Crônicas de um país sem sobrenome

Arquivo para janeiro, 2013

O show da vida, o show da morte

Eu poderia aqui, caro leitor, expor de diversas formas diferentes o mesmo raciocínio que quero desenvolver. Eu poderia fazer piada, fazer troça, e seria altamente criticado – não que eu me preocupe com isso, só que o clima não me permite. Eu poderia fazer as mesmas análises críticas de tantos canais de TV, mas seria chover no molhado: você já as viu. A terrível tragédia de Santa Maria, que enluta o país todo (ou não, como tentarei mostrar mais pra frente), faz pairar no ar um clima de respeito – não exatamente luto – que me faz, nesse caso como em raras vezes acontece, ir direto ao ponto. E o ponto é: você é hipócrita. Todos somos.

No texto anterior desse blog, fiz uma comparação do mais questionável entretenimento da televisão brasileira com eventos que agora ocorrem no centro de SP, e que já cansei de falar por aqui. Concluo hoje que –  você há de concordar – a vida é um Big Brother. A morte é um Big Brother. E a culpa não é exatamente da imprensa tendenciosa, apelativa, essa mesma que você – e eu – já cansou de criticar. Talvez, antes da imprensa ser tendenciosa e apelativa como irresistivelmente adoramos apontar, os veículos de mídia em massa são exímios observadores do público que atende, eu você e nós todos, e é exatamente por isso que os pais e mães de Santa Maria nesse exato momento não podem chorar sem a lente da Sônia Abrão apontada para seus rostos. É por isso que os mortos de Santa Maria não conseguem dormir em paz: porque é exatamente isso que nós queremos.

Sete anos atrás, este que vos escreve teve a oportunidade de conhecer um dos lugares mais intrigantes do Brasil: o Vale do Ribeira. Junto com colegas (que posteriormente tornaram-se grandes e ainda cultuados amigos), visitei uma pequena cidade do sul de São Paulo, atuando pelo Projeto Rondon, atividade do Ministério da Defesa que procura mandar universitários para os pontos mais isolados e menos desenvolvidos do Brasil. Tem aqui no BdQ um relato meu sobre essa inesquecível experiência, é só clicar aqui. Não que isso seja absolutamente coerente com a proposta desse texto, caro leitor, mas lembrei-me agora de uma das passagens mais marcantes dessa aventura: no centro da cidade, em frente à pracinha do coreto, um prédio com toda a cara de repartição pública, sabe-se lá Deus por que, emplacado “Terminal Turístico”. Lá dentro, seis computadores ligados no Programa AcessaSP, com a nobre finalidade de fornecer acesso à internet gratuita para todos. Era 2006, auge do finado orkut, o único site que, pra minha estranheza, não era aberto ou fechado quando da troca de usuário: apenas o logoff/login, em todas os seis monitores de tubo de telas constantemente rosas e azul bebê. Até lá, no fim do mundo…

O cotidiano é um show, caro leitor. E faz tempo. E isso independe da cor, raça, credo, condição social, vida ou morte. Por algum motivo que há muito – infrutiferamente – procuro entender, o povo brasileiro é o maior dos campeões dessa estranha espetacularização dos detalhes. O brasileiro é naturalmente um voyeur. A maior praga mundial das redes sociais. O único país em que o formato do reality show mais amado/odiado do planeta chegou em 2013 a incrível décima terceira edição, mesmo com todos os sazonais rumores de que a edição em voga “finalmente” será a derradeira – nunca é. O brasileiro acompanha cada detalhe da vida dos outros, na telona ou na telinha. E na telinha, ainda mais estranho, o brasileiro escancara a sua própria vida para o bel-prazer de voyeurs alheios, as vezes desconhecidos.

O brasileiro é naturalmente stalker. Na vida e na morte. E gosta disso. Discute isso, sempre com a profundidade de um pires, nas mesmas redes sociais em que uma, duas, três horas depois de publicar foto de seu novo batom, ou avisar a todos pra onde está indo ou o que está fazendo, critica “a graça do BBB” e a stalkerização de Santa Maria. Critica até mesmo as lágrimas da presidenta, a “hipócrita oportunista” do momento. Na busca por popularidade sem limites, cria as associações mais escabrosas e sem sentido algum entre tragédia e política, entre tragédia e as pequenas corrupções cotidianas, entre tragédia e luto – entre tragédia e hipocrisia. Não importa o argumento: se ele puder ao fim da sua pseudo-reflexão (em forma de texto ou charge ou figura) dizer que “esse é o país da Copa” – quase um meme já, a propósito – será curtido e compartilhado, gerará seus próprios “like and share”.

Entre luto e revolta, o mecanismo é o mesmo por sinal: até seu luto é público (existe luto público? Se é público, é luto?), e está ali para ser curtido, comentado, compartilhado. Tudo para que o interlocutor lembre-se daquele pequeno e singular “gerador de informação pessoal por detrás de um avatar” por um micro-instante ao longo do dia, e possa continuar colado em você como um estranho voyeur digital. Dez minutos depois: foto de biquinho, ou uma crítica ao BBB, ou uma lição de moral – “onde já se viu brincar com desgraça dos outros” – como se nada do que fizéssemos com nosso poder de produção de conteúdo na internet não fosse estúpida e ridiculamente frágil de questionamentos.

Quem precisa de uma imprensa tendenciosa e apelativa, quando nós mesmos somos tendenciosos, apelativos, e sutil-freneticamente ainda um tanto esquizofrênicos? A morte também virou um reality show, mas nem de longe somos isentos de culpa. A imprensa conhece seu público – e sabe que, no âmago da solidão da poltrona, cada telespectador está com os olhinhos absolutamente vidrados em cada cena que ele mesmo critica – pode confessar. Na bizarra cobertura da tragédia de Santa Maria, estaríamos cada um de nós fazendo um trabalho melhor do que essa imprensa nojenta que tanto odiamos? Acho que não. Os mortos de Santa Maria só descansarão quando um novo assunto aparecer – e não, não é culpa apenas da Sônia Abrão. Tudo o que hoje é motivo de “revolta e indignação” continuará exatamente igual. Pra você, crítico em luto, tudo estará bem: likes and shares em dia. Coisas do “País da Copa”.

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Big Brother Bueiro 2, ou: o retorno de Geraldo

Tra-di-ção, minha gente. Chegou janeiro, o jogo recomeça. Câmeras para todos os lados, tudo em HD, acompanhando passo a passo dos participantes, em eternos conflitos que só aumentam o ibope da coisa – e alguém, fatalmente, sempre sai lucrando com isso. Em síntese o jogo é o mesmo, mas algumas regras aqui e ali sempre mudam. Tudo para que, no fim, o jogo seja um sucesso. E parece, nunca é…

Começou ontem, oficialmente, a segunda edição do “joguinho de janeiro” preferido de São Paulo: a desintoxicação da Cracolândia. Bem vindos, caros amigos: esse é o Big Brother Bueiro, versão 2013!

E hoje é dia de festaaaaa!!!

E hoje é dia de festaaaaa!!!

Ver também:

A regrinha nova, que acabaram de inventar, é a de que o dependente químico largado em alguma viela ou sarjeta do centro de São Paulo não mais será internado e afastado das ruas apenas voluntariamente: agora, o Poder Público tem o poder da internação compulsória – se antes o participante só saía quando quisesse, agora ele está no constante paredão.

Fique abaixo com nossa apresentação dos nem um pouco novos brothers, e escolha a sua torcida! Aguardemos os próximos barracos, caro leitor: a única certeza desse empolgante jogo é que fortes emoções estão por vir!

#1 – Geraldinho

Quem é no programa: o Boninho da vida real. É o único que, aparentemente, tem o poder de mudar a regra do jogo, o que lhe dá um enorme poder de manipulação sobre os participantes da casa.

Ao que nos consta, todas as alterações de regra feitas pelo participante vieram com o intuito de melhorar a sua imagem, aos demais participantes e à audiência. E embora sempre existam aqueles que com razão desconfiam de suas atitudes no programa, suas táticas de convencimento da família brasileira estão sendo muito bem eficazes.

Chances de ganhar: bem altas. A exemplo da edição passada, se ele ameaçar perder, basta mudar a regra na próxima edição e pronto, certo?

#2 – Coxinha

Quem é no programa: não se engane pelo saboroso nome, caro leitor. Não há nada de gostoso aqui. Sabe aquele participante grosso, truculento, despreparado, que não terá controle de seus atos e certamente terá atitudes suspeitas ao longo de todo o programa? E que, láááá no fim, você se dá conta que na verdade o cara era apenas um fantoche na mão de outro brother, o verdadeiro cabeça? Pronto, é ele!

Só tem um problema. Veja abaixo…

Chances de ganhar: Coxinha não tem chances, infelizmente. E o motivo é bastante simples: além de ser o braço executor dos planos do principal articulador da casa, ele também é o laranja, o bode expiatório. Fatalmente, as atitudes do Coxinha serão questionadas, criticadas, até que sua reputação tenha caído vertiginosamente. Daí pra sair do jogo ganhando mal pra caramba sem ganhar nada…

#3 – Zé Luiz

Quem é no programa: o bordão maior desse aqui é: “o Brasil todo está vendo”. Em detalhes e HD, evidentemente. O problema é que o Brasil “está vendo” apenas o que este participante mostra, e é exatamente por isso que, junto com nosso primeiro competidor, Zé Luiz é um dos mais perigosos participantes. Entre discursos non-senses de fazer Pedro Bial ruborizar de vergonha, atitudes suspeitas que poucos tem coragem de apontar e apoios pra um ou outro competidor (nunca o certo), sobra a você, telespectador, a árdua tarefa de filtrar a verdade por trás dos olhos desse cara.

Em tempo: são vários os Zés Luizes, okay? Antes que digam “é perseguição, é perseguição”. Não acho que precisava ter comentado isso, mas vai que, né? Seus chatos…

Chances de ganhar: Sabe aquele competidor que chega longe, leva uma bolada, uma cacetada de prêmios, assim por diante? Talvez a única certeza desse programa é que Zé Luiz sempre ganha. E, claro, ele vai se empenhar muito nisso. Para o bem ou para o mal. Infelizmente.

#4 – Madre Tereza

Quem é no programa: vez em quando, Zé Luiz vai chegar e mostrar o duro cotidiano das Madres Terezas do programa. É aquele participante que até tem bom coração e quer ajudar, meter a cara na sujeira, de acordo com seus ideias e vivências do cotidiano e bla-bla-bla Whiskas Sachê. Mas, infelizmente, de tanto ser mal remunerado não ganhar nada em nenhuma porra de prova da comida, vai acabar desempenhando seu papel das formas mais “nas coxas” possíveis.

Detalhe: se você leu “nas coxas” e lembrou de nosso segundo brother,  faz todo o sentido! Esse BBB 2013 promete uma aproximação consolidada entre o Coxinha e nossa sister aqui.

Chances de ganhar: Ganhar? Ganhar o que? Só se for um salário digno. Aliás, se apenas puderem realizar seu trabalho sem muitas ameaças a prórpia segurança, já está bom demais…

#5 – Tiozinho Risca-Faca

Quem é no programa: sabe, caro leitor, a casa desse reality show não é um cenário montado: era antes a casa de alguém. Imagine a situação: alguém invade a sua casa, faz todo o barraco, você espera ganhar algo com isso, e o que já era ruim antes…

Chances de ganhar: baixas, bem baixas, e ainda por cima temporárias. A exemplo da edição anterior, os moradores e comerciantes da região da Cracolândia terão, nesse tempo de operação, um respiro. E, nesse momento, o Zé Luiz vai mostrar o Risca-Faca dizendo cosias do tipo “tínhamos medo, agora está tudo bem”, enfim. Ninguém garante, no entanto, que isso vai continuar depois da eliminação – provavelmente voluntaria – do brother Zé Luiz…

#6 – O Cara dos Cartazes

Quem é no programa: os subversivos do programa. Eles sempre aparecem, e você já os viu: uns caras com cartazes, contra as regras do programa e contra as atitudes dos brothers.

Chances de ganhar: ne-nhu-ma. No máximo meia dúzia de “curtir” no ~feice e o tio dizendo no churrasco da família: eu te vi na TV, menino. O Zé Luiz não perde seu tempo com isso. O Geraldinho não perde seu tempo com isso. E se encher muito o saco, ele ainda taca as artimanhas do brother Coxinha pra cima!

#7 – Zé Nóia

Quem é no programa: é, são eles, o The Walking Dead da vida real. Sempre com tarjas pretas, quadriculados e desfocados, evidentemente.

Chances de ganhar: segundo os especialistas, a chance do Zé Nóia ganhar com essa nova regra do Geraldinho é de apenas 2%. Dois-por-cen-to! E  apesar de tudo que o Coxinha faz, que o Zé Luiz mostra, que o Cara dos Cartazes grita, ainda se acredita que o programa vai dar certo!

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Não, nós não compraremos esse pay-per-view. O que não impede, claro, que não paguemos pra ver – em ambos os sentidos, caro leitor: também no literal. Quem, afinal, você acha que é o patrocinador desse reality?

A moral, os bons costumes, os paratriatletas e as eternas manias

Duas notícias me chamam a atenção nesse dezoito de janeiro, caro leitor. E, embora possa não parecer logo de cara, ambas tem um grande nexo entre elas. A primeira, da querida (só que não) Folha de São Paulo:

Clique aqui para conferir a notícia

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Mas por que afinal tal notícia chamou a atenção desse blogueiro? Confesso que não sei, caro leitor. Provavelmente, meu impacto inicial deva ter sido pelo excesso de prefixos (PARA / TRI / atleta, ULTRA / maratona…) que me fizeram não entender de cara o que o jornal quis dizer. E de fato é uma história bem bacana, desse inglês que descobriu novos sentidos pra vida depois do acidente, essas coisas todas. Recomendo, amigo: sobe ali na legenda da foto e clica no link, relato bonito do rapaz.

Só que depois do impacto positivo inicial da matéria, peguei-me ao pensar… por que um atleta estrangeiro desconhecido vir para o Brasil, para participar de um evento esportivo tão desconhecido quanto, é motivo de notícia na Folha? Seria pela promoção do evento em si? Não parece. Seria para a promoção do triatlo em terras tupiniquins? Também não. E a resposta de minha dúvida se tornou evidente logo de cara, ali, no primeiro prefixo da primeira palavra!

Oh, por favor! Longe de mim querer dizer que um para-atleta (“paratleta”?) não merece destaque, por sua história toda de superação, por seu exemplo. Leia a matéria da Folha, amigo, a história do cara é realmente demais! O que me chama a atenção, nesse caso, foi a necessidade do jornalista em questão de destacar assim, logo de cara, o “diferencial” que o tal fulano de nome esquisito tem. Senti-me mal, constrangido de verdade ao ler novamente o título. A gente já conversou humoradamente por aqui sobre essa estranha mania de botar rótulos nas pessoas, e como isso gera preconceitos dos mais diversos, lembra?

O que me pergunto é: será que isso também acontece nos “rótulos do bem”, como parece esse caso? Rótulo é rótulo de qualquer jeito, ou em certos casos, como esse aí da Folha, isso se justifica? Um para-atleta (“paratleta”?) é de fato um cara diferenciado, mas na sociedade brasileira insistentemente arcaica e apontadora de rótulos, vários são as “diferenciações” que se insiste em fazer por aí. E, pior, na maioria das vezes ninguém nunca tem certeza se a “diferenciação” feita, o rótulo colocado, é bom ou ruim… Eu, na dúvida, sigo sempre esse exemplo (que tirei do excelente Objetivando Disponibilizar, outro blog que faço questão de sempre frisar: de ótima qualidade), dado na época da escrotíssima comparação que a VEJA fez entre gays e cabras (não, me recuso a linkar aquela pérola aqui, esse blog ainda tem pudor, meu caro):

O que me remete, imediatamente, à segunda notícia que me chamou a atenção, caro leitor. Lembra que eu disse que eram duas? Então, bota na mente essa nossa noia de rotulagens “do mal” e “do bem”, se apruma na cadeira e segura essa, do O Globo:

Clique aqui para ler a  matéria

Clique aqui para ler a matéria

Precisa ler não: eu resumo. A Myrian Rios (atriz, apresentadora, missionária, ex-capa da Playboy e hoje deputada pelo RJ) resolveu que, abre aspas, “infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais (…) Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode”. E assim, ela criou (e o Sérgio Cabral aprovou) um tal de Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais.

Tanto genérico, não? Por enquanto, nenhum detalhe maior foi já divulgado pela imprensa ou pelo gabinete oficial da atriz-apresentadora-missionária-ex-capa-da-Playboy-e-deputada-carioca Myrian Rios, mas talvez uma coisa já pode-se antecipar: entre “ladrão e bicha e maconheiro”, enxurrada de rotulagens e escassez de definições, preparem-se para as previsões do tempo mais estranhas dos últimos dias, num país que tem como artigo primeiro de sua constituição que todos são iguais em direitos e deveres, num estado que tem em sua capital o principal pólo turístico gay do mundo. Talvez (por que não?) disfarçados de “rótulos do bem” (a-fro-des-cen-den-te), não é assim desde sempre? Mas você sabe, caro leitor, como isso tudo vai acabar…

E a propósito, o deputado Jean Wyllys se perguntou hoje cedo:

Clique aqui para acessar o perfil do deputado no microblog (acho legal chamar o Twitter assim, rs...)

Clique aqui para acessar o perfil do deputado no microblog (acho legal chamar o Twitter assim, rs…)

Pois é, deputado. Também gostaríamos de saber… Alô Playboy, vocês cogitam para breve uma edição geriátrica? Tem gente aí precisando do que fazer…

Os (dois) tons de cinza da política brasileira

O ano começa com uma bomba, caro leitor: Lula, o presidente mais amado (e odiado) do Brasil, ao que tudo indica, sabia do mensalão. No meu “12 perguntas” em que eu dizia sobre isso, um dos posts que mais fez sucesso por aqui no BdQ (relembre: clique aqui), dizia que essa ainda era uma grande dúvida, que caminha para que, infelizmente, seja confirmada. Digo infelizmente com um certo tom pessoal, admito, blogueiro “esquerdista moderado sensato não militante” que sou: me chateou saber disso. No entanto, cabe aqui refletir sobre o que isso significa, e especialmente, qual a repercussão dessa “primeira bomba de 2013”. Em tempo: feliz ano novo, caro amigo! Muito sucesso a todos nós, amém!

Veja também:

Lula sabia do mensalão. Lula, portanto, deve ser punido das formas como o STJ e seu novo “presidente-barra-novo-herói-da-nação” julgar pertinente. Não discuto isso, leitor. O que discuto aqui, afinal, é a forma como a sociedade se comporta com esse escândalo. Pipocam nos bares, nas rodas de conversa, entre famosos e anônimos, nos fóruns de discussões e nas redes sociais: Lula é um filho da puta. Lula, com todo esse jeito de “gente como a gente”, era na verdade só mais um aproveitador, um crápula da nação. Um traidor do povo que sempre o acolheu e incentivou, e refletia nele uma imagem torpe de cidadão brasileiro que veio “de baixo”, e como homem “de baixo” o primeiro a assumir a cadeira mais importante da política brasileira.

É, não foi assim. Infelizmente

É, não foi assim. Infelizmente

Longe de mim querer doutriná-lo, caro amigo, para um ou outro “lado”, esquerda ou direita, da política nacional, mas é inevitável que aqui eu me pergunte: ora, será? O “amigo do povo” sumiu de vez, pra dar lugar ao “homem mais odiado da nação”? É necessário que nós, eleitores e contribuintes, assumamos para nós essa postura maniqueísta de “dois tons de cinza”, para defender com unhas e dentes ou, ao invés disso, pisar nos ovos do presidente e condená-lo moralmente com requintes de ódio? Sua conivência com o esquema do mensalão derruba por terra todos os (sim, questionáveis) progressos da gestão PT? Os progressos da gestão PT podem por um tapume nessa “traição” do presidente? Não acho. E explico os porquês, a seguir.

Lula sabia do mensalão. No mínimo, foi conivente com o esquema. Não acredito, de verdade, que tenha sido o primeiro presidente brasileiro a ter ciência de um esquema corrupto. Me pergunto se os vários comentaristas políticos direitistas que conheço ou que já li por aí realmente acreditam que a corrupção no brasil é algo que começou em 2002: amigos, sem querer acusar nada de ninguém, mas a coisa também fazia parte do “saudoso” governo anterior, ok? Na verdade, é bem mais antigo do que parece, algo que foi/é absolutamente fundamental para que se tivesse no Brasil toda uma cultura do trambique, da corrupção, do desvio. Ora, os presidentes anteriores a 2002 não sabiam? E a ausência de medidas para combate à práticas corruptas na política, não significa que todos os anteriores à Lula também não mereceriam julgamento? O populismo declarado do Luiz Inácio o torna mais culpado que, por exemplo, FHC?

Lula sabia do mensalão. No mínimo, era conivente com o esquema. Indiscutível, talvez. O que eu discuto é: por detrás de uma figura política pública necessariamente há um partido, que traz consigo uma ideologia, que num mundo cor de rosa simboliza o mais próximo da ideologia do partidário. Se o partido tem práticas corruptas, quais são as opções que o homem tem? Trocar de partido, ou ser conivente com as práticas. O mesmo partido que levanta uma bandeira ideológica é o partido que pratica tais atos. Abandonar o partido é abandonar suas ideologias. É uma escolha: abandonar seus ideais, ou fechar os olhos e continuar crendo nas ideologias partidárias esquecendo o que viu. E ao que tudo indica, Lula apenas viu: se houve participação ativa do ex-presidente no esquema todo, isso é outra história que ainda pode ser contada (mas que por enquanto não foi).

Acredito não ser o único que achou essa montagem que achei da net GENIAL, né? rs

Acredito não ser o único que achou essa montagem que achei da net GENIAL, né? rs

Sejamos francos, caro leitor. Há muito sabemos que a sociedade brasileira tem por tendência nata essa maniqueização da política nacional. O brasileiro é, por essência, “de esquerda” ou “de direita” – e no caso do envolvimento do Lula no esquema do mensalão, isso é diretamente influente na forma como cada brasileiro enxerga o Luiz Inácio a partir de agora, respectivamente, se como o “ainda assim pai da nação” ou como o “maior crápula que a política nacional já teve”. O mesmo se aplica, evidente,  ao Dirceu, e ao Genoíno, e a toda essa galera com passado bacana e presente “estranho”: passe vergonha alheia comigo agora, se liga no que esse “maniqueísmo político” faz com as pessoas, leitor:

Fato é: ninguém mudou de ideia depois da bomba, caro amigo. E o caso é que, ao meu ver, ambas as formas de enxergar a situação estão completamente equivocadas. Lula ter trabalhado para o desenvolvimento social do Brasil não implica que ele não tivesse seus (vários) pecados, sua gestão não foi perfeita, indubitavelmente. Lula ter se envolvido nos esquemas de corrupção não esconde os (vários) avanços sociais notadamente marcados no Brasil desde 2002. Pra que, afinal, julgar o homem como “branco” ou “negro”, “bom” ou “ruim”, “pai do Brasil” ou “filho da puta”? Nenhum deles. Seus antecessores, da mesma forma, também não.

Tão diferentes que parecem iguais.

Ainda é pouco. Usamos dois tons de cinza para assumirmos um “lado” da política nacional, também, pelo fato de que, desde a abertura democrática de 1984, ambos os “lados” já estiveram no poder, simbolizados por duas figuras, ambas reeleitas, e com perfis de governo e “níveis de populismo” absolutamente distintos e contrastantes. Novamente, amigo: será? Eu concordo que, independente da sua ou da minha opinião, tivemos no Brasil primeiramente um “oito anos” de pouco populismo barato e foco no crescimento econômico, fazendo o Brasil ir de “país da hiperinflação descontrolada” nos anos 80 para “top 10 das economias globais e moeda forte” apenas cinco anos depois. Em seguida, o “eixo de governança” vira drasticamente, com relativa estagnação do ritmo de crescimento econômico nacional mas com promoção de diversos setores sociais, inclusive com melhor distribuição de renda, ferida grave da sociedade brasileira que influenciou até mesmo a música, como vimos em post do ano passado

Seriam mesmo políticas contrastantes? Ou, ao contrário, seriam complementares? Seria possível distribuir renda num país de economia fraca e sem renda? Ou um crescimento econômico seria de alguma forma justificável se não houvesse reflexo na vida do povo? Novamente, caro amigo: FHC e Lula seriam diametralmente opostos ou teriam, cada um a seu modo, assumido fases distintas de um mesmo processo natural de desenvolvimento – e qualquer significado que essa palavra besta pode ter – do país ao longo do tempo? Mas você continua militando rebeldemente nas redes, no bar, nos fóruns, ou com sua família assistindo o Jornal Nacional…

Homens: isso NÃO é babaca. Mulheres: isso NÃO é excitante...

Mulheres: isso NÃO é excitante…

Finalizando algo que por demais já se tornou longo… meu caro, maniqueizar a política com seus discursos irados e irônicos para defender ou defenestrar um ou outro “lado” é algo que o horário eleitoral faz, e que sei lá por que, mesmo você odiando o horário eleitoral, reproduz sem sequer perceber. Isso serve pra ganhar voto, não pra refletir sobre o presente e o futuro do Brasil. Isso serve para que você personifique sua visão política, amando ou odiando uma figura, não o que ela faz ou deixa de fazer. Só que política não é feita de pessoas, e sim de posturas, atos e ações. Tua feia mania é prato cheio para que você, povo brasileiro, permaneça com esse gostinho amargo de “sou enganado” em toda eleição: você condena um filho da puta, e esquece de todo o sistema em que este está inserido. Te convido, leitor camarada: a partir de agora, observe atos – todos eles – e não pessoas, pois sim, existem mais de dois tons de cinza quando o assunto é política nacional. Promete?

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