Crônicas de um país sem sobrenome

Caro leitor. Quando se fala em música no Brasil, um fato é absolutamente inconteste: estamos numa fase negra da música popular brasileira. Digna de Rita Lee arrancar seus cabelos vermelhos. Se minha eterna diva do rock já o fazia lá na época em que os nomes famosos da música nacional ainda eram Caetano Veloso, Gal Costa e similares, imagine o que essa senhorinha paulistana deve estar pensando agora…

Rita Lee andou brigando recentemente com alguns ícones pseudo-musicais da atualidade. E isso você sabe. O que você não sabe, caro amigo, é que infelizmente Rita Lee estava errada. Essa fase negra da música popular brasileira fala muito mais do que suas letras sem sentido algum pretendem dizer. Obviamente, não falamos aqui da qualidade das músicas, mas da forma como TchuTchaTcha e TcheTcheReRe são perfeitas para a cara do Brasil. Quer ver? Pensemos juntos daqui pra frente então.

Remetemo-nos aos estranhos anos 60, caro amigo. Brasil engatinhando a passos ainda tímidos para um período tenebroso da história: a Ditadura Militar. E o que era a MPB? Músicas com letras bem trabalhadas, orquestradas, em vozes impecáveis. Aqui, falamos de Carmem Miranda como o ícone divertido e tropical da nação, e junto a ela seus companheiros musicais de sucessos incontáveis da já saudosa Jovem Guarda. Aqui, falamos da eloquente Tropicália, e suas canções de exaltação aos atributos naturais e humanos da nação – mas sempre com aquela inteligentemente velada referência de protesto. Geraldo Vandré tentou falar mais diretamente: viu seu cérebro virar omelete. Chico Buarque despontando como o maior compositor que o Brasil já viu (e tem quem diga que ainda o é, até hoje).

A coisa apertou na década de 70. AI-5 e outras perseguições políticas tão cotidianas quanto os atuais mensalões e afins. A MPB precisou parar com a inteligência do protesto. A MPB parou para imitar passarinhos e falar de amor. Quer saber o que foi isso? O vídeo abaixo vale muito o play, se nem tanto pela música (do meu ponto de vista super bem sacada), pela beleza da minha diva, lindíssima:

Salto no tempo. Final da década de 80. Brasil democratizado (se é que isso de fato aconteceu), povo com relativa liberdade de expressão. O Novo Brasil é um país com tantos costumes do antigo regime, que era necessário criar pensamento crítico. Embalados por um poder popular que democratizou a nação no incrível Diretas Já, a música brasileira, nas guitarras do rock, se incumbiu de criticar o ranço trazido dos anos anteriores.

Leu direitinho esse retrospecto? Definamos juntos agora um marco para o começo da esculhambação da música popular brasileira, caro leitor. Permita-me: 1995. O ano em que o Brasil ganhou, pela primeira vez, uma moeda forte e sem trocentos zeros. O ano em que o brasileiro passou a não ver mais seu salário terminar o mês valendo metade do que valia um mês antes. Não que a distribuição dessa renda fosse algo primoroso, e ainda não o é, mas ao menos o cidadão comum já podia ter tranquilamente uma televisão em casa.

E aqui apontamos a grande vilã da degringolação da música nacional: a TV. Deixando de ser um artigo de luxo, a caixinha mágica passou a figurar na casa de todo e qualquer brasileiro, independente de sua classe social. E portanto, a música não era mais absorvida pelo expectador somente pelos ouvidos. A partir daqui, a música brasileira ganha duas características fundamentais:

  • a música agora é visual,
  • a música agora é absorvida por todas as classes sociais.

Comandadas pela programação dominical (algo que ainda não mudou desde então é que o domingo é o único dia em que o brasileiro vê TV) de banheiras do Gugu e Domingão do Faustão, explode o início do terror musical nacional: o axé. Essa é outra coisa que ainda não mudou, caro amigo: a TV como formadora de opinião. E nada melhor que chamar a sua atenção que mulheres na TV.

… algo tão inédito na história que até o mega-hair da Carla Perez era “lindo”.

Do axé na TV ao funk na TV foi um pulo, mas um pé no breque foi necessário. O poder econômico do cidadão comum cresceu até um momento em que ele tinha agora em mãos a internet pra ver detalhes ainda mais íntimos da anatomia feminina, e que a TV nunca poderá exibir em horário nobre. Sexualizar a música deixou de ser bom negócio, exatamente numa etapa da música em que a coisa estava beirando o absurdo. Precisava-se, agora, de um ritmo e um estilo musical que aliasse ao mesmo tempo aqueles lances todos de amor (hit eterno de toda e qualquer música em todos os tempos e em todos os cantos do mundo), mas com uma pitada de erotismo e diversão que o brasileiro gostou de ver. E foi assim que surgiu em primeiro momento o forró universitário, e hoje ele, o temível sertanejo universitário, com todas esses sons sem sentido de quem morre de preguiça de rimar. E foi exatamente assim que TcheTcheReRe e TchuTchaTcha chegaram onde chegaram.

Tem sentido? É, eu sei que não. Algum fator X ainda faz falta nesse texto. A explanação toda que foi dada é um típico caso de “explica mas não justifica”, e do jeito que o tema foi abordado, dá a impressão que a culpa pela degringolação toda da música brasileira se deu quando ela saiu das elites e atingiu os pobres. Sabe o pior, caro leitor? É exatamente isso! E antes que você me chame de elitista ou preconceituoso, aqui explico os dois porquês:

→ Motivo 1: politicamente, o Brasil entrou num período de relativa “calmaria”. Após o Diretas Já, não houve um só movimento legitimamente popular que tivesse algum reflexo na música brasileira, e como a gente sabe de antemão, o brasileiro parece cada vez menos afoito a manifestações de cunho social, o que enterra ainda mais nossa música no ostracismo do amor/sexo/erotismo/passarinhos.

→ Motivo 2: a democratização da TV, que como vimos é resultado da valorização da moeda nacional e da recente e ainda tímida redistribuição de renda, não foi em momento algum acompanhada da DEMOCRATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO (“alô alô marciano”, a palavra chave disso tudo chegou). O brasileiro ganhou condições financeiras de viver dignamente, mas continua mal instruído. Sem uma boa base de ciências sociais, o brasileiro não tem embasamento para identificar seus problemas sociais e assim, talvez, usar a música como ferramenta de protesto como se fazia até os anos 80 e Legião Urbana, quando o público era mais selecionado não só do ponto de vista financeiro mas também educacional!

E digo mais: sem noções de interpretação de texto, qualquer letra mais inteligente que “TcheTcheReRe” é incompreensível, de difícil digestão, com maiores chances de fracasso nas vendas – e até onde se saiba o artista, claro, também quer lucrar com sua criação, é seu direito! E é assim que, por fim, pode-se afirmar: essa fase negra da música popular brasileira é SIM a cara da sociedade brasileira: com poder econômico mas sem profundidade! Quem pode julgar os novos milionários da música nacional, se eles dão ao povo exatamente a música que o povo consegue absorver? Você pode questionar a qualidade do som, mas nunca deixe de analisar o público que pede por esse som. Você pode dizer que LeReRe LaRaRa é coisa de pobre, mas a partir de agora, saiba de antemão que a culpa de você ouvir tanta asneira auditiva não é exatamente do pobre…

Tá, e o que nos reserva o futuro da música popular brasileira? – deve estar se perguntando Rita Lee. Confesso que não sei, mas posso apontar com significativa segurança que, enquanto não houver melhorias no sistema educacional como um todo, desde a preparação e remuneração de professores até a acessibilidade para todos, mais TcheTcheReRes e TchuTchaTchas virão. Nem tudo são flores no Brasil: se a distribuição de renda é algo fantástico para a nossa sociedade (e é, que ninguém nunca duvide), TchuTchaTcha é um efeito colateral de algo que foi feito pela metade, sem atenção – oh, novidade – para o bem-estar social. Portanto se preparem, caros amigos: você pode não gostar, você pode concordar com Rita Lee e dizer que tudo é um lixo. Mas infelizmente, pra seu (nosso) azar, o brasileiro ainda quererá muito Tchu. O cara do Meteoro da Paixão até já figurou entre os 100 maiores brasileiros de todos os tempos (??) – Outro assunto, outro post. Ou não.

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PS: desculpem caros leitores, foi impossível não lembrar, no meio de toda essa discussão, de uma “canção” específica: um axé social! Lembra?

Tá, nem tão social, mas vale a intenção (se é que tinha alguma intenção…)

PS(2): é regra por aqui: eu não falo de música sem falar do Coletivo Garagem Aberta, iniciativa de alguns amigos para promover as atividades culturais da cidade de Jundiaí, dos artistas independentes que, contra a tendência louca do TchuTchaTcha televisivo, preferem fazer música de qualidade. Não conhece? Clica aqui, vale a pena.

PS(3): ando vendo muita gente por aí refletindo sobre as Olimpíadas e sobre a possibilidade de “Eu Quero Tchu” abrir os jogos olímpicos de 2016. Relaxem, caros amigos! Uma coisa é o que o governo faz com a gente, outra é o que o governo quer mostrar lá fora que faz com a gente. Infundado, infundado!

PS(4): sim, eu sei, “Aluga-se” é do Raul. Peguei apenas a versão que ficou mais famosa vários anos mais tarde.

PS(5): sim, eu sou apaixonado pela Rita Lee: quando ela lançou a música que está nesse post, evidentemente caçou encrenca com um punhado de gente. Só que, ao invés de voltar atrás como muita gente da modinha faz hoje em dia, ela fez isso aí embaixo:

Agora diga, caro leitor: ela é ou não é fantástica?

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Comentários em: "Os pesadelos de Rita Lee, ou: por que afinal queremos “tchu”?" (3)

  1. Já pensei bastante sobre o tema e cheguei a uma conclusão bem parecida com a sua.
    Em todo lugar por onde se anda, topo com esta realidade: ascensão econômica inversamente proporcional à educação.
    Sempre me questiono: até quando este recente poderio econômico irá se sustentar sem os alicerces da educação?
    Para ser sincera (e sim, um tanto pessimista), creio que já chegamos longe demais.

  2. Concordo! Está coberto de razão!!! O principal problema do Brasil é a educação, todos os demais advém deste!

  3. Uau! É quase inédito ler um texto tão bom hoje em dia, mesmo selecionando. Confesso que no meio da leitura eu o achei um pouco arrogante, e então: eis a base para as opiniões fortes. Parabéns, também é difícil alguém se embasar em fatos pra explicar uma opinião, hoje que a internet permite que qualquer babaca opine sobre tudo. Confesso que não conhecia essas músicas da Rita Lee, e, cara, agora ela tem outro fã hahaha

    Só para finalizar, é realmente uma pena que esse tipo de música pop que produzimos hoje não seja exclusiva das classes mais baixas. Convenhamos que o sertanejo universitário, o próprio nome já diz – numa triste realidade brasileira -, vem de uma classe com – ou deveria – suficiente instrução para letras de música mais elaboradas – e, por que não, literatura mais elaborada também. Sobre o futuro desse gênero musical, sinceramente não vejo como possa melhorar, embora, tenho que considerar alguns músicos que, embora não sejam Rita Lee, ainda assim são dignos de nota. É claro que protesto musical é ainda mais difícil de se prever, num país onde falar de política é chatice e onde quem procura entender a política é “de esquerda”.

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