Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para junho, 2012

Desabafo de um eleitor, ou: por uma lei de criminalização dos rojões de domingo

Caro leitor amigo, o perfeito padrão do médio brasileiro, aquele que trabalha ou estuda a semana inteira e vai pra farra de sábado. Responda rápido: o que você faz de domingo de manhã? Pelo menos em minha casa, o domingo de manhã é o dia sagrado do descanso. É o dia em que você pode ficar na cama até 10, 11, 12 horas sem vergonha de ser feliz. E quem não respeita esse direito sagrado do brasileiro, ao meu ver, comete um verdadeiro crime contra a paz e a ordem: deve ir pra cadeia! Pelo menos deveria ser assim, o descanso de domingo deveria ser sacramentado. E era, até umas semanas atrás. Começou: ela, a campanha eleitoral.

Veja também:

A cada quatro anos, na grande maioria das cidades brasileiras, é decretado que o domingo de manhã é dia de comício, acompanhado sempre (repito: sempre) de interminável queima de fogos e caminhão de som, com algum locutor de rodeio desempregado mandando abraço pra cada desconhecido na fila da padaria – nem te conheço, mas que o bairro todo saiba que “seu amigão” candidato fulano de tal te manda um abraço – e seguido por uma tropa de carros e mais carros de “eleitores” – não que você conheça algum deles na sua cidade, mas se perguntar a cada um deles, todos dirão ser de algum bairro de sua cidade. Mas pergunte rápido, já que o bonde vai andando. E, por que não, atravesse a rua rápido: não dá pra confiar totalmente na sobriedade dos membros do comboio. E aumente o volume de sua TV ao chegar em casa: vai ser difícil ouvir o Esporte Espetacular na próxima sessão interminável dos fogos de domingo.

Não precisa de uma foto de uma aliança tão revoltante quanto imprevisível para que se note, caro amigo, que algo anda muito errado nessas eleições. Nessas eleições não, em todas as eleições. Especialmente as de prefeito e vereador, independentemente de qual seja o seu canto nesse país tropical abençoado por Deus – e só por Deus mesmo, que a coisa anda feia. O que você vê no comício da sua cidade? Eles vêem uma festa, um domingo de sol cercado de mulheres bonitas de camisetas com rosto e nome (e claro, número) de alguém que você nunca viu, nunca cumprimentou, mas certamente já ouviu muito falar. Eu vejo outra coisa.

Vejo ali o horror. Eu vejo ali a continuidade de um processo antiquíssimo (de novo: independente de onde você esteja) de pseudo-renovação de um poder muito velho. O que existe são nomes diferentes que representam dois lados absolutamente imutáveis há muito tempo. É sempre elas: a direita e a esquerda. Ou algo que se assemelha bastante ao que chamávamos de direita e esquerda. Partido X ou partido Y, duas “coligações” – Frankensteins de várias ideologias e, portanto, sem ideologia alguma.  Coligações personificadas, ao menos temporariamente, em fulano ou ciclano. E provavelmente você já os viu em outros cargos completamente diferentes uns anos atrás. Você lembra o nome, não a função. Há quatro anos atrás, a figura carimbada deste candidato queria ser vereador – diga-se, preferencialmente pela “chapa” do prefeito fulano de tal: ao que parece, um vereador “funciona melhor” sob a égide de um determinado prefeito. Hoje, após intensa dança entre partidos (dança de ideologias?), o cara quer ser o próprio prefeito, no lugar do fulano de tal. O que isso quer dizer? O cara não sabia quais eram as funções do vereador? Seus quatro anos no legislativo foram apenas um trampolim? Como alguém troca de ideologia duas, três, quatro vezes em apenas m mandato? Política hoje ainda é aquela tarefa bonita de servir a população? Ou agora é só um plano de carreira?

Sim, eu sei, você dirá que fui chato demais no parágrafo anterior. Todo mundo tem o direito divino de mudar de ideia, afinal. A vida e o facebook – pra muitos a mesma coisa – valorizam nas pessoas o hábito de buscar novas experiências: quem sou eu para criticar? Só não dá pra esquecer que, enquanto os eleitos X e Y pensam nos rumos a serem tomados em sua carreira política, a sociedade continua acumulando seus problemas, sem esperar as decisões eleitorais de X e Y. Tomadas as decisões, analisemos portanto o plano de carreira de cada um: horário eleitoral gratuito. E quem não desliga a TV, vê um programa em que perdem-se segundos valiosíssimos (alô Maluf! Alô Lula! Nós entendemos a ideia, viu?), muito mais com críticas ao adversário que com programas de governo. Eles não querem sua simpatia, meu caro. Querem a sua antipatia com o outro. E claro, isso você conhece: certamente já terá visto o governo do outro, já que esse troço nunca muda mesmo. Isso é um serviço público ou um reality show?

Daí você diz caro leitor: “não, o outro nunca foi prefeito de minha cidade”. Pense novamente. O rosto do “outro candidato que você passou a odiar após o programa eleitoral” certamente lhe é familiar. É um nome conhecido – e os partidos políticos escolhem seus candidatos não por suas possíveis habilidades no cargo almejado, mas pela sua capacidade de ter memorizado o nome do sujeito em tempos passados. Esse “outro”, que as vezes até tem a coragem de dizer ser “sangue novo” na política brasileira, já foi certamente algum secretário de obras, ou diretor de marketing, ou acessor de qualquer coisa. Procure: ele vai dizer que isso é “ter experiência no meio político”. Há quatro anos atrás, você via um comício com outro rosto sorridente de frente, mas pegue as fotos e repare nos rostos mais ao fundo: ele estava lá! Sempre esteve! E a política virou um “meio”, onde pelas ideias dele, aparentemente, já ter pertencido a esse “meio” te dá bagagem pra assumir todo e qualquer cargo no poder público…

E é claro, o tipo mais bizarro de política que se faz no Brasil: há um rosto novo no palanque, e você finalmente respira aliviado – parece uma renovação. Você entra no comício (na verdade, o comício é que vai até você), pega um santinho. Foto: uma pessoa jovem e bonita, e um sobrenome que, novamente, lhe é muito familiar. O pai está sujo na praça: assume o filho, a esposa – aquele abraço, Cajamar! -, o sobrinho – aquele abraço novamente, Cajamar! -, o irmão – Cajamar de novo? SIM! -, e assim por diante. A democracia de hoje consagra o nepotismo. A democracia de hoje cria famílias inteiras de poderosos. A democracia cria verdadeiras famílias reais, tudo dentro dos meios democráticos. A democracia cria impérios! Imagino daqui como seria a politicagem de qualquer cidade Brasil afora se não houvesse a obrigatoriedade da eleição democrática. E se não fosse o eleitor a selecionar seus representantes?

E esse eleitor – é, você – por que afinal ainda faz isso? Simples: você não pode fazer mais nada. É fato, colocam nas mãos do eleitor indignado uma gama de possibilidades que, na verdade, são mais placebos que reais. Quando 30, 40, até 50% da sua população está intrinsecamente ligada, enraizada em cargos públicos que dependem do famigerado “quem é o prefeito” pra continuar existindo, esse cara que ocupa esse cargo ftalmente será um dos motoristas semi-embriagados do comício de domingo. Seu voto já é garantido. E do outro lado, todo um esquema para enlace de outros eleitores desempregados nesses mesmos cargos públicos já está totalmente montado. E assim, perde-se outros mais 30, 40 ou 50% dos eleitores de sua cidade. Faça as contas, caro amigo: mais da metade dos votos de sua cidade já estão totalmente computados para a perpetuação de todas essas nojices que existem, e muito, por aí! Só não vê quem não quer, só não vê quem ainda insiste em votar nulo, ou praticamente anula seu voto dando-o para o “candidato-porcentagem-traço” do partido “peixe-pequeno-de-extrema-esquerda”. Você vai dormir tranquilo consigo mesmo, mas (desculpe ser eu a te dizer) não haverá mudança alguma em sua cidade. Infelizmente. Uma pena.

É claro, caro amigo, que eu sou completamente a favor de a população ter, sim, mais consciência de todo o processo eleitoral, do que de fato é importante para o desenvolvimento de sua cidade e a satisfação de sua população. Não consigo, no entanto, culpar o eleitor alienado há semanas, meses, fissurado pela final da Libertadores. Uma hora cansa. Não há quem resista engajado por uma causa política quando, passam-se períodos e mais períodos de quatro anos, nada muda. Ao contrário, enraízam-se pessoas, grupos e famílias no poder, e impressionante, tudo dentro do manto da democracia. Dane-se tudo, eu também quero ver a Libertadores. Eu também quero perder a semana, o mês todo deslumbrado com meu time. E é por isso que, infelizmente, lamentavelmente, devo resumir meus comentários sobre a política das eleições municipais a apenas isso: “caro futuro (ou não) candidato vencedor, por favor, criminalize o uso de rojões aos domingos de manhã, e me deixem ao menos exercer meu direito sagrado de dormir até tarde. Quem fizer essa promessa já ganha meu voto”. Julgue-me a vontade, caro (e)leitor: não me importo. Eu troquei meu voto por uma causa individual. Eu vendi meu voto. Não é sempre assim?

Especial Rio+20: 12 frases prontas que você vai enjoar de ouvir por aí

Bom dia, caro leitor! Pronto para os grandes eventos brasileiros que começarão em breve? Aliás, mais breve do que parece: alguém aí se recorda que, ainda em 2012, tem a Rio+20? Pois é, tanta gente pensando em Copa que esse “pequeno” evento na agenda nacional passa quase despercebido. Aos poucos, no entanto, a coisa vai aparecendo na mídia, uma ou outra frase aqui e ali, um ou outro governante mundial criando polêmica…

Fato é que esse post, em especial, não vem explicar, letra por letra, o que será a Rio+20. Dá uma bela googlada aí que tá tudo certo, ou CLIQUE AQUI para acessar o site oficial da conferência (tá muito bonito, vale a pena, eu garanto). Mas algumas frases prontas serão constantemente ouvidas, na televisão, nas palavras de um respeitado governante, um secretário de qualquer coisa, um prefeito X da cidade Y, um professor, um botequeiro; e são essas frases que queremos analisar mais de pertinho, que é pra justamente desanuviar a cabeça de pelo menos alguns de nossos leitores (claro, SE eles, os leitores, se interessarem pela discussão ambiental que há de vir, certo?)

Criamos abaixo uma categorização, calcada em modelos absolutamente científicos de expressão e linguagem corporal, para cada uma das sentenças abaixo, que será acompanhada de uma breve discussão. Acompanhe:

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  • 1 – Vai com fé: tipo, verdade verdadeira mesmo! As pessoas falam, e você pode acreditar e sair reproduzindo por aí sem medo de trombar algum professor pela frente! Ou, no caso de discutir com ele, seu professor, dando um baita orgulho para ele!

  • 2 – Quase isso: ok, você até pode usar as frases dessa categoria, mas recomendamos que seja feito com certa cautela, ok? Digamos que, embora verídicas, elas precisam ser mais bem detalhadas, e claro, não queremos que nossos leitores saiam daqui despreparados pra conversar com algum interlocutor peçonhento e detalhista…

  • 3 – Não é bem assim: essa é para aqueles mitos amplamente falados por aí, que dependem muito de uma certa interpretação, ou de alguma explicação mais específica. Muito cuidado, caro leitor: você pode se complicar feio com elas!

  • 4 – Desconfiei: e desconfie mesmo, tem muitos gatos nesse angu! Normalmente as sentenças com esse selo são proclamadas de duas formas diferentes: ou com algum interesse oculto (e que, obviamente, tentaremos desvendar por aqui), ou por pura ingenuidade do interlocutor. Nesse último caso, recomendamos o esclarecimento. Ou se o cara for uma porta, simplesmente ouça, acredite e ria internamente por manjar mais que ele, rs…

  • 5 – Nem a pau: aqui, caro amigo, o bicho pega, e pega fácil! Você saberá de antemão que se trata de uma baita mentira contada por aí, e depende unicamente de sua boa ou má vontade para pegar pesado, ok? Óbvio, não perca nenhum amigo, mas tenha toda a convicção que, caso um deles solte alguma sentença dessas, é um completo ignorante.

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Frase 1 – “Sustentabilidade, sustentabilidade, sustentabilidade…”

Inevitável, caro leitor. A “sustentabilidade” vai ser quase um mantra na Rio+20 e em TO-DAS as discussões futuras. Lindo, se não fosse por um único fato: da forma como as pessoas imaginam, sustentabilidade não existe. Chocado? Pois fique mesmo.

Para entender os porquês de tamanha polêmica, pensemos em outro termo que todo mundo usa e que, pessoalmente, me dá arrepios: o “desenvolvimento sustentável” (ohm…… ohm……), aquela ideia maluca e sem sentido de se desenvolver sem impactos ambientais, com medidas e políticas públicas que preservem ao máximo.

Certa vez, um grande amigo usou um exemplo que é perfeito para entender a situação. Sabe as tais placas solares, que produzem “energia limpa” (ohm…… ohm…….)? Você pode até concordar que é uma forma muito mais ecologicamente correta de gerar energia que, por exemplo, uma esbaforida carvoaria, mas pense na sombra que essa coisa faz no chão, e assim, impede que, ali nos campos de placas solares, exista vegetação no solo. É um impacto mínimo, eu sei, mas definitivamente esse impacto NÃO É zero, capiche? Isso sem contar as centenas, milhares de quilômetros de linhas de transmissão necessárias para levar a energia gerada nas placas até, digamos, você, caro leitor! Há ali a necessidade de um desmatamento de toda uma faixa de servidão para cada torre. Percebe que isso gera, sim, um impacto ambiental?

Essas imundas!

Em outras palavras, caro amigo: não quer impactar a dinâmica da natureza? Deixe ela exatamente assim, intocável. Caso contrário, o impacto NUNCA é zero. É claro que, num mundo cheio de gente serrando árvore pra tudo quanto é lado, é importante pensarmos em medidas de impacto mínimo, mas penso que, numa conferência como a Rio+20, de influência global, e que terá como foco único e exclusivo o meio ambiente, a soma desses vários pequenos impactos deve ser sempre considerada, para que no final ainda se possa pensar que esse tal “impacto gerado” continua, digamos, “pequeno”…

Frase 2 – “O homem é responsável pelo aquecimento global”

Não é bem assim. Isso é coisa que o Fantástico diz, mas que você, caro leitor amigo que tem mais ciência das coisas que a Glória Maria, saberá a partir de agora que isso pode não ser uma verdade absoluta.

Facilitemos a discussão. O que se sabe, com mais de 100% de certeza, é:

  • O planeta está, de fato, se aquecendo
  • O planeta já se aqueceu (e se resfriou) muito mais que isso em eras passadas, antes da existência do homem. É um processo absolutamente natural
  • O “efeito estufa” é, sim, um fenômeno completamente natural, e a propósito, é o responsável pela vida no planeta.

O que os estudos mais recentes apontam:

  • Certos gases, presentes na atmosfera, são os principais responsáveis pelo efeito estufa – quanto mais desses gases, mais quente é a atmosfera
  • Esses gases são os maiores resilientes das recentes atividades industriais
  • O aquecimento atual parece estar acontecendo de uma forma mais acelerada que nas outras vezes em que o planeta passou por isso

De cara, caro amigo, a gente já saca o seguinte: o homem não é de forma alguma responsável pelo aquecimento global. Mas evidencia-se que suas ações podem estar acelerando esse fenômeno natural, de uma forma que, sem a ação humana por perto, tudo indica que seria mais lenta e gradual.

É claro que esse “grau de incerteza” existente não justifica de forma alguma um relaxo total com os nossos gases emitidos, e sim, devemos repensar os dejetos atmosféricos que lançamos. E é por isso que resolvemos colocar o selo não e bem assim nessa frase: pode até não ser uma verdade absoluta, mas pode-se dizer que é, digamos, “saudável” pensar que sim…

Frase 3 – “A Amazônia é o pulmão do mundo”

Essa dói. Sinto, caros amigos ambientalistas, mas tecnicamente, a Amazônia é responsável por uma parcela mínima da troca de gases carbônicos por oxigênio puro em sua fotossíntese. Se quer mesmo dar o título de “pulmão do mundo” pra alguém, dê às algas marinhas, responsáveis por mais de 90% das trocas gasosas e “renovação” atmosférica.

Novamente, é importante frisar: isso NÃO justifica o desmatamento, a degradação ambiental, a troca da floresta por vastos campos de soja ou de qualquer outra coisa. Isso implica em sérios problemas, como a perda da biodiversidade, o empobrecimento dos solos e o assoreamento dos rios, dentre outros diversos impactos possíveis e imagináveis. Portanto, sim, conservem a Amazônia! Mas “pulmão do mundo”, deixa pra música do Netinho que é mais legal. Ou você prefere a “Amazônia, insônia do mundo”? Chora, rei:

Confesso: ao ouvir “sangue verde derramado” lembrei imediatamente da morte do “Alien, o Oitavo Passageiro”, e você?

Frase 4 – “O carro elétrico é a solução”

Permite-me colocar o “nem a pau” aqui também? Ok, obrigado: o carro elétrico é uma das maiores enganações que os cientistas já inventaram, por vários motivos.

Comecemos por aqueles que você já pensou. O carro elétrico é caro (leia-se: MUITO caro), tem pouca autonomia e desenvolve a incríííível velocidade máxima de incrííííveis 60 ou 70 quilômetros por hora.

Até aí, parece que ninguém precisa de muito mais que isso mesmo…

Só que o que mais se é proclamado como “vantagem” do carro elétrico, na verdade é mais desvantajoso que parece. OK, o negócio não polui e assim não piora a qualidade do ar de nossas grandes cidades, é só colocar na tomada que tá tudo certo, mas o que ninguém se pergunta é: e antes da tomada? A energia elétrica usada no carro vem de linhas de transmissão que causam impactos ambientais, e que começam, por sua vez, numa usina de geração de energia elétrica que também causa impacto ambiental. O cara que critica Belo Monte e apóia o carro elétrico é tão coerente quanto o cara que critica o vazamento de petróleo em alto mar mas não abre mão de seu carrinho todo dia, dá pra perceber?

Tem gente que apóia por aí, e eu concordo: há que se pensar no uso de energia elétrica, que é geradora de um impacto ambiental muito grande, sim. Um impacto que você não vê, mas nem por isso não existe. A propósito: seu notebook está na tomada? Ele tem bateria, viu? Puxa o plug amigão, vai que você evita que mais Belos Montes surjam por aí em alguns anos…

Frase 5 – “O problema é, além de ambiental, também financeiro e social”

Sem a menor sombra de dúvida! E isso acontece por um único motivo, bem simples de ser entendido: medidas ambientalistas necessitam de tecnologias novas e melhores. Tecnologias novas e melhores necessitam de dinheiro para serem elaboradas. Após elaboradas, essas tecnologias verdes precisam ser vendidas, e pra cobrir o preço de custo (e claro dar lucro, já que ninguém mais vive em Cuba), são vendidas por preços muito altos. E preços muito altos, é claro, permitem que apenas uns poucos abastados possam adquirir as tais tecnologias verdes.

A não ser que você queira extrair energias espirituais da natureza, isso não ajuda muito…

Pegue esse raciocínio, caro leitor, e aplique onde você quiser: você verá que faz sentido. Isso vai desde indivíduos (vai dize que ver uma placa de sol em cima de um telhado residencial não é chiquérrimo), até empresas e indústrias, até nações. Tecnologia que salva o verde da natureza tira o verde do seu bolso. Você encara?

Frase 6 – “Consciência ambiental se começa em casa”

Naquelas, né? Como discordar de uma coisa dessas? É verdade, é necessário, sim, ter consciência ambiental nos ambientes domésticos, reduzindo o consumo de água e energia, ou praticando separação de lixo orgânico e material reciclável. O problema é quando tentam te demonizar por não praticar essas coisas quando não te dão possibilidades disso…

Quer um exemplo? Eu tenho um em casa. Meus pais praticam coleta seletiva. Separam, em dois sacos diferentes, o lixo reciclável do lixo de impossível reaproveitamento. Só que tem um pequeno problema: minha cidade não dispõe de coleta pública seletiva. Assim, papai pega seu carro e leva o lixo reciclável pra um ponto de coleta do lado de seu serviço, há cinco quilômetros de casa. Não há ponto de coleta mais próximo.

Ok, não parece um serviço lá muito desgastante, visto que esse ponto de coleta é do lado da empresa onde papai trabalha. Mas e se ele não trabalhasse lá? E se não tivesse carro pra levar todo o volume de lixo gerado? Eu concordo com a máxima que se diz por aí, “quando há vontade dá-se um jeito”, mas não seria papel do Estado ajudar o cidadão comum a ser também ambientalmente correto? Pense numa cidade como São Paulo, a maior e mais ambientalmente degradada do país, onde apenas 15% dos seus quase 12 milhões de habitantes dispõem de caminhões de coleta seletiva, que dá pra entender o tamanho do problema…

É aquela história, caro leitor: a gente até dá menos descarga pra economizar nossos recursos hídricos, e assim a gente puxa menos água do rio, mas se lançarmos ali esgoto sem tratamento (e isso é papel fundamentalmente estatal), inutilizamos e degradamos o rio da mesmíssima forma! Assim, até concordo que educação ambiental começa em casa (pergunto de novo, leitor: puxou o fio do notebook da tomada? Tem bateria, lembra?), mas não pode ser somente isso. Ações governamentais devem sempre ser combinadas. Enquanto isso, continuemos demonizando o cidadão que não separa seu lixo…

Frase 7 – “Deve-se fazer um novo acordo universal para controle dos impactos ambientais”

Pois é, desconfie. É claro que o ideal seria, sim, que houvesse um acordo multilateral, daqueles em que todo mundo desses as mãozinhas e aplaudissem o sol em nome da natureza, mas a grande pergunta a ser tomada é: quem fiscaliza? Ok, dá-se o controle da coisa para um país, ou um grupo de países. E quem fiscaliza esse grupo?

Tome como exemplo, caro leitor, com o que aconteceu em 1995, no tal do Protocolo de Kyoto. Houve, assim como na Rio+20, uma ampla discussão sobre redução de emissão de gases estufa, e uma mais ampla ainda discussão sobre medidas a serem tomadas. Tudo certo, até a hora em que um determinado país (que todos sabem qual), disse: “não assino”. Quais foram as consequências para esse país? Nenhuma! Quem iria punir? E mesmo entre os países que assinaram e se comprometeram com a causa: vários deles não atingiram as metas, e no próximo encontro, não houve bronca, ou esporro, houve a redução das metas!

A questão é bem essa: existe um governo mundial, acima dos poderes nacionais de cada território e cada nação? Não, portanto, um acordo desses serviria para que, se não para apenas dividir o mundo em “quem pode” e “quem não pode” burlá-lo?

Achou ruim? Pega eu!

Frase 8 – “A iniciativa privada tem papel fundamental”

Essa é uma das frases mais perigosas que se usa por aí quando o assunto é consciência ambiental. É fato, a iniciativa privada deve ser um braço essencial para o combate à degradação do meio ambiente e tudo o mais, mas esse pensamento costuma nos fazer pensar que é obrigação da empresa ter essa responsabilidade atraída para si e somente para si.

É fato, caro leitor. Uma empresa sempre será uma empresa, e que, como lhe é natural no sistema de produção capitalista, tem como premissas de funcionamento a busca por lucro. Nenhuma empresa tem consciência ambiental se isso não lhe trouxer algum benefício financeiro, ou de visibilidade (e que portanto se refletirá no financeiro). Portanto, cabe ao Estado fazer com que essa “preocupação ambiental” torne-se financeiramente vantajosa, e a melhor forma de fazer isso é pela fiscalização (bota uma multa pesada na chaminé preta pra ver se ela não fica limpinha rapidinho…), e principalmente pelo incentivo fiscal a empresas com métodos produtivos ecologicamente corretos, sustentáveis (oh, por favor, veja a primeira frase novamente, sim?).

Pensamento verde: você está fazendo isso estranhamente certo

Devo destacar que esse tipo de ação é especialmente promissora em países como o Brasil, que tem naqueles vários I-P ou C-(complete a sigla) um dos principais desafios pra quem quer produzir por aqui. Reduzir um mínimo disso pra quem produz com preocupação ambiental a grande diferença entre suspender operações e prosperar nos negócios.

Frase 9 – “Essa Rio+20 não levará a nada”

Pode até ser, mas mantenha a calma, caro leitor. Muita coisa pode acontecer, e não só no mundo político, onde provavelmente sim, isso não levará a nada. Mas há em ciências humanas um certo grau de imprevisibilidade das ações humanas que faz com que se pense duas vezes antes de cometer a famosa “futurologia nossa de cada dia”. Vai que alguém descobre um jeito barato e lucrativo de conservação ambiental, e assim quebra o embalo daquele probleminha destacado na frase 5, não é?

Ademais, desculpe pela indelicadeza meu caro, mas quem é você pra achar assim, logo de cara, que a coisa vai ser tão ruim?

Tá, desculpa…

Frase 10 – “A indústria é a atividade de maior emissão de poluentes atmosféricos no Brasil”

Quão surpreso você vai ficar se, aqui, eu te disse que nem de longe São Paulo é o estado com maior índice de emissão de gases estufa no Brasil? Longe disso: se você pegar uma imagem de satélite que mostre a concentração de dióxido de carbono em território nacional, verá a região do Mato Grosso e Goiás como principais poluidoras! E não, não estamos falando das indústrias locais, praticamente inexpressivas quando se observa a concentração industrial nacional. Aqui, o maior agente poluidor são as queimadas, praticadas indiscriminadamente para limpeza e preparo de novas áreas agrícolas, especialmente de soja no Brasil.

A ideia da indústria como grande vilã do aquecimento global ainda é bastante difundida, e é claro, faria grande sentido até uns anos atrás. E é claro, qualquer imagem de uma chaminé gigante soltando toneladas de fumaça sempre é chocante, sempre causa espanto. E como essa já é uma ideia bastante difundida, foi justamente nas indústrias que todos os ambientalistas, lá no começo do movimento ambiental, se focaram para combater a emissão de gases estufa, de forma que aquele processo descrito lá na nossa frase 5, de barateamento das tecnologias redutoras de poluição, já é relativamente avançado quando se fala das emissões industriais. É claro que isso não isenta a atividade industrial de seu papel de vilã do aquecimento global, ao contrário, mas pensá-la como uma coisa ainda tão impactante é coisa de quem se impressiona com imagens como essa aí embaixo:

Confesse: dá vontade de afrouxar os parafusos das rodas do carro do dono disso aí, não dá?

E mesmo em cidades como São Paulo, altamente industriais, o maior agente emissor de dióxido de carbono é o veículo. Quem já ficou parado na Marginal Tietê as cinco da tarde sabe bem que respirar ali é praticamente impossível. Então pronto, caro amigo ambientalista de plantão: você tem agora mais um motivo para deixar seu carro bonitinho na garagem e pegar ônibus, trem, metrô. Sem contar, claro, a vantagem financeira de tal atitude e, claro, o estresse dos engarrafamentos constantes das grandes metrópoles brasileiras.

Ok, retiro o que eu disse sobre o estresse.

Frase 11 – “O novo código florestal brasileiro é uma vergonha”

Concordo e discordo. Na verdade, tudo é uma questão de ponto de vista.

O que acontece é que, ao mesmo tempo no Brasil, aconteceram duas coisas absolutamente distintas: a pressão pela conservação ambiental, já que pensar em “verde” no Brasil é uma equação levada ao cubo do quadrado; e a pressão interna e externa pelo desenvolvimento econômico do território. Do primeiro ponto, é óbvio que esse novo código é uma vergonha, mas como pensar num desenvolvimento econômico nacional com zero ou mínimo impacto? Já cometi essa reflexão, duramente criticada por nossos leitores e por amigos que quase me apedrejaram na rua. Eu peço, encarecidamente, que se leia novamente: clique aqui.

 Agora, convenhamos: aprovar um código florestal como esse, no mesmo ano em que se pensa numa conferência mundial sobre o meio ambiente, beira as raias do absurdo, não? Talvez, só talvez, seja a hora de parar de enxergar o Brasil como o “país biblioteca natural”, e encarar o Brasil de outra forma, como um país que também deseja se desenvolver, mesmo com tantos obstáculos naturais e impostos.

Já leu o link que passei anteriormente? Eu recomendo novamente. É que tem a ver com a nossa próxima e última frase.

Frase 12 – “O Brasil é o país do futuro”

Sem a menor sombra de dúvida. Infelizmente, no entanto, não é pelos motivos que todos estão acostumados a dizer por aí, que é falar da crescente economia nacional, ou da conservação ambiental, ou de qualquer outra pataquada dessas…

Se me permite, caro leitor, melhorarei a frase para que, aí sim, ela fique repleta de sentido: “o Brasil não é o país do futuro, é o país onde o futuro chegará mais cedo”. Não entendeu? Pense em alguns fatores: extensa área florestal (leia-se, extenso “laboratório de experimentos ambientais”), fiscalização totalmente frouxa, e pressão política das nações mais poderosas para que sejam tomadas medidas de contenção da degradação natural.

Junta-se a isso a infinidade de órgãos e empresas multinacionais dos mais diversos ramos, desde farmacêuticos até construtoras sedentas por grandes obras, e você tem no Brasil a explosão daquelas pesquisas internacionais com a pele do sapo vermelho (que nem sempre se tem certeza sobre os procedimentos de aquisição de matéria prima, diga-se), e uma infinidade de usinas hidrelétricas em cada córrego amazônico (que, em se tratando de Amazônia, um “córrego” é aquele rio que quase não se vê a outra margem.

Duvida? Lembre-se de mais um fator essencial para esta reflexão: os grandes eventos, uma supercrescente demanda de energia elétrica e outros quesitos de infra-estrutura nacional. E agora, se convenceu?

É simples, caro amigo. Como dito anteriormente, NADA passa por cima de outros interesses mais específico e, digamos, menos ambientalistas, como o desenvolvimento econômico (e o código florestal está aí pra provar exatamente isso) e das multinacionais, presentes no Brasil sabe-se lá Deus desde quando. E é por isso que o Brasil, sim, é o país do futuro. Pelo menos é o país que ainda vai proporcionar o futuro pra muita gente, eu acho, e não necessariamente esse futuro vai ser “verde”…

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E aí amigão, já consegue dominar uma conversa sobre ecologia e meio ambiente? Se prepare, meu caro: em breve elas começarão em muitos lugares por aí, se é que já não começaram. Ah, lembre-se sempre: existe ali um botão que te permite comentar este texto, portanto use: critique, elogie, se oponha. Aqui, o espaço é livre, mesmo que seja para começar mais uma interminável discussão de cunho ambiental.

E para estes que já sentiram essa “onda filosófica” do ambientalismo barato vingando por aí, sintam-se a vontade para usar também  os comentários para sugerir mais frases que já ouviram a exaustão nesses últimos dias. Vai que esse especial Rio+20 ganhe em breve uma “parte 2″…

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