Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para julho, 2012

“Joga com o pé, filho”: canecas de merenda, curling, imediatismo e as Olimpíadas de 2012

Uma pergunta, amigos: como vocês acham que será o desempenho da delegação brasileira nas Olimpíadas de 2012, prestes a começar? Em qual posição ficará o Brasil no quadro de medalhas?

Permitam-me contar-lhes uma história. Estava indo ontem para Jundiaí, esperando o ônibus no ponto da bela e bucólica pracinha central de minha cidade. Entre vendedores de pipoca, árvores, flores e crianças correndo, chamou-me a atenção um rapaz, aparentemente bastante jovem, brincando com seu filho pequeno, naquela idade gostosa em que a criança anda com sérias dificuldades pelo enorme volume da fralda dentro das calças. Eles chutavam uma bola: devagarzinho, o pai empurrava a bola pros pés do filho, esperando um chute de volta, que certamente viria fraco e torto mas arrancaria enormes sorrisos.

Auge da idade da curiosidade, no entanto, o menininho, na maior das naturalidades, repetidamente se abaixava e pegava com as mãos a relativamente enorme bola, e jogava para seu pai com a precisão que se espera de um garotinho daquela idade. E a coisa degringolou aí. Cada vez mais decepcionado, o pai bronqueava carinhosamente o pequeno a cada arremesso manual: “chuta filho, chuta”. E pouco antes de meu ônibus chegar, profana a frase que disparou o raciocínio todo que desenvolverei daqui pra frente:

“Joga com o pé, filho: esse negócio de jogar bola com a mão não é coisa de homenzinho não”

Antes que me perguntem: não, amigos, não bati boca com ninguém. Eu, basqueteiro convicto, “não-gostador” confesso de futebol (e heterossexual, diga-se de passagem), apenas dei um sorriso pra dentro. Que adiantaria afinal esboçar qualquer conversa com o pai sobre esse absurdo “estereótipo esportivo” que, assim como tantos outros estereótipos, já são tão arraigados na nossa sociedade? Teria tempo de argumentar até a passagem do meu ônibus? Constatei que não, mas durante a viagem, tive a certeza que, no ideário da grande maioria dos brasileiros padrão, o rapaz estaria certo. Seu pai o ensinou assim. Seu avô ensinou seu pai assim. Todos seus possíveis irmãos aprenderam assim. Todos seus amiguinhos da mesma rua ouviram coisas assim. Todos da sua escola pensavam assim. Não há como brigar: o Brasil é, de longe, um país absolutamente monogâmico quando o assunto é esporte.

Isso estava rodando pelo facebook hoje. E não, o contexto não era uma crítica.

Seria muita pretensão de minha parte aqui, caro leitor, tentar esboçar qualquer linha do tempo que mostrasse de onde surgiu essa fissura toda do brasileiro padrão pelo futebol, fissura tal que confunde cotidianamente modalidades esportivas com a sexualidade alheia. Eu consigo, no entanto, apontar alguns fatores importantes que contribuem para a consolidação desse cenário. E espero que aqueles que me conhecem pessoalmente acreditem em mim quando digo: o farei totalmente isento de rancores de certas experiências que, direta ou indiretamente, o futebol proporcionou em minha vida, desde isolamento social até questionamentos sobre minha sexualidade.

De cara, aponto nossa velha e chata cultura por resultados. O brasileiro cresceu ouvindo sobre feitos impressionantes das seleções do meio do século. Presenciou duas, três, quatro Copas do Mundo onde o Brasil saiu vitorioso, e cantou o hino, e se emocionou, e chorou. Acostumou-se a ver o Brasil sempre em posições de destaque no ranking da FIFA. Acostumou-se a ver incontáveis jogadores chegarem ao auge do futebol, e serem premiados uma, duas, três vezes como melhores jogadores do mundo.  O futebol dá resultados, e resultados emocionam, criam heróis inspiradores, copiados à exaustão nos mínimos detalhes, como músicas, gírias, cortes de cabelo. Você não vê esses resultados em quase nenhum outro esporte, caro leitor. E por isso, você não dá a mínima. Você quer coisas concretas, conquistas, vitórias. Exagero? Não acho. E por sinal, o prefeito de sua cidade desesperado por reeleição também não (#fikdik). Se ainda não acredita, basta pensar no seu gosto por outros esportes já antes consagrados no Brasil: você ainda acompanha a Fórmula 1 depois da morte do Ayrton Senna? Você continuou interessado por tênis depois da aposentadoria do Guga?

Admita: você chorou junto.

Sim, a TV não passa mais jogos de tênis depois da aposentadoria do Guga. E isso nos leva ao fator 2 de toda essa discussão: a mídia. Desculpe ser eu a te dizer, caro amigo, mas você assiste e aprende a gostar de qualquer coisa que passar. Confesse: você não gostou de vôlei a sua vida toda, você começou a despertar seu gosto por vôlei depois que o Esporte Espetacular passou a transmitir os jogos da seleção ao vivo. A mídia sabe disso, caro amigo. E as vezes faz algumas apostas audaciosas, que podem dar errado (como no caso da Liga Nacional de Vôlei que a Globo transmitiu no começo do ano), mas que podem dar improvável e absurdamente certo, criando até mesmo mini-paixonites-agudas completamente inusitadas.

… e bota inusitadas nisso!

Dá pra culpar a mídia por esse cenário tão bizarro? Não.  A imprensa pode ser culpada de mais do que ela mesma imagina, mas não é esse o caso. Os veículos de informação nunca deixaram de antes de mais nada serem empresas, que por sua vez precisam de lucro, que por sua vez vem de patrocinadores, que por sua vez os procuram pelo tal ibope. E embora algumas vezes seja tentador realizar apostas ousadas como transmitir curling em horário nobre, toda e qualquer emissora de rádio e TV sabe que existe, sim, uma fórmula milagrosa de obtenção dos valiosos pontos de audiência: o futebol, que agrega crianças e adultos, pobres e ricos, na frente da mesma TV, ou nos mesmos movimentos corporais de final de semana.

E é aí que entra o pulo do gato em toda essa discussão, caro leitor. Reflita: em se tratando de movimentação corporal, ou de adrenalina, ou espírito de equipe, no que o futebol afinal se difere dos demais esportes coletivos, que nem de longe tem o mesmo glamour social? A única resposta plausível para essa pergunta é: o futebol pode ser praticado em qualquer lugar, a baixo custo. Dê ao menino duas pedras e uma bola de meia: ele cria um campinho e joga futebol! Jogue ao chão uma caneca de merenda usada: ali está uma bola de futebol! A bola de meia ou a caneca da merenda não quicam no chão (algo necessário pro basquete e pro handebol), a mão doerá se você tentar uma manchete. Nem sempre um varal faz função de rede, nem sempre um cesto de lixo faz função de cesta! Eis o segredo do futebol, caros amigos: não dá trabalho jogar futebol, qualquer pessoa pode jogar com qualquer (atenção a essa palavra) infra-estrutura!

“Por que afinal isso é um problema?” – você deve estar se perguntando. Eu respondo com outra pergunta, amigo: quantas quadras públicas de outros esportes que não o futebol existem na sua cidade? Devem contar aqui apenas aquelas que tem 100% disponível ao usuário todo o equipamento necessário: bolas próprias para aquele esporte, redes, cestas, traçado do chão. Captou o lance da falta de infra-estrutura? O problema está no fato de que você paga pra que ela exista! Pode procurar, amigo: sua cidade tem uma Secretaria dos Esportes, que recebe mesmo uma porcentagem significativa da renda municipal, e que continua te fazendo pagar para alugar uma quadra (de futebol, evidentemente), ou jogar na rua com duas pedras e uma caneca de merenda! E que aqueles que como eu não gostam desse que, analisando friamente, é somente mais um esporte: prepare o bolso, jogar de graça é impossível. Ah, e aguente as várias piadas e questionamentos sobre sua vida sexual.

Amigos, a coisa ainda vai mais além. Você paga seus impostos para que o professor de Educação Física abandone seu hábito esquisito de jogar uma bola de futebol dentro da quadra e deixar as crianças se degladiarem sozinhas (embora saibamos que a culpa não é exatamente dele). Nem mesmo a escola tem equipamentos para o futuro ginasta olímpico treinar, o jovem com aptidão para ginástica olímpica tem que treinar com o apoio financeiro familiar para bancar seus treinos em academias particulares. Os irmãos Hipólyto são exceção sim, destaques nacionais em um esporte sem qualquer tradição no Brasil, mas são exceção não só pelo poli-dourado talento esportivo, são também pela possibilidade de bancar seus próprios primeiros passos no esporte desde crianças. Mérito dos pais, não somente dos caras em si. Ou alguém acha coincidência que talentos natos em outros esportes que não o futebol são cada vez mais raros e com sobrenomes (Murer? Cielo? Hipólyto? Maggi?) cada vez mais “classe alta”?

Ou se você se mostrar um GÊNIO da maratona correndo atrás do caminhão do lixo (Solonei Rocha, ex-gari, maratonista revelação do Brasil)

E o curioso é que, dentre as poucas certezas inquestionáveis que temos no pós-Olimpíadas de Londres, qualquer medalhista de ouro (e tem que ser de ouro, ninguém quer saber de segundo colocado) será recebido com honras no Palácio do Planalto pela própria presidenta, como se o Brasil tivesse um governo que apóia incondicionalmente os esportistas da nação. E é por essas e outras que não dá pra criticar com tanto afinco atletas como Maybyner Rodney Hilário (nunca ouviu falar, né? “Esse cara” é só o melhor jogador brasileiro de basquete da atualidade) que se recusou no passado a defender o escudo nacional: o treino do cara é e sempre foi pelas próprias contas, o governo em qualquer escala nunca incentivou seu esporte, a sociedade diz que ele pratica esportes “que não são coisa de homenzinho”, e se houver derrota, ele será desprezado e exaustivamente criticado. Mas a vitória é “dubrasil”?

Encerro esse já longuíssimo texto perguntando novamente, caros amigos: como vocês acham que será o desempenho da delegação brasileira nas Olimpíadas de 2012, prestes a começar? Em qual posição ficará o Brasil no quadro de medalhas? A depender das minhas previsões (e eu torço muito para estar errado, diga-se), teremos novamente uma posição bastante baixa no quadro. Um ou outro ouro já manjado de algum sobrenome chique, uma ou outra surpresa aqui e acolá (a quem interessar possa, o André Celarino do “O Metafísico” foi ótimo ao falar das chances do basquete brasileiro aqui). Pratas e bronzes, nem contabilizo. Mas a minha dica maior é: que as Olimpíadas de Londres não sejam apenas um treino para o que o Rio de Janeiro espera daqui há quatro anos, apenas do ponto de vista da infra-estrutura megalomaníaca que um jogo olímpico necessita (a gente já falou disso por aqui). Que se treine também uma cultura de prática de esportes diversificados, pra que mais gente pratique esportes em nossa sociedade, sem culpa, sem piadas.

A campanha eleitoral está aí, cobre de seus candidatos, esporte é saúde, e precisa ser discutido de forma mais efetiva que o manjado “cada tijolo do estádio é um posto de saúde a menos”. Se isso ainda não te convenceu, que seja ao menos para que tenhamos um quadro de medalhas melhorzinho em 2016, e não dependamos (emocionalmente) somente dos resultados das seleções olímpicas de futebol…

As olimpíadas de Londres começam oficialmente nessa sexta feira. Se quiser, fique a vontade para dar seus palpites sobre a atuação da delegação brasileira nos comentários. Bom divertimento!

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Assistencialismo: cobertura ou injustiça social?

Autor: Thiago Pimenta*

Antes de qualquer coisa, que fique registrado que este é um desabafo de alguém com vivência diária dos meandros desses programas e que este alguém considera não só o governo, mas a população como um todo, responsável pela falácia que é o Brasil.

Quem nunca se perguntou: para onde vão os impostos pagos anualmente ao governo? Claro, deixemos de lado a corrupção que assola a politicagem brasileira e falemos do que o Governo orgulhosamente nos apresenta. Bolsa Família, Brasil Carinhoso e outros programas assistencialistas que são amplamente divulgados e formam a base eleitoral do governo nos últimos anos. Fácil ver, sempre tem um artista ou outro na televisão apontando o bem que esses programas fazem. Programa “Brasil Sem Miséria”, o nome é elegante, quase me faz chorar, mas deveria ser alterado para “Brasil Que Sustenta a Miséria”. Estupefato? Vamos lá, vou explicar…

Para quem não sabe, esses programas não têm um período estabelecido de permanência. Basta dizer (isso mesmo dizer, declarar, fingir que) que não tem grana todo mês e a família continua em um programa desse tipo. Não está vinculado a qualquer programa de oferta de emprego, portanto,
ninguém precisa procurar emprego. O Bolsa Família, carro chefe desses programas, ainda tem alguma coisa de oferta de curso profissionalizante que raramente é oferecido e a população não faz com medo de perder a boquinha: sim, as pessoas acham que se o governo souber que elas têm uma profissão e que podem trabalhar, perderão o beneficio. E sim, as pessoas estão erradas: elas podem fazer os cursos, adquirir uma profissão e, ainda assim, continuar no programa sem procurar nenhum emprego. Lindo não?

Outro detalhe importante: para uma família de 4 pessoas com 1 salário mínimo de renda mensal e tendo de pagar aluguel, água, luz, alimentação e outros gastos necessários à sobrevivência diária (e concordemos aqui, essa família está numa situação difícil) nada terá de beneficio. Isso mesmo, querido leitor, se alguém na família trabalha, pode esquecer.

Assim, precisamos avaliar: o quanto esses programas são úteis para “erradicação da miséria e da pobreza” ou o quanto eles estão sustentando a miséria no Brasil? Que “justiça social” (cobertura de direitos básicos do ser humano, é como as assistentes sociais definem) é essa que privilegia a vadiagem e relega o trabalhador?

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* – Thiago Pimenta tem 27 anos, é geógrafo formado pela Unicamp e trabalha com o atendimento do Cadastro Único Federal há 3 anos. Diariamente lida com as mentiras que o povo conta – “desculpem o jargão, não resisti” – população e governo – “qualquer das instâncias”.

→ As opiniões aqui mostradas são de inteira responsabilidade do autor do texto em questão, e não necessariamente coadunam com a opinião dos autores do BdQ sobre o tema proposto.

Especial de férias: 10 pontos turísticos que pediram pra dar errado

Bom dia leitores! Depois de um certo tempo de total falta de criatividade ocupações extra-vida-de blogueiro, é novamente um prazer estar aqui, agora, fazendo novas linhas para o BdQ. E aproveitando as férias escolares, ao menos o período pré-olimpíadas de Londres que não te deixará sair de frente da TV curtindo saltos ornamentais, falemos aqui de turismo. Que tal? Diferente, né?

Se a gente fala de turismo no Brasil, há que se pensar nos vários tipos de turismo, certo? Já que não contestamos de forma alguma as belezas naturais incríveis do nosso país, analisamos aqui dez pontos turísticos “criados pelo homem” pra atrair ainda mais gente pra terras tupiniquins. Só que nenhum deles parece dar muito certo, e você vai entender os porquês disso mais abaixo.

Relaxe. Não é disso que estamos falando.

Uma notinha prévia. Assim como você, eu também não sou filho do Eike Batista, e é por isso que não, eu não visitei todos esses lugares, e portanto sim, eu estou falando sem conhecer. Se Deus e meu salário permitir eu ainda completarei essa lista, mas por enquanto conheço apenas seis desses pontos. Se o fato de eu não conhecer o que estou falando te representa um problema, caro amigo, recomendo fechar ali em cima a aba do BdQ. Aproveite e feche também aquela ali das críticas de moda que eu sei que você está lendo, a aba dos jornais, das revistas, e tire a tarde para excluir mais da metade do seus amigos do facebook…

10 – Holambra

Onde fica? Interior de SP, ali pela Mogi-Campinas

O que é? Uma cidade holandesa do interior que produz flor até a tampa e que faz uma vez por ano faz uma festa das flores cheia de mulheres deslumbradas e maridos enjoados

Por que não dá certo? Porque uma coisa é você visitar o pavilhão da Expoflora nos dias da festa, e outra coisa é visitar a cidade em um dia comum. Acredite, caro amigo: as ruas da cidade não são feitas de orquídeas, os tijolos não são feitos de galhos de azaléia e não chove pétalas de rosa o ano todo! Ao contrário, Holambra fora da época da festa é uma cidade do interior até das bastante comuns, com o bônus da arquitetura holandesa obrigatória e as placas de trânsito em forma de tulipa. Bacana, mas não acho que apenas isso valha uma visita: volte na Expoflora do ano que vem, pegue (pague) um dos passeios turísticos e tá tudo lindo!

Pronto, você já conhece Holambra. Pode ir embora.

9 – Museuzinho da cidade da sua tia-avó

Onde fica? No Brasil inteiro, em qualquer cidade com menos de cinco linhas de ônibus

O que é? Um casarão velho e mal conservado com umas bugigangas dentro e uma placa na porta com algo do tipo “Casa da Memória Itapetininguense” ou “Museu da Cultura Pindamonhangabana”

Por que não dá certo? Porque no Brasil se tem uma chata mania de achar que tudo (repito: tu-do) que é velho tem história, e vai por mim: não é bem assim! Não que a cidade da sua tia-avó não tenha uma história bacana, pode até ter (e a maioria dessas cidadezinhas tem algo legal pra ser contado), mas achar que você vai entendê-la observando uma caixa registradora velha e um ferro de passar roupas a carvão numa caixa de vidro (dizeres ao lado em “arial tamanho menos dois” opcional), aí já é demais. A cidade gasta uma nota pra fazer seu museu e deixa de contratar um, apenas um guia turístico. Show!

Interessante, né?

8 – Elevador Lacerda

Onde fica? Salvador, meu rei.

O que é? Um elevador!

Por que não dá certo? Visualize. Você está de férias, viaja até a primeira capital do Brasil, cidade de gente bonita que além de transpirar história ainda tem praia! De cima da serra, você dá de cara com uma paisagem absurdamente linda do mar. No pique das férias e fuga de qualquer encontro com a sua realidade, você aborda um baiano local e pergunta: “como eu chego lá”? Cara, é férias! Você espera uma resposta emocionante, um “segue aquela trilha”, ou “pega o ônibus tal” (sim, eu gosto de andar de ônibus em cidades desconhecidas). Você não estranharia nem que o cara olhasse pra você e dissesse “pule”! Mas não: o baiano, com toda a sua pressa característica, olha pra você e diz: “pegue o elevador”. E você, de férias, ainda paga pra ser feliz fazendo apenas isso: descer um elevador! Ok, é um elevador antigo (e como a gente já viu, tudo que é antigo é legal), mas continua sendo só isso: um elevador!

Ok, essa é a sua família. Agora faz sentido. Desculpa!

7 – Campos do Jordão

Onde fica? Interior de SP, na Serra da Mantiqueira (achava que era na Suíça, né? Ráááá!).

O que é? Uma cidade onde faz frio.

Por que não dá certo? Porque independente do seu “gosto térmico” duvidoso e da sua vontade de se sentir um pinguim num fiórde da Noruega, esculhambaram Campos do Jordão a ponto de um cafézinho de padoca custar quase a sua passagem de volta pra casa! Ok, você me diz que esse não é o maior atrativo da cidade, mas que na verdade os preços altos fazem a cidade ser “point” de gente rica (e consequentemente bonita), mas quem consegue ainda ficar bonito debaixo de 45.697 agasalhos?

Sexy.

6 – Ver-o-Peso

Onde fica? Belém do Pará.

O que é? Uma feira gigante.

Por que não dá certo? Convenhamos: o Ver-o-Peso pode ser um ponto importante para a economia e a sociedade de Belém e tudo o mais, até aí eu não discordo. Mas chamar aquilo de ponto turístico? Por que raios você, turista de alguma cidade importante do sudeste brasileiro, quereria viajar quatro mil quilômetros pra uma cidade super quente e úmida para ver uma 25 de março gigante e com cheiro de mangue? Ok, é uma 25 de março gigante mas também exótica, de produtos da selva e ervas medicinais e tudo o mais, mas quando você percebe que não faz ideia que troço é aquele que o tiozinho com cara de boto-cor-de-rosa está te vendendo, acaba voltando com 3 DVDs piratas e uma bolsa de palha. Tudo o que você acharia facilmente… na 25 de março!

E entre tucupi, tucumã, tacacá e pirarucu, vai de misto quente mesmo que é pra evitar a diarréia.

5 – Estação da Luz

Onde fica? São Paulo City meu, no Centro.

O que é? Uma estação de trem.

Por que não dá certo? Tá, de forma alguma alguém pode questionar o valor histórico-arquitetônico-cultural-patrimonial-renascentista-filosófico-e-de-vanguarda da Estação da Luz. Só que não dá pra enfiar goela abaixo de qualquer turista que passe por SP a idéia de que será algo agradável conhecer a Estação da Luz, e o motivo é bastante óbvio:

Não dá pra contemplar o material do piso.

4 – Cataratas do Iguaçu

Onde fica? Foz do Iguaçu, na PQP do território do Paraná.

O que é? O segundo maior complexo de cachoeiras do mundo.

Por que não dá certo? Você pensa, caro leitor: “um momento, você disse que não analisaria pontos turísticos naturais”, e você tem razão. Mas não há nada mais idiota que aquele “guia credenciado” apontando uma cachoeira lá no extremo horizonte e soltando aquele “ali é Argentina, ali é Paraguai”… tipo, as cachoeiras são realmente lindas, mas porra, elas são todas iguais! E daí que aquela ali é argentina e aquela outra ali é paraguaia? E combinemos: depois de sair de lá encharcado e potencializando aquele friozinho paranaense congelando sua glande, a parte mais legal do passeio é voltar ao hotel, tomar um bom banho e, finalmente, cruzar a ponte e comprar muamba no Paraguai. Porque ninguém vai pra Foz sem “dar um pulinho” no Paraguai. Quem precisa da segunda maior cachoeira do mundo quando se tem isso aí embaixo?

Original! E por R$1,99!

3 – Cristo Redentor

Onde fica? Ah, você sabe.

O que é? Na teoria, é uma das novas sete maravilhas do mundo. Ou o maior cartão postal do país-tropical-abençoado-por-Deus-e-bonito-por-natureza. Na prática é só uma estátua de Cristo em cima de um morro.

Por que não dá certo? “Herege!”, alguns dirão em fúria. A maior heresia dessa lista é talvez o maior clichê turístico brasileiro, talvez mundial! Confesso, de verdade: nunca entendi qual a graça de subir o Corcovado. O Rio de Janeiro é a segunda maior cidade do Brasil, cercado pelos mais diversos programas de todos os tipos possíveis e imagináveis, mas nenhuma visita ao Rio é digna de reconhecimento sem subir o Corcovado! Por que? É pela estátua em cima do morro olhando pra cidade? Até Poços de Caldas tem uma dessas! É pela i-ne-vi-tá-vel foto de braços abertos na frente do Cristo? Nada pode ser mais cafona, caro amigo. Sobra o que? A maravilhosa paisagem do Rio de Janeiro, de fato muito linda e tal, mas absurdamente conhecida de cada brasileiro que já tenha ligado a TV ao menos uma só vez nesses últimos 60 anos!

Turista São Tomé: tem que ver para crer.

2 – Esplanada dos Ministérios

Onde fica? ahn… em Brasília?

O que é? Uma praça gigante com um monte de prédios idênticos em volta e dois pratos, um pra cima e um pra baixo. Já sacou, né?

Por que não dá certo? Porque a única graça do troço todo é ter sido desenhada pelo Niemeyer. Sim, essa é a única graça! A praça é menor do que parece pela TV, você não pode entrar em lugar nenhum, sem contar aquela imersão no ódio que sempre rola quando se está num lugar de gente bacana como aquele. Tudo isso com este gostoso clima mauritânico de Brasília. E de noite, quando então você acha que aproveitará alguma coisa da cidade, dá de cara com um lugar muito parecido com qualquer outra cidade grande brasileira, mas com gente mal encarada, seis faixas em cada rua, nenhuma calçada, e endereços que mais parecem barra de programação de HTML: seu hotel fica na Rua Q4C2D4F69…

Tem quem se sinta em casa. Não é meu caso.

1 – Ponte Estaiada

Onde fica? São Paulo, Marginal Pinheiros com a Roberto Marinho

O que é? Uma ponte. Ou o cenário do SPTV.

Por que não dá certo? Meu preferido nessa lista. A Ponte Estaiada é uma das maiores aberrações da história das políticas públicas brasileiras. A ideia mais furada do planeta. Uma ponte, caríssima, demoradíssima pra ser construída, e que só depois de pronta é que se percebeu que não havia tanta demanda assim para uma obra tão faraônica. Pelo menos fica o cartão postal, certo? Errado! Ela também é menor do que parece pela TV e nem dá a emoção de um balancinho de leve, só pra que se lembre estar numa ponte. Sem contar os inúmeros casos de “comemoração disso ou daquilo” em que se troca a iluminação noturna da Estaiada, e os holofotes coloridos são roubados de madrugada. Lindo! Além disso, ou se passa muito rápido por ela (o que não ajuda na observação dos detalhes arquitetônicos ultramodernistas da ponte), ou muito devagar (trânsito: é SP, lembra?), aproveitando aquele delicioso aroma do Rio Pinheiros após 10 dias sem chuva.

Acredite: não é a beleza do cenário que deixa o César Tralli tão feliz. É a existência do vidro.

É claro, caros leitores, que a essa altura do campeonato esperamos que cada um de vocês entendam que a ideia maior desse post é justamente aloprar uma parte da estrutura turística nacional com uma pitada de humor. Entendeu? HUMOR! E é justamente por isso recomendamos que se apoie, sim, o desenvolvimento do turismo no Brasil, ainda mais com tanto potencial histórico e natural que existe por aqui. Que muitas cidades por aí afora queiram investir mais na atividade turística, que parece sempre relegada a uma prioridade inferior em muitos casos, e que por isso apresenta certos problemas estruturais de relativa facilidade de serem consertados, aprimorados. Todo o sucesso do mundo para as cidades turísticas, poxa! Por fim, ficam dados os toques: escolha seu paradeiro e boas férias!

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