Crônicas de um país sem sobrenome

Uns dizem que é a nossa sexualidade. Outros, que é nosso tal “jeitinho brasileiro”. Tem até quem diga que a nossa cultura é o grande motivo… Eu, humilde blogueiro, chego a triste conclusão que o maior motivo pelo qual este país não se deixa ser levado a sério é a propina. Sei lá quem foi o cara que inventou, um dia, que tudo pode ser comprado pelo dinheiro, inclusive benefícios que, em teoria, nasceram com imensurável valor econômico – não por ser muito alto, mas por este, o valor econômico, não existir mesmo. Mas o fato é que, a partir do momento em que o primeiro descendente direto de uma profissional do entretenimento adulto ofereceu dinheiro em troca de favores, e outro maldito aceitou, acabaram-se para sempre as chances de um dia o Brasil ser levado a sério, e não só pelo resto do mundo, mas acredite: pelos próprios brasileiros.

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Amiga Wikipedia é suficiente pra explicar. Propina, segundo a maga do saber popular erudito, é “o dinheiro obtido ou fornecido de forma ilícita, como suborno em atos de corrupção, originado no Brasil”. Se Wikipedia é ou não uma fonte séria é outra coisa (especialmente depois da citação de Sun Tzu e a Arte da Guerra totalmente sem contexto no verbete pesquisado), mas esse “originado no Brasil” me parece satisfatoriamente coerente. E se você, caro leitor, acha que isso é apenas mais uma manifestação involuntária de asco pela macro-corrupção no Brasil, simbolizada e escrachada pelo Julgamento do Mensalão (entenda o Julgamento do Mensalão clicando aqui), engana-se. A coisa está em todos os lugares. Mas isso todo mundo sabe, não é?

Por que todo propineiro pego em câmera escondida tem esse ar tosco?

Por que todo propineiro pego em câmera escondida tem esse ar tosco?

Não. O rombo que a propina provoca é muito maior do que pode ser mensurado, quantificado, “avalorado”. É sabido, sim, que há toda uma quantia desviada, que só se sabe ser enorme – vide as mansões gigantes que de vez em quando a PF arromba e traz neguinho algemado – mas não se pode ser contado. Simplesmente porque, oficialmente, esse treco não existe! Capitão Nascimento já dizia, o sistema é foda: a prática do suborno está no coração do sistema, mas não há papéis, arquivos. É algo a parte, é uma entidade, um Saci-Pererê constante.

Nóis ki tá, V1D4 L0K4 !

Nóis ki tá, V1D4 L0K4 !

Mas o prejuízo é ainda maior… aqui, amigo, a gente esbarra na ordem da confiança, do apoio, do amparo à sociedade. Propina é dinheiro que favorece individualmente, mas prejudica socialmente. Acontece todo o tempo, caro leitor. Você se sente defasado por algum estabelecimento comercial, ou serviço público, ou prestação particular. Procura a entidade de classe para reclamar, os “órgãos fiscalizatórios”, e faz a sua denúncia. Diferentemente do que o senso comum alardeia, os órgãos existem, caro leitor. Existem, sim, e até são relativamente competentes. Mas o troço anda, e anda, e nada acontece. A versão oficial diz: “está tudo certo e a reclamação é descabida”. Como saber se rolou algum cascalho para que esse “reclamação descabida” fosse carimbado? O que você como sociedade engole é um monte de “versões oficiais”, que justificam desde abusos ao consumidor, passando por tráfico de drogas até desmatamentos ilegais na Amazônia. E se a versão oficial é “oficial”, acabou seu direito. Fim da linha.

O mesmo se aplica para os tais “serviços essenciais”, aqueles dos quais a sociedade precisa para que haja o mínimo de coesão social entre as partes. E aqui, se você imaginou o exemplo da Polícia, está certo, é apenas um mas o mais flagrante em tempos obscuros de extermínios em SP noticiados diariamente em cadeia nacional. Há o policial honesto, sim, mas também há o corrupto. Assim como há o deputado, senador honesto e o corrupto. Para ambos os casos, e para todos os demais serviços públicos brasileiros, existem os órgãos de “fiscalização interna” – se existe fiscalização interna é porque todos assumem que existem coisas que necessitam ser fiscalizadas dentre os fiscalizadores  -, as tais Corregedorias disso e daquilo. Protegido estamos? Que brasileiro realista consegue acreditar que as Corregedorias são totalmente insubornáveis? Façamos a “Corregedoria das Corregedorias”? E essa Corregedoria, precisará de Corregedoria?

Você sabe onde isso vai acabar. E sabe que não é bom estar lá.

Você sabe onde isso vai acabar. E sabe que não é bom estar lá.

Sobra ao brasileiro comum, eu e você amigo, fingir que confia numa tecno-burocracia sem fim e que – você sorri amarelo e finge acreditar que sim – dá algum resultado. Mas e a “pulga atrás da orelha”, doutor? Essa, caro leitor, sempre fica. Porque algum lazarento inventou, sabe-se lá quando, que podia molhar a mão de alguém pra continuar agindo como bem entendesse, e um outro lazarento aceitou. Nesse país “sério” chamado Brasil.

Isso é um desabafo? Pode ser. Melhor ainda: confesso, é. Mas se disser que não é verdade, caro amigo, gentilmente te peço para voltar da sua própria “terra do nunca”: aqui no Brasil tem um Saci doidinho pra te dar um abraço de boas vindas…

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