Crônicas de um país sem sobrenome

Caro leitor amigo, o perfeito padrão do médio brasileiro, aquele que trabalha ou estuda a semana inteira e vai pra farra de sábado. Responda rápido: o que você faz de domingo de manhã? Pelo menos em minha casa, o domingo de manhã é o dia sagrado do descanso. É o dia em que você pode ficar na cama até 10, 11, 12 horas sem vergonha de ser feliz. E quem não respeita esse direito sagrado do brasileiro, ao meu ver, comete um verdadeiro crime contra a paz e a ordem: deve ir pra cadeia! Pelo menos deveria ser assim, o descanso de domingo deveria ser sacramentado. E era, até umas semanas atrás. Começou: ela, a campanha eleitoral.

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A cada quatro anos, na grande maioria das cidades brasileiras, é decretado que o domingo de manhã é dia de comício, acompanhado sempre (repito: sempre) de interminável queima de fogos e caminhão de som, com algum locutor de rodeio desempregado mandando abraço pra cada desconhecido na fila da padaria – nem te conheço, mas que o bairro todo saiba que “seu amigão” candidato fulano de tal te manda um abraço – e seguido por uma tropa de carros e mais carros de “eleitores” – não que você conheça algum deles na sua cidade, mas se perguntar a cada um deles, todos dirão ser de algum bairro de sua cidade. Mas pergunte rápido, já que o bonde vai andando. E, por que não, atravesse a rua rápido: não dá pra confiar totalmente na sobriedade dos membros do comboio. E aumente o volume de sua TV ao chegar em casa: vai ser difícil ouvir o Esporte Espetacular na próxima sessão interminável dos fogos de domingo.

Não precisa de uma foto de uma aliança tão revoltante quanto imprevisível para que se note, caro amigo, que algo anda muito errado nessas eleições. Nessas eleições não, em todas as eleições. Especialmente as de prefeito e vereador, independentemente de qual seja o seu canto nesse país tropical abençoado por Deus – e só por Deus mesmo, que a coisa anda feia. O que você vê no comício da sua cidade? Eles vêem uma festa, um domingo de sol cercado de mulheres bonitas de camisetas com rosto e nome (e claro, número) de alguém que você nunca viu, nunca cumprimentou, mas certamente já ouviu muito falar. Eu vejo outra coisa.

Vejo ali o horror. Eu vejo ali a continuidade de um processo antiquíssimo (de novo: independente de onde você esteja) de pseudo-renovação de um poder muito velho. O que existe são nomes diferentes que representam dois lados absolutamente imutáveis há muito tempo. É sempre elas: a direita e a esquerda. Ou algo que se assemelha bastante ao que chamávamos de direita e esquerda. Partido X ou partido Y, duas “coligações” – Frankensteins de várias ideologias e, portanto, sem ideologia alguma.  Coligações personificadas, ao menos temporariamente, em fulano ou ciclano. E provavelmente você já os viu em outros cargos completamente diferentes uns anos atrás. Você lembra o nome, não a função. Há quatro anos atrás, a figura carimbada deste candidato queria ser vereador – diga-se, preferencialmente pela “chapa” do prefeito fulano de tal: ao que parece, um vereador “funciona melhor” sob a égide de um determinado prefeito. Hoje, após intensa dança entre partidos (dança de ideologias?), o cara quer ser o próprio prefeito, no lugar do fulano de tal. O que isso quer dizer? O cara não sabia quais eram as funções do vereador? Seus quatro anos no legislativo foram apenas um trampolim? Como alguém troca de ideologia duas, três, quatro vezes em apenas m mandato? Política hoje ainda é aquela tarefa bonita de servir a população? Ou agora é só um plano de carreira?

Sim, eu sei, você dirá que fui chato demais no parágrafo anterior. Todo mundo tem o direito divino de mudar de ideia, afinal. A vida e o facebook – pra muitos a mesma coisa – valorizam nas pessoas o hábito de buscar novas experiências: quem sou eu para criticar? Só não dá pra esquecer que, enquanto os eleitos X e Y pensam nos rumos a serem tomados em sua carreira política, a sociedade continua acumulando seus problemas, sem esperar as decisões eleitorais de X e Y. Tomadas as decisões, analisemos portanto o plano de carreira de cada um: horário eleitoral gratuito. E quem não desliga a TV, vê um programa em que perdem-se segundos valiosíssimos (alô Maluf! Alô Lula! Nós entendemos a ideia, viu?), muito mais com críticas ao adversário que com programas de governo. Eles não querem sua simpatia, meu caro. Querem a sua antipatia com o outro. E claro, isso você conhece: certamente já terá visto o governo do outro, já que esse troço nunca muda mesmo. Isso é um serviço público ou um reality show?

Daí você diz caro leitor: “não, o outro nunca foi prefeito de minha cidade”. Pense novamente. O rosto do “outro candidato que você passou a odiar após o programa eleitoral” certamente lhe é familiar. É um nome conhecido – e os partidos políticos escolhem seus candidatos não por suas possíveis habilidades no cargo almejado, mas pela sua capacidade de ter memorizado o nome do sujeito em tempos passados. Esse “outro”, que as vezes até tem a coragem de dizer ser “sangue novo” na política brasileira, já foi certamente algum secretário de obras, ou diretor de marketing, ou acessor de qualquer coisa. Procure: ele vai dizer que isso é “ter experiência no meio político”. Há quatro anos atrás, você via um comício com outro rosto sorridente de frente, mas pegue as fotos e repare nos rostos mais ao fundo: ele estava lá! Sempre esteve! E a política virou um “meio”, onde pelas ideias dele, aparentemente, já ter pertencido a esse “meio” te dá bagagem pra assumir todo e qualquer cargo no poder público…

E é claro, o tipo mais bizarro de política que se faz no Brasil: há um rosto novo no palanque, e você finalmente respira aliviado – parece uma renovação. Você entra no comício (na verdade, o comício é que vai até você), pega um santinho. Foto: uma pessoa jovem e bonita, e um sobrenome que, novamente, lhe é muito familiar. O pai está sujo na praça: assume o filho, a esposa – aquele abraço, Cajamar! -, o sobrinho – aquele abraço novamente, Cajamar! -, o irmão – Cajamar de novo? SIM! -, e assim por diante. A democracia de hoje consagra o nepotismo. A democracia de hoje cria famílias inteiras de poderosos. A democracia cria verdadeiras famílias reais, tudo dentro dos meios democráticos. A democracia cria impérios! Imagino daqui como seria a politicagem de qualquer cidade Brasil afora se não houvesse a obrigatoriedade da eleição democrática. E se não fosse o eleitor a selecionar seus representantes?

E esse eleitor – é, você – por que afinal ainda faz isso? Simples: você não pode fazer mais nada. É fato, colocam nas mãos do eleitor indignado uma gama de possibilidades que, na verdade, são mais placebos que reais. Quando 30, 40, até 50% da sua população está intrinsecamente ligada, enraizada em cargos públicos que dependem do famigerado “quem é o prefeito” pra continuar existindo, esse cara que ocupa esse cargo ftalmente será um dos motoristas semi-embriagados do comício de domingo. Seu voto já é garantido. E do outro lado, todo um esquema para enlace de outros eleitores desempregados nesses mesmos cargos públicos já está totalmente montado. E assim, perde-se outros mais 30, 40 ou 50% dos eleitores de sua cidade. Faça as contas, caro amigo: mais da metade dos votos de sua cidade já estão totalmente computados para a perpetuação de todas essas nojices que existem, e muito, por aí! Só não vê quem não quer, só não vê quem ainda insiste em votar nulo, ou praticamente anula seu voto dando-o para o “candidato-porcentagem-traço” do partido “peixe-pequeno-de-extrema-esquerda”. Você vai dormir tranquilo consigo mesmo, mas (desculpe ser eu a te dizer) não haverá mudança alguma em sua cidade. Infelizmente. Uma pena.

É claro, caro amigo, que eu sou completamente a favor de a população ter, sim, mais consciência de todo o processo eleitoral, do que de fato é importante para o desenvolvimento de sua cidade e a satisfação de sua população. Não consigo, no entanto, culpar o eleitor alienado há semanas, meses, fissurado pela final da Libertadores. Uma hora cansa. Não há quem resista engajado por uma causa política quando, passam-se períodos e mais períodos de quatro anos, nada muda. Ao contrário, enraízam-se pessoas, grupos e famílias no poder, e impressionante, tudo dentro do manto da democracia. Dane-se tudo, eu também quero ver a Libertadores. Eu também quero perder a semana, o mês todo deslumbrado com meu time. E é por isso que, infelizmente, lamentavelmente, devo resumir meus comentários sobre a política das eleições municipais a apenas isso: “caro futuro (ou não) candidato vencedor, por favor, criminalize o uso de rojões aos domingos de manhã, e me deixem ao menos exercer meu direito sagrado de dormir até tarde. Quem fizer essa promessa já ganha meu voto”. Julgue-me a vontade, caro (e)leitor: não me importo. Eu troquei meu voto por uma causa individual. Eu vendi meu voto. Não é sempre assim?

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