Crônicas de um país sem sobrenome

Nas plataformas da história

São Paulo, 9 de maio de 1982. Há exatos trinta anos, inaugurava-se, depois de alguns longos anos de obras, o Terminal Rodoviário Governador Carvalho Pinto. Quantas vezes na sua vida você já esteve na Rodoviária do Tietê, caro leitor? Confesso, não tenho ideia. E não, nem acredito ser o caso de “perder as contas”: acho que nunca contei…

Sempre frequentei a Rodoviária do Tietê por pura necessidade. Nunca gostei de estar ali. O lugar é sujo, perigoso. Aglomeram-se pessoas, objetos, bolsas, pastas, animais, pedintes. Os relógios maiores que um ser humano, apontando pra onde quer que eu olhe que eu sempre estou atrasado. As mãos apertam as alças das bolsas: nada ali é seguro. Hoje, caro leitor, ainda tenho minhas cismas com os corredores de cimento queimado e verniz da Rodoviária do Tietê. Com um pouco mais de estudo e conhecimento da história do Brasil, no entanto, hoje me arrepio sempre que passo por ali. Arrepio mesmo, daqueles que vem com a grandiosidade. Junto ao incômodo de meu asco, um arrepio de reverência. Não consigo pensar em outro lugar onde história e emoção se juntam tão simbioticamente como na Rodoviária do Tietê. Em cada canto, uma história, uma partida emocionada, uma chegada emocionada. Pais, mães, esposas e maridos, felizes com a chegada ou cabisbaixos com a partida em alguma das incontáveis plataformas, observados pelo costumeiro mau humor dos motoristas já tão calejados de emoções a volta: cinquenta histórias viajam por vez, um empregado ganha a vida.

Sessenta mil pessoas de passagem, outras tantas milhares batalhando o pão, nos guichês, lanchonetes, farmácias, banheiros, faxinas, batendo carteiras. Manter o bom humor no mau humor de todos. Tudo na imponência arquitetônica do prédio, de fato já desgastado pelo tempo, mas que com um ou outro baldinho em dia de chuva vai superando suas goteiras, reinando silencioso e soberano na vida de tantos. A Rodoviária do Tietê conta histórias, tantas. Conta também a nossa história de nação.

Mil, novecentos e oitenta e dois. São Paulo, no governo de Paulo Maluf, caminhando a passos largos para tornar-se potência mundial na forma de monstro urbano. No Brasil, nas mãos do último dos governos militares, impunha-se ainda a bandeira do progresso, simbolizado categoricamente pelas grandes obras faraônicas de “desenvolvimento” nacional, entre aspas mesmo pelo “apesar de” de sempre. Assim surge, na maior cidade do Brasil, o maior terminal rodoviário da América Latina, ainda em dias atuais. Rodoviária do Tietê, o novo orgulho da nação. Integrado às linhas de trem e metrô da cidade, garantindo assim a mobilidade de trabalhadores, turistas e migrantes. Símbolo de uma modernidade almejada, de um futuro promissor para o Brasil.

Só não contavam com uma coisa: era a década de 80. A década inteira perdida por detrás de uma desvalorização financeira que, assim como qualquer choque econômico, seria fatalmente transferido para o trabalhador. Onde foi parar o desenvolvimento do Brasil? Travou em algum embarque atrasado de alguma linha em alguma plataforma do Tietê? Caiu o sistema e ficou na fila de compra de passagem? Fato é que o brasileiro, agora não mais nas sombras dos “apesar de” da Ditadura Militar Brasileira, simplesmente continuou da mesma forma que estava: pobre. E a Rodoviária do Tietê, ponto de desembarque de cada vez mais e mais brasileiros, pobres, iludidos por esse “sonho urbano” que a própria Rodoviária do Tietê ajudou a construir, e a destruir logo em seguida com o despejo a galope de “novos paulistanos”. Enquanto isso, a Rodoviária do Tietê degrada-se, torna-se suja, insalubre, perigosa. Estar ali é indesejado. Tão indesejado como aqueles que por ali circulam.

As décadas seguintes, no entanto, mudariam mais uma vez o curso da história. O desenvolvimento apareceu, o “sonho urbano” se consolidou. São Paulo está aí, aos trancos e barrancos mas é São Paulo, a cidade crescendo, seguindo em frente. Infelizmente, no entanto, o “desejo urbano” sonhado em 1982 veio para poucos, selecionados. E a seleção se deu por onde fatalmente aconteceria: pelo dinheiro. O Muro de Berlim caíra lá de longe, e o mundo decretou-se capitalista. O capitalismo sempre disse quem tem ou não o direito de sonhar. Aqueles deixados em São Paulo pelas plataformas da Rodoviária do Tietê, braços e pernas do desenvolvimento urbano da cidade, ainda hoje devem estar sonhando.

Essa mística realidade urbana, que se achou seria simbolizada pela fluidez da Rodoviária do Tietê, errou sutilmente de endereço. Não está ali nos embarques e desembarques das plataformas abarrotadas, mas ligeiramente deslocada para o sul, em cada um dos carros apressados que passam bem ali ao lado, na Marginal Tietê, a via mais movimentada e congestionada da cidade. O sonho urbano não é completo sem o carro, sem o ar-condicionado, o transporte individual. Ironicamente, a Rodoviária do Tietê hoje, com seu fluxo contínuo e cada vez maior de saídas e chegadas de ônibus, contribui em larga escala para este cenário: como no rio cheio de escapes de esgoto logo ao lado, derrama-se na Marginal Tietê diariamente inúmeros “atravancadores” de fluxo, tapando o funcionamento dessas veias urbanas paulistanas – fatalmente, hoje o que se vê são dois infartos inevitáveis todos os dias. Um em cada horário de pico.

O que é hoje a Rodoviária do Tietê? Mais que qualquer outra coisa, aquele prédio sucumbido e perigoso (nem por isso menos imponente) é um grande totem, que está aí pra que, ao passarmos por cada um dos corredores de cimento queimado e verniz de pessoas e emoções, nos lembremos de muitas lições que aprendemos em nossa história recente. Que o meio urbano pede urgentemente por mais investimentos em transporte coletivo – pois cinco ônibus despejam na Marginal Tietê a mesma quantidade de pessoas que cinquenta carros com cinco pessoas. Que o desenvolvimento, seja lá qual o sentido dessa palavra, precisa ser feito para, com e por pessoas, não com prédios imponentes e grandes obras. E principalmente, que existe um plano de Brasil que, propositadamente, chega para um número bastante específico de pessoas: poucas delas ali, usuários da Rodoviária do Tietê.

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Comentários em: "Nas plataformas da história" (1)

  1. Q bosta…
    sab de nda ou vc fala bem ou vc fala mau se decide tiu

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