Crônicas de um país sem sobrenome

Bom dia leitores! Depois de um certo tempo de total falta de criatividade ocupações extra-vida-de blogueiro, é novamente um prazer estar aqui, agora, fazendo novas linhas para o BdQ. E aproveitando as férias escolares, ao menos o período pré-olimpíadas de Londres que não te deixará sair de frente da TV curtindo saltos ornamentais, falemos aqui de turismo. Que tal? Diferente, né?

Se a gente fala de turismo no Brasil, há que se pensar nos vários tipos de turismo, certo? Já que não contestamos de forma alguma as belezas naturais incríveis do nosso país, analisamos aqui dez pontos turísticos “criados pelo homem” pra atrair ainda mais gente pra terras tupiniquins. Só que nenhum deles parece dar muito certo, e você vai entender os porquês disso mais abaixo.

Relaxe. Não é disso que estamos falando.

Uma notinha prévia. Assim como você, eu também não sou filho do Eike Batista, e é por isso que não, eu não visitei todos esses lugares, e portanto sim, eu estou falando sem conhecer. Se Deus e meu salário permitir eu ainda completarei essa lista, mas por enquanto conheço apenas seis desses pontos. Se o fato de eu não conhecer o que estou falando te representa um problema, caro amigo, recomendo fechar ali em cima a aba do BdQ. Aproveite e feche também aquela ali das críticas de moda que eu sei que você está lendo, a aba dos jornais, das revistas, e tire a tarde para excluir mais da metade do seus amigos do facebook…

10 – Holambra

Onde fica? Interior de SP, ali pela Mogi-Campinas

O que é? Uma cidade holandesa do interior que produz flor até a tampa e que faz uma vez por ano faz uma festa das flores cheia de mulheres deslumbradas e maridos enjoados

Por que não dá certo? Porque uma coisa é você visitar o pavilhão da Expoflora nos dias da festa, e outra coisa é visitar a cidade em um dia comum. Acredite, caro amigo: as ruas da cidade não são feitas de orquídeas, os tijolos não são feitos de galhos de azaléia e não chove pétalas de rosa o ano todo! Ao contrário, Holambra fora da época da festa é uma cidade do interior até das bastante comuns, com o bônus da arquitetura holandesa obrigatória e as placas de trânsito em forma de tulipa. Bacana, mas não acho que apenas isso valha uma visita: volte na Expoflora do ano que vem, pegue (pague) um dos passeios turísticos e tá tudo lindo!

Pronto, você já conhece Holambra. Pode ir embora.

9 – Museuzinho da cidade da sua tia-avó

Onde fica? No Brasil inteiro, em qualquer cidade com menos de cinco linhas de ônibus

O que é? Um casarão velho e mal conservado com umas bugigangas dentro e uma placa na porta com algo do tipo “Casa da Memória Itapetininguense” ou “Museu da Cultura Pindamonhangabana”

Por que não dá certo? Porque no Brasil se tem uma chata mania de achar que tudo (repito: tu-do) que é velho tem história, e vai por mim: não é bem assim! Não que a cidade da sua tia-avó não tenha uma história bacana, pode até ter (e a maioria dessas cidadezinhas tem algo legal pra ser contado), mas achar que você vai entendê-la observando uma caixa registradora velha e um ferro de passar roupas a carvão numa caixa de vidro (dizeres ao lado em “arial tamanho menos dois” opcional), aí já é demais. A cidade gasta uma nota pra fazer seu museu e deixa de contratar um, apenas um guia turístico. Show!

Interessante, né?

8 – Elevador Lacerda

Onde fica? Salvador, meu rei.

O que é? Um elevador!

Por que não dá certo? Visualize. Você está de férias, viaja até a primeira capital do Brasil, cidade de gente bonita que além de transpirar história ainda tem praia! De cima da serra, você dá de cara com uma paisagem absurdamente linda do mar. No pique das férias e fuga de qualquer encontro com a sua realidade, você aborda um baiano local e pergunta: “como eu chego lá”? Cara, é férias! Você espera uma resposta emocionante, um “segue aquela trilha”, ou “pega o ônibus tal” (sim, eu gosto de andar de ônibus em cidades desconhecidas). Você não estranharia nem que o cara olhasse pra você e dissesse “pule”! Mas não: o baiano, com toda a sua pressa característica, olha pra você e diz: “pegue o elevador”. E você, de férias, ainda paga pra ser feliz fazendo apenas isso: descer um elevador! Ok, é um elevador antigo (e como a gente já viu, tudo que é antigo é legal), mas continua sendo só isso: um elevador!

Ok, essa é a sua família. Agora faz sentido. Desculpa!

7 – Campos do Jordão

Onde fica? Interior de SP, na Serra da Mantiqueira (achava que era na Suíça, né? Ráááá!).

O que é? Uma cidade onde faz frio.

Por que não dá certo? Porque independente do seu “gosto térmico” duvidoso e da sua vontade de se sentir um pinguim num fiórde da Noruega, esculhambaram Campos do Jordão a ponto de um cafézinho de padoca custar quase a sua passagem de volta pra casa! Ok, você me diz que esse não é o maior atrativo da cidade, mas que na verdade os preços altos fazem a cidade ser “point” de gente rica (e consequentemente bonita), mas quem consegue ainda ficar bonito debaixo de 45.697 agasalhos?

Sexy.

6 – Ver-o-Peso

Onde fica? Belém do Pará.

O que é? Uma feira gigante.

Por que não dá certo? Convenhamos: o Ver-o-Peso pode ser um ponto importante para a economia e a sociedade de Belém e tudo o mais, até aí eu não discordo. Mas chamar aquilo de ponto turístico? Por que raios você, turista de alguma cidade importante do sudeste brasileiro, quereria viajar quatro mil quilômetros pra uma cidade super quente e úmida para ver uma 25 de março gigante e com cheiro de mangue? Ok, é uma 25 de março gigante mas também exótica, de produtos da selva e ervas medicinais e tudo o mais, mas quando você percebe que não faz ideia que troço é aquele que o tiozinho com cara de boto-cor-de-rosa está te vendendo, acaba voltando com 3 DVDs piratas e uma bolsa de palha. Tudo o que você acharia facilmente… na 25 de março!

E entre tucupi, tucumã, tacacá e pirarucu, vai de misto quente mesmo que é pra evitar a diarréia.

5 – Estação da Luz

Onde fica? São Paulo City meu, no Centro.

O que é? Uma estação de trem.

Por que não dá certo? Tá, de forma alguma alguém pode questionar o valor histórico-arquitetônico-cultural-patrimonial-renascentista-filosófico-e-de-vanguarda da Estação da Luz. Só que não dá pra enfiar goela abaixo de qualquer turista que passe por SP a idéia de que será algo agradável conhecer a Estação da Luz, e o motivo é bastante óbvio:

Não dá pra contemplar o material do piso.

4 – Cataratas do Iguaçu

Onde fica? Foz do Iguaçu, na PQP do território do Paraná.

O que é? O segundo maior complexo de cachoeiras do mundo.

Por que não dá certo? Você pensa, caro leitor: “um momento, você disse que não analisaria pontos turísticos naturais”, e você tem razão. Mas não há nada mais idiota que aquele “guia credenciado” apontando uma cachoeira lá no extremo horizonte e soltando aquele “ali é Argentina, ali é Paraguai”… tipo, as cachoeiras são realmente lindas, mas porra, elas são todas iguais! E daí que aquela ali é argentina e aquela outra ali é paraguaia? E combinemos: depois de sair de lá encharcado e potencializando aquele friozinho paranaense congelando sua glande, a parte mais legal do passeio é voltar ao hotel, tomar um bom banho e, finalmente, cruzar a ponte e comprar muamba no Paraguai. Porque ninguém vai pra Foz sem “dar um pulinho” no Paraguai. Quem precisa da segunda maior cachoeira do mundo quando se tem isso aí embaixo?

Original! E por R$1,99!

3 – Cristo Redentor

Onde fica? Ah, você sabe.

O que é? Na teoria, é uma das novas sete maravilhas do mundo. Ou o maior cartão postal do país-tropical-abençoado-por-Deus-e-bonito-por-natureza. Na prática é só uma estátua de Cristo em cima de um morro.

Por que não dá certo? “Herege!”, alguns dirão em fúria. A maior heresia dessa lista é talvez o maior clichê turístico brasileiro, talvez mundial! Confesso, de verdade: nunca entendi qual a graça de subir o Corcovado. O Rio de Janeiro é a segunda maior cidade do Brasil, cercado pelos mais diversos programas de todos os tipos possíveis e imagináveis, mas nenhuma visita ao Rio é digna de reconhecimento sem subir o Corcovado! Por que? É pela estátua em cima do morro olhando pra cidade? Até Poços de Caldas tem uma dessas! É pela i-ne-vi-tá-vel foto de braços abertos na frente do Cristo? Nada pode ser mais cafona, caro amigo. Sobra o que? A maravilhosa paisagem do Rio de Janeiro, de fato muito linda e tal, mas absurdamente conhecida de cada brasileiro que já tenha ligado a TV ao menos uma só vez nesses últimos 60 anos!

Turista São Tomé: tem que ver para crer.

2 – Esplanada dos Ministérios

Onde fica? ahn… em Brasília?

O que é? Uma praça gigante com um monte de prédios idênticos em volta e dois pratos, um pra cima e um pra baixo. Já sacou, né?

Por que não dá certo? Porque a única graça do troço todo é ter sido desenhada pelo Niemeyer. Sim, essa é a única graça! A praça é menor do que parece pela TV, você não pode entrar em lugar nenhum, sem contar aquela imersão no ódio que sempre rola quando se está num lugar de gente bacana como aquele. Tudo isso com este gostoso clima mauritânico de Brasília. E de noite, quando então você acha que aproveitará alguma coisa da cidade, dá de cara com um lugar muito parecido com qualquer outra cidade grande brasileira, mas com gente mal encarada, seis faixas em cada rua, nenhuma calçada, e endereços que mais parecem barra de programação de HTML: seu hotel fica na Rua Q4C2D4F69…

Tem quem se sinta em casa. Não é meu caso.

1 – Ponte Estaiada

Onde fica? São Paulo, Marginal Pinheiros com a Roberto Marinho

O que é? Uma ponte. Ou o cenário do SPTV.

Por que não dá certo? Meu preferido nessa lista. A Ponte Estaiada é uma das maiores aberrações da história das políticas públicas brasileiras. A ideia mais furada do planeta. Uma ponte, caríssima, demoradíssima pra ser construída, e que só depois de pronta é que se percebeu que não havia tanta demanda assim para uma obra tão faraônica. Pelo menos fica o cartão postal, certo? Errado! Ela também é menor do que parece pela TV e nem dá a emoção de um balancinho de leve, só pra que se lembre estar numa ponte. Sem contar os inúmeros casos de “comemoração disso ou daquilo” em que se troca a iluminação noturna da Estaiada, e os holofotes coloridos são roubados de madrugada. Lindo! Além disso, ou se passa muito rápido por ela (o que não ajuda na observação dos detalhes arquitetônicos ultramodernistas da ponte), ou muito devagar (trânsito: é SP, lembra?), aproveitando aquele delicioso aroma do Rio Pinheiros após 10 dias sem chuva.

Acredite: não é a beleza do cenário que deixa o César Tralli tão feliz. É a existência do vidro.

É claro, caros leitores, que a essa altura do campeonato esperamos que cada um de vocês entendam que a ideia maior desse post é justamente aloprar uma parte da estrutura turística nacional com uma pitada de humor. Entendeu? HUMOR! E é justamente por isso recomendamos que se apoie, sim, o desenvolvimento do turismo no Brasil, ainda mais com tanto potencial histórico e natural que existe por aqui. Que muitas cidades por aí afora queiram investir mais na atividade turística, que parece sempre relegada a uma prioridade inferior em muitos casos, e que por isso apresenta certos problemas estruturais de relativa facilidade de serem consertados, aprimorados. Todo o sucesso do mundo para as cidades turísticas, poxa! Por fim, ficam dados os toques: escolha seu paradeiro e boas férias!

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Comentários em: "Especial de férias: 10 pontos turísticos que pediram pra dar errado" (9)

  1. Eu curti pra caramba seus comentários! Não, não concordo com todos, mas isso faz parte hehe.
    Mas me diverti lendo, isso é verdade…
    Falando de algumas impressões minhas: O Elevador Lacerda, além de não ter a menor graça é fedido pacas! Pelo menos quando fui… Dar a volta, mesmo caminhando é beeem melhor!
    Campos do Jordão é lindo no verão!!! O clima é ameno, a vista é mais bonita, a cidade bem mais vazia e as malhas são muuuito mais baratas hehe
    Parabéns, ficou ótimo!!!

    • Rafael Galeoti disse:

      Campos do Jordão é um dos que eu não conheço, embora já tenha passado tempo em cidades próximas e sentido o mesmo clima, mas com cafés mais baratos, rs…

  2. affffff

    só falo merda!!!

  3. Que bom, que apesar de serem “péssimos” lugares você conheça pelo menos 6… eu só conheço 1…
    E confesso que sempre tive vontade de conhecer Campos do Jordão, mas como não filha do Eike Batista, perdi o tesão pelo lugar depois do seu comentário.
    E como tenho a pretensão de conhecer pelo menos grande parte do Brasil, levarei em consideração tudo o que lí aqui.
    OBS: E o único desses lugares que conheço não é o Cristo, mas deixarei a dúvida!

    • Rafael Galeoti disse:

      Oh, por favor, não faça isso comigo, pelo amor de Deus, compartilhe conosco qual o lugar que vc conhece, caso contrário não dormirei por dias! hahahahaha!

  4. Cataratas são um máximo, conhecer o parques das aves que mostra a biodiversidade local é realmente impressionante. Uma pena q esse post fala da sua opinião ao invés da verdade.

  5. io Galvão disse:

    Adorei!
    Mas brasília é um dos lugares mais fáceis de se localizar (depois que você aprende)! Tem lógica!
    Mas a esplanda teve nada demais, como muitos lugares que são supervalorizados! Hahahaha

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