE” e as nossas velhas perguntas

Deu manchete principal do Jornal Nacional de ontem: o nosso “brasileiro padrão” está cada vez mais preocupado com o problema das drogas, fato comprovado pela sempre lendária entidade jornalística global, a “pesquisa IBOPE”. Dessa vez, a “pesquisa IBOPE” perguntou ao brasileiro (Eu? Você? Alguém?) o que será mais cobrado dos futuros prefeitos do Brasil. Sim, amigos, é ano eleitoral, fiquem atentos às “pesquisas IBOPE”! Você sabe que um jornal quer destacar a “pesquisa IBOPE” quando ela vira até gráfico legalzinho enfiado no meio da reportagem, saca só:

Fonte:  Reprodução de um printscreen mal feito pra caramba do YouTube que denota total falta de capricho do blogueiro em questão

Ultrapassou, com folga, uma velha preocupação do brasileiro: o emprego, com 4%. É, eu juro, eles disseram exatamente assim, confere aí!

A outra notícia, logo a seguir: uma “comissão” – outra entidade jornalística global bem nos moldes da “pesquisa IBOPE” – resolve descriminalizar o uso e o plantio de drogas. Dentre os motivos que levaram a pensar em mudanças nas leis sobre drogas, estão o aumento da retenção de usuários “enganosamente” por confundi-los com traficantes, e expõe que o uso e o plantio de droga pode agora não ser crime, mas o bicho pega ao fazê-lo em público, “na presença de crianças e adolescentes”. Aí, é crime. Não achei link no G1, mas tá igualzinho na Folha, confere lá! Não é mentira, gente!

Agora, caro leitor, olhe bem para esses dois usuários de drogas, abaixo:

Responda rápido:

  1. qual dos dois usa drogas possíveis de serem plantadas em casa, e portanto NÃO é criminoso?
  2. qual dos dois pode ser confundido com traficante, e portanto NÃO é criminoso?
  3. qual dos dois usa drogas em público, em locais frequentados por crianças e adolescentes, e portanto merece ser punido, trancado e afastado da sociedade?
  4. qual dos dois causa uma preocupação maior que a tal “uma velha preocupação do brasileiro: o emprego, com 4%”?
  5. qual dos dois é mais brasileiro?

Brasil de quem? Não, (ainda) não tá fácil pra ninguém…

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Peripécias da Escola Mundial, versão sincera: refilmando “Carrossel”

E o Seu Sílvio, um dos maiores magnatas da TV brasileira, resolveu assim, do dia pra noite, desenterrar o enredo de um dos maiores sucessos da telenovela infantil (existe esse ramo?) e refilmar Carrossel, com direito a musiquinha tosca no começo e milhares de aluninhos lindos e engomadinhos babando na professorinha, esta por sua vez, um exemplo de candura. Não lembrou da musiquinha? Olha aí embaixo. Tenha medo!

Sinceramente, não torço para que dê certo. Parece-me um sacrilégio: eu e muitos marmanjos por aí tem Carrossel como um clássico da infância, e isso numa era pré-bronha em homenagem à Professora Helena. Pelo menos então, que seja mais original, mais contemporâneo e mais brasileiro, e que mostre melhor como é a escola atual, vinte anos depois do primeiro make mexicano. Facilitemos a vida do Seu Sílvio e imaginemos a construção dos personagens e situações.

Seu Sílvio, fica a dica! Qualquer coisa, me chame pra uma reunião, eu moro há 15 minutos de Osasco! E se precisar de um tonalizante pro novo penteado, tem farmácia no caminho, tá?

1 – Jaime Palilo

O original: o gordinho da escola, sempre sofria com as piadinhas toscas dos coleguinhas por seu sobrepeso e por sua burrice, herdada do pai, mecânico de automóveis. E passou o ano letivo inteiro com medo da reprovação.

Grandes momentos na trama do remake: Jaime Palilo se aproveitaria da aprovação continuada e não teria esse medo bobo do monstro da reprova. Chegaria até a quinta ou sexta série sabendo escrever apenas seu nome, e apenas em letra de forma. Com sorte, chegaria à nona série sabendo divisão com duas casas na chave. Lá pela sexta série, algum inspetor de aluno novato levaria Jaime para a “coordenação pedagógica”, que lhe diria algo como “você sofre bullying“, e embora nada mudasse, sairia feliz dessa reunião por ao menos saber que esse troço tem nome, e é nome chique.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Ir direto para a Fundação Casa, por atirar em todos os coleguinhas após anos de bullying irrepreendido
  2. Tornar-se ídolo mundial ao esmagar as costelas do Paulo Guerra, e passar o resto do ano dando entrevista no Casos de Família
  3. Seguir os passos do pai e ser mais um analfabeto funcional após sua formatura, herdar a oficina do pai, mas por não acompanhar o ensino dos cursos de capacitação do SENAI e por precisar de um macaco hidráulico que levante mais o carro para que ele possa entrar debaixo – e obviamente não ter dinheiro pra nem um e nem outro – tornar-se o primeiro hippie gordo que se tem notícia.

Jaime?

2 – Maria Joaquina Villaseñor

A original: riquinha, mimada e racista, vivia repetindo que sei pai-médico-renomado-doutor-Villaseñor só a colocou ali para que ela pudesse conviver com “a gentalha” (coisa de mexicano gostar dessa palavra), e esnobando as investidas do coitado do Cirilo.

Grandes momentos na trama do remake: Maria Joaquina cresceria, e como a garota mais gostosa popular do colégio, tornaria-se a rainha do pancadão do pátio ao som dos celulares com mp3. Claro, a caracterização tem que acompanhar: shortinho socado na bunda com o bolso aparecendo (feio que dói), ajudando a Professora Helena a não ter domínio algum da aula. Por algum motivo X, tentaria afastar a Professora Helena, possivelmente por alguma repreensão a seu comportamento ou vestuário. Faria uma festa quando alcançasse mil amigos no “feice”, criando um evento com o título “Pancadão da Joaquina, estejão convidados”.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Seu pai percebe a cagada que fez, e compensa a menina com 3 anos de algum cursinho pré-vestibular fodão pra ela poder entrar na USP, onde promoverá uns 3 Pancadões da Joaquina por mês, aproximadamente. Corrão todos para a Praça do Relógio!
  2. Envolve-se seriamente com drogas pesadas, sofre com anos e anos de anorexia, causando comoção nacional. Ela pode, ela é loira e filha do médico-renomado-doutor-Villaseñor, lembram?
  3. Casar com um jogador de futebol, obviamente um não negro, e encher a vida de dinheiro. Ou virar panicat.

E gerar polêêêêêêmica!!!

3 – Cirilo Rivera

O original: negro, pobre, apaixonado pela loirinha metida e, como Carrossel adorava frisar, “de nobre coração” (e só Deus sabe porque a novelinha sempre dizia isso)

Grandes momentos na trama do remake: Cirilo seria o primeiro a comprar um celular com mp3, só pra ver a Maria Joaquina dançando até o chão no recreio. Tentaria carreira no futebol, faria alguns estes no time C do Atlético de Ituverava. Obviamente, não daria certo, perceberia que o melhor caminho é a educação (tem que ter um ou outro clichê moralista, né?), prestaria vestibular 15 vezes, e entraria pelo sistema de cotas raciais. Ou pelo SISU em Engenharia de Nanomáquinas Agrícolas na Federal de Altamira. Claro que sua paixonite Maria Joaquina reclamaria a beça, mesmo estando na USP.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Desistir do curso e tornar-se camelô na 25
  2. Matricular-se no curso e aparecer no Fantástico como exemplo de superação da raça negra para a sociedade brasileira, sendo convidado em seguida para o Casos de Família e logo em seguida para o BBB 27, o que o leva a “pensar melhor nos rumos de sua carreira” e assumir a profissão “ex-BBB”
  3. Permanecer no curso e tornar-se camelô na 25

Cadê a Professora Helena agora?

4 – Laurinha (Laura Gianolla)

A original: a gordinha simpática, que passava o dia todo comendo e falando de amor. É só lembrar do “é tão romântico” que ela sempre dizia para sua imagem da personagem voltar, certo? Desnecessário dizer, vez ou outra era parceira de bullying do Jaime…

Grandes momentos na trama do remake: Laura teria intoxicação alimentar com a merenda da escola umas cinco ou seis vezes, mas todo mundo diria que seu mal-estar fora causado pelo excesso de comida, evidenciando duas sacanagens corriqueiras no cotidiano de um gordinho em escola pública: 1-) você é sempre culpado por seu sobrepeso, genética nunca conta, e 2-) entrar na fila da merenda mais de uma vez é uma das piores mancadas que você pode dar com seus coleguinhas, já que a coisa é sempre contada milimetricamente todo recreio. Se o nosso Carrossel 2.0 tivesse mais temporadas, Laurinha engravidaria, ao transar com o Cirilo sem camisinha na sala de ciências plena quarta feira as duas horas da tarde. Ela achou a ideia “tão romântica”…

Escolha o melhor desfecho:

  1. Assumir-se mãe solteira e, depois de muitas e muitas brigas com os órgãos públicos por falta de creche, tornar-se ativista da nobre causa das “diaristas que querem levar seus filhos para a casa do patrão”
  2. Desistir da merenda, emagrecer e tornar-se a mais nova mãe gostosona do vigésimo nono filho do Neymar
  3. Esquecer os paradigmas estéticos da sociedade e, depois de diversas decepções amorosas, tornar-se uma funkeira gorda que só sabe falar de putaria.

Oops…

5 – Carmem Carrillo

A original: estudiosa, porém, pobre. Eu lembro disso e de uma crise de apendicite…

Grandes momentos na trama do remake: Carmem brigaria o tempo todo com a coordenação para trocar os computadores da sala de informática, já que dificilmente acharia disquetes compatíveis com os drives daquelas carroças. Tentaria chamar os colegas para comprar a briga, e entre conversas e interações com as demais pessoas em nome de sua causa nobre, acabaria experimentando seu primeiro cigarro na quinta série, atrás da escola, o que a levaria rapidamente para o vício da nicotina. Passaria a roubar para comprar cigarro, sendo pega e suspensa algumas vezes. O ápice de sua participação na trama se daria quando, deitada em sua cama e pensando em fugir de casa e se prostituir para poder fumar seu cigarro de todo dia, sofre sua primeira crise de apendicite. Carmem morreria após um agonizante mês de outubro no corredor do Hospital do Mandaqui.

Se os uniformes da Escola Mundial continuarem azuis no remake, já temos até cenário perfeito!

Escolha o melhor desfecho:

  1. Hein? Melhor desfecho? Ela morreu, o que mais pode-se querer? O máximo que pode acontecer é sua mãe aparecer no SPTV por 10 segundos chorando e pedindo melhor atendimento no SUS!

6 – Paulo Guerra

O original: o pentelho que colocava tachinhas na cadeira da gordinha da turma, explodia bombas no corredor, essas coisas mas exemplares de nossos alunos de hoje em dia. Em suma, o filho da puta da escola.

Grandes momentos na trama do remake: Paulo se tornaria aos poucos um pervertido que teria como meta de vida apenas uma coisa: comer a Professora Helena. Não que não tentaria algumas vezes, seira inclusive o responsável pelo afastamento, obviamente não remunerado, da professorinha gostosinha. Ao longo de sua vida escolar, tornaria-se um aluno cada vez mais popular. Compraria seu celular com mp3 pra rolar o Pancadão da Joaquina nos intervalos, além de atitudes suspeitas. Ninguém saberia como Paulo conseguiria ter seu serviço de ajudante geral de dia e sustentar suas camisas da Lacoste sempre novas e seu Gol 95 rebaixado e com motor aspirado (neon no assoalho opcional). Cometeria alguns pequenos delitos dentro da escola, coisas bastante corriqueiras como tentativas de estupro ou tráfico de drogas, mas como é menor de idade, passa esporadicamente uma ou duas noites na cadeia, ou paga uma cesta básica.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Evoluir nos “negócios”, trocar o Gol 95 por um Vectra 08 e servir de exemplo de “como a escola não é tão importante assim para subir na vida”, levantando a suspeita de possíveis ligações com certos gabinetes da Câmara dos Vereadores da cidade
  2. Ser expulso da escola (e cometer as mesmas coisas em outra escola não mostrada no seriado – problema resolvido)
  3. Internar-se em alguma clínica de reabilitação e comover o país pedindo uma segunda chance

E virar filme com o Selton Mello.

7 – Valéria Ferreira

A original: Valéria era espevitada, moleca, vivia sorrindo pra todo mundo e volta e meia aprontava algumas das suas junto com Paulo Guerra. E era apaixonada por alguém que eu sinceramente não me recordo, mas que não devia ser relevante na trama mesmo.

Grandes momentos na trama do remake: seria abusada sexualmente na terceira série por algum porteiro tarado, atrás da cantina. Superaria seu trauma logo em seguida. Ou não.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Aceitar convite de um estranho e tentar “carreira” na Itália, engrossando as estatísticas nacionais sobre tráfico de mulheres
  2. Terminar os estudos, casar, ter filhos, e passar o resto da vida imaginando como seria ter um diploma
  3. Engolir o choro, crescer, ser vista por olheiros, namorar jogador de futebol e corredor de F1, tornar-se apresentadora de programa infantil, montar uma instituição de combate ao abuso infantil, e o resto a gente sabe…

Oops, cena errada…

8 – Senhora Oliva

A original: era a diretora megera da escola. Caricata que só.

Grandes momentos na trama do remake: nada muito especial. Esporadicamente, apareceria na porta da sala de aula decretando “aula vaga” (ok, nem tão esporadicamente assim), tomaria café com o Paulo e seria assombrosamente seduzida por esse, levantando no twitter a discussão sobre paixões com idades diferentes. Suas reuniões com o aluno problema seriam sempre de portas fechadas, obviamente. Vez ou outra, flashes das confraternizações entre professores no final do ano, ela sempre bêbada e com a calcinha na cabeça, óbvio.

Opcional da trama: invadir seu computador e divulgar fotos particulares.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Morte
  2. Transferência
  3. Abdução. É difícil pensar num final feliz para uma diretora megera…

9 – Firmino

O original: velhinho, porteiro simpático da escola, sempre doente mas sempre com um sorriso no rosto.

Grandes momentos do remake: praticamente nenhum. De sorridente a melodramático quando Valéria o denuncia por abuso sexual (claro, isso sempre ficou implícito). Mas quem se importa quando, com toda essa idade, ele já vai morrer mesmo? Nem personagem central da trama ele é, o máximo que pode fazer é levantar a hashtag #FicaFirmino a nono ou décimo “trending topic” em Manaus!

Escolha o melhor desfecho:

  1. O caso do abuso na Valéria nunca ficaria completamente comprovado, e Firmino permaneceria livre até que o casos e arquiva. Cinco anos depois, Valéria tentaria novamente, mas o caso já estaria expirado (sim, tem um termo melhor pra isso, whatever), e Firmino seria indenizado em 45 milhões de reais por calúnia e difamação
  2. Descobriria o amor nos braços da Senhora Oliva, roubando-a de Paulo e sendo sumariamente executado no pátio, configurando crime passional
  3. Simplesmente morreria. É o mais plausível, eu acho…

De acordo.

10 – Professora Helena

A original: tudo o que um professor deveria ser, e que por motivos óbvios não é. Extremamente educada e sensível, ama seus alunos como filhos e bla-bla-bla, certamente algum recalque por não ter se casado nem dado pra ninguém em momento algum da trama.

Tenha medo desse sorriso…

Grandes momentos do remake: ela até começaria feliz com a carreira, mas aos poucos, não aguentará mais seu carro riscado, os constantes assédios de Paulo e as constantes unhadas e puxadas de cabelo da Maria Joaquina, as milhares de provas pra corrigir nos finais de semana, sem tempo pra se divertir, sem poder reprovar ninguém, sem autoridade, trabalhando três turnos pra poder dar um salário que mal chega nos quatro dígitos, e vai aos poucos entendendo o amargor, o alcoolismo e a ninfomania da Senhora Oliva. Desenvolve TOC.

Escolha o melhor desfecho:

  1. Firme e forte, Professora Helena sempre amaria seus queridos aluninhos e, por mais que tenha vontade de arrancar o coração de cada um com uma colher de pau quebrada enquanto empala-os nos mastros de bandeira da escola, segue sua vida sem grandes atropelos. É só não esquecer do remedinho que tá tudo certo.
  2. Enfurecida com a carreira desgraçada que escolheu, invade a escola no último capítulo fantasiada de Lara Croft e dizima a sala de aula com requintes de crueldade e um sorriso irônico nos lábios (risada malévola fechando os créditos do último episódio)
  3. Solteirona por falta de tempo pra namoros, aposenta-se com o mínimo do tempo permitido, complementando a renda mensal com o que faz com o kit do Disk Biju que ganhou de natal dos ex-colegas. Termina sua vida irregular com o Cartório Eleitoral: não consegue mais pisar numa escola nem em dia de eleição.

By Professora Helena, aposentada e fodida mas ainda plena.

Nas plataformas da história

São Paulo, 9 de maio de 1982. Há exatos trinta anos, inaugurava-se, depois de alguns longos anos de obras, o Terminal Rodoviário Governador Carvalho Pinto. Quantas vezes na sua vida você já esteve na Rodoviária do Tietê, caro leitor? Confesso, não tenho ideia. E não, nem acredito ser o caso de “perder as contas”: acho que nunca contei…

Sempre frequentei a Rodoviária do Tietê por pura necessidade. Nunca gostei de estar ali. O lugar é sujo, perigoso. Aglomeram-se pessoas, objetos, bolsas, pastas, animais, pedintes. Os relógios maiores que um ser humano, apontando pra onde quer que eu olhe que eu sempre estou atrasado. As mãos apertam as alças das bolsas: nada ali é seguro. Hoje, caro leitor, ainda tenho minhas cismas com os corredores de cimento queimado e verniz da Rodoviária do Tietê. Com um pouco mais de estudo e conhecimento da história do Brasil, no entanto, hoje me arrepio sempre que passo por ali. Arrepio mesmo, daqueles que vem com a grandiosidade. Junto ao incômodo de meu asco, um arrepio de reverência. Não consigo pensar em outro lugar onde história e emoção se juntam tão simbioticamente como na Rodoviária do Tietê. Em cada canto, uma história, uma partida emocionada, uma chegada emocionada. Pais, mães, esposas e maridos, felizes com a chegada ou cabisbaixos com a partida em alguma das incontáveis plataformas, observados pelo costumeiro mau humor dos motoristas já tão calejados de emoções a volta: cinquenta histórias viajam por vez, um empregado ganha a vida.

Sessenta mil pessoas de passagem, outras tantas milhares batalhando o pão, nos guichês, lanchonetes, farmácias, banheiros, faxinas, batendo carteiras. Manter o bom humor no mau humor de todos. Tudo na imponência arquitetônica do prédio, de fato já desgastado pelo tempo, mas que com um ou outro baldinho em dia de chuva vai superando suas goteiras, reinando silencioso e soberano na vida de tantos. A Rodoviária do Tietê conta histórias, tantas. Conta também a nossa história de nação.

Mil, novecentos e oitenta e dois. São Paulo, no governo de Paulo Maluf, caminhando a passos largos para tornar-se potência mundial na forma de monstro urbano. No Brasil, nas mãos do último dos governos militares, impunha-se ainda a bandeira do progresso, simbolizado categoricamente pelas grandes obras faraônicas de “desenvolvimento” nacional, entre aspas mesmo pelo “apesar de” de sempre. Assim surge, na maior cidade do Brasil, o maior terminal rodoviário da América Latina, ainda em dias atuais. Rodoviária do Tietê, o novo orgulho da nação. Integrado às linhas de trem e metrô da cidade, garantindo assim a mobilidade de trabalhadores, turistas e migrantes. Símbolo de uma modernidade almejada, de um futuro promissor para o Brasil.

Só não contavam com uma coisa: era a década de 80. A década inteira perdida por detrás de uma desvalorização financeira que, assim como qualquer choque econômico, seria fatalmente transferido para o trabalhador. Onde foi parar o desenvolvimento do Brasil? Travou em algum embarque atrasado de alguma linha em alguma plataforma do Tietê? Caiu o sistema e ficou na fila de compra de passagem? Fato é que o brasileiro, agora não mais nas sombras dos “apesar de” da Ditadura Militar Brasileira, simplesmente continuou da mesma forma que estava: pobre. E a Rodoviária do Tietê, ponto de desembarque de cada vez mais e mais brasileiros, pobres, iludidos por esse “sonho urbano” que a própria Rodoviária do Tietê ajudou a construir, e a destruir logo em seguida com o despejo a galope de “novos paulistanos”. Enquanto isso, a Rodoviária do Tietê degrada-se, torna-se suja, insalubre, perigosa. Estar ali é indesejado. Tão indesejado como aqueles que por ali circulam.

As décadas seguintes, no entanto, mudariam mais uma vez o curso da história. O desenvolvimento apareceu, o “sonho urbano” se consolidou. São Paulo está aí, aos trancos e barrancos mas é São Paulo, a cidade crescendo, seguindo em frente. Infelizmente, no entanto, o “desejo urbano” sonhado em 1982 veio para poucos, selecionados. E a seleção se deu por onde fatalmente aconteceria: pelo dinheiro. O Muro de Berlim caíra lá de longe, e o mundo decretou-se capitalista. O capitalismo sempre disse quem tem ou não o direito de sonhar. Aqueles deixados em São Paulo pelas plataformas da Rodoviária do Tietê, braços e pernas do desenvolvimento urbano da cidade, ainda hoje devem estar sonhando.

Essa mística realidade urbana, que se achou seria simbolizada pela fluidez da Rodoviária do Tietê, errou sutilmente de endereço. Não está ali nos embarques e desembarques das plataformas abarrotadas, mas ligeiramente deslocada para o sul, em cada um dos carros apressados que passam bem ali ao lado, na Marginal Tietê, a via mais movimentada e congestionada da cidade. O sonho urbano não é completo sem o carro, sem o ar-condicionado, o transporte individual. Ironicamente, a Rodoviária do Tietê hoje, com seu fluxo contínuo e cada vez maior de saídas e chegadas de ônibus, contribui em larga escala para este cenário: como no rio cheio de escapes de esgoto logo ao lado, derrama-se na Marginal Tietê diariamente inúmeros “atravancadores” de fluxo, tapando o funcionamento dessas veias urbanas paulistanas – fatalmente, hoje o que se vê são dois infartos inevitáveis todos os dias. Um em cada horário de pico.

O que é hoje a Rodoviária do Tietê? Mais que qualquer outra coisa, aquele prédio sucumbido e perigoso (nem por isso menos imponente) é um grande totem, que está aí pra que, ao passarmos por cada um dos corredores de cimento queimado e verniz de pessoas e emoções, nos lembremos de muitas lições que aprendemos em nossa história recente. Que o meio urbano pede urgentemente por mais investimentos em transporte coletivo – pois cinco ônibus despejam na Marginal Tietê a mesma quantidade de pessoas que cinquenta carros com cinco pessoas. Que o desenvolvimento, seja lá qual o sentido dessa palavra, precisa ser feito para, com e por pessoas, não com prédios imponentes e grandes obras. E principalmente, que existe um plano de Brasil que, propositadamente, chega para um número bastante específico de pessoas: poucas delas ali, usuários da Rodoviária do Tietê.

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Muito além da pele

Preferimos peitos ou bundas grandes? Não sei, mas um dos dois tem que ser grande, se não, qual a graça? Nos despimos na praia, no carnaval. Homens e mulheres sem quaisquer vergonhas. Sambamos, jogamos bola – nosso corpo é anatomicamente feito pra isso, nossa resistência física é incrível. Damos risada da própria tristeza. Somos simpáticos – nem sempre, mas quase sempre. Não temos vergonha da nossa sexualidade – nós gostamos, muito, de sexo. Fazemos macumba. Chegamos atrasados.

Amamos feriados, especialmente os prolongados. Fazemos nossa “fezinha” na acumulada. Esbanjamos malícia, no dia a dia com o nosso “jeitinho” questionável mas que dá sempre certo, ou na arte da sedução (e quem lá de fora já provou um brasileiro afirma: somos realmente bons nisso).

Pergunte a qualquer pessoa que já tenha ido à Alemanha, ou à França: como são os alemães e franceses? E os ingleses com seus chás da tarde e sua irritante pontualidade? Nosso cadinho cultural diz o seguinte, por fim: somos menos europeus do que achamos. E isso vai além da cor da pele ou dos olhos ou do cabelo. Na verdade, assumindo-se os estereótipos secularmente implantados em nossa forma de pensar as diferentes raças humanas, somos europeus quando o assunto é trabalho, mas completamente negros com qualquer outra coisa mais legal que trabalho.

Sim, claro. Eu louvo toda e qualquer medida para combate ao racismo, eu aplaudo qualquer atitude pró-igualdade de raças. Apenas levanto a bandeira que, na ponta do lápis, a negritude do negro já está incutida em nosso povo há muito mais tempo que a ideia do racismo. E isso é ótimo! Pergunte ao mesmo cara que foi à Alemanha ou à França ou à Inglaterra, se algum desses povos são tão legais como o nosso.

Entendo que estamos de fato um passo a frente da questão da igualdade entre raças: as raças, aqui, já são mais iguais do que parecem! Que o diga o pai e a mãe que matricularam sua filhinha de peitão e bundão no ballet, e que até agora não entenderam porque a menina não deu-se bem nos treinos…

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PS: eu conhecia o vídeo colocado aí no meio há tempos, como uma comparação entre europeus e italianos (é esse aqui, ó…). Ao procurar algum que comparasse europeus e brasileiros, dei de cara com o mesmo vídeo, mas “traduzido” para “brasileiro”. Dá na mesma, na verdade: se a idéia é nos comparar com os europeus, fica tudo perfeito! Bata imaginar a cena da cafeteria acontecendo, por exemplo, no Brás ou em qualquer outro bairro de sotaque paulistano que tá tudo certo, rs….

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