Crônicas de um país sem sobrenome

Uma pergunta, amigos: como vocês acham que será o desempenho da delegação brasileira nas Olimpíadas de 2012, prestes a começar? Em qual posição ficará o Brasil no quadro de medalhas?

Permitam-me contar-lhes uma história. Estava indo ontem para Jundiaí, esperando o ônibus no ponto da bela e bucólica pracinha central de minha cidade. Entre vendedores de pipoca, árvores, flores e crianças correndo, chamou-me a atenção um rapaz, aparentemente bastante jovem, brincando com seu filho pequeno, naquela idade gostosa em que a criança anda com sérias dificuldades pelo enorme volume da fralda dentro das calças. Eles chutavam uma bola: devagarzinho, o pai empurrava a bola pros pés do filho, esperando um chute de volta, que certamente viria fraco e torto mas arrancaria enormes sorrisos.

Auge da idade da curiosidade, no entanto, o menininho, na maior das naturalidades, repetidamente se abaixava e pegava com as mãos a relativamente enorme bola, e jogava para seu pai com a precisão que se espera de um garotinho daquela idade. E a coisa degringolou aí. Cada vez mais decepcionado, o pai bronqueava carinhosamente o pequeno a cada arremesso manual: “chuta filho, chuta”. E pouco antes de meu ônibus chegar, profana a frase que disparou o raciocínio todo que desenvolverei daqui pra frente:

“Joga com o pé, filho: esse negócio de jogar bola com a mão não é coisa de homenzinho não”

Antes que me perguntem: não, amigos, não bati boca com ninguém. Eu, basqueteiro convicto, “não-gostador” confesso de futebol (e heterossexual, diga-se de passagem), apenas dei um sorriso pra dentro. Que adiantaria afinal esboçar qualquer conversa com o pai sobre esse absurdo “estereótipo esportivo” que, assim como tantos outros estereótipos, já são tão arraigados na nossa sociedade? Teria tempo de argumentar até a passagem do meu ônibus? Constatei que não, mas durante a viagem, tive a certeza que, no ideário da grande maioria dos brasileiros padrão, o rapaz estaria certo. Seu pai o ensinou assim. Seu avô ensinou seu pai assim. Todos seus possíveis irmãos aprenderam assim. Todos seus amiguinhos da mesma rua ouviram coisas assim. Todos da sua escola pensavam assim. Não há como brigar: o Brasil é, de longe, um país absolutamente monogâmico quando o assunto é esporte.

Isso estava rodando pelo facebook hoje. E não, o contexto não era uma crítica.

Seria muita pretensão de minha parte aqui, caro leitor, tentar esboçar qualquer linha do tempo que mostrasse de onde surgiu essa fissura toda do brasileiro padrão pelo futebol, fissura tal que confunde cotidianamente modalidades esportivas com a sexualidade alheia. Eu consigo, no entanto, apontar alguns fatores importantes que contribuem para a consolidação desse cenário. E espero que aqueles que me conhecem pessoalmente acreditem em mim quando digo: o farei totalmente isento de rancores de certas experiências que, direta ou indiretamente, o futebol proporcionou em minha vida, desde isolamento social até questionamentos sobre minha sexualidade.

De cara, aponto nossa velha e chata cultura por resultados. O brasileiro cresceu ouvindo sobre feitos impressionantes das seleções do meio do século. Presenciou duas, três, quatro Copas do Mundo onde o Brasil saiu vitorioso, e cantou o hino, e se emocionou, e chorou. Acostumou-se a ver o Brasil sempre em posições de destaque no ranking da FIFA. Acostumou-se a ver incontáveis jogadores chegarem ao auge do futebol, e serem premiados uma, duas, três vezes como melhores jogadores do mundo.  O futebol dá resultados, e resultados emocionam, criam heróis inspiradores, copiados à exaustão nos mínimos detalhes, como músicas, gírias, cortes de cabelo. Você não vê esses resultados em quase nenhum outro esporte, caro leitor. E por isso, você não dá a mínima. Você quer coisas concretas, conquistas, vitórias. Exagero? Não acho. E por sinal, o prefeito de sua cidade desesperado por reeleição também não (#fikdik). Se ainda não acredita, basta pensar no seu gosto por outros esportes já antes consagrados no Brasil: você ainda acompanha a Fórmula 1 depois da morte do Ayrton Senna? Você continuou interessado por tênis depois da aposentadoria do Guga?

Admita: você chorou junto.

Sim, a TV não passa mais jogos de tênis depois da aposentadoria do Guga. E isso nos leva ao fator 2 de toda essa discussão: a mídia. Desculpe ser eu a te dizer, caro amigo, mas você assiste e aprende a gostar de qualquer coisa que passar. Confesse: você não gostou de vôlei a sua vida toda, você começou a despertar seu gosto por vôlei depois que o Esporte Espetacular passou a transmitir os jogos da seleção ao vivo. A mídia sabe disso, caro amigo. E as vezes faz algumas apostas audaciosas, que podem dar errado (como no caso da Liga Nacional de Vôlei que a Globo transmitiu no começo do ano), mas que podem dar improvável e absurdamente certo, criando até mesmo mini-paixonites-agudas completamente inusitadas.

… e bota inusitadas nisso!

Dá pra culpar a mídia por esse cenário tão bizarro? Não.  A imprensa pode ser culpada de mais do que ela mesma imagina, mas não é esse o caso. Os veículos de informação nunca deixaram de antes de mais nada serem empresas, que por sua vez precisam de lucro, que por sua vez vem de patrocinadores, que por sua vez os procuram pelo tal ibope. E embora algumas vezes seja tentador realizar apostas ousadas como transmitir curling em horário nobre, toda e qualquer emissora de rádio e TV sabe que existe, sim, uma fórmula milagrosa de obtenção dos valiosos pontos de audiência: o futebol, que agrega crianças e adultos, pobres e ricos, na frente da mesma TV, ou nos mesmos movimentos corporais de final de semana.

E é aí que entra o pulo do gato em toda essa discussão, caro leitor. Reflita: em se tratando de movimentação corporal, ou de adrenalina, ou espírito de equipe, no que o futebol afinal se difere dos demais esportes coletivos, que nem de longe tem o mesmo glamour social? A única resposta plausível para essa pergunta é: o futebol pode ser praticado em qualquer lugar, a baixo custo. Dê ao menino duas pedras e uma bola de meia: ele cria um campinho e joga futebol! Jogue ao chão uma caneca de merenda usada: ali está uma bola de futebol! A bola de meia ou a caneca da merenda não quicam no chão (algo necessário pro basquete e pro handebol), a mão doerá se você tentar uma manchete. Nem sempre um varal faz função de rede, nem sempre um cesto de lixo faz função de cesta! Eis o segredo do futebol, caros amigos: não dá trabalho jogar futebol, qualquer pessoa pode jogar com qualquer (atenção a essa palavra) infra-estrutura!

“Por que afinal isso é um problema?” – você deve estar se perguntando. Eu respondo com outra pergunta, amigo: quantas quadras públicas de outros esportes que não o futebol existem na sua cidade? Devem contar aqui apenas aquelas que tem 100% disponível ao usuário todo o equipamento necessário: bolas próprias para aquele esporte, redes, cestas, traçado do chão. Captou o lance da falta de infra-estrutura? O problema está no fato de que você paga pra que ela exista! Pode procurar, amigo: sua cidade tem uma Secretaria dos Esportes, que recebe mesmo uma porcentagem significativa da renda municipal, e que continua te fazendo pagar para alugar uma quadra (de futebol, evidentemente), ou jogar na rua com duas pedras e uma caneca de merenda! E que aqueles que como eu não gostam desse que, analisando friamente, é somente mais um esporte: prepare o bolso, jogar de graça é impossível. Ah, e aguente as várias piadas e questionamentos sobre sua vida sexual.

Amigos, a coisa ainda vai mais além. Você paga seus impostos para que o professor de Educação Física abandone seu hábito esquisito de jogar uma bola de futebol dentro da quadra e deixar as crianças se degladiarem sozinhas (embora saibamos que a culpa não é exatamente dele). Nem mesmo a escola tem equipamentos para o futuro ginasta olímpico treinar, o jovem com aptidão para ginástica olímpica tem que treinar com o apoio financeiro familiar para bancar seus treinos em academias particulares. Os irmãos Hipólyto são exceção sim, destaques nacionais em um esporte sem qualquer tradição no Brasil, mas são exceção não só pelo poli-dourado talento esportivo, são também pela possibilidade de bancar seus próprios primeiros passos no esporte desde crianças. Mérito dos pais, não somente dos caras em si. Ou alguém acha coincidência que talentos natos em outros esportes que não o futebol são cada vez mais raros e com sobrenomes (Murer? Cielo? Hipólyto? Maggi?) cada vez mais “classe alta”?

Ou se você se mostrar um GÊNIO da maratona correndo atrás do caminhão do lixo (Solonei Rocha, ex-gari, maratonista revelação do Brasil)

E o curioso é que, dentre as poucas certezas inquestionáveis que temos no pós-Olimpíadas de Londres, qualquer medalhista de ouro (e tem que ser de ouro, ninguém quer saber de segundo colocado) será recebido com honras no Palácio do Planalto pela própria presidenta, como se o Brasil tivesse um governo que apóia incondicionalmente os esportistas da nação. E é por essas e outras que não dá pra criticar com tanto afinco atletas como Maybyner Rodney Hilário (nunca ouviu falar, né? “Esse cara” é só o melhor jogador brasileiro de basquete da atualidade) que se recusou no passado a defender o escudo nacional: o treino do cara é e sempre foi pelas próprias contas, o governo em qualquer escala nunca incentivou seu esporte, a sociedade diz que ele pratica esportes “que não são coisa de homenzinho”, e se houver derrota, ele será desprezado e exaustivamente criticado. Mas a vitória é “dubrasil”?

Encerro esse já longuíssimo texto perguntando novamente, caros amigos: como vocês acham que será o desempenho da delegação brasileira nas Olimpíadas de 2012, prestes a começar? Em qual posição ficará o Brasil no quadro de medalhas? A depender das minhas previsões (e eu torço muito para estar errado, diga-se), teremos novamente uma posição bastante baixa no quadro. Um ou outro ouro já manjado de algum sobrenome chique, uma ou outra surpresa aqui e acolá (a quem interessar possa, o André Celarino do “O Metafísico” foi ótimo ao falar das chances do basquete brasileiro aqui). Pratas e bronzes, nem contabilizo. Mas a minha dica maior é: que as Olimpíadas de Londres não sejam apenas um treino para o que o Rio de Janeiro espera daqui há quatro anos, apenas do ponto de vista da infra-estrutura megalomaníaca que um jogo olímpico necessita (a gente já falou disso por aqui). Que se treine também uma cultura de prática de esportes diversificados, pra que mais gente pratique esportes em nossa sociedade, sem culpa, sem piadas.

A campanha eleitoral está aí, cobre de seus candidatos, esporte é saúde, e precisa ser discutido de forma mais efetiva que o manjado “cada tijolo do estádio é um posto de saúde a menos”. Se isso ainda não te convenceu, que seja ao menos para que tenhamos um quadro de medalhas melhorzinho em 2016, e não dependamos (emocionalmente) somente dos resultados das seleções olímpicas de futebol…

As olimpíadas de Londres começam oficialmente nessa sexta feira. Se quiser, fique a vontade para dar seus palpites sobre a atuação da delegação brasileira nos comentários. Bom divertimento!

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