Crônicas de um país sem sobrenome

Bem amigos, a festa quadrada da democracia que falamos anteriormente finalmente acabou, e até onde se saiba ninguém mais morreu, felizmente. É um alento aos olhos ver a vinheta inteira do JN de noite, é um descanso aos ouvidos prestar atenção aos sons do horizonte e não identificar jingles estúpidos ou fogos de artifício. Mas entre dramáticas atuações de primeiro e segundo turno, alguma coisa mudou. E mudou muito!

Olhe bem o mapa abaixo, que mostra a nova legenda de partidos da Região Metropolitana de SP e outras RMs e cidades importantes do estado. E olhe bem MESMO, que daqui a pouco você entenderá quanta coisa importante isso significa…

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São tantas as informações riquíssimas que podem ser tiradas desse mapinha, que nem sei ao certo por onde começar. Talvez, o mais prudente seja ir de cara para as eleições mais famosas do Brasil: a cidade de São Paulo. O maior enclave de direita do Brasil torna-se, após muitos anos de governança fascista higienista segregacionista direitista, um centro do novo governo do PT, ainda hoje o maior nome de esquerda dos partidos brasileiros.

ADENDO, IMPORTANTE E NECESSÁRIO: eu realmente não gosto nada dessa mania estranha do brasileiro de ainda achar que existe “direita” ou “esquerda”, e que a esquerda é o lado “pobre” enquanto a direita é o lado “rico”. Acho absolutamente simplório fazer tais reduções. Mas, para esse texto, adotarei tais comparações. Não por concordar com elas: eu, simples blogueiro. Adotarei-as a partir daqui por que é o que o povo acredita! Se por influência de campanha e deles-os-reis-do-Brasil ou não, isso é outra história, mas é assim que o eleitor pensa, e até que se prove o contrário, ainda é o eleitor quem decide, não é?

E por que isso aconteceu, afinal? Não era o PT o partido do mensalão (entenda, finalmente, o que é o mensalão: clique aqui), como a campanha do PSDB apelativamente bradou para todos os lados? Isso quer dizer que somos coniventes com a corrupção? Não exatamente. De cara, o resultado de São Paulo mostra duas coisas: o brasileiro não acredita mais em campanha, especialmente em campanha barata e baixa como essa, e muito menos em corrupção vinda de um ou outro partido: são todos iguais. De novo: visão do povo, compreendeu? Aqui, se o blogueiro que vos escreve concorda ou não é irrelevante muito embora sim, ele concorde.

Mas a história de São Paulo serve, e muito, para entender o que está, hoje, acontecendo com o entorno da cidade. São Paulo City “barra-ABC e grandes cidades conurbadas como Guarulhos” é talvez o maior exemplo brasileiro de que um plano de governo que na cara dura privilegie apenas um extrato social, definitivamente está com os dias contados. Nem mesmo a fúria da mídia para anunciar a periferia como berço do caos serviu nessas eleições. Isso pode funcionar num momento da história em que a periferia ainda represente apenas isso: a periferia e seus poucos excluídos de um sistema de gerência imposto, mas a partir do momento em que o crescimento populacional, impulsionado pelas migrações em massa, faz com que esses se tornem a maioria, a lei brasileira que impõe a obrigatoriedade do voto para todos faz a coisa virar. E virou!

Duvida? Olha aí os mapas de bairros e da eleição na cidade, note perfeitamente a diferença de padrão de renda e de votos entre bairros – e lembre-se, afinal, quem ganhou por lá. Pra ajudar o raciocínio, lembre-se quem era o governo anterior, e ao invés de ver a legenda como “fulano e ciclano”, veja como “contentes e descontentes com a atual administração”. Incrível demais pra ser apenas uma coincidência, não acha?

E no interior, como a coisa funcionou? Assim ó…

Desde meados do século passado, sabe-se que a cidade de São Paulo, que ainda hoje é grande pólo de concentração de geração de renda do estado mas que à época o era ainda em proporções absurdas, vem sofrendo com a tal saturação urbana: gente demais pra pouca terra, serviços cada vez menos eficientes e cada vez menos capazes de atender a todos. Se a cidade de São Paulo era a grande chance de sucesso na vida ao retirante, agora é cada vez mais a certeza de uma vida favelada e sem perspectivas. O mesmo vale para a bonita da classe média da cidade: circular é cada vez mais caro e difícil, o custo de vida sobe e a qualidade desce.

Isso proporcionou a desaceleração gradual da cidade de São Paulo como principal pólo de atração de pessoas (captou? “Desaceleração” não quer dizer que isso ainda não aconteça, só acontece mais devagar…). E a nova migração vai para o tal “interior distante” do Estado, novos pólos de geração de riqueza, com amplo crescimento populacional. Aqui, mencionamos Campinas, Sorocaba, Jundiaí, São José dos Campos, só pra mencionar cidades representadas no mapinha lá em cima. O berço dos novos industriais em ascensão econômica do estado, e não por coincidência os novos enclaves da direita economicista e desenvolvimentista.

Legal, né? Só que com o tempo, essas também tornam-se cidades em que a atração populacional e a má distribuição de renda tornam-se atravancadores do desenvolvimento social da cidade, e incrivelmente, vê-se a esquerda emergir com tudo em 2012. Das cidades mencionadas, apenas Sorocaba ainda permanece com o governo de direita, reparou? Veja o curioso exemplo de Jundiaí: há mais de 20 anos com sucessivas governanças tucanas, e agora liderado por (uau!) PCdoB: Partido Comunista do Brasil!

E o ávido leitor deve agora perguntar: existe algum lugar onde ainda há o desenvolvimento “pré-problemas urbanos”? Volte ao mapa, caro leitor: tá vendo as manchas azuis? É exatamente ali, o “interior próximo”: cidades da RMSP que hoje tornam-se atrativas para a nova instalação de indústrias, serviços e consequente atração de riqueza. A “bola da vez” econômica está em cidades como Mogi das Cruzes, Taubaté, Cotia, Cajamar (uhuuu!) e Barueri na RMSP; bem como nas “periferias” de Campinas, em cidades como Vinhedo, Americana, Paulínia e Sumaré, cujos governos anteriores ainda não passam por problemas ambientais e sociais graves e consequentes do crescimento econômico!

É, caro leitor, existe sim um padrão historicamente super bem definido. O resultado eleitoral nem de longe é apenas obra de um mero acaso – muito embora eu tenha consciência que alguns casos são pura politicagem e tramóia (leitores cajamarenses sabem do que estou falando) -, e as lições que podem ser tiradas disso é: caros governantes, observem os exemplos de cidades próximas que já passaram pelas mesmas etapas do desenvolvimento que vocês passam nos dias de hoje! Crescimento econômico é importante, sem dúvida, mas sem políticas de descentralização de poder por extratos sociais e tentativas de inclusão das periferias, fatalmente a coisa vira, demoram-se quatro anos ou vinte. E isso, caros amigos, é muito mais relevante que uma campanha eleitoral calcada em personalidades, em absurdos passados, em associações descabidas entre partidos e caráteres, enfim.

Ao final, até que a “festa da democracia” foi chata mas pareceu ter um final feliz. Ao menos, teve sem dúvidas um final bem significativo… bom “quatro anos” a todos!

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