Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para dezembro, 2012

Saci-pererê e pulgas na orelha: por que este “país sério” está falhando em ser sério

Uns dizem que é a nossa sexualidade. Outros, que é nosso tal “jeitinho brasileiro”. Tem até quem diga que a nossa cultura é o grande motivo… Eu, humilde blogueiro, chego a triste conclusão que o maior motivo pelo qual este país não se deixa ser levado a sério é a propina. Sei lá quem foi o cara que inventou, um dia, que tudo pode ser comprado pelo dinheiro, inclusive benefícios que, em teoria, nasceram com imensurável valor econômico – não por ser muito alto, mas por este, o valor econômico, não existir mesmo. Mas o fato é que, a partir do momento em que o primeiro descendente direto de uma profissional do entretenimento adulto ofereceu dinheiro em troca de favores, e outro maldito aceitou, acabaram-se para sempre as chances de um dia o Brasil ser levado a sério, e não só pelo resto do mundo, mas acredite: pelos próprios brasileiros.

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Amiga Wikipedia é suficiente pra explicar. Propina, segundo a maga do saber popular erudito, é “o dinheiro obtido ou fornecido de forma ilícita, como suborno em atos de corrupção, originado no Brasil”. Se Wikipedia é ou não uma fonte séria é outra coisa (especialmente depois da citação de Sun Tzu e a Arte da Guerra totalmente sem contexto no verbete pesquisado), mas esse “originado no Brasil” me parece satisfatoriamente coerente. E se você, caro leitor, acha que isso é apenas mais uma manifestação involuntária de asco pela macro-corrupção no Brasil, simbolizada e escrachada pelo Julgamento do Mensalão (entenda o Julgamento do Mensalão clicando aqui), engana-se. A coisa está em todos os lugares. Mas isso todo mundo sabe, não é?

Por que todo propineiro pego em câmera escondida tem esse ar tosco?

Por que todo propineiro pego em câmera escondida tem esse ar tosco?

Não. O rombo que a propina provoca é muito maior do que pode ser mensurado, quantificado, “avalorado”. É sabido, sim, que há toda uma quantia desviada, que só se sabe ser enorme – vide as mansões gigantes que de vez em quando a PF arromba e traz neguinho algemado – mas não se pode ser contado. Simplesmente porque, oficialmente, esse treco não existe! Capitão Nascimento já dizia, o sistema é foda: a prática do suborno está no coração do sistema, mas não há papéis, arquivos. É algo a parte, é uma entidade, um Saci-Pererê constante.

Nóis ki tá, V1D4 L0K4 !

Nóis ki tá, V1D4 L0K4 !

Mas o prejuízo é ainda maior… aqui, amigo, a gente esbarra na ordem da confiança, do apoio, do amparo à sociedade. Propina é dinheiro que favorece individualmente, mas prejudica socialmente. Acontece todo o tempo, caro leitor. Você se sente defasado por algum estabelecimento comercial, ou serviço público, ou prestação particular. Procura a entidade de classe para reclamar, os “órgãos fiscalizatórios”, e faz a sua denúncia. Diferentemente do que o senso comum alardeia, os órgãos existem, caro leitor. Existem, sim, e até são relativamente competentes. Mas o troço anda, e anda, e nada acontece. A versão oficial diz: “está tudo certo e a reclamação é descabida”. Como saber se rolou algum cascalho para que esse “reclamação descabida” fosse carimbado? O que você como sociedade engole é um monte de “versões oficiais”, que justificam desde abusos ao consumidor, passando por tráfico de drogas até desmatamentos ilegais na Amazônia. E se a versão oficial é “oficial”, acabou seu direito. Fim da linha.

O mesmo se aplica para os tais “serviços essenciais”, aqueles dos quais a sociedade precisa para que haja o mínimo de coesão social entre as partes. E aqui, se você imaginou o exemplo da Polícia, está certo, é apenas um mas o mais flagrante em tempos obscuros de extermínios em SP noticiados diariamente em cadeia nacional. Há o policial honesto, sim, mas também há o corrupto. Assim como há o deputado, senador honesto e o corrupto. Para ambos os casos, e para todos os demais serviços públicos brasileiros, existem os órgãos de “fiscalização interna” – se existe fiscalização interna é porque todos assumem que existem coisas que necessitam ser fiscalizadas dentre os fiscalizadores  -, as tais Corregedorias disso e daquilo. Protegido estamos? Que brasileiro realista consegue acreditar que as Corregedorias são totalmente insubornáveis? Façamos a “Corregedoria das Corregedorias”? E essa Corregedoria, precisará de Corregedoria?

Você sabe onde isso vai acabar. E sabe que não é bom estar lá.

Você sabe onde isso vai acabar. E sabe que não é bom estar lá.

Sobra ao brasileiro comum, eu e você amigo, fingir que confia numa tecno-burocracia sem fim e que – você sorri amarelo e finge acreditar que sim – dá algum resultado. Mas e a “pulga atrás da orelha”, doutor? Essa, caro leitor, sempre fica. Porque algum lazarento inventou, sabe-se lá quando, que podia molhar a mão de alguém pra continuar agindo como bem entendesse, e um outro lazarento aceitou. Nesse país “sério” chamado Brasil.

Isso é um desabafo? Pode ser. Melhor ainda: confesso, é. Mas se disser que não é verdade, caro amigo, gentilmente te peço para voltar da sua própria “terra do nunca”: aqui no Brasil tem um Saci doidinho pra te dar um abraço de boas vindas…

O brasileiro só ama o brasileiro vencedor

Autor: Maycon Tavares*

Estava vendo nos últimos anos como o brasileiro só respeita aquele que ganha e esquece aquele que se esforça para ser o melhor. Muitas vezes o esforço de uma pessoa nem é reconhecido se ele não for campeão, se ele não tiver uma medalha olímpica ou se não for o melhor do mundo.

É, só que não.

É, só que não.

O brasileiro é muito tosco consigo mesmo, se olharmos para trás podemos perceber isso. Veja alguns fatos básicos que comprovam esta tese: começo falando de algo um tanto quanto besta, que é o futebol. A seleção tupiniquim, quando ganhou sua quinta copa do mundo em 2002, tornou-se a melhor seleção do mundo, imbatível. Hoje, para os brasileiros é considerada a pior. Ou seja, a obrigação do time e ganhar todas as copas do mundo e não dar chance nenhuma a nenhum outro pais que possa ser tão bom quanto o time verde e amarelo, o que nasce de criticas e pessoas querendo crucificar o time na internet e até nas discussões de uma mesa de bar são enormes – o mais interessante, todos são técnicos da seleção ou presidentes da CBF, todo mundo tem uma opção melhor que aquele que rege o time é capaz de escolher.

A seleção nunca pode jogar mal.

A seleção nunca pode jogar mal.

Mas não é só no futebol que vemos isso, olhemos outros esportes. O tênis, por exemplo, quando tínhamos o famoso Gustavo Kuerten, não existia outro melhor no mundo. Agora, nenhum tenista brasileiro é bom, apesar de termos tenistas entre os 30 melhores, entre 100 melhores, mas o brasileiro não liga se ele não for o melhor, se não estiver lá em cima em primeiro.

Mas de todos os exemplos, o que eu considero mais forte e mais tosco, é como o brasileiro gosta de criticar aqueles que estão na F1. Desde a morte de Ayrton Senna, não existiu alguém que pudesse fazer o mesmo que ele, mas não que tivéssemos brasileiros bons o suficiente, mas desde que me conheço por gente, ouço centenas de pessoas dizerem: “Desde que o Ayrton morreu, eu não assisto mais corridas de F1”. Legal, ninguém quer ver mortes no automobilismo, mas outros brasileiros já estavam na F1 e ainda hoje os mesmo existem.

A F1 não é um esporte onde qualquer um pode competir, mas sim quem é bom e tem dinheiro, quem tem coragem de encarar aqueles carros ultrarrápidos, e há brasileiros lá que tem essa coragem. Um grande nome que esteve por lá foi Rubens Barrichello, o famoso pé de chinelo: todos começaram a massacrar o piloto quando na Ferrari ele foi obrigado a ceder posição a seu companheiro de equipe, e por sempre chegar na segunda colocação, mas o que o publico não entende é que a função dele era essa. O fato de Barrichello não poder chegar a frente de seu companheiro o transformou-o no pior brasileiro que esteve na F1 e isso é mentira, teve piores, bem piores, mas o fato é que Barrichello é o mais famoso.

A mais famosa imagem do Rubinho é chorando, de vergonha desse povo que apenas o criticou durante todos os seus anos de F1

A mais famosa imagem do Rubinho é chorando, de vergonha desse povo que apenas o criticou durante todos os seus anos de F1

Claro que não temos apenas o Barrichello. Temos um caso mais recente na F1 que foi Felipe Massa, que perdeu o título mundial por apenas um ponto na temporada de 2008, e desde que sofreu um acidente em 2009 e depois em 2010 entregou a posição para Alonso vem sido duramente criticado por todos aqueles que um dia o amaram.

É Felipe, é difícil ouvir esse povo falando tanto, quando na verdade só assistem corridas uma vez por ano

É Felipe, é difícil ouvir esse povo falando tanto, quando na verdade só assistem corridas uma vez por ano

Diego Hypólito que o diga. Hoje, tiram sarro porque é um “cai cai”, nunca consegue acertar um pulo, mas todos esquecem o fato de ele ao menos conseguiu chegar lá nas olimpíadas. Não meus queridos irmãos de nação, não é tão fácil assim estar em um olimpíada, tudo depende de resultados, de posição em ranking mundial, de campeonatos que o esportista tem que vencer no período entre safra das olimpíadas, mas esse lado o brasileiro prefere não enxergar, e sim o fato de que ele caiu e não fez nada de importante. Ok, estar nas olimpíadas não vale de nada, foi apenas uma viagem e um pacote de turismo que ele ganhou…

Errar? Jamais, brasileiro bom nunca erra

Errar? Jamais, brasileiro bom nunca erra

É interessante ver como o brasileiro pode da noite para o dia deixar de amar um ídolo. Vou logo avisando: logo menos o vôlei brasileiro sofrerá o mesmo destino. Hoje que é visto como o melhor time do mundo, amanhã quando tiverem perdendo, ou não conseguindo o mesmo resultado, para nós será o pior time do mundo, e assim vai. Assim seguimos a “nação” brasileira que mostra ser tão compatriota quando o assunto é o esporte mundial, o apoio existe, mas apenas quando aquele prometido time, seleção, equipe, ou o esportista solo está lá ganhando. Se estiver perdendo, tanto faz como tanto fez.

Cuida do teu brioco seleção de Vôlei, vocês serão os próximos esquecidos

Cuida do teu brioco seleção de Vôlei, vocês serão os próximos esquecidos

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* – Maycon Tavares é brasileiro, analista de sistemas recém-formado, amante de boa música e de automobilismo em geral, não somente de F1. Por sua primeira paixão, é guitarrista da banda Aforce (página no facebook), e pela segunda, administra o espaço Café & Auto, com resultados, opiniões, informações e críticas sobre as diversas categorias do esporte.

→ As opiniões aqui mostradas são de inteira responsabilidade do autor do texto em questão, e não necessariamente coadunam com a opinião dos autores do BdQ sobre o tema proposto.

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