Crônicas de um país sem sobrenome

A coisa, que parecia ser tanto quanto “fogo de palha”, ao que parece está – ainda bem – tomando grandes proporções. O movimento Não foi acidente ganha cada vez mais assinaturas, é cada vez mais falado, toma corpo, chega cada vez mais próximo da sua meta. Se antes era coisa de emissora média, de 4 ou 5 pontos no IBOPE (sempre o IBOPE), agora é a grandona que faz um especial de muitos minutos no principal programa dominical de reportagens da história da TV brasileira. Mas eu, em minha modesta opinião, vejo gato nesse angu, e talvez seja o caso de tirar a sombra do apelo sentimentalista e começar a conversar de verdade. Ou será que não? Caso você seja parte daquela pequena parcela da população não ligada à Globo no domingo a noite, recomendo: clique aqui e leia / assista a reportagem (o G1 não permite incorporação de videos em blogs, desculpem, eu tentei…)

Os dados mostrados pelo Fantástico são de fato alarmantes, e confesso, eu mesmo fui pego de surpresa. É de fato revoltante saber que um bêbado idiota provoca mortes por aí afora – 43 mil (!!!) só em 2010 – o processo demora anos e anos numa gaveta mofada, e ao fim o sujeito paga uma cesta básica com a sensação de dívida quitada com a justiça brasileira. E que em 2015, acidentes provocados por embriaguez será motivo de morte de mais brasileiros que outras formas mais, digamos, “tradicionais” de homicídio. Algo está errado, é fato, eu não questiono. Assim como, de forma alguma deixo de me solidarizar com as famílias que perderam entes queridos em atos bárbaros como os mostrados na reportagem em questão (já assistiu? Vai lá, é sério).

A história diz que, quando situações emergentes como essa são analisadas de forma emocional, as “soluções” tomadas nem sempre são as melhores e mais eficientes. É claro que o indivíduo que mata alguém no trânsito por dirigir embriagado é de fato um crápula criminoso que merece uma punição maior que a que leva hoje em dia. Mas o que há por trás disso tudo? Raciocine, caro leitor. Movimentos como o Não foi acidente provocam no brasileiro um pensamento que flui no seguinte sentido: a pessoa bebe, dirige e mata, e sabe que dirigir embriagado pode matar, portanto, é crime doloso. Até aí tudo certo, e a pergunta que o brasileiro faz a partir disso é:

“Por que alguém que bebe dirige?”

E a resposta comumente encontrada é:

“Porque é mau caráter, sem a menor noção de comportamento social aceitável, e portanto, é um criminoso”.

Será? Dá pra compreender quando uma pessoa que perde um ente querido nessas circunstâncias elabora tal raciocínio. Me desculpem as incontáveis vítimas e familiares, mas não me contento apenas com esse pensamento. Pensar assim é, ao mesmo tempo, não conclusivo e parcial. Não conclusivo pelo fato de que entendo que existem outros fatores aí nessa equação doida (explico abaixo). E parcial pois não me imagino um sujeito tendo a reflexão de “bebi, portanto matarei alguém” antes de pegar as chave do carro. Deveria? Creio que sim, mas quem tem?

Vamos começar pelo mais óbvio. Desmembrar-nos-ei a pergunta, só porque eu sou apaixonado por mesóclises malfeitas:

1 – Por que alguém bebe?

Fique tranquilo, caro leitor. Não esmiuçarei aqui todos os possíveis e prováveis motivos que fazem uma pessoa tomar uma cerveja, quanto mais “passar da conta” e perder a sobriedade. Entre fuga da realidade, afogar as mágoas de um dia ruim, ou simplesmente perder-se no embalo da euforia com os amigos, o fato é que, me perdoem os puritanos e os que opcionalmente nunca bebem nada – algum dia os entenderei, juro – a cerveja está indubitavelmente no ideário popular do brasileiro comum.

Os que me conhecem pessoalmente farão aqui uma reflexão, algo como “é óbvio que ele jamais falaria mal da cerveja”. Mas como a gente até já brincou por aqui, pareço não ser o único, e a mídia concorda comigo. O programa que esbraveja sobre o Não foi acidente é de uma emissora que, fatalmente, passa em seus comerciais diversas e diversas propagandas de cerveja, mostrando sempre uma mesa de bar de bundas samba e alegria. Conte, num único dia, quantas vezes essa cena se repete em todas as emissoras abertas nacionais: impossível. Teria aí, portanto o dedinho da multi-bilionária indústria brasileira do álcool? Prefiro nem comentar. Assim como, não comentarei sobre a óbvia e conveniente conivência do Estado e da mídia para que essa multi-bilionária indústria permaneça sendo vista (ops, comentei…).

Pra resumir, caro leitor: entende-se por “droga” tudo aquilo que, de uma forma ou de outra, altera algo no seu organismo. Entende-se por “droga recreativa” aquilo que de alguma forma altera seus sentidos, seja lá qual o motivo que te leva a isso. O álcool é, portanto, uma droga? Sim, e uma droga legal – portanto tributada de impostos – mas diferentemente de drogas ilegais altamente demonizadas em nossa sociedade, ou mesmo de outras drogas legalizadas como o cigarro, aparentemente seu uso é até apoiado, pela própria sociedade e por quem tem o papel de informar e formar opinião na sociedade. Ou alguém acha que aquela hiper-veloz tela azul do “aprecie com moderação”, única obrigação legal dos anunciantes de cerveja, realmente quebra todo o efeito das bundas e sorrisos em câmera lenta de segundos atrás?

2 – tá, mas se então não dá pra evitar o consumo de bebida alcoólica na sociedade, por que então esse cidadão dirige depois de beber?

Caríssimo: qual o horário de lotação dos bares da sua cidade? Pode ser diferente da noite? Não, amigo, isso não é um hábito meramente cultural: o brasileiro trabalha, e tem que trabalhar durante o dia! O horário da noite torna-se única opção para sua confraternização alcoólica, seja lá qual o motivo que leva o sujeito a beber, como vimos anteriormente. E daí vem a pergunta de um milhão de reais: a que horas o transporte público encerra suas atividades? Não tem ônibus de madrugada, né? Falta de segurança, dizem. Em outras palavras: o cara que bebe tem outra opção que não seja dirigir? O táxi é uma facada, ainda mais em bandeira noturna. O “motorista da rodada” também não funciona, visto que nem todos os parceiro de bar morar próximos e entre distâncias e preço da gasolina cada um se vira como pode. Conhecimento de causa: quem mora mais longe, ou vai de carro ou simplesmente não vai. Chateia um pouco, mas é assim: entre um risco aparentemente pequeno (notou o “aparentemente”, né?) e uma quase impossível carona amiga, a balança sempre indica que só haverá sucesso de se chegar em casa após o bar com seu próprio carro mesmo. E ponto final.

Acompanhou? Então observe novamente os apontamentos do parágrafo anterior. Excetuando-se o lucro do taxista (provavelmente um pai de família sem a menor obrigação de fazer caridade em serviço) e a impossibilidade de contar com a camaradagem dos amigos – ainda mais do único amigo sóbrio que já estará chateado com isso -, todas as demais questões mostram o que? Deficiências do Estado, ele mesmo, em segurança pública, transporte público em mais horários, e na tributação absurda do combustível. Isso sem contar a ridícula presença da força policial em fiscalização da tal Lei Seca, que ao que parece só não é facilmente driblada no Rio de Janeiro: nas raras vezes em que você dá de cara com uma blitz em sua cidade, é facílimo sabê-la antes e desviar o caminho. Ou mesmo parar nela e ser liberado em seguida, sem sequer soprar um bafômetro. Quem nunca?

E se não te convenci ainda sobre o papel do Estado nessa discussão toda, bora pensar em mais fatores. Lembram da insuportável campanha contra o cigarro de uns anos atrás? Como essa história toda acabou? Demonizaram os fumantes, retiraram toda a publicidade de cigarro de circulação, e enfiaram um imposto sobre o cigarro que desanima qualquer usuário dessa droga legal de continuar seu vício. Aparentemente deu certo: os números mostram que a porcentagem de brasileiros fumantes vem sendo consideravelmente reduzida com o tempo. É uma droga que faz mal e mata. Tal qual a cerveja! Alguém mexe com a carga tributária da cerveja? Quem arrisca mexer com o lucro de uma Ambev da vida?

Percebe, caro leitor, quantas alternativas relativamente viáveis podem ser tomadas pelo Estado para tentar reduzir esse caótico número apresentado inicialmente? Nada é feito. Nem mesmo algo sabidamente tão mais simples como uma mudança de lei para aumentar a pena de motoristas alcoolizados assassinos: é necessário que a iniciativa parta daqui, de baixo, da opinião popular, para que seja minimamente pensado sobre tais alterações. E é por isso que movimentos como o Não foi acidente, como dito anteriormente, é tomado por um emocionalismo (altamente justificável, é claro) que simplesmente não resolve a situação.

Finalizando, caro amigo, penso eu que sim, aumentar a pena de assassinos com álcool no tanque e na mente é algo absolutamente urgente e necessário, mas só isso não basta. Ninguém senta no banco do carro pensando em matar. Até que ponto o assassino “mau caráter sem a menor noção de comportamento social aceitável e portanto criminoso” também é fruto de uma série de fatores que levam o assassinato como consequência, não como causa? Que fique claro, o sujeito é absolutamente culpado por seus atos, mas muitos fatores escondidos não são sequer discutidos quando o assunto é “bebida e volante”…

Eu já assinei a petição do Não foi acidente. Vai resolver o problema da embriaguez ao volante? É claro que não. Mas por que não acreditar nisso como um primeiro passo de uma série de medidas necessárias para que esse horrível surto de violência no trânsito seja finalmente detido? Faça a sua parte também, caro amigo, conte com meu apoio: clique aqui, é bem rápido e fácil. Você precisará do código do seu título eleitoral, mas caso não saiba onde raios está seu documento (normal), tem como consultar lá mesmo no site e descobrir seu número numa boa.

A Rafael Baltresca, criador do Não foi acidente: minhas sinceras parabenizações pela iniciativa. A ele e a todas as vítimas e familiares de vítimas de motoristas embriagados no Brasil: peço de coração pelo seu perdão, caso julguem que vos agredi em algum momento desse texto. Acreditem, não foi de forma alguma minha intenção. E na esperança de dias melhores a vocês e ao Brasil, dedico-vos agora meu mais profundo respeito.

Anúncios

Comentários em: "Não foi acidente. E não, não é tão simples…" (2)

  1. Vanessa Oliveira disse:

    Well, well, gostaria de te parabenizar pelo texto e eu sou uma destas pessoas que tiveram familiares mortos por causa de um bêbado (Rafael Baltresca é meu primo). Tenho de confessar que dói ouvir certas coisas quando você pensa naqueles que se foram. Com certeza a primeira coisa que nos vêm à cabeça é que o cara que bebeu e conduziu é um idiota assassino (e não deixa de ser um bocado) mas estou com você em todos os sentidos. Principalmente a questão do transporte público, que em muitos locais é ridícula até de dia, tem que ser alterada se o estado realmente interessa-se em mudar as estatísticas deste tipo de acidentes…

    Com certeza o movimento não foi acidente é uma iniciativa maravilhosa para um pontapé inicial nisto. Agradeço ao Rafael Baltresca pela força em seguir em frente com este movimento e a todos os apoiadores 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: