Crônicas de um país sem sobrenome

O ano começa com uma bomba, caro leitor: Lula, o presidente mais amado (e odiado) do Brasil, ao que tudo indica, sabia do mensalão. No meu “12 perguntas” em que eu dizia sobre isso, um dos posts que mais fez sucesso por aqui no BdQ (relembre: clique aqui), dizia que essa ainda era uma grande dúvida, que caminha para que, infelizmente, seja confirmada. Digo infelizmente com um certo tom pessoal, admito, blogueiro “esquerdista moderado sensato não militante” que sou: me chateou saber disso. No entanto, cabe aqui refletir sobre o que isso significa, e especialmente, qual a repercussão dessa “primeira bomba de 2013”. Em tempo: feliz ano novo, caro amigo! Muito sucesso a todos nós, amém!

Veja também:

Lula sabia do mensalão. Lula, portanto, deve ser punido das formas como o STJ e seu novo “presidente-barra-novo-herói-da-nação” julgar pertinente. Não discuto isso, leitor. O que discuto aqui, afinal, é a forma como a sociedade se comporta com esse escândalo. Pipocam nos bares, nas rodas de conversa, entre famosos e anônimos, nos fóruns de discussões e nas redes sociais: Lula é um filho da puta. Lula, com todo esse jeito de “gente como a gente”, era na verdade só mais um aproveitador, um crápula da nação. Um traidor do povo que sempre o acolheu e incentivou, e refletia nele uma imagem torpe de cidadão brasileiro que veio “de baixo”, e como homem “de baixo” o primeiro a assumir a cadeira mais importante da política brasileira.

É, não foi assim. Infelizmente

É, não foi assim. Infelizmente

Longe de mim querer doutriná-lo, caro amigo, para um ou outro “lado”, esquerda ou direita, da política nacional, mas é inevitável que aqui eu me pergunte: ora, será? O “amigo do povo” sumiu de vez, pra dar lugar ao “homem mais odiado da nação”? É necessário que nós, eleitores e contribuintes, assumamos para nós essa postura maniqueísta de “dois tons de cinza”, para defender com unhas e dentes ou, ao invés disso, pisar nos ovos do presidente e condená-lo moralmente com requintes de ódio? Sua conivência com o esquema do mensalão derruba por terra todos os (sim, questionáveis) progressos da gestão PT? Os progressos da gestão PT podem por um tapume nessa “traição” do presidente? Não acho. E explico os porquês, a seguir.

Lula sabia do mensalão. No mínimo, foi conivente com o esquema. Não acredito, de verdade, que tenha sido o primeiro presidente brasileiro a ter ciência de um esquema corrupto. Me pergunto se os vários comentaristas políticos direitistas que conheço ou que já li por aí realmente acreditam que a corrupção no brasil é algo que começou em 2002: amigos, sem querer acusar nada de ninguém, mas a coisa também fazia parte do “saudoso” governo anterior, ok? Na verdade, é bem mais antigo do que parece, algo que foi/é absolutamente fundamental para que se tivesse no Brasil toda uma cultura do trambique, da corrupção, do desvio. Ora, os presidentes anteriores a 2002 não sabiam? E a ausência de medidas para combate à práticas corruptas na política, não significa que todos os anteriores à Lula também não mereceriam julgamento? O populismo declarado do Luiz Inácio o torna mais culpado que, por exemplo, FHC?

Lula sabia do mensalão. No mínimo, era conivente com o esquema. Indiscutível, talvez. O que eu discuto é: por detrás de uma figura política pública necessariamente há um partido, que traz consigo uma ideologia, que num mundo cor de rosa simboliza o mais próximo da ideologia do partidário. Se o partido tem práticas corruptas, quais são as opções que o homem tem? Trocar de partido, ou ser conivente com as práticas. O mesmo partido que levanta uma bandeira ideológica é o partido que pratica tais atos. Abandonar o partido é abandonar suas ideologias. É uma escolha: abandonar seus ideais, ou fechar os olhos e continuar crendo nas ideologias partidárias esquecendo o que viu. E ao que tudo indica, Lula apenas viu: se houve participação ativa do ex-presidente no esquema todo, isso é outra história que ainda pode ser contada (mas que por enquanto não foi).

Acredito não ser o único que achou essa montagem que achei da net GENIAL, né? rs

Acredito não ser o único que achou essa montagem que achei da net GENIAL, né? rs

Sejamos francos, caro leitor. Há muito sabemos que a sociedade brasileira tem por tendência nata essa maniqueização da política nacional. O brasileiro é, por essência, “de esquerda” ou “de direita” – e no caso do envolvimento do Lula no esquema do mensalão, isso é diretamente influente na forma como cada brasileiro enxerga o Luiz Inácio a partir de agora, respectivamente, se como o “ainda assim pai da nação” ou como o “maior crápula que a política nacional já teve”. O mesmo se aplica, evidente,  ao Dirceu, e ao Genoíno, e a toda essa galera com passado bacana e presente “estranho”: passe vergonha alheia comigo agora, se liga no que esse “maniqueísmo político” faz com as pessoas, leitor:

Fato é: ninguém mudou de ideia depois da bomba, caro amigo. E o caso é que, ao meu ver, ambas as formas de enxergar a situação estão completamente equivocadas. Lula ter trabalhado para o desenvolvimento social do Brasil não implica que ele não tivesse seus (vários) pecados, sua gestão não foi perfeita, indubitavelmente. Lula ter se envolvido nos esquemas de corrupção não esconde os (vários) avanços sociais notadamente marcados no Brasil desde 2002. Pra que, afinal, julgar o homem como “branco” ou “negro”, “bom” ou “ruim”, “pai do Brasil” ou “filho da puta”? Nenhum deles. Seus antecessores, da mesma forma, também não.

Tão diferentes que parecem iguais.

Ainda é pouco. Usamos dois tons de cinza para assumirmos um “lado” da política nacional, também, pelo fato de que, desde a abertura democrática de 1984, ambos os “lados” já estiveram no poder, simbolizados por duas figuras, ambas reeleitas, e com perfis de governo e “níveis de populismo” absolutamente distintos e contrastantes. Novamente, amigo: será? Eu concordo que, independente da sua ou da minha opinião, tivemos no Brasil primeiramente um “oito anos” de pouco populismo barato e foco no crescimento econômico, fazendo o Brasil ir de “país da hiperinflação descontrolada” nos anos 80 para “top 10 das economias globais e moeda forte” apenas cinco anos depois. Em seguida, o “eixo de governança” vira drasticamente, com relativa estagnação do ritmo de crescimento econômico nacional mas com promoção de diversos setores sociais, inclusive com melhor distribuição de renda, ferida grave da sociedade brasileira que influenciou até mesmo a música, como vimos em post do ano passado

Seriam mesmo políticas contrastantes? Ou, ao contrário, seriam complementares? Seria possível distribuir renda num país de economia fraca e sem renda? Ou um crescimento econômico seria de alguma forma justificável se não houvesse reflexo na vida do povo? Novamente, caro amigo: FHC e Lula seriam diametralmente opostos ou teriam, cada um a seu modo, assumido fases distintas de um mesmo processo natural de desenvolvimento – e qualquer significado que essa palavra besta pode ter – do país ao longo do tempo? Mas você continua militando rebeldemente nas redes, no bar, nos fóruns, ou com sua família assistindo o Jornal Nacional…

Homens: isso NÃO é babaca. Mulheres: isso NÃO é excitante...

Mulheres: isso NÃO é excitante…

Finalizando algo que por demais já se tornou longo… meu caro, maniqueizar a política com seus discursos irados e irônicos para defender ou defenestrar um ou outro “lado” é algo que o horário eleitoral faz, e que sei lá por que, mesmo você odiando o horário eleitoral, reproduz sem sequer perceber. Isso serve pra ganhar voto, não pra refletir sobre o presente e o futuro do Brasil. Isso serve para que você personifique sua visão política, amando ou odiando uma figura, não o que ela faz ou deixa de fazer. Só que política não é feita de pessoas, e sim de posturas, atos e ações. Tua feia mania é prato cheio para que você, povo brasileiro, permaneça com esse gostinho amargo de “sou enganado” em toda eleição: você condena um filho da puta, e esquece de todo o sistema em que este está inserido. Te convido, leitor camarada: a partir de agora, observe atos – todos eles – e não pessoas, pois sim, existem mais de dois tons de cinza quando o assunto é política nacional. Promete?

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